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Nicolelis: Pandemia está longe de acabar, ao contrário do que propagandeiam nossos “epidemiologistas de sofá”
Professor Nicolelis contra a pandemia

Nicolelis: Pandemia está longe de acabar, ao contrário do que propagandeiam nossos “epidemiologistas de sofá”


19/07/2021 - 12h09

Miguel Nicolelis: Um milhão de mortos em 2021 e a pandemia está longe de acabar

Brasil caminha a passos largos para superar os Estados Unidos (EUA) e assumir a liderança mundial de mortes, distraído por um sem-número de delírios de seu inominável mandatário

Por Miguel Nicolelis*, no Correio Braziliense


Em 14 de julho, o Brasil chegou à dantesca marca de 537.693 mortos pela covid-19.

Caminhando a passos largos para superar os Estados Unidos (EUA) e assumir a liderança mundial de mortes, distraído por um sem-número de delírios de seu inominável mandatário, o país quase não se deu conta de uma marca ainda mais aterrorizante.

Segundo o Portal da Transparência do registro civil, o Brasil registrou, até dia 15 de julho, 1.025.155 mortes, considerando-se todas as causas, e atingiu, em pouco mais de seis meses, entre 80% e 85% da média anual de óbitos pré-pandemia (por volta de 1,27 milhão em 2019).

Assim, enquanto a média mensal em 2018 e 2019 ficou em torno de 100 mil mortes/mês, nos dois meses mais mortais de 2021 (março e abril), foram registrados valores 87% e 88% superiores ao patamar pré-pandemia (188.725 mil, em março, e 187.842 em abril).

Apesar de esses números incluírem todas as causas de morte, grande parcela deste monstruoso excedente está relacionada ao colapso hospitalar do primeiro semestre, fenômeno sem precedentes e do qual ainda não nos recuperamos.

A verdade é que nunca se morreu tanto e por tantas causas diferentes no Brasil.

Mortes por falta de leitos, mortes por atraso em tratamentos, mortes por adiamento de cirurgias, mortes por falta de medicamentos e, possivelmente, mortes decorrentes do vergonhoso fato de que mais da metade da população se encontra em estado de insegurança alimentar, elemento determinante no surgimento de outras doenças infecciosas ou no agravamento de doenças crônicas.

Somem-se ainda as mortes por uso de medicamentos inapropriados ou por infecções resistentes a antibióticos, usados erroneamente para prevenir o coronavírus.

Não é à toa, portanto, que, ao longo do semestre mais mortífero da nossa história, a imagem mais associada ao país pela imprensa mundial tenha sido a de covas rasas sendo abertas nos grandes cemitérios.

Em meio a este dilúvio de mortes, ouço, por todos os lados, que a pandemia acabou no Brasil.

Isso mesmo, meu caro leitor. São infinitas as manifestações de júbilo e regozijo em resposta à queda da média móvel de casos e mortes.

Aparentemente, alguns arautos desta vitória de Pirro — incluindo um famoso comentarista que insiste em não ler os artigos publicados pelo próprio portal — deixaram de reparar que os atuais valores desta média são idênticos (considerando casos novos por dia) ou mesmo superiores (mortes por dia) aos observados em julho de 2020, pico da primeira onda.

Para deleite do tal comentarista, pesquisa publicada pelo portal que veicula seus “ditames epidemiológicos de sofá” revela que a maioria da população acredita que a pandemia esteja sob controle.

Eu ainda não compartilho dessa lufada de otimismo usada por gestores como justificativa para relaxar as poucas medidas de isolamento ainda vigentes.

“É hora de voltar à vida normal”, propagam esses governantes ansiosos por satisfazer os lobbies econômicos. Mas em que, concretamente, eu baseio minha cautela? A resposta tem nome e sobrenome: variante Delta!

A mesma que surgiu na Índia e causou uma tragédia ímpar.

