Carlos Fidelis: O que, afinal, queremos para o Brasil? Estamos falando sério ou nos comportando como torcida organizada?
Tempo de leitura: 9 min
Por Carlos Fidelis Ponte*, no site do Cebes
Conhecereis a verdade, e a verdade vos libertará.
João 8:32
Há momentos em que permanecer em silêncio deixa de ser prudência e significa renunciar às perguntas que uma democracia precisa fazer. Não se trata de condenar sem provas ou transformar suspeitas em sentenças, mas de usar os mesmos critérios para todos.
Se cobramos provas quando as acusações atingem nossos adversários, devemos cobrá-las também quando alcançam aqueles com quem simpatizamos. E, se consideramos legítimo investigar relações, dinheiro, patrimônio e poder do outro lado, não podemos perder subitamente a curiosidade quando os mesmos temas chegam aos nossos. Uma democracia começa a adoecer quando os princípios que proclamamos dependem do nome de quem está sendo investigado.
Flávio Bolsonaro precisa responder às perguntas produzidas por sua trajetória. Em 2003, apresentou moção de louvor ao policial militar Adriano da Nóbrega e, dois anos depois, propôs conceder-lhe a Medalha Tiradentes.
Adriano estava preso sob acusação de homicídio quando foi homenageado e mais tarde seria apontado em investigações como integrante da milícia de Rio das Pedras e ligado ao Escritório do Crime. Sua mulher e sua mãe trabalharam no gabinete de Flávio, onde Fabrício Queiroz se tornaria personagem central das investigações sobre rachadinhas.
O processo acabou arquivado após a anulação de provas relevantes, sem julgamento do mérito. Isso não equivale a condenação, mas tampouco apaga a pergunta política sobre os critérios que orientaram aquelas relações e homenagens.
Seria cômodo deixar tudo no passado. Em 2026 veio a público uma fotografia de 2022 de Flávio com Luiz Phillipi Machado de Moraes Mourão, o “Sicário”, apontado pela Polícia Federal como chefe da segurança privada de Daniel Vorcaro. Flávio afirmou não conhecê-lo e disse que poderia ter sido um pedido ocasional de fotografia.
Também se revelou que, em 2023, uma assessora de seu gabinete manteve conversas sobre emendas parlamentares com Robson Calixto, o “Peixe”, posteriormente condenado por envolvimento no assassinato de Marielle Franco. Flávio afirma que as emendas foram legais e obedeceram a critérios técnicos.
Outras proximidades apareceram no universo empresarial. A Bravo Grafeno, da qual Flávio é sócio, foi registrada no mesmo endereço utilizado por empresas relacionadas a Antônio Carlos Camilo Antunes, o “Careca do INSS”, personagem central das investigações sobre descontos irregulares de aposentados e pensionistas. Negócios ligados a Flávio também utilizaram serviços contábeis relacionados a Alexandre Caetano dos Reis, apontado como sócio de Antunes.
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Nada disso demonstra que Flávio tenha participado das fraudes do INSS ou que seja sócio do Careca. Mas o próprio Flávio utilizou o caso para levantar suspeitas sobre adversários. Por que uma proximidade parece suficiente para justificar suspeitas quando envolve o outro lado e insuficiente para justificar perguntas quando aparece perto do nosso?
Há também o dinheiro. Flávio declarou R$ 1,74 milhão em bens em 2018 e R$ 8,18 milhões em 2026 — crescimento de aproximadamente 211% em termos reais, considerada a inflação. Sua campanha atribui a evolução ao salário de senador, à advocacia e à atividade profissional da esposa.
Levantamento baseado em documentos cartoriais identificou ainda 107 imóveis negociados por Jair Bolsonaro e familiares desde os anos 1990, pelo menos 51 deles adquiridos total ou parcialmente em dinheiro. Dados do Coaf analisados pela Polícia Federal apontaram aproximadamente R$ 44,3 milhões recebidos por Jair Bolsonaro entre março de 2023 e junho de 2025, parte expressiva proveniente de Pix de apoiadores. O episódio levantou suspeitas não confirmadas da existência de um esquema para esquentar dinheiro já existente. Esses dados não constituem condenação, mas deixam perguntas: como se formou esse patrimônio, de onde vieram os recursos, como circularam e o que ainda precisa ser explicado?
