Carlos Fidelis: Fraude a vista? Crescimento de Cury nas pesquisas exige investigação imediata

Tempo de leitura: 7 min
Candidato à Presidência da República Augusto Cury (Avante) no debate da Band, em 23 de agosto Foto: Renato Pizzutto/Band

O crescimento fora da curva de Augusto Cury exige investigação urgente

Por Carlos Fidelis Ponte*

Augusto Cury cresceu, e cresceu muito. Isso é fato. Mas quase 2,5 milhões de novos seguidores no Instagram em poucos dias, com cerca de 1,2 milhão em apenas um deles? Isso já é outra coisa. É um crescimento extraordinário, muito superior ao registrado por outras das principais candidaturas comparadas no mesmo período. E precisa ser explicado.

Cury apareceu mais, participou de debates, deu entrevistas e despertou curiosidade. Tudo isso certamente contribuiu. Mas explica quase 2,5 milhões de novos seguidores em poucos dias e 1,2 milhão em apenas 24 horas? Maior visibilidade pode explicar parte do fenômeno. Tomá-la como prova de que todo esse crescimento ocorreu naturalmente é outra história.

De acordo com informações da imprensa, o Google Trends registrou ainda picos de interesse pelo nome de Cury em países como Estados Unidos, Reino Unido, Espanha, Bolívia, Índia e Vietnã.

Isso não significa que os novos seguidores do Instagram sejam estrangeiros, muito menos falsos ou automatizados. São coisas diferentes. Mas também não faz sentido ignorar esses picos justamente quando a conta do candidato cresce de forma tão abrupta.

Há outro dado que merece atenção. Em levantamento sobre a circulação de mensagens em aplicativos, Cury apareceu, entre os seis presidenciáveis analisados, com o maior índice de mensagens enviadas por usuários classificados como de comportamento automatizado.

O próprio levantamento ressalva, porém, que esse padrão já era alto para todos os candidatos. Isso não prova que sua campanha tenha contratado robôs nem estabelece relação com o crescimento de seguidores no Instagram. Mas acrescenta um elemento ao quadro que merece investigação.

É preciso saber se houve participação de robôs, contas falsas, perfis inautênticos ou redes coordenadas de amplificação. Esses mecanismos não servem apenas para inflar números. Podem multiplicar menções, comentários, compartilhamentos e visualizações, fazendo determinados conteúdos circularem muito mais. E números elevados de seguidores, curtidas e compartilhamentos também funcionam como sinais de popularidade.

Se houve amplificação artificial, seu efeito não termina nos robôs. Ela pode aumentar a visibilidade de uma candidatura, despertar curiosidade, gerar cobertura jornalística e atrair pessoas reais. Aquilo que eventualmente começou de forma artificial pode ganhar vida própria e produzir efeitos concretos na disputa.

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Em “Essa não é uma eleição justa”, chamei atenção para um problema que antecede o próprio voto: uma eleição também se decide nas condições em que os cidadãos recebem informações, formam suas opiniões, avaliam candidatos e escolhem em quem confiar.

O crescimento extraordinário de Cury não prova manipulação, mas oferece razões concretas para investigar se estamos diante de um desses casos.

Dinheiro sempre pesou nas eleições. A novidade é que, combinado com tecnologia, dados e conhecimento das plataformas, pode comprar presença, repetição e alcance e, em certas condições, ajudar a produzir a aparência de uma popularidade que talvez ainda não exista.

É claro que dinheiro também paga produção de conteúdo, impulsionamento autorizado, análise de dados e segmentação de públicos. Nada disso é, por si, ilícito quando feito dentro das regras. O problema começa quando dinheiro e tecnologia são usados para enganar, esconder a origem de conteúdos ou fabricar artificialmente relevância, apoio ou popularidade.

O risco não é teórico, muito menos retórico. O escândalo da Cambridge Analytica mostrou o poder de combinar grandes bases de dados, conhecimento do comportamento dos usuários e tecnologia para construir perfis de eleitores e direcionar mensagens políticas. Dados pessoais de dezenas de milhões de usuários do Facebook foram obtidos por práticas consideradas enganosas.

O caso não prova coisa alguma sobre o Brasil de hoje, mas deixou uma advertência: dados, dinheiro e tecnologia podem ampliar enormemente a capacidade de conhecer, segmentar e influenciar públicos.