Hoje, presente em mais de 100 países, ela é responsável pelo crescimento de casos no Reino Unido, Holanda, Estados Unidos e mesmo em países que se deram muito bem nas primeiras duas ondas, como Vietnã e Indonésia.

No caso de Reino Unido e EUA, o crescimento se deu a despeito destes países terem chegado à marca de 50% da população totalmente imunizada.

No Brasil, onde 42% receberam a primeira dose da vacina e apenas cerca de 15% foram imunizados com duas doses, já existem relatos de transmissão comunitária da Delta em vários estados. Registre-se que ela é pelo menos 60% mais transmissível do que as cepas originais que causaram a pandemia.

Dada a baixíssima taxa de sequenciamento genético no Brasil, ninguém sabe como está sendo o espalhamento temporal e espacial da variante.

Muito menos se sabe quem vai ganhar a competição entre as variantes Delta e Gama, que, de Manaus, espalhou-se até virar a variante dominante aqui.

O futuro da pandemia no Brasil vai depender do resultado dessa briga viral e da velocidade com que o país imunizará fração significativa da população.

Dada a escassez de doses e problemas de logística, este último horizonte parece estar distante de nós e, por causa dessas incertezas, eu ainda perco o sono nas madrugadas.

Enquanto o mundo se alarma com o espalhamento explosivo da Delta e tenta mitigá-lo, o Brasil celebra o suposto controle da pandemia.

Nas ondas anteriores, a situação no Reino Unido e nos EUA antecipou o que ocorreria no Brasil. Desta vez não será diferente.

Como diz um meme popular na internet, “todo filme de catástrofe começa com um cientista fazendo o alerta da tragédia que está por vir”.

Até agora, a pandemia confirmou que os roteiristas de Hollywood têm mais bom senso que a maioria dos nossos epidemiologistas de sofá.

Portanto, seria de bom tom apostar na dúvida baseada em dados concretos do que se fiar na certeza de incautos de ocasião, que não conseguem ouvir nada mais do que o som da própria voz.

* Miguel Nicolelis é médico e neurocientista





5 comentários

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Alvaro Tadeu Silva

20 de julho de 2021 às 08h28

Quando em dezembro ou janeiro o Dr. Nicolelis afirmou que chegaríamos a 500 mil mortes por COVID-19 em julho, pensei: “confio no Nicolelis, mas desta vez ele está exagerando”. Meio milhão de mortes foram registrados um mês antes do que ele previra. Se ele está falando em um milhão de mortos, é bom se prevenirem. Bolsonaro, desgraça total.

Responder

Zé Maria

19 de julho de 2021 às 19h54

A Taxa de Mortalidade no Brasil atingiu
2.535 Óbitos por Milhão de Habitantes.
Está em 10º Lugar dentre 220 Países.
E a tal “Cepa Delta” nem se espalhou
ainda.

https://www.worldometers.info/coronavirus/#countries

Responder

    Zé Maria

    21 de julho de 2021 às 15h23

    https://els-jbs-prod-cdn.jbs.elsevierhealth.com/cms/attachment/fdd3e726-e734-4d27-ad87-f1704169a13c/fx1.jpg

    “Pesquisa sugere maior risco de reinfecção pela variante Delta”

    Estudo (*) recém-publicado com a participação
    da Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz) sugere
    que a variante Delta do novo coronavírus,
    detectada inicialmente na Índia, pode
    aumentar o risco de reinfecções.

    A pesquisa aponta que o soro de pessoas previamente
    infectadas por outras cepas é menos potente
    contra esta variante viral.

    O problema é observado de forma marcante
    entre os indivíduos anteriormente infectados
    pela variante Gama, identificada originalmente
    em Manaus e atualmente dominante no Brasil,
    assim como pela variante Beta, detectada pela
    primeira vez na África do Sul.

    Nestes casos, a capacidade de neutralizar a cepa Delta
    é onze vezes menor.

