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Emir Sader: Obama e Lula


10/12/2010 - 18h17

09/12/2010

Blog do Emir Sader, em Carta Maior

A perda rápida de prestígio de Obama revela duas coisas: a primeira é que se pode ganhar eleição centrado no marketing, mas não se pode governar centrado no marketing. A segunda é que não se muda a mentalidade conservadora, forjada durante décadas, em uma campanha eleitoral, embora se possa avançar nessa direção, contanto que esses avanços sejam consolidados por politicas governamentais.

Apesar do enorme apoio popular e mesmo dos meios de comunicação e do apoio irrisório com que contava Bush no momento das eleições, Obama venceu por uma margem pequena de votos – 4%. O que refletia a enorme virada conservadora que os EUA tinham sofrido várias décadas antes – desde a vitória de Nixon, em 1968, apelando para a chamada “maioria silenciosa”. Não apenas a opinião publica deu uma virada conservadora, como as estruturas de poder – da Justiça à educação – que passaram, por sua vez, a consolidar um pensamento de direita no conjunto da sociedade.

Na presidência, Obama não se mostrou à altura das suas promessas. Salvou o sistema bancário, com a ilusão de que este salvaria o país e deixou abandonadas as vítimas principais da crise: os desempregados e os devedores das hipotecas bancárias. Na política externa, mudou a linguagem, mas não os pontos essenciais da estratégia imperial: Cuba, Guantanamo, Iraque, Afeganistão.

Foi penalizado, à esquerda – com a abstenção e a desilusão – e à direita – com forte mobilização conservadora – e perdeu a maioria eleitoral, ficou em minoria na Câmara, terminando penosamente sua lua-de-mel com o eleitorado.

O marketing tinha possibilitado sua vitória, mas ela não se consolidou com política que se enfrentasse à hegemonia conservadora na sociedade, mesmo dispondo da crise social para demonstrar políticas distintas de enfrentamento da crise.

No Brasil, ao contrário, o marketing eleitoral foi positivo, porque se assentava em um governo enraizado fortemente nas camadas majoritárias da população, beneficiárias das politicas sociais. A comparação entre os governos FHC e Lula era inquestionavelmente favorável a este, em todos os níveis. Daí que a oposição buscou um atalho para chegar a setores da população através da exploração de preconceitos de caráter religioso. A retomada da esfera politica como essencial, determinou finalmente a vitória de Dilma.

A diferença entre Lula e Obama é que, com o primeiro, o marketing está apoiado em medidas concretas de um governo de caráter popular, cujas políticas defenderam os direitos da população durante a crise e estendem esses direitos com seu modelo econômico e social. Por isso Lula saiu vitorioso e Obama foi derrotado. Lula fortaleceu os bancos públicos para combater a crise, enquanto Obama confiou em que a recuperação dos bancos privados em crise alavancaria a recuperação da economia, se equivocou e foi derrotado.

Uma imagem eleitoral pode ser construída tecnicamente, porém só se sustenta se estiver apoiada em um governo e em uma liderança sólida e coerente politicamente.

Emir Sader, sociólogo e cientista, mestre em filosofia política e doutor em ciência política pela USP – Universidade de São Paulo.





8 comentários

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PEDRO HOLANDA

13 de dezembro de 2010 às 12h35

Sobre o Obama,lá areas eu falei para os meus pares: Não se esqueçam, apesar de tudo…Ele é americano!!!

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Nelson Mosquera

11 de dezembro de 2010 às 21h28

Desculpe a pretensão, mas desde a eleição eu desconfiei do sucesso do Obama como presidente dos EEUU, por lhe faltar a condição indispensável que a sabedoria francesa tão bem define – " le physique du rôle ".