O Brasil também já conhece esse problema. Em plena eleição de 2018, a Folha de São Paulo revelou uma estrutura de disparos em massa pelo WhatsApp e informou que empresários financiavam pacotes de mensagens contra o PT que beneficiavam Jair Bolsonaro.

Reportagens posteriores trouxeram novos elementos, como uso irregular de bases de dados, chips registrados com informações de terceiros e mecanismos automatizados de envio. As ações contra Bolsonaro e Hamilton Mourão acabaram julgadas improcedentes pelo Tribunal Superior Eleitoral por insuficiência de provas para responsabilizá-los.

O TSE, entretanto, estabeleceu que disparos em massa contendo desinformação e inverdades podem, conforme sua gravidade, configurar abuso de poder econômico e uso indevido dos meios de comunicação. A lição é simples: depois da eleição, reconstruir autoria, financiamento e alcance de uma operação digital pode ser muito mais difícil.

Isso não vale apenas para Augusto Cury. O mesmo critério precisa valer para qualquer candidatura. O risco aumenta quando dinheiro e tecnologia se juntam à disposição de espalhar informações falsas ou meias-verdades, explorar medos e ressentimentos, recorrer à demagogia, fabricar controvérsias e trocar o confronto de propostas pela provocação permanente.

O resultado está diante de nós: um debate público marcado pelo cinismo e muitas vezes transformado em espetáculo de gosto duvidoso, no qual chamar atenção vale mais do que dizer a verdade. O problema se agrava quando veículos de informação, em vez de investigar, confrontar afirmações com os fatos e expor práticas nocivas, limitam-se a reproduzir declarações e controvérsias, ampliando seu alcance e contribuindo para a manipulação do debate público.

Nesse ambiente, a disputa deixa de ser o que deveria: um confronto entre projetos e visões de país. Passa a importar também quem consegue ocupar as ruas e as redes, pautar a imprensa, definir os assuntos que ganharão maior atenção e repetir mensagens até que adquiram familiaridade e aparência de verdade.

Quando dinheiro, tecnologia e conhecimento das plataformas se encontram com a disposição de manipular, o que está em jogo é a própria formação da vontade política.

O Rio de Janeiro já mostrou como uma candidatura praticamente desconhecida pode crescer em velocidade impressionante nos momentos finais de uma eleição.

Em 2018, Wilson Witzel começou a campanha com cerca de 1% das intenções de voto e chegou ao primeiro turno com 41,28% dos votos válidos. Na última semana antes da votação, as buscas por seu nome no Google cresceram 19 vezes, enquanto sua candidatura ganhava circulação nas redes e em grupos de WhatsApp ligados ao bolsonarismo.

Pesquisa posterior do Datafolha mostrou que 23% dos eleitores decidiram o voto para governador apenas no fim de semana da eleição. Embora, surpreendente, nada disso demonstra, sem sombras de dúvidas, que o crescimento de Witzel tenha sido artificial ou resultado de fraude.

Mostra algo diferente e particularmente importante para a discussão atual: em ambientes políticos fortemente conectados, uma onda de visibilidade pode ganhar enorme velocidade e se converter, em poucos dias, em votos reais.

Dizer que Cury também cresceu nas pesquisas, portanto, não encerra a discussão. Crescimento político real e eventual amplificação artificial não são incompatíveis. No BTG/Nexus, Cury passou de 2% para 11%; no AtlasIntel/Bloomberg, de 1,6% para 7,8%. Um crescimento eleitoral real. O que não sabemos é se ele basta para explicar a dimensão e, sobretudo, a velocidade do salto digital.

Não há, até agora, prova pública de fraude nem demonstração de que a campanha de Augusto Cury tenha contratado, financiado ou coordenado robôs. A candidatura nega irregularidades, e qualquer responsabilidade só pode ser atribuída com provas. Mas daí a concluir que tudo isso é normal vai uma enorme distância.

Ausência de prova conclusiva não pode virar presunção de normalidade. Não sejamos ingênuos, sobretudo depois de tudo o que o país viveu nos últimos anos, inclusive uma tentativa de ruptura da ordem democrática. Como não estar atentos, por exemplo, à possibilidade de vazamentos seletivos de informações, manipulações digitais ou outras operações destinadas a interferir na disputa eleitoral?

