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Comitê Científico recomenda aumento do isolamento social no Nordeste e até lockdown em algumas cidades
Foto: ndréa Rêgo Barros/PCR
Professor Nicolelis contra a pandemia

Comitê Científico recomenda aumento do isolamento social no Nordeste e até lockdown em algumas cidades


21/05/2020 - 16h54

Da Redação

Coordenado pelo neurocientista Miguel Nicolelis e o ex-ministro Sérgio Rezende, o Comitê Científico de Combate ao Coronavírus publicou no início da tarde desta quinta-feira, 21/05, o seu boletim número 7.

Em face da contínua expansão da pandemia, faz as seguintes sugestões ao Consórcio de Governadores do Nordeste.

1 – Aumento dos índices de isolamento social e recomendações específicas para o estabelecimento do lockdown

As curvas de casos e óbitos continuam a crescer em toda a região Nordeste.

Por isso, o Comitê Científico segue apoiando, de forma unânime, a manutenção e ampliação das medidas de isolamento social.

É a única forma eficiente de reduzir o número de contágios e evitar a sobrecarga e o colapso dos sistemas de saúde.

A manutenção e ampliação dessa medida — válida para Nordeste inteiro — se faz ainda mais urgente com o comprovado aumento de casos de dengue e chikungunya em toda a região  e no resto do país (ver item 4, abaixo).

Mas o Comitê Científico se sente na obrigação profissional de alertar:  em vários estados, capitais e municípios da região Nordeste, todos os critérios para adoção do isolamento mais restritivo, o chamado, em inglês, lockdown, já foram preenchidos.

Ou seja, curva ascendente de casos e óbitos e ocupação de leitos de UTIs e/ou enfermarias superior a 80%.

Portanto, a partir de hoje essas localidades podem ter que utilizar o lockdown para diminuir as curvas de expansão da pandemia e evitar uma velocidade ainda maior no número de óbitos.

Neste primeiro momento, o Comitê julga que as condições para o lockdown  estão presentes em:

*São Luiz (MA), Fortaleza (CE) e na área metropolitana do Recife (PE), onde já é utilizado em diferentes formatos.

*Na área metropolitana de João Pessoa (PB), onde a ocupação de leitos de UTI atingiu 83% a 88% nas últimas 48h.

*Campina Grande, a 120 km da capital João Pessoa (PB), com 83% dos leitos de UTI ocupados.

*Mossoró e Natal (RN)

* Nas cidades alagoanas de Arapiraca (85-92% dos leitos de enfermaria ocupados nas últimas 48h) e São Miguel dos Campos (91% dos leitos de enfermaria ocupados).

*Salvador (BA) chegou no limite; em 20 de maio, 80% dos leitos de UTI estavam ocupados.

O Comitê Científico frisa: é uma recomendação científica a governadores e prefeitos dos estados e cidades supracitados, cabendo-lhes  decidir pela sua implementação ou não.

Para oferecer subsídios para o planejamento de eventuais lockdowns acrescidos de barreiras sanitárias nas principais rodovias do Nordeste, o Comitê disponibiliza neste Boletim a análise dos principais entroncamentos rodoviários de cada Estado, níveis de isolamento social em todo Nordeste, bem como distribuição geográfica de casos e óbitos na região

O mapa e a análise de fluxos pelos principais entrocamentos rodoviário também podem ser usados para selecionar os alvos de ações localizadas, por parte de cada governo estadual, para impedir o contínuo fluxo de casos para localidades do interior que ainda possuem um número reduzido de pacientes infectados.

2 — Uso da cloroquina e da hidroxicloroquina

Em resposta à portaria do Ministério da Saúde, publicada no dia 20 de maio de 2020, o Comitê mantém sua posição inicial contrária ao uso da cloroquina e da hidroxicloroquina, isoladas ou em associação com outros medicamentos, para tratar qualquer fase da infecção provocada pelo covid-19.

A posição do Comitê Científico do Consórcio Nordeste baseia-se em amplas evidências científicas e clínicas publicadas nas maiores revistas científicas do mundo e  ratificadas pelas mais importantes instituições de pesquisas internacionais, entre as quais o National Institute of Health (EUA) e a European Medical Agency (Comunidade Européia), e a Fiocruz, no Brasil.

O Comitê Científico adverte:

Além de não haver nenhuma demonstração científica ou clínica crível da efetividade terapêutica desses medicamentos, em qualquer estágio da infecção por Covid-19, os graves efeitos colaterais que podem advir do seu uso em pacientes portadores do Coronavírus, incluindo morte súbita por parada cardíaca irreversível, insuficiência hepática e renal, justificam plenamente a decisão deste Comitê.

Na realidade, o uso desses medicamentos constitui conduta temerosa que pode pôr pacientes em risco de morte, sem oferecer nenhum benefício terapêutico comprovado.