A relação da família com cargos públicos acrescenta outra dimensão. Renato Bolsonaro, irmão de Jair, foi acusado em 2016 de ocupar cargo na Assembleia Legislativa de São Paulo sem prestar regularmente os serviços correspondentes e acabou exonerado.
Antes de ingressarem na política eletiva, Flávio e Eduardo ocuparam cargos comissionados de 40 horas semanais na Câmara dos Deputados, em Brasília, enquanto estudavam e mantinham atividades presenciais no Rio. Segundo a própria Câmara informou à imprensa, as funções deveriam ser exercidas em Brasília.
Não cabe transformar automaticamente esses episódios em crimes, mas perguntar como uma família que construiu parte de seu discurso na crítica aos privilégios do Estado explica formas tão particulares de utilização de cargos públicos.
E há Daniel Vorcaro. Quando vieram a público informações sobre o financiamento de Dark Horse, filme sobre Jair Bolsonaro, Flávio negou a relação e classificou a informação como “mentira”. Depois apareceram áudios, mensagens e documentos; ele reconheceu que conhecia Vorcaro, admitiu que o procurara em busca de recursos para o filme e pediu desculpas por ter omitido a relação.
Flávio negou uma relação que existia e que depois reconheceu. Naquele momento, portanto, efetivamente mentiu. Não é uma condenação criminal. É um problema político para quem fez da verdade, da moralidade e do combate à corrupção suas bandeiras. A mentira deixa de ser mentira quando é pronunciada por alguém do nosso próprio campo político?
Aos que se dizem patriotas
Patriotismo não pode ser reduzido a camiseta verde-amarela, bandeira na janela ou à repetição de “Brasil acima de tudo”. Parlamentares brasileiros atuaram no exterior em favor de sanções contra autoridades nacionais; pressões econômicas estrangeiras entraram na disputa política doméstica; chegou-se a mencionar um porta-aviões norte-americano no Lago Paranoá; minerais críticos, terras raras e o Pix apareceram em interlocuções políticas mantidas nos Estados Unidos. Diante disso, Pátria não pode continuar funcionando apenas como palavra de ordem.
Há uma imagem que resume a contradição. No 7 de Setembro, Dia da Independência do Brasil, manifestações bolsonaristas exibiram bandeiras dos Estados Unidos. Em 2025, uma enorme bandeira norte-americana foi aberta na Avenida Paulista e Eduardo Bolsonaro apresentou o gesto como agradecimento a Donald Trump. No 7 de Setembro de 2026, uma manifestação de apoiadores de Flávio reuniu novamente bandeiras dos Estados Unidos, cartazes em inglês e um gigantesco boneco de Trump.
Para quem leva a palavra Pátria a sério, há um evidente acinte simbólico em celebrar a Independência do Brasil sob a bandeira de outra potência e diante da representação monumental de seu presidente, ainda mais quando esse governo exerce pressão econômica e política sobre o país.
O Brasil não pertence à direita nem à esquerda, aos Bolsonaro ou a Lula, aos partidos, aos militares, aos empresários ou aos bancos; pertence ao conjunto de seus cidadãos. Nossos recursos estratégicos devem servir ao desenvolvimento do país e nossa política externa deve ser definida pelas instituições brasileiras.
Divergências internas são resolvidas pela Constituição, pelas eleições, pelo Parlamento, pelos tribunais e pelo debate público, não pela tutela de uma potência estrangeira.
Se a pressão estrangeira atinge nosso adversário, deixa de ser pressão estrangeira? Se interesses externos ajudam o nosso lado, deixam de ser interesses externos? Patriotismo que muda conforme o beneficiário deixa de ser princípio e passa a ser conveniência.
Deus, Pátria, Família e Liberdade
Essas palavras são grandes demais para serem reduzidas a slogans eleitorais. Quem invoca a Família para estabelecer padrões morais para os outros precisa aceitar que sua trajetória seja examinada pelos mesmos critérios. Depois da separação de Jair e Rogéria Bolsonaro, Carlos, então com 17 anos, disputou contra a própria mãe uma vaga na Câmara Municipal do Rio, a pedido do pai. Jair afirmou naquele período que nunca havia batido na ex-mulher, mas tivera vontade de “fuzilá-la várias vezes”.
