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Emir Sader: Quem tem medo da democracia no Brasil?


11/03/2011 - 09h51

por Emir Sader, no seu blog

O Brasil saiu da ditadura política, mas as transformações estruturais que poderiam democratizar o país nos planos econômico, social e cultural, não foram realizadas. O governo Sarney representou essa frustração, essa redução da democratização aos marcos liberais da recomposição do Estado de direito e dos processos eleitorais.

Em seguida, com os governos de Collor, Itamar e FHC, o país foi varrido pelas ondas neoliberais, sofrendo graves retrocessos no plano econômico – com a retração do Estado, com a abertura da economia, com as privatizações -, no plano social – com o retrocesso nas políticas sociais, com a expropriação de direitos da maioria, a começar pela carteira de trabalho –, no plano político – com o poder do dinheiro corrompendo os processos eleitorais – e no plano cultural – com a consolidação dos grandes monopólios privados da mídia, que concentraram nas suas mãos a formação da opinião púbica.

Foi nesta década que esse processo começou a ser revertido e o Brasil pôde retomar seu processo de democratização.

No plano econômico, com o Estado retomando seu papel de indutor do crescimento, promovendo o acesso ao crédito a pequenas e médias empresas, com a expansão do mercado interno de consumo popular.

No plano social, com a incorporação, pela primeira vez, das grandes maiorias de menor renda ao mercado de consumo e à possibilidade de ter formas de atividades econômicas rentáveis e sustentáveis.

No plano político, quebrando o controle das elites mais atrasadas sobre as massas de regiões periféricas do país, com a participação nas políticas governamentais e nos processos eleitorais dos movimentos populares e dos setores até então marginalizados e subordinados politicamente. E no plano cultural, com alguns avanços, como a descentralização das publicidades governamentais, com o surgimento e fortalecimento de mídias alternativas – especialmente da internet -, assim como com um discurso que levanta a autoestima do país, quebra preconceitos em relação ao papel da mídia privada e de comportamentos egoístas da elite brasileira.

Mas as resistências não se fizeram esperar. As pressões para que o Brasil mantenha a taxa de juros mais alta do mundo, que atrai capital especulativo – que não cria nem riquezas, nem empregos, que ajudar a desequilibrar a balança comercial, entre tantos problemas – continuam fortes. Esse mecanismo impede a democratização econômica do país, porque concentra nas mãos do sistema financeiro a maior quantidade de recursos, com taxas de juros altas dificulta o acesso ao crédito, monopoliza recursos do Estado para o pagamento da dívida pública. O PAC é o grande instrumento de reconversão da hegemonia do capital especulativo para o capital produtivo, mas ele corre contra a atração da alta taxa de juros. A democratização econômica requer terminar com essa atração do capital, pela alta taxa de juros, para o setor financeiro.

A democratização social encontra obstáculos nos que se opõem à integração plena dos setores até aqui completamente marginalizados. A democratização social tem como principais obstáculos os que lutam para bloquear a expansão dos recursos para as políticas sociais que promovem os direitos de todos e nos preconceitos que continuam a ser difundidos contra os mais pobres e os habitantes das regiões até aqui marginalizadas do país.

A democratização política se choca com os que se opõem a uma reforma política que faça com que as campanhas se apoiem exclusivamente em financiamento público e em votos por lista, que favorecem o fortalecimento ideológico e político dos partidos. Mas encontra obstáculos também nos partidos e movimentos populares que não se dedicam a apoiar a organização dos setores que chegam agora a seus direitos econômicos e sociais básicos, seja os que estão integrados ao bolsa família, seja a cooperativas e pequenas empresas, seja a programas como os Pontos de Cultura e outros similares.

A democratização cultural significa que as distintas identidades do povo brasileiro possam construir seus próprios valores para orientar suas vidas, suas próprias formas de expressão cultural, possam ter acesso às múltiplas formas de cultura. Que possa se libertar dos modelos de consumismo importados e difundidos pela mídia comercial, pela publicidade massiva, pelos valores divulgados pelos representantes dos grandes monopólios. Significa o direito de ter acesso livre e universal à internet, possa ter acesso à cultura como bem comum, que possa ter acesso a livros, a músicas, a pinturas, a peças de teatro, a filmes, a todas as formas de cultura e que tenha possibilidades de produzir suas próprias formas de expressão.