Referências:

1 – https://www.nejm.org/doi/full/10.1056/NEJMoa2012410

2 – https://jamanetwork.com/journals/jama/fullarticle/2766117

3 – https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1844

4 – https://www.bmj.com/content/369/bmj.m1849

3 – Protocolos ambulatoriais para Serviços de Atenção Primária à Saúde

O Comitê Científico reitera: os profissionais de saúde de estados e municípios devem seguir as orientações do protocolo para Serviços de Atenção Primária à Saúde/Estratégia Saúde da Família (APS/ESF), do Ministério da Saúde, publicado em 1 de abril de 2020, para guiá-los quanto ao manejo e controle da infecção covid-19.

Considerando a existência de fase de transmissão comunitária da covid-19, é imprescindível que os serviços de APS/ESF trabalhem com abordagem sindrômica do problema, não sendo mais exigida a identificação do fator etiológico por meio de exame específico.

O referido protocolo foca na abordagem clínica da Síndrome Gripal e da Síndrome Respiratória Aguda Grave (SRAG), independentemente do agente etiológico.

Como é de conhecimento de todos, múltiplos agentes virais são responsáveis por essas duas síndromes, sendo o vírus da Influenza o de maior magnitude nos últimos anos.

Entretanto, há evidências e dados internacionais indicando que a transcendência da covid-19 supera a da Influenza.

4 — Brigadas Emergenciais de Saúde

O Comitê Científico enfatiza novamente: é imperioso pôr em ação imediatamente, sem maiores atrasos ou postergações, as Brigadas Emergenciais de Saúde.

A recomendação feita anteriormente pelo Comitê Científico é a de que cada estado, crie as suas próprias brigadas.

A finalidade principal delas: usar as equipes formadas por médicos da família, enfermeiros e agentes comunitários de saúde para combater o coronavírus onde ele nos ataca inicialmente.

Leia-se: nas casas das pessoas, nos bairros, municípios do interior e periferias das grandes capitais.

O aplicativo Monitora Covid-19 já conta com mais de 50 mil usuários cadastrados (e 67 mil usuários no total).

A sincronização dos dados georreferenciados obtidos por meio deste aplicativo com a atuação das brigadas em campo é parte essencial da estratégia de combate ao coronavírus defendida pelo Comitê Científico:

Acreditamos que essa estratégia pode ser um divisor de águas no combate ao coronavírus no Nordeste e em todo o Brasil.

Dessa forma, renovamos o apelo para que todos os estados sigam essa diretriz, a exemplo do Maranhão e Piauí, que já implementaram suas brigadas.

No Piauí, inclusive, um teste piloto da integração dos dados oferecidos pelo aplicativo Monitora Covid-19 e a busca ativa de casos suspeitos de portar o coronavírus foi realizada com grande sucesso.

Renovamos, também, a nossa recomendação anterior de que os governos estaduais incluam em seus decretos a necessidade de recrutar médicos brasileiros diplomados no exterior, através da criação de programas estaduais de revalidação de diplomas, como faculta a lei, seguindo o exemplo do Maranhão.

Vale ressaltar que a estratégia proposta pelo Comitê — acoplar o uso dos dados obtidos pelo Monitora Covid-19 com a atuação em campo das Brigadas Emergenciais de Saúde — já começou a ser discutida em outros estados brasileiros além da região Nordeste.

5– Aumento da testagem para coronavírus e dengue

Devido ao aumento significativo de casos de coronavírus assim como os dengue dengue na região Nordeste, o Comitê vê como imperiosa a necessidade de se aumentar a testagem da população em toda a região para ambas as infecções.

O Comitê solicita que os governos estaduais se informem sobre a disponibilidade prevista de testes para a dengue, uma vez que o aumento de casos dessa doença também contribuirá para a sobrecarga dos sistemas de saúde do Nordeste nas próximas semanas.

Em relação ao coronavírus, o Brasil continua sendo um dos países do G20 que menos testa sua população.

Sem o uso de testes confiáveis, o combate à pandemia fica extremamente prejudicado.

6– Divulgação para a população dos programas assistenciais federais

O Comitê também aprovou a necessidade dos governos estaduais ampliarem a disseminação das informações referentes aos programas assistenciais federais existentes, para auxiliar financeiramente a população do Nordeste durante a crise econômica gerada pela pandemia.

É imperativo que todos os mecanismos criados sejam amplamente divulgados na imprensa oficial dos estados e em campanhas na mídia, para que o total de recursos disponibilizados possa ser utilizado pela população que mais precisa desse auxílio financeiro.

Para ajudar nessa disseminação, o Comitê criou a tabela abaixo, listando o impacto somente com o Programa de Auxílio Emergencial em todos os estados nordestinos.

Como se pode verificar, somente com um único Programa, a economia regional pode absorver montante superior a 24 bilhões de reais, ajudando na subsistência de milhares de famílias e a sustentação de vários segmentos econômicos.

Somado com outros programas que estão disponíveis às famílias, empresas etc., a expectativa é que a região Nordeste possa receber, aproximadamente, cerca de 40 bilhões de reais, caso as ações de ampla divulgação destas iniciativas alcancem o maior número de interessados e entidades representativas.



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