Anos depois, documento do Itamaraty registrou relato de Ana Cristina Valle, sua segunda mulher, de que teria deixado o Brasil após ameaça de morte atribuída a Bolsonaro numa disputa pela guarda do filho; em 2018, ela negou que a ameaça tivesse ocorrido.
Michelle Bolsonaro entra nessa discussão porque se tornou liderança política e fez da defesa de determinada concepção cristã e conservadora de família parte de sua atuação pública. Jair está em seu terceiro casamento e houve conflitos públicos com antigas companheiras.
Em 2025, Joice Hasselmann afirmou que Michelle teria iniciado o relacionamento com Jair quando ele ainda era casado. Michelle recorreu à Justiça contra as declarações e teve decisões desfavoráveis a seus pedidos, sem que isso signifique que o Judiciário tenha declarado verdadeira a acusação.
Algo semelhante ocorre com Jair Renan. Seu ex-assessor Diego Pupe afirmou em 2023 que ambos teriam mantido um relacionamento amoroso; Jair Renan negou e declarou-se heterossexual. A alegação permanece contestada. Mas o ponto político independe de saber quem diz a verdade sobre essa relação.
Jair Bolsonaro fez declarações depreciativas sobre a homossexualidade, inclusive ao falar da possibilidade de ter um filho gay. Se Jair Renan tivesse mantido uma relação com outro homem, nada haveria nisso que o diminuísse ou desabonasse sua família. Se nunca manteve, o princípio permanece: por que a orientação sexual de qualquer filho deveria ser motivo de vergonha, rejeição ou inferiorização?
A família Bolsonaro é complexa, como são as famílias reais. Separações, novos casamentos, conflitos e diferentes trajetórias afetivas fazem parte da vida. A contradição está em defender um ideal de família que a própria experiência concreta mostra ser insuficiente para descrever a diversidade das famílias reais e utilizá-lo como régua moral para julgar quem vive de outra maneira.
Michelle não precisa corresponder a uma “família tradicional” idealizada para que sua família mereça respeito. Jair Renan não precisa provar sua heterossexualidade para ser respeitado.
O mesmo critério vale para Pátria, Liberdade e Deus. Quem proclama a Liberdade precisa reconhecê-la para quem pensa diferente, para a imprensa que incomoda, para a oposição que fiscaliza e para instituições que decidem contra seus interesses.
A fé individual, por mais importante que seja, não pode converter-se em autoridade sobre toda a sociedade. Deus, Pátria, Família e Liberdade podem orientar valores e escolhas pessoais, mas não podem se sobrepor à Constituição, ao Estado laico e ao republicanismo.
Nenhuma família é proprietária da Pátria, nenhuma religião é proprietária do Estado, nenhum partido é proprietário da liberdade e nenhum governante é proprietário da República.
E a nossa saúde?
Para quem compreende a saúde em seu sentido mais amplo, como resultado das condições concretas em que vivemos, trabalhamos, nos relacionamos e projetamos o futuro, esse ambiente também precisa ser interrogado por seus efeitos sobre a vida.
Uma sociedade submetida diariamente a mentiras, meias verdades, manipulações e estratégias de desorientação, na qual o debate público mobiliza com frequência o ódio, o rancor, o preconceito e o ressentimento, não atravessa tudo isso sem consequências.
A incerteza permanente, a sensação de ameaça, o medo do que pode acontecer amanhã e a dificuldade crescente de distinguir fatos de versões alimentam apreensão, angústia e ansiedade, deterioram vínculos de confiança e tornam mais difícil reconhecer no outro alguém com quem ainda é possível compartilhar um destino comum.
Saúde não é apenas ausência de doença, nem saúde mental pode ser reduzida ao sofrimento individual de cada pessoa: ambas dependem também da qualidade das relações sociais, da possibilidade de viver sem medo e da existência de algum horizonte de segurança, pertencimento e esperança.
