VIOMUNDO

Diário da Resistência


Antônio David: Resposta de Luciana Genro soa como confissão
Política

Antônio David: Resposta de Luciana Genro soa como confissão


10/03/2016 - 11h46

Luciana Genro

Resposta de Luciana Genro soa como uma confissão

por Antônio David, especial para o Viomundo

A ex-deputada federal pelo PSOL e principal figura pública do partido, Luciana Genro, pretendeu responder às críticas por mim dirigidas a ela em artigo publicado no Viomundo.

Naquela ocasião, critiquei Luciana por conta de seus comentários e tomada de posição nas redes sociais em face da condução coercitiva do ex-presidente Lula, e, de um modo geral, das acusações que este vem sofrendo por parte de certos promotores e delegados, com o apoio ativo da mídia.

Centralmente, argumentei que Luciana, em seus comentários, mostrava ignorar “a diferença entre dirigir uma crítica política a Lula e aplaudir promotores públicos usando seu cargo para incriminá-lo sem provas”.

Argumentei que “defender Lula não é defender suas ideias políticas nem seu governo. Defender Lula nesse momento e nesse caso é defendê-lo de denúncias sem provas”, e que “Luciana poderia tranquilamente ter criticado politicamente Lula e, ao mesmo tempo, tê-lo defendido da perseguição que vem sofrendo”, coisa que ela não fez.

Luciana tentou refutar meus argumentos, mas a emenda saiu pior do que o soneto. Diferentemente dos comentários nas redes sociais, em sua resposta a meu artigo Luciana demonstra não ignorar a diferença entre erros políticos e crimes; no entanto, mesmo não ignorando a diferença, Luciana mantém sua posição em face das acusações contra Lula.

Falsa polêmica

Em sua resposta, publicada também com exclusividade pelo Viomundo, Luciana afirma: “oportunistas são os que dizem ser contra a corrupção, mas acham que se ela for feita pelo PT deve ser tolerada – pois, afinal, a corrupção do PSDB nunca foi investigada”. Nisso Luciana e eu estamos de acordo.

Também estamos de acordo quando Luciana afirma “não [haver] dúvida também que [Lula] deve ser investigado”. Que fique claro: investigado, algo bastante diferente de acusado sem provas.

Portanto, essas não são polêmicas, não entre mim e Luciana. Nosso desacordo começa quando o debate sai da esfera política – do abstrato “corrupção feita pelo PT” – e entra na esfera criminal: qual ato de corrupção foi cometido, quando, como, por quê e, sobretudo, por quem? Ou seja, quando se passa da crítica política para a acusação criminal (coisas muito diferentes).

Reconhecimento tardio

O que tem ela a dizer sobre isso, no caso do ex-presidente Lula?

Luciana reconhece que “a condução coercitiva do Lula foi desnecessária, autoritária e pode até ser entendida como ilegal”. Lamentavelmente, no dia 4 de março Luciana absteve-se de dizer isso.

Não haveria problema se seus comentários nas redes sociais não tivessem tido como motivação imediata a condução coercitiva de Lula, ocorrida naquele dia. Pior, naquela ocasião, Luciana demonstrou apoiar o que, hoje, ela própria reconhece como desnecessária, autoritária e talvez “ilegal”.

“Lula foi tratado com dignidade pelos policiais”

Em face do autoritarismo e da possível ilegalidade da ação, Luciana afirma: “isso, entretanto, não é novidade no Brasil. Pessoas presas sem julgamento são 30% da massa carcerária do país. Lula não foi preso, e foi tratado com dignidade pelos policiais, coisa que não acontece com os acusados pobres”.

Não há dúvida sobre a situação da imensa maioria dos detentos no Brasil. Mas onde Luciana quer chegar ao fazer essa comparação? A não ser que comecemos a raciocinar em termos de autoritarismo digno e ilegalidade digna – o que seria esdrúxulo -, o fato de Lula não ter sido torturado em nada diminui o autoritarismo e ilegalidade da ação.

Se é verdade que os detentos, em sua maioria, são constantemente submetidos a tortura física, Lula está sendo acusado sem provas por motivação político-partidária (prejudicar o governo e o PT) e político-eleitoral (tirar Lula do caminho em 2018), aqueles não. Portanto, são situações diferentes. “O problema não é só com o Lula”, mas se trata de outro problema.

