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Diário da Resistência


Cappelli: Temer colocou um abacaxi no colo da esquerda
17/02/2018 Reunião de trabalho sobre segurança (Rio de Janeiro - RJ, 17/02/20) Palavras do Presidente da República, Michel Temer. Foto: Alan Santos/PR
Política

Cappelli: Temer colocou um abacaxi no colo da esquerda


18/02/2018 - 19h45

Esquerda está com um abacaxi no colo. Como descascá-lo?

por Ricardo Cappelli*

Vamos aos fatos. O governador do estado declara durante o carnaval que perdeu o controle.

São espalhadas imagens impressionantes de violência. O governo federal decide intervir.

A pesquisa indica 80% de apoio popular à medida, 59% acreditam que irá melhorar.

O próprio chefe do poder executivo estadual apóia a intervenção. Como ser contra?

É preciso reconhecer, o adversário marcou um gol na política.

E a resposta precisa ser na política também, com inteligência e frieza. Teses acadêmicas não vão resolver.

O Maracanã lotado está vibrando com o gol, posar de chorão reclamando de um impedimento que só você está vendo, infelizmente, será muito pouco produtivo.

Imagine que você é morador do estado.

O fato é que a sensação de insegurança bateu no teto. Se foi promovida ou não é outro assunto. Ela é real.

O exército é uma instituição muito mais confiável para a população que a PM. Fato.

No meio deste caos, com sua família ameaçada, você vai ser contra o exército nas ruas?

A bandidagem, sempre que o exército vai para as ruas, costuma se encolher. É uma reação natural.

Sabem que é temporário, encolhem e esperam a tropa ir embora. A tendência é que no curto prazo realmente surta algum efeito.

É um jogo político, obviamente. Apesar disto, quem está com medo quer uma solução imediata.

A tal solução estruturante, de longo prazo, que é o correto, para quem está com medo fica parecendo papo de acadêmico, infelizmente.

O terreno da segurança pública em momentos de crise, costuma colocar a esquerda na defensiva, um eterno problema.

A Globo montou um forte aparato de apoio à medida.

É uma agenda que arrasta o debate público para um terreno tradicionalmente favorável ao discurso conservador.

Repressão ao crime, à corrupção, vai tudo moldando uma agenda e desviando o debate da agenda econômica, a questão central.

Entra em cena a velha estratégia de aparentar tratar com firmeza o doente com uma mão enquanto, com a outra, se espalha a doença tornando-a endêmica.

A intervenção vai resolver a questão? Claro que não. Pode dar resultado daqui até as eleições?

É uma possibilidade real. E como tal deve ser tratada e calculada politicamente.

O Plano Cruzado elegeu 22 governadores do PMDB e dobrou a bancada do partido. Desmoronou após as eleições. Já estavam todos eleitos.

Como jogar na política sem brigar com a população, sem ignorar a realidade objetiva?

Não adianta dizer que é aprofundamento do golpe, que é medida eleitoreira, que é factóide e etc.

É tudo isso, mas para quem está com medo o que temos para apresentar como alternativa objetiva?

Votamos contra propondo que alternativa no curto prazo para resolver uma situação de calamidade onde o próprio chefe local jogou a toalha?

O risco de isolamento se optar apenas pela negação é imenso. Considerar a medida necessária diante do caos denunciando as questões de fundo?

Não há saída ou posição fácil. Temer colocou um abacaxi no colo da esquerda. Como descascá-lo?”

*Ricardo Cappelli é secretário da representação do governo do Maranhão em Brasília e foi presidente da União Nacional dos Estudantes

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6 comentários

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Messias Franca de Macedo

19 de fevereiro de 2018 às 08h26

“Um dia me dei conta. Os nossos soldados atentos, preocupados – são vielas –, armados. E passando crianças, senhoras, eu pensei: ‘Estamos aqui apontando arma para a população brasileira’. Nós somos uma sociedade doente. E lá ficamos 14 meses. Do dia em que saímos, uma semana depois tudo havia voltado ao que era antes. Então, temos que realmente repensar esse modelo de emprego, porque é desgastante, perigoso e inócuo. Não gostamos desse tipo de emprego.”
Por general Eduardo Dias da Costa Villas Bôas, atual comandante do Exército
18/02/2018