Quando os números fogem tanto do normal, dizer apenas que o candidato “apareceu mais” não basta.

Debates, entrevistas, curiosidade e a possibilidade de ter furado a polarização podem explicar parte do crescimento. Mas explicam tudo isso? A maior exposição pública precisa ser considerada, mas não pode funcionar como certificado automático de organicidade.

Afinal, quem são esses quase 2,5 milhões de novos seguidores? De onde vieram? Quando suas contas foram criadas? Como se comportam? Há padrões compatíveis com automação ou atuação coordenada?

Para saber, será preciso investigar — e provavelmente ter acesso a dados que hoje só a Meta possui. Se aparecerem redes artificiais, surgem outras perguntas: quem as organizou, quem as financiou e quem delas se beneficiou?

A resposta precisa vir em caráter de urgência máxima. Uma eventual manipulação digital pode gerar notícias, mudar a percepção de que uma candidatura se tornou competitiva, mobilizar apoiadores e transformar visibilidade em novas adesões.

Quanto mais tempo permanecer operando, maior a possibilidade de seus efeitos se incorporarem à própria disputa. E o tempo é curto: estamos a poucas semanas das eleições.

Investigar depois da eleição pode esclarecer o que aconteceu. Mas pode ser tarde demais. Se uma rede automatizada tiver ajudado a criar uma onda de popularidade que já influenciou a opinião pública e conquistou seguidores reais, não existe botão capaz de simplesmente desfazer seus efeitos.

Por isso, é necessária uma investigação técnica independente, imediata e transparente. É preciso reconstruir a curva de crescimento, especialmente nas horas em que ocorreu o salto de aproximadamente 1,2 milhão de seguidores, examinar as novas contas e procurar padrões anormais de criação, atividade, sincronização, automação ou coordenação. Se aparecerem evidências de atuação artificial, será indispensável seguir o dinheiro e descobrir quem organizou, financiou e se beneficiou da operação.

Uma investigação rápida protege inclusive o próprio Cury. Se os dados mostrarem que o crescimento foi predominantemente orgânico, uma apuração independente poderá afastar as suspeitas. Não se pode presumir fraude. Mas também não faz sentido presumir organicidade diante de um fenômeno dessa magnitude. O extraordinário exige explicação.

Há anomalias concretas e razões suficientes para investigar. O problema é maior do que uma candidatura. Trata-se de proteger a integridade da eleição e saber se os sinais de popularidade que chegam aos eleitores são autênticos ou se houve interferência de robôs, contas falsas ou inautênticas ou redes coordenadas. E de impedir que dinheiro e tecnologia a serviço da mentira e da manipulação deem vantagem a quem estiver disposto a disputar eleições sem compromisso com a verdade e com a qualidade do debate democrático.

Esta não é uma eleição qualquer. O Brasil chega a 2026 em meio a fortes disputas geopolíticas, à expansão da desinformação e ao enorme poder das plataformas digitais sobre a circulação de informações.

As próprias relações entre Brasil e Estados Unidos já entraram na disputa eleitoral, e as posições do governo Trump em relação à política brasileira tornam impossível ignorar a dimensão internacional do pleito. Isso não prova qualquer operação estrangeira para interferir na eleição. Significa que a vigilância precisa alcançar tentativas de manipulação, venham elas de dentro ou de fora do país.

Quando os números estão tão fora da curva, investigar não é perseguição: é obrigação democrática. E, nesta eleição, descobrir depois pode ser tarde demais. Resta a esperança de que, diante da mentira, da manipulação e do ruído que contaminam o debate público, os eleitores encontrem condições para distinguir aparência de realidade e façam suas escolhas à luz de seus interesses concretos, das necessidades da maioria da população e dos desafios do país. Porque algoritmos, redes coordenadas, perfis falsos, contas manipuladas e operações artificiais de popularidade podem influenciar a formação da vontade do eleitor, alterar percepções, induzir escolhas e mudar o resultado de uma eleição — certamente em favor de interesses bastante distantes do país democrático, soberano, inclusivo e socialmente justo que queremos construir.

*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde, membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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