Que conclusão podemos tirar? Compete à esquerda, assim penso, enfrentar ambos os problemas, entendendo bem a diferença entre um e outro. Agora, evocar um com o propósito de abster-se de enfrentar o outro, e para coroar lançar mão do argumento de que “Lula foi tratado com dignidade pelos policiais”, é uma grande incoerência.

E mesmo que se discorde do argumento de que entre uma e outra situações não há diferença, ainda assim a atitude de Luciana é incoerente. Afinal, se Luciana de fato “[tem] lutado muito pelo amplo direito a defesa como advogada criminal, coisa que os acusados pobres não têm e nunca tiveram de fato”, por que deveria ser diferente com Lula?

Presunção de culpa

Para Luciana, deveria. E aqui entra a parte mais extravagante de seu argumento.

Luciana argumenta: “se Lula cometeu ou não diretamente o crime de corrupção, ainda está por ser provado” (o destaque é meu).

A ex-candidata à presidência pelo PSOL poderia ter afirmado não haver provas contra Lula, como poderia ter afirmado – como os promotores estaduais e federais têm feito – haver provas contra Lula. Todavia, ela resolveu empregar a curiosa expressão “ainda está por ser provado”.

Afinal, “ainda está por ser provado” significa o quê exatamente? Há provas ou não há provas? A pergunta não é pouco relevante. É central. Se há provas, cabe acusar; se não há provas, não cabe acusar. No entanto, Lula está sendo acusado.

A expressão empregada por Luciana não é inofensiva. Quando dizemos que algo ainda está por ser feito, queremos induzir nosso interlocutor a crer que esse algo será feito. Quando empregamos essa expressão, não dizemos explicitamente que algo “será feito”; nós o dizemos implicitamente. Ora, se “o crime” cometido por Lula “ainda está por ser provado”, implicitamente é dito que ele será provado.

Se Luciana teve ou não a intensão de induzir o leitor a assim pensar, o fato é que ela o fez. Com esse dispositivo retórico, a presunção da inocência é sutilmente substituída pela presunção da culpa. Para uma advogada criminal que “[tem] lutado muito pelo amplo direito a defesa”, é um deslize imperdoável.

Malabarismos argumentativos

Contra tudo o que ela própria diz, Luciana ainda tenta convencer o leitor de que ela luta contra a arbitrariedade, mesmo para Lula: “o que ocorre é que as elites políticas e econômicas estão sendo vitimas, na operação Lava Jato, do mesmo tipo de sistema penal que a maioria do povo já conhece há tempos. Eu luto contra isso, e não só para o Lula, mas para todos” (o destaque é meu). Para bom entendedor da língua portuguesa, “não só para o Lula” significa “também para o Lula”.

Todavia, logo na sequência, Luciana entra em contradição com o que ela acabara de dizer: “Mas ser contra este tipo de tratamento aos acusados não significa defender o Lula”. Por que não, se ela própria diz “não só para o Lula” e se ela própria reconhece não haver provas contra ele? (É que, como vimos, a convicção de que “as provas ainda estão por vir” exclui a presunção da inocência para, em seu lugar, introduzir a presunção da culpa).

Mais adiante, Luciana volta atrás e afirma: “o direito à ampla defesa de Lula deve ser garantido. E devemos criticar qualquer excesso, como devem ser criticados todos os excessos que são cometidos contra qualquer acusado”.

Note-se que foi exatamente isso o que eu disse em meu anterior artigo: “Qualquer um, seja de que partido for, merece ser defendido quando for alvo de perseguição política, sobretudo quando a perseguição vem disfarçada de crimes tipificados no código penal”.

Luciana sustenta que “o direito à ampla defesa de Lula deve ser garantido”. Só faltou ela dizer se, para ela, o direito à ampla defesa de Lula está de fato sendo garantido, ou se, inversamente, esse direito está sendo sistematicamente violado. Como Luciana não quer defender Lula, melhor é abster-se de entrar na polêmica.

Que conclusão podemos tirar dos malabarismos argumentativos de Luciana? Ou bem ela pretende ao mesmo tempo defender e não defender Lula, ou bem ela pretende defender todos contra as arbitrariedades do nosso sistema penal, menos Lula. Ou seja, ou bem se trata de contradição, ou bem se trata de incoerência.

Qual alternativa?

Como explicar tamanha extravagância e tais malabarismos?

A chave para entender a atitude de Luciana reside na frase final de sua resposta: “Por isso temos que construir uma alternativa. /…/ E não será defendendo um líder sustentado pelas empreiteiras corruptas que vamos conseguir por de pé esta alternativa”.