A democratização cultural se enfrenta a obstáculos na gigantesca máquina de interesses econômicos privados dos monopólios que dominam a mídia, o setor editorial, o audiovisual. Se enfrenta aos setores mercantis que tentam dominar e controlar a livre produção e consumo culturais, a corporações que se apropriam dos recursos fundamentais das obras artísticas, incentivando ainda mais o poder econômico sobre a esfera cultural. Só mesmo um imenso processo de democratização da cultura poderá fazer do Brasil um país realmente independente, soberano, justo, plural.

Quem tem medo da democracia no Brasil? As elites que fizeram do nosso país o mais desigual do mundo e agora ressentem a inclusão social dos que sempre foram postergados, discriminados, humilhados, ofendidos, marginalizados. São os que sempre tiveram todos os privilégios e acreditavam que o país era deles, que o Brasil era das elites brancas e ricas.

Quem tem medo da democratização tem medo dos trabalhadores, que produzem as riquezas do Brasil. Tem medo dos trabalhadores sem terra, que querem apenas acesso à terra no país com maior área cultivável no mundo, importa alimentos, mas mantém milhões de gente no campo sem acesso à terra. Tem medo dos jovens, que não leem jornais, mas leem e escrevem na internet, irreverentes, que lutam pela liberdade de expressão e de formas de viver, em todas as suas formas. Tem medo dos intelectuais críticos e independentes, que não têm medo do poder dos monopólios e da imprensa mercantil e suas chantagens. Tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum. Tem medo dos nordestinos pobres, que como Lula, não se rendeu à pobreza e à discriminação e se tornou o presidente mais popular do Brasil. Tem medo de que todos eles queiram ser como o Lula.

Quem tem medo da democracia no Brasil tem saudade da ditadura, quando detinha o monopólio da palavra, conversavam e elogiavam os militares no poder, sem que ninguém pudesse contestá-los publicamente. Os que têm saudades do Brasil para poucos, da elite que cooptava intelectuais para governar em nome dela.

Quem não tem medo da democracia no Brasil não tem medo de nada, porque não tem medo do povo brasileiro.





37 comentários

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´Nilma Bentes

03 de abril de 2011 às 12h13

Senhor Emir Sader, estranehi o título de quem tem medo da democracia no Brasil; sabe porque? Porque recentemente voce explicitou o seu racismo naquele comentário que dizia " (…)quem imaginava que aquele negro baiano (GGil) era mais articulado que o Caetano. (…)" . Para haver democracia temn que acabar a hipocrisia racial, Um montalhão de voces (talvez todos/as íntelectuais) alimentam ´escondidinho´ o racismo. Fico impressionada com a absoluta hegemonia de brancos em brancas nas revistas/jornais etc. do Brasil. Evidente que quando a gente (negros e negras organizasdos que lutam contra o racismo) começar a apertar (de verdade ) voces acharão (como faz a veja e outros instrumentos midiaticos) alguns negros/as ´pelegos da questão afro-racial´, para mostrar que nem todos negros querem continuar em posições subalternizadas. Emir infelizmente entro para a Camarilha de racistas de plantão

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Jonas e a Baleia

15 de março de 2011 às 02h00

Como mudar a cultura, com o ensino público totalmente sucateado, com os professores ganhando salários ridículos, com os diretores agindo como na época da ditadura, com os alunos desinteressados, desmotivados, reprimidos pelos professores desmotivados e pelas "Rondas Escolares"? Como mudar a realidade dos jovens arrebanhados como ovelhas pelo que é vomitado pelos canais de televisão, desde as novelas classe-média até os jornais nitidamente direitistas (pra não dizer fascistas)?
Desculpem o pessimismo, amigos. Mas não vejo uma solução ao nosso alcance, não vejo luz no nosso horizonte. Vejo as próximas gerações se "endireitando" cada vez mais, abraçando as idéias mais reacionárias, as ações mais fascistas contra a classe trabalhadora, apoiando inclusive intervenções militares contra ela.
Só conseguiremos algo quando destruirmos e construirmos tudo de novo. Se não for assim, não será.

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Medo?