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    Lucas Cardoso

    11 de dezembro de 2010 às 22h47

    Eu esperava que pelo menos melhor do que o Bush ele seria. Mas a farsa de Honduras acabou com minhas esperanças.

antonio rodrigues

11 de dezembro de 2010 às 10h03

Sem querer ensinar missa ao vigario, Emir Sder deixou de falar sobre o maior fracasso de Obama,isto é,deixar as portas abertas para um novo governo americano ultra conservador. Provavelmente é o que ocorrera trazendo grande risco para toda ahumanidade.

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jgnunes

11 de dezembro de 2010 às 09h24

O governo dos EUA não tem margem de manobra como o Brasileiro. Nos EUA não há um similar ao Banco do Brasil e nem Caixa Econômica e muito menos um BNDS. Ou seja o governo dos EUA só pode contar com bancos privados. E estes receberam dinheiro e deram jatinhos para seus executivos e não repassou o dinheiro para a sociedade e assim estimular o crédito.

Os EUA estão repetindo o modelo de concentração de renda que inicio-se no Brasil na metade da década de 60 e faliu o Brasil nos anos 80.

E a continua fé cega deles no modelo neoliberal é equivalente a seguidos governos FHC. Ou seja a crise será uma constante e a concentração de renda tende a aumentar.

Como o Brasil nos anos 80 vai chegar o momento que os EUA vão se recusar a pagar as dívidas.

O Brasil só saiu da pindaíba da estrutura econômica com três presidentes. Collor abriu o mercado brasileiro fazendo as empresas brasileiras a pararem de brincar. FHC que impôs o plano de estabilização padrão usado em toda AL e Lula que parou o processo de concentração de renda. Seguindo a linha que dando dinheiro na mão de pobre ele compra mais do que o rico.

O problema dos EUA também é político e cultural. Lá não tem uma esquerda e as ideias de social-democracia não cai bem. E os partidos políticos e a justiça estão presos aos interesses de grandes grupos econômicos. Isso impede soluções usadas no Brasil para vencer a crise.

Embora os próprios EUA e o Partido Democrata já tenha usado isso nos anos 40, isso hoje é mal visto. Como o texto diz 30 anos de construção de uma concrescia conservado que contaminou não apenas a sociedade de lá mas também toda a mídia latina.

A solução para isso é o Partido Democrata voltar ao que foi antes da vitória dos republicanos nos anos 70.

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Ronaldo Caetano

10 de dezembro de 2010 às 19h35

O grande comediante americano Bill Mahler costuma dizer em seus shows que hoje o povo americano comporta-se como um cachorro… só reage à inflexão vocal e ao medo. E nisso, os Republicanos são craques.

Não acredito que Obama, ainda que tivesse feito tudo certo, poderia ter tido êxito. Para isso ele teria que ter recorrido ao modus operandi republicano, ou seja, fazer mais do mesmo, rosnar e incutir mais medo.

Apesar da tecnologia, a liderança – moral e física – dos Estados Unidos agoniza. Ainda se vale do mainstream comunicativo que ele próprio controla mas isso é pouco. Lentamente – e a Internet ajudou muito a acelerar o processo – vai se alastrando a percepção de que a propalada liderança americana sempre foi uma farsa apoiada em vasta propaganda jornalística e Obama está literalmente preso no pincel.

Não consegue agradar nem a Gregos e nem a Troianos; porque o que ambos querem é a volta de uma América que nunca existiu.

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    Ulianov

    11 de dezembro de 2010 às 06h20

    "Não consegue agradar nem a Gregos e nem a Troianos; porque o que ambos querem é a volta de uma América que nunca existiu. "

    Bingo!
    Assino em baixo

    Sônia Gatzk

    11 de dezembro de 2010 às 10h43

    Se os dois estão afirmando que os americanos não votaram Obama porque querem a volta de uma América que nunca existiu, deduzo que ambos consideram que os americanos votaram errado e que Obama poderia muito bem continuar. É isso? E quanto a fazer comparações entre Obama e Lula, americanos e brasileiros… Me desculpem, mas, aí forçou né?


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