Luciana faz-se aqui de desentendida, pois ninguém reivindicou de Luciana que ela defendesse um “líder sustentado pelas empreiteiras corruptas”. Isso – “ser sustentado por empreiteiras corruptas” – é um equívoco político da maior grandeza, e não há dúvida de que Lula não só não deve ser defendido por isso, como deve ser criticado.

Ocorre que “ser sustentado por empreiteiras” não um crime tipificado no código penal. E, no entanto, Lula está sendo acusado de crimes. Ou seja, Luciana afirma não defender alguém acusado de crimes por conta de seus erros políticos. É honesto misturar as coisas?

Haverá quem creia ser sim honesto em razão da finalidade: construir uma alternativa. Nesse caso, abster-se de defender um adversário político que está sendo acusado sem provas, se desonesto sob um aspecto, seria politicamente válido sob outro. Não é como penso.

A preocupação de Luciana com o horizonte político é legitima e justa. No entanto, e justamente por isso, cabe inverter a indagação proposta de Luciana: vamos conseguir pôr de pé uma alternativa abstendo-nos de defender um líder político de quem discordamos, nosso adversário, mas que sabemos estar sendo acusado sem provas? Pior: vamos construir uma alternativa surfando na onda, dando a entender que somos favoráveis à incriminação de Lula sem que haja provas contra ele?  

A frase final de sua resposta é escandalosamente clara: para construir uma alternativa, é preciso não defender Lula.

Assim, Luciana dá-me razão quando, em meu anterior artigo, concluí: “o raciocínio de Luciana é simples: pouco importa se Lula está sendo acusado sem provas; sendo ele seu principal adversário político, vale é surfar nessa onda”. Sua resposta soa como uma confissão. Na esperança de “construir uma alternativa”, vale surfar nessa onda.

Infelizmente, há que reconhecer: se a alternativa que se quer construir precisa disso, então a alternativa nasceu morta. Como o PSOL não é Luciana Genro, quero crer que não seja assim.

Oportunismo

Vendo-se forçada, em face das críticas recebidas, a explicitar suas convicções como advogada criminalista – convicções essas ocultadas em suas tomadas de posição anteriores -, a emenda saiu pior do que o soneto. Em sua resposta, Luciana oscilou entre essas convicções (como criminalista) e a negação dessas mesmas convicções (como líder de uma tendência do PSOL e candidata), para negá-las integralmente na conclusão.

“E não será defendendo um líder sustentado pelas empreiteiras corruptas que vamos conseguir por de pé esta alternativa”.

O que a advogada criminalista Luciana Genro teria a dizer sobre essa frase? Não sei. O que sei é que a atitude de Luciana Genro (não a criminalista apenas nem a candidata apenas, mas Luciana Genro em sua integralidade, criminalista e candidata) faz lembrar a célebre frase de Marx – não o Karl Marx, mas Groucho Marx: “Estes são os meus princípios. Se você não gosta deles, eu tenho outros”.

PS. Em sua resposta, Luciana afirma: “Alguns petistas têm classificado as posições de PSOL como oportunistas”.

Se a frase faz menção a mim, Luciana enganou-se. Eu nunca classifiquei as posições do PSOL como oportunistas. Classifiquei, sim, as posições de Luciana Genro como oportunistas

Leia também:

Janio de Freitas: Ação que levou Lula a Congonhas faz lembrar a Operação Bandeirantes, da ditadura militar 





25 comentários

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raul soares

12 de março de 2016 às 08h13

Luciana Genro GERDAU a falsa moralista. Em um sistema burgues de fazer política, não aceitar financiamento legal, de empresas na campanha, seria suicídio eleitoral. E ela aceitou !

http://altamiroborges.blogspot.com.br/2008/08/luciana-genro-e-doao-da-gerdau.html

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Luiza

11 de março de 2016 às 20h17

Luciana Genro está escrevendo seu nome no espaço que a História reserva aos medíocres e pobres de espírito.
Deixe estar….
A lata do lixo da História é grande para a pequenez daqueles que pensam ter estatura. Serão esquecidos na poeira do tempo..

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Carlos Lima

11 de março de 2016 às 17h13

Essa senhora, o máximo que poderá chegar é ser candidata a presidente do Brasil de Pelotas-RS.