12 de março de 2011 às 18h37

Quem tem medo da igualdade no Brasil? Quem tem medo de que a justiça seja efetivamente igual para todos? Quem tem medo de que o povo tenha educação de qualidade neste país? Quem tem medo de que os pobres tenham acesso a ensino de qualidade? Porque os pobres pagam mais impostos que os ricos? Porque não se combate a corrupção, a sonegação de impostos, o latifundio, como um programa de combtae à miséria? Porque o monopólio da mídia persiste? Porque persiste o trabalho escravo em fazendas do país? Porque não se cumpre as Metas do Milênio que a ONU recomenda que se cumpra até 2015? Quando será a revolução no Ensino?

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Luci

12 de março de 2011 às 18h32

A lei que iguala salários entre homens e mulheres nos EUA :Lei Lilly Ledbetter foi assinada pelo Presidente Obama (com aprovação do Congresso) em 29 de janeiro de 2009. "Assinar este projeto de lei hoje envia uma clara mensagem, a de que fazer nossa economia funcionar significa garantir que ela funcione para todos, que não existem cidadãos de segunda classe no local de trabalho." afirmou o presidente Obama no ato da assinatura. Ele atendeu reivindicação de mulheres e sindicalistas durante a campanha presidencial.
"Não é um tema de feminismo, mas de jsutiça familiar porque a discriminação salarial faz com que famílias tenham menos dinheiro para educação, saúde ou para sua própria aposentadoria, algo importante nestes tempos de crise". Presidente Barack Obama.
Desigualdade salarail é injustiça permanente.

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Luci

12 de março de 2011 às 18h24

É um bom momento o debate sobre a existência da democracia no país. O professor Fábio Compararto deu entrevista à Carta Capital onde afirmou no Brasil não existe República, Democracia, ou Estado Democrático de Direito. Há um vídeo no Conversa Afiada "Comparato critica Anistia para assassinos e torturadores". Comparato tem sido incansável em suas análises sobre a República, Democracia, governantes, e soberania popular. O lado bom este blog com suas matérias é um curso exemplar de informação cidadã e democracia participativa. Parabéns. Uma pergunta: Os sindicalistas que foram ao gabinete da presidente Dilma, pediram-lhe que determine o fim da desigualdade salarial entre homens e mulheres, negros e brancos? Nos EUA o presidente Barack Obama assinou a Lei Lilly Ledbetter."Com a assinatura desta lei, estamos defendendo um dos princípios desta nação; que somos todos iguais e que temos direito a perseguir nossa própria versão da felicidade."Presidente Obama.

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ZePovinho

12 de março de 2011 às 17h23

Vejam como as coisas vão tomando sentido:
http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/eua-tent

EUA tentam emplacar novo Acordo sobre Propriedade Intelectual
Enviado por luisnassif, sab, 12/03/2011 – 16:50

Por foo
EUA tentam emplacar novo Acordo sobre Propriedade Intelectual

sab, 12/03/2011 – 12:52 — foo (não verificado)

EUA tentam emplacar novo Acordo sobre Propriedade Intelectual

Depois de terem visto a primeira tentativa fracassar, os EUA tentam emplacar uma nova proposta — o Acordo de Parceria Trans-Pacífico (TPP).

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    beattrice

    12 de março de 2011 às 19h46

    Esse é um dos lados da questão que pouca gente está olhando, e onde não tem ninguém olhando é aí mesmo que "os de sempre" fazem a festa.

Elite!

12 de março de 2011 às 14h38

…"Como se verá no capítulo "Os Órfãos", no Brasil de 1822 havia muitos grupos com opiniões diferentes a respeito da forma de organizar o jovem país independente, mas todos entravam em acordo diante do perigo de uma insurreição dos cativos, esta sim a grande preocupação que pairava no horizonte".__"…a pequena elite brasileira, constituída por traficantes de escravos, fazendeiros, senhores de engenho, pecuaristas, charqueadores, comerciantes, padres e advogados…." trechos do livro 1822 (pág. 22) de Laurentino Gomes
O texto do professor Emir Sader revela que a democracia brasileira foi instalada sem alteração das estruturas de dominação da "elite", com as garantias dos mesmos privilégios de sempre e a impunidade.Decidiram que nós deveríamos votar e resolveram a questão, mas os problemas continuam os mesmos. A minoria rica detém o poder político, social, economico, cultural e a mídia é parte da dominação social.Parabéns ao Vi o Mundo por publicar importante matéria.

