Reynaldo Aragon: Presidente Lula, o Brasil precisa saber o que está acontecendo

Tempo de leitura: 5 min
Presidente Lula. Foto: Marcelo Camargo/Agência Brasil

Pressões externas, disputa cognitiva e soberania colocam no centro da crise uma questão maior que a eleição: como o Estado brasileiro informa sua própria sociedade sobre ameaças à autodeterminação nacional.

Por Reynaldo Aragon*, no Código Aberto

Processos judiciais podem apurar responsabilidades, mas não substituem o debate público. Diante de fatos que ultrapassam a disputa eleitoral, este artigo examina por que a comunicação presidencial sobre soberania, ingerência externa e integridade democrática tornou-se uma questão de Estado.

Quando a disputa deixa de ser apenas eleitoral

Há momentos em que recorrer à Justiça é indispensável. Há outros em que a dimensão jurídica já não consegue, sozinha, dar conta do problema. O Brasil parece ter chegado a um desses momentos.

O que está acontecendo ao redor da eleição de 2026 não pode ser reduzido à disputa entre Lula e Flávio Bolsonaro, nem permanecer confinado aos autos de processos que serão acompanhados por uma parcela pequena da sociedade.

Existem fatos documentados envolvendo o governo dos Estados Unidos, instituições brasileiras, tarifas, sanções e referências diretas ao processo eleitoral do país. Isso precisa ser compreendido sem exagero, sem paranoia e sem transformar aquilo que ainda está sob investigação em certeza conveniente.

Em 30 de julho de 2025, Donald Trump assinou a Ordem Executiva 14323 e declarou uma emergência nacional em relação ao Brasil. No documento, o governo norte-americano afirmou que ações de autoridades brasileiras constituíam uma ameaça extraordinária à segurança nacional, à política externa e à economia dos Estados Unidos.

A mesma ordem acusou autoridades brasileiras de perseguirem Jair Bolsonaro e afirmou que esse tratamento ameaçava a capacidade do Brasil de realizar uma eleição presidencial livre e justa em 2026. A medida também elevou em mais 40 pontos percentuais as tarifas sobre determinados produtos brasileiros. Um ano depois, em julho de 2026, Trump prorrogou a emergência nacional por mais doze meses.

No mesmo dia da ordem de 2025, o Departamento do Tesouro sancionou Alexandre de Moraes. Entre as justificativas apresentadas oficialmente por Washington estavam processos relacionados a Jair Bolsonaro.

Não é necessário aceitar a interpretação política do governo norte-americano para reconhecer o fato central. Instrumentos econômicos e jurídicos de uma potência estrangeira foram mobilizados em resposta a acontecimentos políticos e judiciais internos do Brasil.

Apoie o VIOMUNDO

Meses depois surgiu outro episódio que merece atenção. Durante as negociações realizadas após a imposição das tarifas, um documento enviado por representantes do governo norte-americano às autoridades brasileiras, revelado pelo Estado de S. Paulo e posteriormente confirmado pela Folha de S.Paulo, apresentou 21 demandas. Entre elas estava a exigência de que o Brasil permitisse a participação de supostos dissidentes políticos nas eleições de 2026.

O documento circulou no Itamaraty e foi devolvido por determinação do ministro Mauro Vieira. Isso não demonstra a existência de um plano norte-americano para controlar a eleição brasileira. Dizer isso sem prova seria irresponsável. O que está comprovado já é suficientemente grave. O processo eleitoral de um país soberano entrou numa negociação bilateral conduzida em meio a forte pressão econômica.

Agora apareceu outra camada. Contas estrangeiras publicaram no X conteúdos identificados pela própria plataforma como parceria paga, promovendo a ascensão de Flávio Bolsonaro nos mercados de previsão da Polymarket.

A Folha identificou pelo menos onze perfis. A campanha de Flávio Bolsonaro disse desconhecer os anúncios. O responsável final pelos pagamentos não estava identificado nas publicações e, até agora, não há prova pública de que a campanha tenha contratado, financiado ou coordenado aquela operação. O caso chegou ao TSE por iniciativa do partido Missão.

Essa distinção é decisiva. O que está comprovado precisa ser tratado como fato. O que está sendo investigado deve permanecer como investigação. E o que aparece apenas como conexão possível precisa continuar sendo hipótese. É justamente esse cuidado que separa uma investigação séria da propaganda.

Estudo guerra híbrida e operações psicológicas há muitos anos e uma questão sempre retorna quando observo processos desse tipo. O tempo da Justiça e o tempo da percepção humana são profundamente diferentes.

A Justiça investiga, confronta versões, produz provas, ouve as partes e somente depois decide. A percepção social não espera esse percurso terminar. Ela vai sendo construída enquanto os acontecimentos ainda estão em movimento.