(…)

FONTE [LÍMPIDA!]: https://jornalggn.com.br/noticia/%E2%80%9Cnao-gostamos-desse-tipo-de-emprego%E2%80%9D-disse-villas-boas-sobre-exercito-na-seguranca-publica

e aqui
https://www.youtube.com/watch?v=ETnFVSc7b04

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Fernando

19 de fevereiro de 2018 às 06h17

Será que o Temer vai querer está ano que vem na Papuda ?
Isso tá me cheirando a golpe nas eleições
Cadê os patos amarelos da FIESP vestidos com suas camisas da seleção brasileira.
Foram completamente enganados pelo Aécio e Temer. Nossa ! Como são espertos os patos da fiesp.

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Euler

18 de fevereiro de 2018 às 23h33

A intervenção militar no Rio. Está cheirando a Lava Jato 2, a versão militar. Primeiro usaram o judiciário com o pretexto de combater a corrupção na Petrobras somente nos governos do PT, com ampla campanha midiática. Todos assistiram em silêncio ao festival absurdo do golpe teleguiado pela CIA / NSA / FBI via Lava Jato e Globo, com a adesão local dos patos verde-amarelo da Fiesp.

Agora, com a proximidade das eleições de 2018, o crescimento da candidatura Lula e nenhuma alternativa confiável no campo da direita (nem eles confiam muito em Bolsonaro), ensaiam este novo capítulo do golpe. Com o exército nas ruas para combater a… “bandidagem”… dos morros, claro, já que a bandidagem (sem aspas) do alto continua solta, no governo federal, no congresso nacional, na justiça, no ministério público, no topo do empresariado. Com total blindagem pela mídia… e garantidos pelas forças armadas.

Mas, vai que cola, que o povo, bombardeado pelas imagens sensacionalistas e em recorte da mídia, esteja de fato, como está, assustado, temeroso com o estado de insegurança. Insegurança criada sobretudo pelas políticas neoliberais do golpe de 2016, mas, reduzida, ali, aos recortes midiáticos. Aí o governo de quadrilhas convoca as tropas militares para combater as quadrilhas menores, nos morros. A ausência de: saúde pública decente, educação pública de qualidade, segurança pública inteligente e políticas de geração de empregos foi ocasionada pelas quadrilhas que assaltaram o governo federal com o golpe de 2016, para garantir altos lucros aos banqueiros e às famílias da mídia golpista. Mas, isto não aparece como imagem de terror tal como são mostradas as imagens de arrastões e assaltos que atingem alguns cidadãos.

Tal como o combate à corrupção seletiva e partidária é apresentada como solução para os problemas do Brasil, e com isso justificando qualquer ato ilegal e imoral, como os praticados pelos canalhas da Lava Jato e da Globo, da mesma forma, o combate ao crime que supostamente tem origem nas favelas é apresentado como solução para todos os problemas do Rio de Janeiro. Um balão de ensaio. Se colar, se a população começar a sentir momentânea segurança, inclusive com o apoio da mídia que mostrará as tropas avançando e conquistando espaço e derrotando os “bandidos”, logo, logo teremos outros estados da federação querendo a mesma coisa.

Se o agente da CIA Moro, juiz de primeira instância e até então ilustre desconhecido, treinado nos EUA, que quebrou a economia do país e ajudou a derrubar uma presidenta honesta foi transformado em herói nacional pelos patos iludidos pela Globo, em breve teremos o general X ou Y transformados em heróis. As eleições ocorrerão sob o controle militar, sem direito a grandes manifestações, e com a população, bombardeada por essa mídia criminosa, querendo de volta senão os militares, pelo menos um governo “forte”, que se identifique com essa visão simplista da repressão ostentação como tábua de salvação ilusória de problemas estruturais, ligados sobretudo à pior distribuição de renda do mundo; e cuja distância – entre ricos e pobres – tende a crescer ainda mais com as políticas neoliberais do governo do golpe de 2016 e de outro que vier a sucedê-lo seguindo a mesma régua.