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ZePovinho

12 de março de 2011 às 14h32

Um dos ídolos do PIG e da direita medieval do Brasil.O comentário,lá embaixo,em que pese alguma homofobia,deixa entrever como o CENIMAR e a CIA trabalhavam para implantar a ditadura no Brasil:

Digite o texto aqui![youtube 7_2YqlEXuoE http://www.youtube.com/watch?v=7_2YqlEXuoE youtube]

ttp://www.consciencia.net/ninguem-mais-duvida-de-que-o-cabo-anselmo-fosse-sempre-agente-duplo/

Francisco
12/09/2009 às 23:32

A informação primeira que tivemos quando estudantes do restaurante universitário e vinda pelo PCB é de que o serviço secreto do exército tinha advertido João Goulart de que o Cabo Anselmo era agente duplo do CENIMAR e da CIA. Mas os jovens estavam propensos a admirar a luta armada e não acreditaram na informação pois o PCB era suspeito por ser contra ela.

Outra informação interessante que apareceu na época foi a de um sergipano, militante do PCB que se expressou assim: “Como esse cara pode ser de esquerda? esse cara era o maior veado lá do colégio dos padres de sergipe; mas como ele agora está do nosso lado não vou mais tocar no assunto”.

Aparentemente isso pode parecer apenas um preconceito sem nada a ver com o comportamento político dele. Mas se juntarmos as peças veremos que tem a ver. Principalmente com o fato dele ter entregue a mulher dele grávida para ser morta. A Kátia Valadares que fugiu com o marinheiro companheiro dele, afirmou em nota publicada nos jornais no fim da guerrilha que finalmente não havia mais dúvida, ele o Cabo Anselmo era um dedo duro e um “deformado sexual”. Há informações também de fuzileiros navais aposentados nesse sentido: “Ele era homossexual, mas era um grande líder, ele obtinha grandes benefícios para nós reivindicando junto às autoridades da marinha”.

Ora, o preconceito naquela época era mil vezes maior que hoje e hoje se sabe que o CENIMAR tinha equipe de psicólogos que avaliava desde os escoteiros da marinha para cooptar pessoas para determinads tarefas secretas de acordo com a sua personalidade. Existem vários desses que se reformaram e buscam recomeçar a vida.

Provavelmente, o Cabemo Anselmo sem coragem de se assumir, foi presa fácil do CENIMAR que o transformou num agente precioso para combater o comunismo via o absurdo (tática já usada pela igreja há mil anos).

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luiz pinheiro

12 de março de 2011 às 13h58

O artigo do Emir está muito no genérico. Se ele quer dizer que a ministra Ana de Holanda tem "saudade da ditadura", eu discordo.

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assalariado.

12 de março de 2011 às 10h34

A dominação burguesa,impõe,sua ideologia através do controle de varios instrumentos que são de sua propriedade,ou que ela financia,ou que o são do Estado burguês,ou pelo menos são dirigidas por pessoas fiéis a ela.Esta dominação tem a necessidade de fazer valer seus interesses economicos/politicos de acumulação de capital, via: escolas(maternal à universidade);meios de comunicação(rádio, tv,revistas,…); religiões conservadoras(pensar no além,sofrer no aquém).Seguido disto vem,os principios liberais:O individualismo(o ser humano é naturalmente egoista,por isso,apontam sempre saida individualista);A competição(segue ao individualismo.Para vencer na vida é preciso competir,significa derrotar o próximo, faze-los de degraus);A igualdade(como já falei por aqui,esta é simbolica,a burguesia defende é igualdade jurídica,todos são iguais perante a lei,alias, no dia/dia o que assistimos é,cadeia para os pobres,habeas corpus para os ricos);A democracia(é apenas representativa e,se resume na maioria das vezes,em poder escolher entre os varios candidatos da burguesia,para "representar" o povo no governo e parlamento.

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Julio Silveira

12 de março de 2011 às 09h43

Enquanto os Zé litistas, acharem que a democracia é um favor, um ato de bondade, estaremos fadados a ser um país de bananas. Visto sempre no contexto internacional como uma promessa de grande país.
Só quando levarmos a sério nossas necessidades nacionais, pelo verdeiro desenvolvimento, e isso se dará no momento que nossos Zé litistas entenderem que o povo é mais que numero, e que sua importância é vital para a propria sobrevivencia deles, é que se dará o devido valor a normas constitucionais. Cujos principios foram criados tericamente para ordenarem toda sociedade, mas de fato foram pensados para serem seguidos pelo povo . Nesse sentimento, os Zé litistas ainda não querem se incluir, por isso nosso caldo cultural que faz com que as Zé lites prefiram seguir apenas aonde lhes interessa. E conseguem com sua grana deturpar o estado. Trazendo tantas consequências negativas a formação da nação e do próprio estado.

