Carlos Fidelis: As eleições mais roubadas da história

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Denúncias de falta de transporte, constrangimento de eleitores e tentativas de impedir o exercício do voto revelam uma ameaça à democracia que não pode ser naturalizada.

Por Carlos Fidelis Ponte*, no site do Cebes

Uma eleição não é roubada apenas quando alguém adultera urnas ou falsifica resultados. Também se compromete a legitimidade de uma disputa quando cidadãos são impedidos de chegar às seções eleitorais, quando o transporte público deixa de atender quem mais precisa, quando eleitores são intimidados por suas preferências políticas ou quando o exercício de um direito constitucional se transforma numa corrida de obstáculos.

É precisamente por isso que as denúncias de restrições ao transporte e de constrangimento de eleitores precisam ser investigadas com o máximo rigor. Não basta garantir que os votos depositados nas urnas sejam corretamente contados. É indispensável assegurar que todos tenham condições reais de votar.

O Brasil já conhece os efeitos perversos dessas práticas. Em 2022, operações da Polícia Rodoviária Federal no segundo turno, especialmente no Nordeste, provocaram uma grave controvérsia sobre a utilização do aparato estatal para dificultar o deslocamento de eleitores.

O episódio mostrou como a interferência na circulação das pessoas pode atingir o coração do processo democrático sem que seja necessário tocar numa única urna eletrônica.

Quando a liberdade de votar depende da renda, do lugar onde se mora ou da disposição de agentes públicos para cumprir a lei, a igualdade política deixa de ser um direito efetivo e passa a ser uma promessa formal.

As denúncias de constrangimento e impedimento do voto atribuídas a apoiadores do bolsonarismo também exigem atenção. A intimidação política, a pressão sobre trabalhadores, as ameaças e as tentativas de controlar a manifestação da vontade popular são incompatíveis com eleições livres.

Cada ocorrência precisa ser documentada, investigada e individualizada, com responsabilização dos envolvidos quando houver comprovação. A disputa eleitoral não concede a ninguém o direito de selecionar quem poderá participar dela.

Neste domingo, 25 de outubro de 2026, a gravidade dessas preocupações ganhou uma dimensão nacional. Denúncias de falta de ônibus, redução de frotas e dificuldades de deslocamento surgiram em diferentes estados.

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Em São Paulo, a Justiça determinou a circulação integral da frota. Em Sergipe, houve ordem judicial para recompor o transporte intermunicipal. Em Salvador, a situação foi ainda mais grave: o Tribunal Regional Eleitoral da Bahia determinou a recomposição imediata dos ônibus e a prisão em flagrante do secretário municipal de Mobilidade, diante de evidências de redução do serviço. A prefeitura apresentou sua versão, atribuindo parte dos problemas à presença de propaganda eleitoral nos veículos.

Não estamos falando de um problema administrativo qualquer. A legislação eleitoral determina a oferta de transporte coletivo gratuito, com frequência equivalente à dos dias úteis.

Mesmo assim, eleitores enfrentaram longas esperas e dificuldades para chegar às urnas. A campanha de Lula solicitou a ampliação do horário de votação nas localidades afetadas, enquanto o TSE reconheceu problemas pontuais e afirmou que estavam sendo corrigidos.

A questão central, entretanto, permanece: quantas pessoas deixaram de votar porque não conseguiram chegar a tempo?

Há uma ironia particularmente revoltante nessa história. O bolsonarismo passou anos alimentando suspeitas sobre as urnas eletrônicas, mesmo sem demonstrar fraude na apuração.

Agora, diante de denúncias concretas de obstáculos ao exercício do voto, o que está em discussão não é a confiabilidade das máquinas, mas a possibilidade de cidadãos terem sido privados de participar da eleição.

É necessário investigar se houve ações deliberadas de agentes políticos, gestores ou apoiadores de candidaturas para restringir a participação popular. Atribuir responsabilidades exige provas, mas a gravidade das ocorrências não permite complacência.

O roubo mais perverso de uma eleição pode acontecer antes da contagem dos votos: quando se retira de um cidadão a possibilidade de votar. Se ficar comprovado que houve ações organizadas para impedir ou dificultar o comparecimento de eleitores, estaremos diante de um ataque direto à soberania popular.

A democracia não pode aceitar que a participação política dos brasileiros seja condicionada à conveniência dos governantes ou aos interesses de quem disputa o poder. O voto pertence ao cidadão, não aos prefeitos, empresários, policiais ou candidatos. E quem deliberadamente impede seu exercício precisa responder por isso.

A expressão as eleições mais roubadas da história traduz a indignação diante dessas denúncias, embora ainda não existam elementos para estabelecer essa comparação histórica ou dimensionar quantos votos foram efetivamente impedidos.

O que já se pode afirmar é suficientemente grave: uma eleição em que cidadãos precisam lutar para conseguir chegar às urnas exige investigação, reparação dos direitos violados e responsabilização dos culpados.

Não se pode permitir que a vontade popular seja sequestrada antes mesmo de ser expressa.

*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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