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Julio Silveira

11 de março de 2016 às 13h49

A verdade mais que verdadeira, é que tanto na direita quanto na esquerda se escondem tiranos.
Ditaduras são todas deploráveis para a cidadania, tanto a do capital quanto a do proletariado.
Por isso sou um democrata convicto. Democracia que deve ser cultuada, espraiada para o povo.
Elites de esquerda e de direita costumam se parecer, e as vezes até trocam métodos. Ambas costumam perder a sintonia com a realidade de seus cidadãos, para se tornar serviçais do burocrata autoritário que brota dentro de cada um deles.
Um de nossos principais problemas é que sempre tivemos um democracia de araque, sempre tivemos tutela da direita com seu poder econômico avassalador determinando o nível de democracia por eles desejada, onde o povo seve como mero colaborador dos interesses desses grandes do poder econômico, em detrimento infelizmente do atendimento a seus interesses por uma outra questão inerente, a falta de cultura politica e democrática no país, e isso tudo é parte da mesma resposta. Dessa condução premeditada para a manutenção do Brasil vulnerável a esse domínio.

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Jorge Luiz

11 de março de 2016 às 11h52

Será que o PSOL estava pensando em começar a aceitar financiamento empresarial de campanha? rsrsrs

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henrique de oliveira

11 de março de 2016 às 10h39

O tempo passou na janela e só Luciana não viu , até essa dona esta cagando de medo do LULA 2018 ? E desde quando essa lata de lixo politica o Psol é de esquerda? essa turma é de extrema direita.