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Leo Cunha

12 de março de 2011 às 08h47

Bom dia, Emir,
Sempre o considerei um pensador lúcido, mas, pelo menos no que diz respeito aos direitos autorais, me parece que você falou bobagem, quando diz que quem tem medo da democracia é uma elite que
" tem medo dos artistas e da sua criatividade sem cânones dogmáticos e sem pensar no dinheirinho dos direitos de autor, mas na liberdade de expressão e na cultura como um bem comum."
 
Que papo é esse, Emir? Em que emirado você está vivendo?
Quem defende os direitos autorais não é nenhuma elite, são milhares de escritores e ilustradores (no caso do livros, e milhares de compositores, no caso da música, etc). 
 
Nosso TRABALHO é criar prosa e poesia e ilustrações e merecemos  remuneração por este TRABALHO. Os direitos autorais são o nosso pagamento, o nosso salário. Não somos representantes de nenhuma elite nem nenhum grande conglomerado. Aliás, nosso grande inimigo, nesta luta em torno dos direitos autorais, é uma pequena empresa chamada Google.
 
Peço licença para me usar como exemplo. Eu escrevo livros infanto-juvenis há 20 anos. Me preparei para isso há mais tempo que isso, lendo muuuuuuuito durante toda a minha vida, fazendo traduções, fazendo uma especialização em Literatura Infantil, fazendo um mestrado em ciência da informação, e agora em meio a um doutorado.
 
Como alguém pode ignorar que isso é o meu TRABALHO? Que eu mereço ser pago pelo meu estudo, meu esforço, minha criação?
 
Se você está certo em um ponto, é que os direitos autorais são, para a maioria de nós, um "dinheirinho". E muito suado. Cada livro que meu que é vendido no mercado (a preços que variam de 15 a 30 reais, geralmente), me rendem de direitos autorais algo entre 1 e 3 reais. Não mais que isso.  Quando há uma compra governamental, os preços caem muito, então os autores recebem algo como 30 ou 40 centavos por livro. Centavos!
 
Se o livro não vende nada eu não ganho nada. Se vende bem (o que no Brasil é incomum) eu consigo receber uma remuneração razoável. Como você vê, meu trabalho é de alto risco, ao contrário do trabalho de quem disponibiliza o PDF dos meus livros num site cheio de banners.
 
Quer dizer então que estes sites cheios de banners (que são pagos, obviamente) estão do lado certo, moderno, avançado, o lado da inteligência coletiva e da democracia cultural? 
 
E eu, que exijo apenas a remuneração pelo meu trabalho, estou do lado errado, do lado do atraso? Estou do lado dos cânones dogmáticos? Só penso "no meu dinheirinho dos direitos autorais"?
 
Ou será que o atraso é representado por aqueles que querem derrubar este grande avanço que foi a profissionalização do artista. Assim corremos o risco da volta dos velhos mecenas (aristocráticos, religiosos, ideológicos, etc) que permitem, abonam e subvencionam apenas o que lhes interessa pessoalmente.
 
Repare que eu não sou contra qualquer autor disponibilizar o que quiser na internet. Eu mesmo publico, frequentemente,  poemas inéditos na minha página do Twitter. O que eu não posso admitir (e esta posição é unânime na AEI-LIJ – Associação de Escritores e Ilustradores de Literatura Infantil e Juvenil) é que alguém – especialmente alguém com a inteligência e preparo de um Emir Sader – venha nos negar a remuneração por nosso TRABALHO.
 
Atenciosamente, 
Leo Cunha
Escritor, tradutor, professor universitário

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    FrancoAtirador

    12 de março de 2011 às 15h59

    .
    O Professor Emir Sader não está se referindo ao seu trabalho,

    mas às corporações que se apropriam do seu trabalho.
    .

    assalariado.

