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Edição do JN citada por DD dedicou 98% do tempo a Lula; Moro sugeriu ataque à defesa horas depois de afirmar que não fazia parte da acusação
Reprodução de vídeo
Política

Edição do JN citada por DD dedicou 98% do tempo a Lula; Moro sugeriu ataque à defesa horas depois de afirmar que não fazia parte da acusação


15/06/2019 - 14h43

“O juiz não tem nenhuma relação com o que a imprensa publica ou não publica”, disse Moro neste trecho de um dos depoimentos de Lula; o ex-presidente foi presciente sobre o futuro. Vídeo sugerido por Artur Scavone.

Da Redação

No dia 10 de maio de 2017, quando Lula testemunhou diante do juiz Moro, em Curitiba, o procurador Deltan Dallagnol trocou mensagem com colegas e com o juiz afirmando que o Jornal Nacional voltaria a tratar do assunto no dia seguinte, 11 de maio.

O JN avisou seus telespectadores no dia 10 que completaria sua cobertura no dia seguinte, já que o depoimento avançou noite adentro.

De acordo com a mais nova troca de mensagens revelada pelo Intercept Brasil, eram 22h12 minutos do dia 10 quando Moro sugeriu que o MP divulgasse uma nota de imprensa enfatizando as contradições de Lula durante o depoimento.

“Por que a Defesa já fez o showzinho dela”, escreveu Moro.

O juiz-editor demonstrava preocupação: segundo ele os jornalistas não se debruçavam sobre os detalhes do processo.

No dia 11, de fato, o JN voltou a tratar do assunto: dedicou 7 das 9 manchetes a Lula, inclusive com detalhes dos depoimentos recém-revelados dos delatores João Santana e de sua esposa Monica, contra Lula e o PT.

O jogral dos apresentadores começou assim:

O dia seguinte ao interrogatório de Lula em Curitiba.

Você vai ver os principais questionamentos do juiz Sérgio Moro.

E as respostas do ex-presidente.

As próximas fases do processo que apura o caso do tríplex no Guarujá.

O Ministério Publico e a defesa pedem que mais testemunhas sejam ouvidas.

O Supremo retira o sigilo das delações do marqueteiro de campanhas petistas João Santana e da mulher dele.

Santana disse que Lula sabia de pagamentos feitos por fora no Exterior.

Naquela noite, o JN dedicou 98% do seu tempo a Lula (incluindo os depoimentos de Santana e Monica e repercussões).

Embora Lula tenha tido direito de defesa na reportagem, que durou 31 minutos e 20 segundos, o JN fez justamente o que Moro havia sugerido na nota que pediu aos procuradores.

Focou o miolo da reportagem nas supostas contradições ou pontos fracos de Lula:

    1. O fato de que a OAS havia comprado móveis tanto para o tríplex quanto para o sítio de Atibaia;
    2. O fato de que Lula primeiro disse que o tesoureiro do PT Joao Vaccari não conhecia Renato Duque, diretor da Petrobrás, mas depois afirmou ter usado Vaccari para chegar a Duque e marcar um encontro com ele, Duque, no aeroporto de Congonhas (o telejornal dedicou um longo trecho às perguntas de Moro sugerindo que Lula tinha respondido duas coisas diferentes em questão de minutos);
    3. O fato de Lula dizer que não tinha influência no PT, apesar de fundador e ex-presidente do partido.

Chama a atenção nos trechos escolhidos pelo JN a declaração inicial de Moro, dizendo que “de minha parte eu não tenho qualquer desavença pessoal em relação ao ex-presidente”.

Aparentemente, era uma estratégia para evitar a impressão de que o juiz perseguia Lula.

Horas antes de pedir ao MP que publicasse nota contra a defesa, Moro afirmou textualmente: “Quem faz a acusação neste processo é o MP, não o juiz”.

Moro chegou a reclamar de que tinha sido vítima de ataques de blogs na internet, “blogs supostamente patrocinadores do senhor”.

Mas sugeriu não entender os ataques de Lula à cobertura da mídia: “A imprensa não tem qualquer papel nesse julgamento”.

Porém, horas depois, o ex-juiz federal pediu ao MP que usasse justamente a imprensa para atacar Lula!

Em retrospectiva, chama a atenção a declaração do ex-presidente Lula de que a História iria julgar se o MPF e a PF cometeram abuso de autoridade no caso.

Moro ainda era juiz federal, mas tomou uma invertida de Lula quando criticou o ex-presidente por ter dito, em entrevista, que um dia poderia mandar prender os promotores e o juiz.

Segundo Lula, tinha sido força de expressão: “O dia que o senhor for político, vai usar força de expressão no palanque”.

Nas horas seguintes, os procuradores acompanharam de perto a cobertura da imprensa, de acordo com as mensagens divulgadas pelo Intercept:

A Moro, Deltan manifestou satisfação com a cobertura da Globonews, que segundo o chefe da Força Tarefa acabara “de mostrar uma série de contradições e evasivas [de Lula]”.