Responder

FrancoAtirador

10 de março de 2016 às 23h28

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PEPE ESCOBAR DIZ O QUE A LUCIANA DEVERIA TER DITO MAS NUNCA DIRIA
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(http://br.sputniknews.com/brasil/20160307/3758705/terremoto-brasileiro-lava-jato-lula.html)
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Confira o artigo do colunista Pepe Escobar para a agência Sputnik International
(http://sputniknews.com/columnists/20160306/1035858412/brazil-interrogation-petrobras-scandal.html)
sobre a operação Lava Jato e o envolvimento do ex-presidente Lula no caso:
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Imagine um dos mais admirados líderes políticos globais na história moderna sendo tirado de seu apartamento às 6 da manhã por agentes da Polícia Federal do Brasil e forçado a ser levado em um carro sem identificação para ser interrogado no aeroporto de São Paulo por quase 4 horas em conexão com um escândalo de corrupção bilionário envolvendo a gigante petroleira estatal Petrobras.
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Parece algo produzido por Hollywood.
E esta foi exatamente a lógica por trás da elaborada produção.
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Os promotores públicos da Operação Lava Jato, que já dura dois anos, mantêm os “elementos de prova” implicando o recebimento de fundos por Lula – no mínimo 1,1 milhão de euros – do esquema de duvidosas propinas envolvendo grandes empresas de construção do Brasil ligadas à Petrobras.
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Lula pode ter – e a palavra de ordem é ‘pode’ – ter pessoalmente lucrado com o esquema principalmente através de uma fazenda (que ele não possui), um apartamento à beira-mar relativamente modesto, taxas no circuito global de palestras e doações para o seu instituto.
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Lula é o último animal político – no nível de Bill Clinton. Ele já telegrafou que estava esperando por tal jogada, enquanto a Lava Jato já tinha prendido dezenas de pessoas suspeitas de desvio de contratos entre as suas empresas e a Petrobras – na ordem de mais de 2 bilhões de dólares – para pagar os políticos do Partido dos Trabalhadores (PT), do qual Lula era o líder.
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O nome de Lula veio à tona através de um informante ansioso para chegar a um acordo de delação premiada. A hipótese trabalhada – não há nenhuma prova cabal – é de que Lula, quando presidiu o Brasil entre 2003 e 2010, foi pessoalmente beneficiado pelo esquema de corrupção envolvendo a Petrobras, obtendo favores para ele mesmo, o PT e o Governo.
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Enquanto isso, a ineficiente Presidenta Dilma Rousseff também está sob um ataque elaborado por um esquema de barganha do líder do Senado.
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Lula foi questionado em relação a lavagem de dinheiro, corrupção e suspeita de dissimulação de bens.
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A blitz hollywoodiana foi ordenada pelo Juiz Federal Sérgio Moro – que sempre insiste ter sido inspirado pelo juiz italiano Antonio di Pietro e a notória operação “Mani Pulite” (Mãos Limpas) dos anos 1990.
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E aqui, inevitavelmente, a coisa se complica.
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Cercando os suspeitos usuais da mídia
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Moro e a os promotores da Lava Jato justificaram a blitz hollywoodiana insistindo que Lula
havia se recusado a ser interrogado. Lula e o PT insistiram veementemente no contrário.
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E, no entanto, os investigadores da Lava Jato tinham consistentemente
vazado para a mídia tradicional as palavras de efeito:
“Nós não podemos apenas morder Lula.
Quando chegarmos a ele, vamos engoli-lo.”
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Isto implicaria, no mínimo, uma politização da Justiça, da Polícia Federal e do Ministério Público.
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E também implicaria que a blitz hollywoodiana pode ter sido apoiada num barril de pólvora.
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Como a percepção vira realidade no ciclo de notícias frenéticas que não param, a “notícia” – instantaneamente mundial – foi que Lula foi preso porque é corrupto.
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No entanto, tudo fica mais curioso quando nós sabemos que o Juiz Moro escreveu um artigo numa revista obscura em 2004 (somente em português, intitulado “Considerações sobre a Operação Mãos Limpas”, revista CEJ, número 26, julho / setembro de 2004), no qual ele claramente exalta a “subversão autoritária da ordem jurídica para atingir alvos específicos” e usando a mídia para intoxicar a atmosfera política.
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Tudo isso serve a uma agenda muito específica, é claro.
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Na Itália, direitistas viram toda a saga da Operação Mãos Limpas como um alcance superjudicial desagradável;
a esquerda, por outro lado, foi ao êxtase. O Partido Comunista Italiano surgiu com as mãos limpas.
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No Brasil, o alvo é a esquerda
– enquanto a direita, pelo menos no momento,
parece ser composta por anjos cantores de hinos.
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O mimado perdedor das eleições presidenciais do Brasil em 2014, Aécio Neves,
foi apontado em esquemas de corrupção por três acusadores diferentes
– e tudo deu em nada, sem uma investigação mais aprofundada.
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Mesmo com um outro esquema complexo envolvendo o ex-Presidente Fernando Henrique Cardoso
– o notório e vanglorioso ex-desenvolvimentista que virou um executor neoliberal.
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O que a Lava Jato já imprimiu com força pelo Brasil foi a percepção
de que a corrupção só paga quando o acusado é um nacionalista progressista.
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Enquanto Vassalos do Consenso de Washington são sempre Anjos
– misericordiosamente Imunes a Processos.
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Isso está acontecendo porque Moro e sua equipe estão magistralmente jogando
para o uso autodescrito por Moro dos meios de comunicação para intoxicar a atmosfera política
– com a opinião pública manipulada em série antes mesmo de alguém ser formalmente acusado de qualquer crime.
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E, no entanto, Moro e as fontes de seus promotores são em grande parte farsa,
trapaceiros astutos e mentirosos em série. Por que confiar em sua palavra?
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Pois não existem provas cabais, algo que até Moro admite.
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E isso nos conduz para um cenário desagradável de um possível sequestro