    12 de março de 2011 às 20h50

    Franco ,voce acertou na mosca,vou dar um exemplo pessoal.Sou tabalhador assalariado,metalurgico, e sei o que é expropriação da produção manual e intelectual dos patrões/capitalistas sobre os assalariados.Por isso luto consciente desta situação de expropriação do meu suor e da minha produção dia/dia.Não tenho liberdade de expressar o que penso/sinto,dentro do meu local de trabalho, assim também é na industria do entretenimento,os capitalistas da informação/cultura não são diferente dos patrões em geral,seja qual for,patrão é patrão,pião é pião,são os exploradores e os explorados,isso chama-se capeta-lismo,(sem aspas).

    Saudações Socialistas.

    FrancoAtirador

    13 de março de 2011 às 17h45

    .
    Tens toda razão

    e mais consciência da exploração do trabalho pelo capital

    do que muitos intelectuais elitistas que também são explorados

    e que preferem se autoalienar da realidade fática

    dessa relação predatória capital-trabalho,

    às vezes apenas por vaidade, em troca de fama.
    .

FrancoAtirador

12 de março de 2011 às 02h05

.
.
Se a mim fosse possível,

eu emolduraria este texto do Professor Emir Sader

e o colocaria na parede,

atrás da cadeira onde se assenta o(a) Ministro(a) da Cultura.
.
.

Responder

Morvan

11 de março de 2011 às 22h06

Boa noite.
Quem tem medo da democracia é quem tem medo da igualdade de condições – leia-se Estado para a maioria. Quem acha normal pessoas serem tratadas como inferiores(?), pessoas que acham a privatização do Estado, a apropriação da máquina estatal em detrimento da minoria, fatos normais e desejáveis. A elite brasileira tem muito medo da democracia, tanto que à época do golpe de 1964, todo o PIG saiu a saldar a "normalidade institucional". O jornaleco "O Globo", dos Marinhos, colocou, em manchete: "Ressurge a Democracia" (Sic)! Mas de todos os temores que petrificam a direita brasileira, a democratização do direito à informação é o seu acme. Porque democratizar a informação é trazer o cidadão para o centro das decisões. Por isso: ou o Estado brasileiro investe em educação (a longo prazo) e começa, desde já, a colocar o PNBL a todo vapor ou não não adianta nem falarmos em democracia – sem estes dois prerrequisitos, democracia é conceito "para PIG ver". Sem informação não há democracia.

Morvan, Usuário Linux #433640

Responder

FrancoAtirador

11 de março de 2011 às 21h48

.
.
O Professor Emir Sader disse tudo.

E faço questão de reprisar e destacar:

"A democratização cultural significa que as distintas identidades do povo brasileiro possam construir seus próprios valores para orientar suas vidas, suas próprias formas de expressão cultural, possam ter acesso às múltiplas formas de cultura
Que possa se libertar dos modelos de consumismo importados e difundidos pela mídia comercial, pela publicidade massiva, pelos valores divulgados pelos representantes dos grandes monopólios.
Significa o direito de ter acesso livre e universal à internet, possa ter acesso à cultura como bem comum, que possa ter acesso a livros, a músicas, a pinturas, a peças de teatro, a filmes, a todas as formas de cultura e que tenha possibilidades de produzir suas próprias formas de expressão.

A democratização cultural se enfrenta a obstáculos na gigantesca máquina de interesses econômicos privados dos monopólios que dominam a mídia, o setor editorial, o audiovisual.
Se enfrenta aos setores mercantis que tentam dominar e controlar a livre produção e consumo culturais, a corporações que se apropriam dos recursos fundamentais das obras artísticas, incentivando ainda mais o poder econômico sobre a esfera cultural.

Só mesmo um imenso processo de democratização da cultura poderá fazer do Brasil um país realmente independente, soberano, justo, plural."
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ESTE TEXTO É FORA DE SÉRIE !
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Responder

Space Ghost

11 de março de 2011 às 21h08

Azenha, como o assunto é "medo da Democracia", me lembrei do Serra Paylin da campanha de 2010, aquele tocou o pânico no Brasil com seu ateísmo católico fervoroso.

Não sei se isso passou batido (eu pelo menos não vi à época), mas Serra Paylin foi homenageado nos EUA com um filme muito simpático.

O nome da obra prima é "Who's Nailin' Paylin?".

