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Cartas de Minas
Cartas de Minas

Álvaro Dias, acusado de pedir R$ 5 milhões para deixar de “bater” em investigado, convocou Adir Assad à CPMI do Cachoeira, mas votou contra relatório que o indiciava

12 de março de 2018 às 00h07

Da Redação

Um e-mail de Samir Assad enviado a Luis Eduardo Rocha Soares, então diretor do Departamento de Operações Estruturadas da Odebrecht, sugere que o senador tucano Álvaro Dias, hoje pré-candidato do Podemos ao Planalto com um discurso anticorrupção, teria pedido R$ 5 milhões para aliviar para Adir Assad na CPMI do Cachoeira.

A revelação foi da revista Veja.

Samir e Adir são irmãos e operavam esquema bilionário de lavagem de dinheiro para as empreiteiras.

Na mensagem original, de 20 de julho de 2012, Samir escreve a Luis:

A Andrade já aceitou contribuir com 30 mm para “cortar” o assunto. O problema é que não é suficiente… porque o Alicate (Álvaro Dias) ficou por nossa conta. Além de voces a UTC também está ajudando, porém para ele parar de bater no meu irmão nesse assunto ele pediu mais 5mm. Segue a planilha (Alicate) anexa.  Veja como completar esta contribuição por favor. Abs, Samir Assad.

A crer na mensagem, a Andrade Gutierrez, a Odebrecht e a UTC estariam interessadas em abafar a CPMI do Cachoeira, criada em 2012 para investigar os negócios do bicheiro, num escândalo que resultou na cassação do senador Demóstenes Torres (DEM-GO), tido na época como um dos mosqueteiros da moralidade pública — segundo a revista Veja.

A CPMI foi a primeira a jogar luz nos negócios da Construtora Delta.

A autor do relatório final, Odair Cunha (PT-MG), explicou à época: “Meu relatório não deixa dúvidas que a empresa Delta Construções irrigou as contas das empresas fantasmas de Cachoeira. A Delta foi responsável pelo depósito de R$ 98 milhões, nas contas de cinco das sete empresas de fachada que descobrimos”.

Além disso, outro aspecto importante da CPMI foi desvendar as ligações da Delta com Adir Assad:

“Importante destacar ainda que, no que tange à Delta Construções, a investigação feita pela relator da CPMI Odair Cunha se deparou com diversas transações suspeitas, em âmbito nacional. Como exemplo, o relatório final de Cunha cita as transações entre a Delta e núcleo empresarial ligado a Adir Assad. As 19 empresas deste grupo receberam da construtora aproximadamente R$ 265 milhões, entre 2007 e 2012”.

A CPMI do Cachoeira ganhou destaque, também, por revelar as ligações do bicheiro Cachoeira com o jornalista Policarpo Jr., de Veja, conhecido como Caneta.

“As investigações demonstraram que o Policarpo não só atendia aos pedidos de matéria de interesse da organização criminosa mas também a usava para obter ilicitamente provas para embasar as suas reportagens”, disse à época o deputado Paulo Teixeira (PT-SP).

Porém, Policarpo nunca foi chamado a depor.

Sobre o recente vazamento do e-mail, Álvaro Dias reagiu com veemência, no Facebook:

Em respeito aos amigos e apoiadores, esclarecemos sobre a nota publicada pela Veja:

O senador Alvaro Dias afirma com toda a segurança tratar-se de armação política e vingança pelo comportamento dele durante e depois da CPI do Cachoeira. “É uma tentativa de atingir o meu patrimônio maior – a honra – e desautorizar o discurso que é o meu maior trunfo na campanha eleitoral: o combate à corrupção. Vou identificar os responsáveis por essa insinuação maldosa para interpelá-los judicialmente”, disse.

O senador não conhece Samir Assad, o empresário que, em fato inédito, usa no email revelado pela Veja um codinome identificando o nome entre parênteses. O email é do mês de junho de 2012 mas, em outubro do mesmo ano, Alvaro Dias usou a tribuna para pedir a prorrogação da CPI por 180 dias.

