Claudia Dutra: Parlamentares da direita e Globo vão parabenizar o Paraná pela emboscada?

Tempo de leitura: 4 min
Foto Ricardo Stuckert

Foto Ricardo Stuckert

PARA DIZER NÃO AO FASCISMO

por Claudia Pereira Dutra*, especial para o Viomundo

O “fascismo” não ficou lá em um passado totalmente superado, com o avanço e as conquistas da democracia.

A história não é linear e as mudanças não são sempre progressivas. Há retrocessos.

O fascismo ascende em períodos históricos em que não imaginamos mais existir.

Quando indivíduos e grupos passam a glorificar a força contra o adversário, usam a violência para calar a disputa política e pregam o ódio à diferença, estão em franco ataque à democracia.

Esse é um fenômeno vivido em várias parte do mundo.

No Brasil, o contexto é gravíssimo e manipulado pela mídia que faz o jogo do golpe para que a população não compreenda os riscos desse rumo fascista no país.

Parece óbvio, um golpe não vem para reforçar a democracia usurpada!

O poder autoritário passa a dominar as instituições do Estado e se expande.

Não precisamos ir longe para entender a crescente violação de direitos.

O ex-presidente Lula é perseguido há dois anos, o reitor da UFSC sofreu execração pública e foi levado à morte, o MEC passou a censurar os cursos em universidades, o Rio de Janeiro está sob intervenção federal, a vereadora Marielle do PSOL/RJ foi executada com quatro tiros na cabeça e outras pessoas são mortas por defenderem os direitos humanos.

O Estado de exceção é uma serpente que se levanta. Há uma semana, o Sul do país revive o coronelismo.

Um grupo da direita ruralista que nunca abandonou os ideários de um poder oligárquico, persegue e ataca com violência a Caravana de Lula, contando com a omissão do Estado.

O que está ocorrendo na região Sul não são protestos populares, mas a ação de uma milícia que tenta impedir Lula de dialogar com a população que vai às praças participar. Isto é cercear a liberdade e a cidadania.

A articulação golpistas abriu uma espécie de vale tudo para tirar Lula da disputa eleitoral, em 2018.

Lula é a maior liderança de esquerda no país, pré-candidato à presidência da república e lidera todas as pesquisas.

A milícia da direita no Sul partiu para o ataque direto.

Quer mostrar que está disposta a impor seu projeto a qualquer custo.

Além de colocar barricadas de tratores na entradas de cidades para impedir a comitiva de Lula de transitar no espaço público, essa milícia agride a pau e pedradas a pessoas que se identificam com Lula .

Os golpistas revelaram seu fascismo. Em vídeo a senadora da extrema direita, Ana Amélia, apoiou a violência.

Com uma retórica pobre, peculiar ao fascismo, ela deu parabéns aos que “botaram a correr aquele povo …” e disse que “atirar ovo, levantar o relho, mostra onde estão os gaúchos”.

Posso dizer que gaúchos (as) estão onde sempre estiveram, representados na diversidade humana, política, social e cultural.

Ela, contudo, parece querer eliminar essa diversidade. Seu apelo à “tradição” busca um enquadramento identitário.

Mas, a simbologia do relho e da guerra que usa para coroar ações de milícia, não nos representa.

Na origem disso está a recusa ao saber que ameaça o que foi definido como verdadeiro pela cultura dominante.

Todo fascista é avesso ao conhecimento, que leva à reflexão crítica. Para o fascista o que importa é a ação, a guerra ao “inimigo”.

Pensar implica questionar, o que pode revelar as contradições do ódio ao Lula e do despreza às conquistas para toda a sociedade, alcançadas durante seu governo.

A discordância no pensamento é uma coisa que os fascistas detestam.

Por isso, desconfiam dos Institutos e das universidades criadas por Lula e Dilma. São “antros de comunistas”!

A senadora se reveste do elitismo típico às ideologias reacionárias. Seu discurso estimula o  ódio ao PT e a Lula que chama de “um condenado”.

Quer fazer crer que o seu partido é “superior”.

Para isso, tem que criar a imagem do inimigo fraco. O outro é “vagabundo”, o que não presta.

O mecanismo é o da inferiorização. O racismo é uma característica do fascismo.

Daí o desprezo a negros, aos pobres, aos povos indígenas, aos quilombolas, que foram classificados pelo deputado Luís Carlos Heinzen de “tudo que não presta”.

Como toda liderança fascista, tais políticos apoiam a conquista do poder pela força.

Para eles o inimigo merece ser agredido, e isso mostra a força. A violência glorifica o “herói”.

Mas, esse jogo é difícil, ainda mais em tempos de redes sociais. As cenas do discurso fascista se espalham para muito além do reduto eleitoral.

Não é possível evitar que o discurso tosco seja alvo do raciocínio complexo e seja desconstruído, como ocorreu com as falas da filha do coronel do exército em São Borja e da senadora Ana Amélia, saudosas da Ditadura.

A repercussão desses fatos permite ainda ver mais um aspecto.

Trata-se do delírio fascista por uma suposta “moral” a ser vigiada.

Na verdade, uma obsessão por sexo e sexualidades. O fascista é machista, homofóbico e outros.

Em meio ao absurdo ataque à Caravana Lula, fascistas, incapazes do diálogo e sem argumentação, ampliam a retórica da ofensa.

Seus discursos são limitados e limitadores, revelam a ausência do raciocínio e o temor à diversidade.

Como podemos ver, o neofascismo ou o fascismo permanente, como se refere Umberto Eco, se adapta a tudo.

Compreender o que está por trás dessas nebulosas e nefastas milícias é fundamental.

Desse ódio renascem os mais arcaicos sentimentos que a humanidade já produziu.

A última notícia é que o fanatismo dos milicianos conseguiu acertar com tiros os ônibus da Caravana Lula.

E agora? A senadora, os (as) deputados (as) da direita, a Rede Globo…vão parabenizar o Paraná pela emboscada para matar o ex-presidente Lula?

*Claudia Pereira Dutra é professora, militante e ativista dos direitos humanos.

Leia também:

Boulos: “Declaração de Alckmin sobre os tiros contra a caravana de Lula é praticamente aplauso ao fascismo”

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Comentários

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Bel

Aí tem truta! Noticiário do PIG não me convence mais.
A pergunta que ecoa é a de Maria do Socorro Sousa Braga : “Por que essa prisão agora, se já sabiam do envolvimento do Yunes e outros?”,
http://www.redebrasilatual.com.br/politica/2018/03/tudo-o-que-se-preve-pode-mudar-na-semana-que-vem-diz-cientista-politica

David neto

Concordo com a senhora, professora Cláudia, e vale lembrar que, desde o golpe contra a presidenta Dilma cresceu muito os assassinatos contra líderes camponeses, sindicalistas, indígenas e quilombolas, algo que a grande mídia não noticia, as autoridades se omitem e, infelizmente, recebe indiferença da população geral. Seria bom que todos se indignassem com cada um destes assassinatos como se indignaram, com razão, com a execução da vereadora Marielle do Rio de Janeiro.

Ana Marcia Ferreira Gianezi

Muito bom o texto! Estas ondas de preconceito precisam ser denunciadas! Os direitos humanos no Brasil estão escandalosamente em risco. A um tempo atrás a perseguição era velada, mas agora é aberta!

Bel

E a ameaça contra Fachin? Se este está sendo ameaçado, Teori não foi? Aí tem!

    leonardo-pe

    essa ameaça a Fachim é conversa Mole!

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