Agora veja a descrição da película na wikipédia:

"Who's Nailin' Paylin? é um filme pornográfico satírico lançado em 4 de novembro de 2008 nos Estados Unidos da América. Dirigido por Jerome Tanner e com roteiro de Roger Krypton, o filme satiriza a então candidata a vice-presidente dos Estados Unidos da América, Sarah Palin, por meio da personagem "Serra Paylin" interpretada por Lisa Ann. Completam o elenco as atrizes Holly West, Sindee Jennings, Nina Hartley e Jada Fire — as duas últimas interpretando paródias de Hillary Clinton e Condoleezza Rice, respectivamente. No cast masculino, constam os atores Alex Knight, Evan Stone e Mike Horner."
http://pt.wikipedia.org/wiki/Who%27s_Nailin%27_Pa

Isso mesmo! O protagonista do filme é Serra Paylin! O filme de 2008 já vaticinava o que aconteceria em 2010!

Pena que o ator pornô Ali Kamel não fez parte do elenco, não sei porquê.

Aqui uma cena hilária (inocente o suficiente para se colocada no Youtube) do treinamento de Serra Paylin:
http://www.youtube.com/watch?v=v4BFGKmal9A

E aqui uma matéria especial sobre o personagem:
http://www.associatedcontent.com/article/1107321/

O mais interessante é que Serra Paylin também é governador!

Responder

    Ramalho

    12 de março de 2011 às 08h18

    A realidade copia a arte trocando, às vezes o gênero, como nesse caso Sarah-Serra, que você descobriu. São muitas coincidências, mesmo. Serra Paylin é alcunha-síntese ótima para Serra.

O_Brasileiro

11 de março de 2011 às 20h09

A maior injustiça do Brasil é a do campo, com a concentração da terra!
E ainda há quem diga que o Brasil tem a pretensão de alimentar o mundo…
Como alimentar sequer o país sem fazer reforma agrária?
As pessoas vão viver de soja, café e suco de laranja???
Ou vão encher o bucho de caldo de cana??? (Espero que mantenham o álcool em seus carros!!!)
Se os arrozeiros e produtores de feijão e milho forem poucos, o preço só vai disparar cada vez mais devido à crescente demanda.
Se não se investir na produção do pescado, como produzir carne a custo acessível se boa quantidade da produzida no país é exportada???
Se o governo continuar cedendo às pressões do grande agronegócio, negligenciando os pequenos e médios produtores, a inflação vai é aumentar cada vez mais.
No Brasil se faz o inverso: a Natureza dá a solução, e os homens criam os problemas…

Responder

Sagarana

11 de março de 2011 às 19h46

Qual democracia? A "democracia" do proletariado? Depois que essa "esquerda" chegou ao poder, eu acredito que Ninguém.

Responder

    Silvio I

    11 de março de 2011 às 20h40

    Sugarana:
    Essa esquerda que chegou ao poder em 8 anos fez coisas que não tinham sido feitas em 100 e 200 anos! Você usa governo do proletariado como nas lutas comunistas. Aqui não tem nada de comunismo mais sim de socialismo que e outra coisa.Alem do mais quem crio e idealizou o comunismo foi o mesmo que crio as leis do capitalismo. Não nos deixemos levar por cantos de sereias.

    Ramalho

    12 de março de 2011 às 08h25

    Por que a democracia do proletariado seria ruim? Será que boa é, apenas, a democracia da burguesia? Sob este viés, desde que seja democracia para todos, qualquer uma é boa. Por outro lado, se a democracia for apenas para a burguesia, ou, então, para o proletariado, melhor a do proletariado: como os proletários são a maioria da população, os benefícios da democracia do proletariado alcançam muito mais pessoas.

    Não confunda democracia com ditadura.

    Rafael

    12 de março de 2011 às 09h48

    Qual deveria ser a democracia então? A dos ricos?
    Democracia existe para acabar com injustiças.

Pitagoras

11 de março de 2011 às 17h21

Como sempre, é um prazer ler as reflexões do Prof. Sader. Pena que são raras as cabeças pensantes, conscientes, justas nesse país, mormente na vida política.