Alvaro Dias foi um dos membros mais atuantes na CPI do Cachoeira. Como líder da oposição, apresentou centenas de requerimentos convocando os principais suspeitos de envolvimento com o esquema de Carlinhos Cachoeira junto a empreiteiras e órgãos públicos, cobrando quebras de sigilo e investigação do COAF sobre contas para desvio de dinheiro no Brasil e no exterior.

A assessoria técnica do senador, em trabalho paralelo ao da CPI, identificou 18 empresas alimentadas pelo esquema Cachoeira, nas quais foram movimentados R$ 421 milhões de recursos ilícitos.

Outras 42 empresas movimentaram R$ 312 milhões, mostrando que empresas laranjas foram criadas para ocultação e lavagem de dinheiro. As informações foram inseridas em um voto em separado e, ao final dos trabalhos da CPI, o documento foi encaminhado à Procuradoria-Geral da República, Polícia Federal e Receita Federal.

De fato, Álvaro Dias apresentou dezenas de requerimentos à CPMI.

Segundo o relatório final, na sexta reunião, de 17 de maio, ele pediu a convocação de 21 testemunhas!

Porém, o senador só convocou Adir Assad para depor na vigésima reunião, em 5 de julho de 2012. A mensagem de e-mail de Samir Assad relatando o suposto pedido de dinheiro para não bater em Adir é de 15 dias depois.

Assad também foi convocado por dois outros parlamentares, os deputados Luiz Pitiman (PSDB-PR) e Filipe Pereira (PSC-RJ).

Assad foi à CPMI no dia 28 de agosto de 2012 e se negou a responder às perguntas.

Outro convocado para depor foi o ex-diretor da Desenvolvimento Rodoviário S/A, a Dersa, Paulo Vieira da Costa, o Paulo Preto.

À CPMI, Paulo Preto disse que conhecia Adir Assad apenas de competições de atletismo.

Também afirmou que nunca havia lidado com contribuições de campanha.

Paulo Preto explicou a deputados e senadores as acusações de que teria sumido com R$ 4 milhões do PSDB durante a campanha eleitoral de 2010, quando o tucano José Serra foi candidato ao Planalto:

Olha, na minha vida empresarial, conheço todas as grandes empresas deste País. Conheço todos os presidentes de empresas deste País e nunca vi, nunca vi nenhum empresário — já fui 20 anos empresário — fazer oficialmente alguma contribuição para campanha sem consultar diretamente quem de direito: o candidato. Mas eu, Paulo Souza, com uma, quem sabe, simpatia total, pedi R$4 milhões, como se não fosse nada, e o empresário falou:
– Vou lhe entregar, venha cá, meu querido, leva R$4 milhões. Para quem é?
 – Não vou dizer, vou para casa.


Eu atribuo má-fé, eu atribuo tudo de injúria com relação à minha frase: “Não deixe um líder ferido na estrada a troco de nada”. É a ingratidão que eu recebi de pessoas que nunca me viram na vida, que nunca me cumprimentaram, e a mim simplesmente me restava um clamor, porque, na verdade, o Senado e a Câmara do meu País estão dando ao líder ferido, pela primeira vez, o direito de vir aqui e comprovar.

Eu não saio desta Casa sem entregar todos os documentos, todos, exatamente todos os documentos comprobatórios do que eu falar. Não há uma fala minha que não tenha aqui um documento. Eu pedi a Deus para ser convocado por esta CPI, porque acho que os incompetentes devem continuar com medo de mim, porque aqui estou. E essa frase é para todos aqueles que foram ingratos. A ingratidão humana… Que arma eu tenho contra a ingratidão?