As pessoas não recebem a realidade inteira, organizada e explicada. Recebem fragmentos. Uma manchete, um vídeo, um recorte de fala, uma postagem, uma acusação, uma resposta, uma informação verdadeira ao lado de outra duvidosa. É desse material incompleto que começamos a construir uma explicação sobre aquilo que está acontecendo.

Quando uma narrativa consegue organizar primeiro esses fragmentos, ela passa a oferecer a moldura através da qual os acontecimentos seguintes serão interpretados. É aí que a disputa deixa de ser apenas informacional e alcança o terreno da percepção.

Por isso judicializar e comunicar não são a mesma coisa. Uma ação no TSE pode ser juridicamente necessária e, ao mesmo tempo, incapaz de produzir compreensão social. Existe pesquisa científica importante sobre esse problema.

Experimentos realizados também no Brasil mostraram que oferecer antecipadamente informação factual e verificável sobre a segurança das eleições aumentou a confiança no processo eleitoral e reduziu crenças falsas sobre fraude. O resultado mais interessante foi outro. O efeito não dependia simplesmente de avisar as pessoas de que alguém tentaria manipulá-las. A força estava principalmente na informação concreta que elas recebiam.

Isso muda profundamente a maneira de pensar uma resposta democrática.

Não se trata de ensinar o povo a pensar. Muito menos de dizer em quem deve acreditar. Trata-se de reconhecer que cidadãos conseguem formar seus próprios julgamentos quando dispõem dos fatos necessários para fazê-lo. Mostrar documentos. Explicar decisões. Tornar públicas pressões diplomáticas. Dizer o que foi apresentado ao Brasil, o que o país recusou, aquilo que está sendo investigado e aquilo que ainda não pode ser afirmado.

É nesse ponto que a situação deixa de pertencer apenas à campanha eleitoral. Lula é candidato, mas continua sendo presidente da República. As duas funções não podem ser confundidas.

A comunicação eleitoral pertence à campanha. A informação sobre relações entre Estados, soberania nacional e decisões estrangeiras que atingem instituições brasileiras pertence a outro campo.

Há uma diferença enorme entre propaganda e comunicação de Estado. Propaganda tenta conduzir o cidadão a uma conclusão. Comunicação pública responsável apresenta informação verificável e reconhece inclusive aquilo que o próprio Estado ainda não sabe.

O silêncio também produz efeitos. Em ambientes de disputa informacional, ele abre espaços que quase nunca permanecem vazios. São ocupados por versões, boatos, simplificações, medo e propaganda.

Quando isso acontece, a sociedade começa a compreender acontecimentos objetivos não necessariamente a partir dos fatos disponíveis, mas a partir de quem conseguiu oferecer primeiro uma explicação para eles.

É por isso que a questão colocada diante do Brasil neste momento é maior do que a candidatura de Lula e maior do que a candidatura de Flávio Bolsonaro.

Um governo estrangeiro declarou formalmente uma emergência nacional contra o Brasil, vinculou o tratamento dado a um ex-presidente à capacidade brasileira de realizar eleições livres em 2026, aplicou sanções, elevou tarifas e apresentou numa negociação bilateral exigências que alcançavam o processo político brasileiro. Agora, conteúdos pagos publicados por perfis estrangeiros entraram no ambiente eleitoral e estão sob questionamento na Justiça.

Nada disso, isoladamente, prova uma operação coordenada para decidir a eleição brasileira. Mas o conjunto é suficientemente sério para que a sociedade conheça cada fato, cada documento e cada limite daquilo que sabemos.

Esse é o ponto que não deveria se perder no calor da campanha.

A soberania brasileira não pertence a Lula. Não pertence ao PT. Não pertence ao Supremo Tribunal Federal. Não pertence às Forças Armadas e não pertence a qualquer candidato.

Pertence ao povo brasileiro.

E, quando acontecimentos externos alcançam diretamente a capacidade de uma sociedade escolher seu próprio caminho, conhecer o que está acontecendo deixa de ser apenas uma questão de informação.

Passa a ser parte da própria soberania.

Democracia não é apenas poder votar. É também saber em que ambiente estamos fazendo nossas escolhas.

*Reynaldo Aragon é jornalista especializado em geopolítica da informação e da tecnologia, com foco nas relações entre tecnologia, cognição e comportamento. Editor do codigoaberto.net . É pesquisador do Núcleo de Estudos Estratégicos em Comunicação, Cognição e Computação (NEECCC – INCT DSI) e integra o Instituto Nacional de Ciência e Tecnologia em Disputas e Soberania Informacional (INCT DSI), onde investiga os impactos da tecnopolítica sobre os processos cognitivos e as dinâmicas sociais no Sul Global.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

Leia também

Reynaldo Aragon: E se Lula ganhar a eleição? A disputa pelo dia seguinte já começou

Reynaldo Aragon: O século XXI segundo Lula — soberania em tempos de guerra híbrida

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também