Responder

JotaCe

11 de março de 2011 às 16h41

Cachorros de preá

Antes da era Presidente Lula, os preás eram o único prato de resistência que os sertanejos do Nordeste realmente contavam para enganar a fome. Tais pequenos roedores vivem entre as plantas espinhosas e só os caçam os cachorros bons de peleja, capazes de segui-los nas trilhas certas. Cachorros sem medo, como Baleia, por exemplo, a cachorrinha de Fabiano em Vidas Secas, que gostava tanto de caçar preás que até na hora da morte sonhou com eles. Mas a quase absoluta maioria dos cachorros, contudo, engana os caçadores. Como eles têm medo dos espinhos, latem de qualquer lugar sugerindo a caçada fácil por descaminhos, trilhas que nada resolvem. ‘Mente que nem cachorro de preá’ se diz por extensão no sertão nordestino de pessoas, mais frequentemente de autoridades ou entidades mentirosas. Como aquelas que querem denegrir a capacidade e a honesta visão política inerentes ao Prof. Emil Sader.
JotaCe

Responder

    Morvan

    11 de março de 2011 às 21h51

    Boa noite.
    Adorei o ‘Mente que nem cachorro de preá’, JotaCe. Aqui no Brasil tá cheinho de ‘cachorro de preá’. O WikiLeaks tem mostrado como eles trabalham: sinalizando para os Estados Unidos e latindo para o povo brasileiro…

    Morvan, Usuário Linux #433640

Guanabara

11 de março de 2011 às 15h55

Descreveu a Regina Duarte, rs.

: -D

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Maria Lucia

11 de março de 2011 às 15h46

Belo artigo.
A democratização cultural passa pela polêmica.
Olha ela aí: http://www.advivo.com.br/blog/luisnassif/a-tercei

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Gustavo Pamplona

11 de março de 2011 às 15h05

Eu tenho medo!!! Eu estou morrendo de medo!!!! Salvem-nos da democracia!!!! hahahahhaha

Afinal de contas: seria democracia o "governo do povo" ou seria o "governo do demo"? O diabo, o demônio, o coisa-ruim, o anticristo, o satanás, o belzebu e por aí vai… hahahahhahah

Ou pior ainda seria o governo do DEM? hhahahahhahahah

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Marcelo Fraga

11 de março de 2011 às 11h18

No plano cultural o Brasil não avança forte e consistentemente desde a época da ditadura. O avanço, apesar de lento, está se dando na internet. Entretanto, no resto continua a mesma coisa.

Liguem a televisão e lá está, a mesma programação emburrecedora. Nos jornais a mesma manipulação. No cinema a mesma propaganda ideológica. Nos livros sempre houve cultura farta, mas há estímulos de outras partes à leitura?

E em grande parte quem mantém as pessoas nesse estado é quem detém o controle da informação. Aqueles que ganham com a ignorância alheia, pois sabem que se aqueles que enganam saíssem da situação cultural em que se encontram, esses barões da informação iriam à falência.

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    Silvio I

    11 de março de 2011 às 21h17

    Marcelo Fraga:
    Como você esta enganado ao dizer que a ditadura impulsionou a cultura. E que desde ela não existe mais. A ditadura acabou com o ensino da escola pública. Elitizou o ensino.Hoje nascem colégios particulares como cogumelos apos as chuvas.Desprestigiarão por completo a escola pública.Não podia existir cultura quando todos os médios culturais eram censurados.Você podia ir ao teatro sempre que a peça não fosse censurada.Quantas músicas foram censuradas por que tinha alguma coisa que eles pensavam que atentava contra o governo militar.Os meios de comunicação existentes foram criados por eles para ter como difundir seu governo e enganar o povo.Ai está a rede Globo,a SBT,e os jornais que pertencem ao PIG que apoiarão a ditadura.Não queira modificar nada em quanto os médios de comunicação continuem em poder de nove famílias em todo Brasil e as repetidoras em poder de uma elite da qual forma grande parte dos políticos.A lei dos médios tem que ser aprovada rápido.Mais para isso se necessita o apoio do povo.Si não, não vai a sair nunca porque dentro do congresso alem do lobby existem muitos donos de algum médio de comunicação o tem algum familiar como laranja.

    Marcelo Fraga

    11 de março de 2011 às 22h46

    Você me entendeu mal. Eu disse que o avanço cultural no Brasil diminui a partir do começo da ditadura. Até ali as coisas iam bem. A partir da ditadura é que começou essa fase triste da cultura (ou deveria dizer senso comum) brasileira,

NELSON NISENBAUM

11 de março de 2011 às 11h08

Artigo obrigatório. Parabéns, professor!

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Mônica Rangel

11 de março de 2011 às 11h03

Quem perdeu mais? O MINC ou o Sader?

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