de uma das democracias mais saudáveis do mundo,
produzido no Brasil pela mídia, Judiciário e polícia.
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E que é apoiado por um fato gritante:
todo o “projeto” da oposição da direita brasileira
se resume a arruinar a economia
da 7.ª maior potência econômica global
para justificar a destruição de Lula
como candidato presidencial em 2018.
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Elite Saqueando Regras
Nenhuma das opções acima pode ser entendida por uma audiência global
sem alguma familiaridade com um clássico brasileiro.
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A lenda diz que o Brasil não é para principiantes.
De fato, esta é uma sociedade extraordinariamente complexa
– que essencialmente desce do Jardim do Éden
(antes de os portugueses o “descobrirem” em 1500)
até a escravidão (que ainda permeia todas as relações sociais),
passando por um evento crucial em 1808:
a chegada de Dom João VI de Portugal
(e imperador do Brasil pelo resto da vida),
que fugiu da invasão de Napoleão,
levando com ele 20 mil pessoas
que planejaram o Estado brasileiro “moderno”.
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“Moderno” é um eufemismo:
a história mostra os descendentes destes 20 mil, na verdade,
estuprando o cego país ao longo de 208 anos.
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E alguns nunca foram responsabilizados.
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As Tradicionais Elites Brasileiras compõem
uma das Misturas Arrogantes-Ignorantes
mais Nocivas do Planeta.
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“Justiça” e controle policial são usados como arma quando as pesquisas não favorecem suas agendas.
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Proprietários da Grande Mídia brasileira são uma Parte Intrínseca Dessas Elites.
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Muito parecido com o modelo de concentração dos Estados Unidos,
apenas quatro famílias controlam o panorama da mídia,
acima de tudo o Império de Mídia Globo, da Família Marinho.
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Eu experienciei de dentro, em detalhes, como eles operam.
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O Brasil é corrupto até a medula – desde as elites compradoras
até uma grande quantidade de “novas” elites, que incluem o PT.
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A ganância e a incompetência apresentada por uma série de partidários do PT são aterradoras – um reflexo da falta de quadros de qualidade.
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A corrupção e o tráfico de influência envolvendo a Petrobras,
empresas de construção e os políticos é inegável,
mesmo se isso empalidece em comparação
com as peripécias do Goldman Sachs ou da Big Oil
e/ou da compra/suborno de políticos dos EUA
por Koch Brothers / Sheldon Adelson-Style.
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Se fosse uma cruzada sem obstáculos contra a corrupção
– como os promotores da Lava Jato afirmam que é –
a oposição da direita/vassalos das velhas elites
deveriam ser igualmente expostos na grande mídia.
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E não teria nada remotamente parecido com a blitz hollywoodiana,
com Lula – pintado como um simples delinquente – humilhado na frente de todo o planeta.
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Sem Consumo, Sem Investimento, Sem Crédito
O Brasil não poderia estar em uma situação mais sombria.
O PIB caiu 3,8% no ano passado; provavelmente ficará abaixo de 3,5% este ano.
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O setor industrial caiu 6,2% no ano passado, e o setor de mineração caiu 6,6% no último trimestre.
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A nação está a caminho de sua pior recessão desde… 1901.
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A (incompetente) administração de Rousseff não criou um plano B para a desaceleração chinesa
na compra da riqueza mineral/agrícola do Brasil e para a recessão global geral nos preços das commodities.
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O Banco Central ainda mantém a sua taxa de juros de referência na gritante marca de 14,25%.
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O “ajuste fiscal” neoliberal desastroso de Rousseff na verdade aumentou a crise econômica.
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Hoje, Rousseff “governa” – isto é uma figura de linguagem –
para o cartel bancário e os rentistas da dívida pública brasileira.
Mais de US$ 120 bilhões em orçamento do Governo
evaporam para pagar juros da dívida pública.
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A inflação está alta – agora na marca de dois dígitos.
O desemprego está em 7,6% – ainda não é tão ruim
como em muitos lugares da União Europeia – mas está em crescimento.
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Os usuais suspeitos, claro, estão girando sem parar, deleitando-se
em como o Brasil se tornou “tóxico” para os investidores globais.
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Sim, é desolador. Não há consumo. Nenhum investimento. Nenhum crédito.
A única saída seria desbloquear a crise política.
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Os parasitas da oposição têm apenas uma obsessão:
o impeachment da Presidenta Rousseff.
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Tons de uma boa e velha mudança de regime:
para estes vassalos de Wall Street / Império do Caos,
uma crise econômica, alimentada por uma crise política,
deve por todos os meios derrubar o Governo eleito
de um ator-chave dos BRICS.
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E então, de repente, fora do campo da esquerda, surge… Lula.
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O movimento contra ele pela investigação da Lava Jato ainda pode sair pela culatra – para pior.
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Ele já está no modo de campanha para 2018 – embora não seja um candidato oficial, ainda.
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Nunca subestime um animal político da estatura dele.
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O Brasil não está nas cordas.
Se reeleito, e assumindo que ele poderia limpar o PT de uma legião de criminosos,
Lula poderia criar uma nova dinâmica.
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Antes da crise, o capital do Brasil estava se globalizando
– via Petrobras, Embraer, BNDES (o banco modelo que inspirou o banco dos BRICS), as empreiteiras.
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Ao mesmo tempo, podem existir benefícios em quebrar, pelo menos parcialmente,
este cartel oligárquico que controla toda a infraestrutura de construção no Brasil;
pensem nas empresas chinesas construindo ferrovias de alta velocidade,
barragens e portos que o país mal tem.
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(http://br.sputniknews.com/brasil/20160307/3758705/terremoto-brasileiro-lava-jato-lula.html)
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Responder