A nós, os de baixo, vítimas eternas desses canalhas que trapaceiam e lançam mão de qualquer arma para nos massacrar, só nos resta mesmo resistir, rebelar, convocar o povão para não se iludir com essas soluções plantadas pela mídia golpista e aparatos estatais e para-estatais a serviço dos de cima. O golpe da intervenção veio depois da apoteose de uma escola de samba que, com a arte na mente e nas mãos e o samba nos pés, desmascarava o golpe nas suas variadas faces.

As mentes que estão por trás do golpe – e o vampiro Temer é só um instrumento que precisa cumprir ordens para não sair preso do Planalto -, as que pensam cada lance dessa jogada de vida e de morte, não quiseram dar tempo para que o povão refletisse sobre os significados do que foi apresentado pela Escola de Samba Paraíso do Tuiuti. Não foi somente a faixa presidencial que eles sequestraram. Foi a liberdade de pensar. O foco agora é a intervenção militar para salvar a população do Rio do trombadinha da esquina, numa operação comandada pelos trombadinhas profissionais do alto, aqueles que estão entregando tudo, nas barbas das forças armadas e de um judiciário covarde e conivente. Entregaram o pré-sal, a Petrobras, as refinarias, as riquezas minerais, as fontes energéticas, tudo. Destruíram todas as conquistas sociais, trabalhistas e políticas do nosso povo. Falta apenas a reforma da previdência para completar a obra do mal. Destruíram o pouco que restava da democracia brasileira. Estão destruindo a América Latina. E nada disso sensibilizou os valentes generais das Forças Armadas, ou o STF ou o MPF.

Agora, paciência. Deixem que invadam o Rio de Janeiro. Que acabem logo as eleições diretas para presidente. Que prendam o Lula, a maior liderança operária e o melhor presidente da República que o Brasil teve, mesmo com as concessões feitas à direita. Se querem a política de terra arrasada, tudo bem. Vamos ver até onde eles vão levar o golpe. E até onde o nosso “pacato” povo vai aguentar esperar para reagir, resistir, descer o morro, colocar o bloco na rua, enfrentar e vencer os de cima, nos acordes de Jamelão / Tião Motorista e ao ritmo marighelliano de “quem samba fica, quem não samba vai embora”. Só que dessa vez vai ser diferente. Não serão apenas os valentes grupos e guetos ousados a desfilar pelas ruas, mas um povo inteiro, milhões, num reencontro encantado com as histórias de luta e de conquistas da nossa gente. Brava gente!

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    Juninho Zeff

    19 de fevereiro de 2018 às 08h23

    Texto muito bom. O problema maior é o povo… Esse está sempre contra ele mesmo. Demorará 100 anos pra isso mudar um pouco só. Somos uma herança escrava, gostamos de apanhar( sejamos sinceros), adoramos olhar para um rico e ver nele a possibilidade de sê lo, apoiamos injustiças como justiça fosse, olhamos para os juízes e vemos o ” emanuel”, confiamos em gigolôs midiáticos, somos contra pobres, negros e nordestinos, mas também somos contra escola e educação, só não somos contra saúde porque depois de 100 anos evoluímos sobre esse quesito. Não adianta! Somos os neandertais numa terra de homo sapiens corruptos e assassinos que nos julgam, nos enganam, nos pressionam, nos embriagam e nos matam. O povo não vai fazer nada… Apenas um gato pingado sairá às ruas pra tomar tiro de borracha e cacetetes…o restante tem uma consciência (falsa) de que bom mesmo é um sertanejo no final de semana com pinga e churrasco de pescoço de frango, porquê pobre bom é pobre enganado, iludido e embriagado.

Carlos Santos

18 de fevereiro de 2018 às 22h35

“Teses acadêmicas não vão resolver”. Jura? Falou, falou, fez analogia futebolística, chamou inimigo de “adversário”, fez suposições e ao final contrabandeou a tese (acadêmica?) que que a esquerda, por oportunismo eleitoral, talvez deva apoiar a intervenção ela sendo um absurdo.

Responder

    Otto Lima

    19 de fevereiro de 2018 às 11h02

    A questão não é apoiar ou não a intervenção, mas trazer a esquerda de volta ao mundo real, antes que a direita o domine por completo. A esquerda idealiza muito, mas realiza muito pouco, e isso faz a nossa sociedade doente se jogar nos braços dos charlatães e curandeiros da direita.


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