Eu fui demitido oito dias após entregar as três maiores obras do País, com um detalhe: em 34 meses. Não conheço, no Brasil, similar. Nunca antes, neste País, ninguém realizou, em 34 meses, três obras do porte do Rodoanel —a mais difícil na minha opinião, ao contrário do que muita gente pensa—, da Marginal Tietê, Jacu Pêssego e Tamoios, num espaço de 34 meses.

Paulo Preto foi demitido da Dersa logo depois que José Serra se afastou do governo paulista para concorrer ao Planalto, pelo então governador em exercício Alberto Goldman.

O relatório final da CPMI deu origem à Operação Saqueador, deflagrada em 2016, que focou em Carlinhos Cachoeira, Adir Assad e Fernando Cavendish, o ex-dono da Delta.

Na CPMI do Cachoeira, Cavendish também se negou a dar depoimento.

Mas o senador Álvaro Dias deixou registrada uma pergunta ao empresário:

O SR. ALVARO DIAS (PSD –PR) – Creio que há uma preliminar que V. Exa deve submeter ao depoente. É uma questão de hombridade obter dele a resposta a uma acusação que fez ao Senado Federal. Afirmou que comprava com R$6 milhões um Senador, e nós gostaríamos que ele apontasse qual Senador que comprou por R$6 milhões ou que Senador ele compraria por R$6 milhões. Impetrei, Sr. Presidente, uma interpelação judicial, e a Justiça do Rio de Janeiro informou que não encontrou o Sr. Fernando Cavendish para intimá-lo. Portanto, é a oportunidade que ele tem, é uma preliminar que submeto a V. Exa para que ele possa responder. É uma questão de hombridade…

O SR. PRESIDENTE (Vital do Rêgo. PMDB–PB) – Sr. Senador…

O SR. ALVARO DIAS (PSDB–PR) – …ele responder que Senador ele compraria por R$6 milhões.

O SR. PRESIDENTE (Vital do Rêgo. PMDB–PB) – Sr. Senador Alvaro Dias, a preliminar de V. Exa eu acato e aceito em homenagem e em respeito à instituição de que eu faço parte e, por isso, antes de dispensar a testemunha, como faço com qualquer testemunha, eu me refiro e transponho ou transmito a sua indagação, em nome do Senado da República, ao Sr. Fernando Cavendish. Em nome do Senado Federal.

O SR. FERNANDO ANTÔNIO CAVENDISH SOARES – Esse assunto, em momento oportuno, que judicialmente está em curso, eu responderei, Presidente.

Fernando Cavendish, num rascunho de delação premiada, disse que a Delta fez pagamentos de propina por obras em São Paulo e que o beneficiário foi o hoje chanceler Aloysio Nunes Ferreira.

O tucano é padrinho político de Paulo Preto, a quem indicou para ocupar seu primeiro cargo público, no segundo mandato de Fernando Henrique Cardoso.

Adir Assad, já condenado nas operações Irmandade e Lava Jato, em depoimentos recentes admitiu que, através de empresas fantasmas, lavou R$ 1,7 bilhão para empreiteiras, através de serviços fictícios, especialmente de terraplanagem.

Ele emitia notas falsas, embolsava uma comissão de 14% e distribuia propinas em malas que levavam até R$ 170 mil, que apelidou de lasanhas.

Do total, sempre segundo os depoimentos, R$ 300 milhões seriam da Delta, dos quais Assad teria repassado R$ 80 milhões a Paulo Preto, referentes à obra de ampliação da marginal do Tietê, um das vitrines da campanha de José Serra quando concorreu ao Planalto em 2010.

Paulo Preto já foi apontado, nas delações da OAS, Andrade Gutierrez e Odebrecht, como destinatário de propina por obras viárias em São Paulo.

Ele também teria recebido do grupo CCR, que opera rodovias no berço tucano.

Paulo Vieira de Souza, o Paulo Preto, permanece livre, leve e solto.