No dia seguinte, Deltan explicou que não seria necessário publicar a nota sugerida por Moro, mas sublinhou: “Passamos algumas [contradições] relevantes para jornalistas”.

A preocupação dos procuradores com a repercussão do depoimento de Lula era evidente.

O procurador Athayde Ribeiro Costa fez sua avaliação, mencionando mais uma vez a Globonews e elogiando Merval Pereira, a voz dos irmãos Marinho em O Globo, por ter defendido a condução coercitiva do ex-presidente.

Tudo isso contradiz a afirmação de Moro no dia do depoimento, segundo a qual “a imprensa não tem qualquer papel nesse julgamento”.

PS do Viomundo: Este texto sofreu acréscimos depois da publicação original, para oferecer uma visão mais ampla da estratégia de mídia da Lava Jato, da qual Moro efetivamente participou.

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6 comentários

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Zé Maria

16 de junho de 2019 às 02h53

https://pbs.twimg.com/card_img/1139569605184249859/foLzgpuc?format=jpg

Lavajatogate: juiz das garantias?
Uma resposta a Merval Pereira

Por Lenio Luiz Streck
e Gilberto Morbach,
na ConJur

(…)
De premissas corretas, Merval Pereira consegue derivar uma conclusão absolutamente equivocada que contradiz as próprias premissas.
Merval contra Merval.

Os diálogos entre Moro e Dallagnol configuram uma violação tão óbvia quanto grave, tão grave quanto óbvia, a tudo aquilo que o próprio Merval Pereira reconhece como verdadeiro.
Merval contra Moro.

Dos princípios mais básicos que sustentam um sistema acusatório, Merval extrai exatamente uma contradição grosseira a esses próprios princípios.
Não é porque esse tipo de lógica estruturante não prevê a participação de um magistrado específico responsável pela fase de investigações que se segue que o juiz, nos nossos moldes institucionais, possa fazê-lo.

Se não há a figura do juiz de instrução em sistemas acusatórios é exatamente porque, em países de organização não-inquisitorial, juízes não participam da instrução.
Ponto.

O sistema penal acusatório, afinal, “estabelece a intransponível separação de funções na persecução criminal”. Isso quer dizer, por óbvio, que “um órgão acusa, outro defende e outro julga.
Não admite que o órgão que julgue seja o mesmo que investigue e acuse”.

As palavras não são nossas, mas da procuradora-geral da República, Raquel Dodge.

Em qualquer democracia moderna já é — felizmente — platitude dizer que juízes devem ser imparciais.

íntegra:
https://www.conjur.com.br/2019-jun-15/opiniao-lavajatogate-juiz-garantias-resposta-merval

Responder

Jus Ad Rem

16 de junho de 2019 às 02h53

O SHOWZINHO DA DEFESA #meteoro.doc
https://www.youtube.com/watch?v=P2Q1mSl8K-o

Responder

Gerson

15 de junho de 2019 às 18h27

O mal do esperto é pensar que nao tem ninguem mais esperto que ele.
Ele ( Moro) está atravancando a economia do Brasil e de outros paises da america latina com a sua lava merdha.
Os grandes empresarios da bufunfa mesmo querem esse juiz longe da politica nacional, ele só atrapalha os negócios. Um monte de gente perdeu o emprego por causa dele.
Nao sabe fazer politica, tem que fazer um cursinho com aulas do Lula de noçoes basicas de politica.
O que adianta recuperar 10 bilhoes se ele dá um prejuizo de TRILHOES a cada ano da lava jato. Nao compensou essa lava jato. É só prejuizo no PIB ano a ano que já deve somar um trilhao de reais.
Se quer ser Presidente da Republica por que nao se candidatou na eleição passada de 2018 ?
Só ele é esperto ninguem mais é.

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Luiz Cláudio

15 de junho de 2019 às 18h09

Brincaram com valores/princípios/fundamentos constitucionais essenciais de um Nação como Democracia, Estado Democrático de Direito, voto popular, presunção de inocência, um dúbio pro réu , quem acusa prova, destruíram e entregaram o País ao capital internacional, tornaram o País um pária internacional, elegeram um governo com viés conservador entreguista truculento miliciano mamador de teta pública e tudo isso com o auxílio luxuoso do juiz e da força tarefa. E o homem diz que foi um descuido. Eu sempre pensei que a linha entre um descuido e um crime não fosse tão tênue. Parafraseando Zé Simão.

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Zé Maria

15 de junho de 2019 às 17h23

Deltan Dallagnol fala que no dia seguinte “o JN vai explorar” as contradições apontadas na nota editada pela Lava-Jato conforme recomendado pelo Juiz Moro.

https://www.viomundo.com.br/wp-content/uploads/2019/06/parte-6-2.jpg

https://www.viomundo.com.br/wp-content/uploads/2019/06/parte-6-4.jpg

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