Quando o futuro deixa de parecer minimamente seguro e generoso, quando a política passa a organizar afetos sobretudo pelo medo e pela hostilidade e quando a própria realidade se torna objeto de disputa permanente, devemos perguntar que efeitos estamos produzindo sobre nossa saúde física, mental e emocional, sobre a capacidade da sociedade de cuidar de si mesma e sobre o mundo que estamos deixando para nossos filhos e netos.
O que ficou para a sociedade?
Depois de quase quatro décadas de presença da família Bolsonaro na política, há uma pergunta que não deveria ofender ninguém: qual patrimônio público corresponde a tanto poder acumulado?
Jair Bolsonaro exerceu sete mandatos de deputado federal e chegou à Presidência; Flávio passou pela Assembleia Legislativa e chegou ao Senado; Carlos permaneceu por décadas na Câmara Municipal do Rio; Eduardo chegou à Câmara dos Deputados; Jair Renan tornou-se vereador. Foram muitos anos, mandatos e acesso às instituições. Importa saber não apenas o que essa família acumulou politicamente, mas o que a sociedade acumulou em consequência dessa longa presença no poder.
O Rio de Janeiro oferece o teste mais concreto. Foi ali que essa trajetória começou e consolidou sua principal base política, enquanto o estado atravessava violência, crises fiscais e expansão de organizações criminosas.
Uma família que fez da segurança pública uma de suas principais bandeiras pode ser examinada também pelo que deixou: que contribuição estrutural produziu para reduzir a violência, recuperar territórios dominados por grupos armados e enfrentar as bases econômicas das milícias e do crime organizado? Que Rio de Janeiro essa longa presença política ajudou efetivamente a construir? Depois de Jair Bolsonaro chegar à Presidência, a pergunta se amplia: o que ficou para o Brasil?
A pergunta que não podemos evitar
Cada episódio pode ter uma explicação particular: escolhas ruins, ingenuidade, coincidências ou simples azar. O problema aparece quando precisamos recorrer repetidamente a essas explicações para compreender uma trajetória inteira. O acaso explica um encontro; torna-se menos convincente quando relações controversas reaparecem durante décadas, dinheiro, patrimônio e poder voltam a se encontrar e disputas domésticas atravessam fronteiras para alcançar interesses estratégicos do país.
Surge então uma hipótese mais difícil: a intencionalidade. A repetição não prova que determinadas relações tenham sido conscientemente construídas para alcançar objetivos ilícitos ou privados; responsabilidade dessa natureza exige provas. Mas não faz sentido exigir que a intenção esteja previamente demonstrada para admitir que seja investigada. Quando um padrão se repete, cabe perguntar se existe uma lógica consciente ligando pelo menos parte desses episódios. A resposta depende de investigação, transparência e prova.
Este texto não se dirige apenas a Flávio Bolsonaro ou à sua família. Diz respeito também a nós, brasileiros, sobretudo quando nos apresentamos como patriotas e democratas. Um princípio revela sua consistência quando aplicá-lo contraria nossos interesses.
A Pátria vale também quando protegê-la significa contrariar nosso próprio campo político?
A democracia vale quando suas instituições decidem contra nós?
A defesa da família vale para todas as famílias ou serve para vigiar a vida dos outros?
A verdade continua sendo verdade quando nos prejudica, e a mentira continua sendo mentira quando beneficia alguém de quem gostamos?
Não precisamos pensar da mesma maneira. Precisamos aceitar que as regras sejam comuns.
Uma democracia começa a se perder quando cada grupo considera intolerável no adversário aquilo que aceita no aliado, quando patriotismo se confunde com facção, religião se transforma em credencial de poder e a verdade depende de quem fala.
Flávio Bolsonaro precisa responder às questões produzidas por sua trajetória; sua família precisa responder pelo que fez no exercício do poder; as instituições precisam investigar aquilo que houver para investigar; e nós, brasileiros, precisamos responder a uma questão ainda maior: o que, afinal, queremos para o Brasil e que República estamos dispostos a defender quando o preço de defendê-la é aplicar aos nossos próprios aliados os mesmos princípios que exigimos de nossos adversários?
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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