Em um de seus depoimentos, Assad confirmou que houve pagamento a parlamentares na CPMI do Cachoeira:

“Tanto é que o dia que eu cheguei na CPI, foi uma maravilha. Eu cheguei lá e estavam todos os deputados, senadores, todos no telefone, para não fazer pergunta para mim. Quer dizer… “Mio”, né? Parecia que eu fui lá fazer uma palestra”, afirmou.

Mas, qual teria sido o motivo para a Andrade Gutierrez e a Odebrecht pagarem para calar Assad na CPMI do Cachoeira?

As empresas atuavam juntas em várias obras.

Na reforma do Maracanã para a Copa de 2014, por exemplo, a Andrade e a Odebrecht formaram consórcio com a Delta, de Cavendish.

Os esquemas poderiam ter sido desfeitos muito antes, se o relatório final da CPMI, conforme escrito pelo relator, tivesse sido aprovado.

Ele previa o indiciamento de 46 pessoas, dentre elas Carlinhos Cachoeira, Adir Assad e o governador tucano de Goiás Marconi Perillo.

Porém, o relatório final foi rejeitado por 18 votos a 16, mesmo depois que o relator retirou da lista de indiciados o jornalista Policarpo Jr. e vários outros, com o objetivo de obter um acordo.

Votaram a favor: Jorge Viana (PT-AC), Lídice da Mata (PSB-BA), Pedro Taques (PDT-MT), Vanessa Grazziotin (PCdoB-AM), João Costa (PPL-TO), Randolfe Rodrigues (PSOL-AP), Aníbal Diniz (PT-AC), Cândido Vaccarezza (PT-SP), Odair Cunha (PT-MG), Paulo Teixeira (PT-SP), Íris Araújo (PMDB-GO), Onyx Lorenzoni (DEM-RS), Glauber Braga (PSB-RJ), Miro Teixeira (PDT-RJ), Rubens Bueno (PPS-PR) e Jô Moraes (PCdoB-MG).

Votaram contra: Sérgio Petecão (PSD-AC), Sérgio Souza (PMDB-PR), Ciro Nogueira (PP-PI), Jayme Campos (DEM-MT), Alvaro Dias (PSDB-PR), Cássio Cunha Lima (PSDB-PB), Antonio Carlos Rodrigues (PR-SP), Marco Antônio Costa (PSD-TO), Ivo Cassol (PP-RO), Luiz Pitiman (PMDB-PE), Carlos Sampaio (PSDB-SP), Domingos Sávio (PSDB-MG), Gladson Cameli (PP-AC), Maurício Quintella Lessa (PR-AL), Silvio Costa (PTB-PE), Filipe Pereira (PSC-RJ), Armando Vergílio (PSD-GO) e Cesar Halum (PSD-TO).

À época, chamaram atenção os votos contra de parlamentares que mal tinham frequentado as sessões da CPMI, como Ivo Cassol, Antonio Carlos Rodrigues e Filipe Pereira.

Curiosamente, os três parlamentares que convocaram Adir Assad para depor na CPMI — além de Alvaro Dias, Filipe Pereira e Luiz Pitiman — votaram contra o relatório final que o indiciava.

Álvaro Dias nega que tenha criado dificuldades para vender facilidades e promete interpelar judicialmente os responsáveis “por essa insinuação maldosa”, conforme a nota que publicou no Facebook.

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Nelson

12/03/2018 - 21h23

Este santarrão tem votado, quase sem exceção, contra os interesses e as necessidades do nosso país e do nosso povo. Em uma das exceções, quando votou contra a reforma trabalhista, o fez somente para tentar buscar simpatia de trabalhadores e trabalhadoras brasileiros e assim pavimentar melhor seu caminho na direção da reeleição.

Parafraseando o hino de um grande clube carioca, “Uma vez tucano, sempre tucano”

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Julio Silveira

12/03/2018 - 07h39

Não há duvidas de quem tem DNA tucano. Golpista, ardiloso, maquiavelicos. lisos como mussuns dos rios para a justiça.

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