    Nelson

    11 de março de 2016 às 19h42

    O problema, meu caro Atirador, é que tem um bocado de gente no PSOL e no PSTU, também tem no PT, que não enxerga um palmo além das fronteiras do Brasil. Para eles, não existe a tal de geopolítica, que é o tema de muitos dos artigos do Pepe Escobar.

    Em 1991, ouvi da boca de um petista que os Estados Unidos estavam corretos em invadir e bombardear o Iraque. Na era Hugo Chávez na Venezuela, houve psolistas que fizeram coro com o império estadunidense no ataque incessante que os yankees perpetraram para impedir o povo vizinho de seguir um caminho próprio. Na destruição da Líbia, foi a vez de membros do PSTU fazerem coro com Obama.

    Parece que a dona Genro está nesse time. Ela poderia, sim, ter feito uma crítica política dura ao Lula e também contribuir para a compreensão política do povo incluindo elementos da geopolítica como o fez o Escobar. Mas, pelo jeito, rebaixar o debate e ficar só no moralismo fajuta a deixa mais confortável.

    FrancoAtirador

    11 de março de 2016 às 21h53

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    .
    O M.E.S. é uma Corrente Marxista Internacionalista.
    .
    .

Nelson

10 de março de 2016 às 22h29

Que nosso articulista me perdoe pelo adjetivo, mas a Dona Luciana Genro foi meter a mão com um “murrinha”. De outras réplicas, escritas para rebater filósofo psolista Vladimir Safatle, notadamente, eu já pude notar que o Antônio David é daqueles que não recusa, de jeito nenhum, uma boa polêmica.

Ele não se incomoda em dissecar cada argumento do oponente para sustentar a réplica com boa base. Se eu fosse Sra Genro, “enfiava a viola no saco” e ia pensar e fazer outras coisas. Debater com o David dará um trabalho danado.

Responder

Márcio José Pereira de Souza

10 de março de 2016 às 19h41

A Luciana é uma ingênua de má fé! Desconectada da história do Brasil, como adulta continua a ser uma criança mimada, que da política fez seu ursinho; seu ursinho estimação.Ela nunca reconheceu a dura realidade do povo brasileiro. Fala de coisas que não entende; nunca sentiu e pensa catedrática. Ela deve ter a oportunidade, de compreender os grandes vultos, libertadores da humanidade e desenvolver a humildade necessária para abrir a boca.

Responder

FrancoAtirador

10 de março de 2016 às 19h28

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Curiosidade:
Vai ter BBB*
no Domingo?
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*Big Brother BraZil ou
*Black Block Brasinha
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Responder

    FrancoAtirador

    10 de março de 2016 às 19h31

    .
    .
    Adendo: Ou…
    *Boi, Bíblia & Bala ou
    *Bola, Bingo e Bunda
    .
    .

Luis

10 de março de 2016 às 17h49

Ela é da esquerda festiva, aquela que nunca quer governar, quer ser só pera, o PT foi assim no início e percebeu agora como é difícil governar, ser vidraça. Porém a moçoila ai quer ser pedra forever, só isso, poder ser tacada na janela de todos e em contra partida não fazer absolutamente nada para melhorar. O PSol merece meu apreço por outras lideranças que enxergam melhor, a miopia/astigmatismo/hipermetropia dessa senhora é de arrepiar.

Responder

ana s.

10 de março de 2016 às 14h32

Grande tréplica, Antônio David!

Responder

Francisco

10 de março de 2016 às 14h18

Nas eleições presidenciais de 2014, o discurso dessa fulana levaram-me a pensar, durante certo momento, em votar nela. Felizmente, não o fiz! Hoje, observo que essa fulana é politicamente inepta, ao contrário do pai. Como se vê, inteligência e bom senso não passam pelo espermatozoide. Acredito que o PSOL, por ter melhores cabeças que essa figura, deveria afasta-la da liderança. Creio que a mulher é a suprema criação da natureza (é o único organismo capaz de produzir outro ser inteligente), mas, essas mulheres que são egressas do PT (Erundina é a exceção): Heloisa Helena, Luciana Genro, Marina Silva Marta Suplicy devem ter algum problema sério não resolvido.

Responder

M Cruz

10 de março de 2016 às 14h17

Vamos falar numa linguagem clara:
Essa Luciana Genro não tem noção do momento gravíssimo? Criticar sim, invocar pureza sim, mas no momento certo, sem oportunismos baratos.
Defendendo ilegalidades como está fazendo certa esquerda para justificar críticas ao lulopetismo, corre-se o risco de um Bolsanaro ou um Moro chegar a presidência. Aí TODA e QUALQUER esquerda será eliminada, não só o PT, Lula e Dilma.
Se de volta ao poder Aécio, Alckmin, Renan, Serra, Agripino, Cunha et caterva, que força terá a extrema esquerda para se impor no cenário político, Já que, com o fim da era PT, está engatilhado adeus ao pré-sal, fim da CLT, banco central independente, estatais virando Sociedades Anônimas, combate de fachada à corrupção e criminalização dos movimentos sociais? Se está ruim agora, pior vai ficar não só para esquerdistas, mas para (e principalmente) todo o povo brasileiro.
A história do Brasil e do mundo está cheia de exemplos de que com a direita e o capital não se brinca.

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FrancoAtirador

10 de março de 2016 às 14h04

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“Moro entende tanto de Econoimia quanto de Democracia”
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Diz que OLJ não interferiu negativamente na Crise Econômica.
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Não. Só paralisou a Cadeia Produtiva de Petróleo (18% do PIB).
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(https://twitter.com/cartamaior)
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JORNALISMO DE MERCADO, POLÍCIA DE MERCADO, JUDICIÁRIO DE MERCADO…
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09/03/2016 22h51
Folha de S.Paulo
Poder
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O JUIZ SÉRGIO MORO, que conduz os Processos da LAVA JATO em Curitiba,
afirmou que a Operação que investiga o Esquema de Corrupção na Petrobras
não é RESPONSÁVEL PELA CRISE ECONÔMICA DO PAÍS
e disse esperar que as manifestações previstas para o domingo sejam pacíficas.
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A DECLARAÇÃO foi feita na noite desta quarta-feira (9)
durante PALESTRA do MAGISTRADO em EVENTO para EMPRESÁRIOS da LIDE Paraná,
entidade que tem como COORDENADOR Nacional JOÃO DÓRIA,
PRÉ-CANDIDATO pelo PSDB à PREFEITURA DE SÃO PAULO.
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“As investigações têm sofrido acirrados ataques.
Houve até quem atribuiu a Lava Jato à recessão atual”, afirmou Moro.
“Fico consternado com esse quadro econômico, de recessão e desemprego.
Acredito que a culpa não é da Lava Jato.”
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Segundo MORO, o fato de haver MOVIMENTOS FAVORÁVEIS do MERCADO FINANCEIRO
quando há OPERAÇÕES da POLÍCIA FEDERAL, “para mim, é um indicativo que a Lava Jato
não é exatamente um problema”.
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Ao introduzir a palestra com Moro, o responsável pelo LIDE PARANÁ Fabrício de Macedo CONVIDOU O PÚBLICO A PARTICIPAR DO PROTESTO NO PRÓXIMO DOMINGO(13),
coordenado em todo o Estado.
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Imediatamente foi APLAUDIDO pelos cerca de 200 convidados.
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Reportagem: JULIANA COISSI de CURITIBA
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Responder

FrancoAtirador

10 de março de 2016 às 13h20

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Monarquia Presidencialista
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O Pessoal sempre faz Confusão
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entre Projeto de Governo Federal
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e Política de Estado Nacional.
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Responder

GeCesar

10 de março de 2016 às 12h52

Antonio, eu só tenho a dizer que essa sua resposta, é a melhor peça, ou o melhor artigo deste surreal e conturbado momento que esta republiqueta está passando. Não o conheço mas sei, agora, que você é grande.

Responder

lucas

10 de março de 2016 às 12h50

Muito boa a analise e a critica do Antonio David!

Não seria capaz de fazer uma critica tão cirúrgica. Parabéns mesmo!

Agora tem uma outra contradição na Luciana:

Lula nao pode receber “doação” de construtora corrupta, mas ela – a nova “paladina” da ética – pode receber dinheiro da Gerdal???

Responder

FrancoAtirador

10 de março de 2016 às 12h46

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“Coam Mosquitos e Engolem Camelos”
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Mateus 23
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Responder

lulipe

10 de março de 2016 às 12h29

Reitero o que já disse, os petista, em sua grande maioria, não estão preocupados com a corrupção dos membros do partido, muitos já condenados e presos, estão injuriados porque políticos de outros partidos também não são investigados, a Deputada, pela qual não nutro nenhum apreço, está corretíssima nas suas avaliações. O bom disso tudo é que a maioria, vide pesquisas, da população já se deu conta disso e dará a resposta nas próximas eleições. PT nunca mais, para o bem do Brasil!!!

Responder

    GeCesar

    10 de março de 2016 às 12h55

    Lulipe, não sei se se trata de problemas com a interpretação de textos ou se o problema é de interpretação de fatos. A questão que se coloca a você, é que você não está entendendo nada. Rigorosamente nada.

Sérgio

10 de março de 2016 às 12h05

Ciúmes do Lula! Não vejo outra motivação que não essa.

Responder

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