    A pesquisa foi publicada na renomada revista científica Cell.
    Liderado pela Universidade de Oxford, no Reino Unido,
    o estudo foi realizado por meio de uma grande
    colaboração científica envolvendo 59 pesquisadores
    do Reino Unido, China, Brasil, Estados Unidos, África
    do Sul e Tailândia. No Brasil, participaram o Laboratório
    de Vírus Respiratórios e do Sarampo do Instituto
    Oswaldo Cruz (IOC/Fiocruz), o Laboratório de Ecologia
    de Doenças Transmissíveis na Amazônia do Instituto
    Leônidas e Maria Deane (Fiocruz Amazônia) e a
    Fundação de Vigilância em Saúde do Amazonas (FVS/AM).

    *(https://linkinghub.elsevier.com/retrieve/pii/S0092867421007558)

    Íntegra em:
    https://portal.fiocruz.br/noticia/pesquisa-sugere-maior-risco-de-reinfeccao-pela-variante-delta

    Zé Maria

    21 de julho de 2021 às 15h57

    .
    A pneumologista e pesquisadora da Fiocruz (Fundação Oswaldo Cruz) Margareth Dalcolmo afirmou, em artigo publicado hoje (20), que o Brasil não está preparado para lidar com a variante delta do coronavírus, em circulação em alguns estados do país.

    Segundo a profissional de saúde, países como Estados Unidos e Inglaterra, que também já detectaram a presença da variante delta, apresentaram aumentos significativos no número de novas infecções diárias pela covid-19, o que pode ser um prenúncio do que irá acontecer no Brasil.

    Conforme Dalcolmo, para suavizar o impacto da nova cepa, o país precisa retomar as medidas restritivas em concomitância com a manutenção da vacinação da população, sobretudo na população mais jovem.

    “Estamos com seis meses do início da aplicação das vacinas no Brasil, sabidamente atrasados em relação a outros países, que começaram em dezembro do ano passado.
    Perdemos o timing da negociação de vacinas a despeito dos excelentes estudos de fase 3 que aqui se desenvolveram, com Pfizer e Janssen, além da Coronavac e AstraZeneca, para assegurar as evidências de eficácia e subsidiar os processos regulatórios”,
    afirmou a médica, que destacou a dificuldade do Brasil em sequenciar as cepas da covid-19.

    “Se olharmos a velocidade e gravidade com que se deram as primeiras pestes, vemos como seus contemporâneos sobreviveram a elas quase ao acaso — ou por seleção natural darwiniana, os mais fortes. Na presente pandemia, mais do que em todas as antecedentes, vigoram inapelavelmente a ciência e seus avanços e profunda empatia. Nesse sentido, opor bem querer e vigilância sanitária latu sensu é mais que incongruente, injusto”,
    completou Margareth Dalcolmo.

    Íntegra do Artigo (20/07/2021):

    “Brasil Não Está Preparado para a Variante Delta”

    Por Margareth Dalcolmo, no Blog Hora da Ciência

    “Na densa curva de aprendizado científico e na avalanche de informações, tornou-se inevitável nos familiarizar com números e taxas nesses tempos pandêmicos: estamos chegando a 10% da população brasileira contaminada pela Covid-19, com quase 20 milhões de casos notificados e 550 mil mortes.
    Muitos curados, mantendo-se a proporção epidemiológica inicial de que 80% dos casos seriam leves, autolimitados e sem necessidade de hospitalização.

    Permanecem verdadeiros os conceitos dos “grandes espalhadores”, 10% de infectados que seriam responsáveis por 90% dos casos, mesmo com o surgimento de novas variantes virais, como a cepa Delta, com capacidade de transmissão muito superior às demais e já presente no Brasil.
    Nos Estados Unidos, com metade da população adulta vacinada, vê-se o incremento de notificações, com mais de 30 mil casos em um dia.
    No Reino Unido, mais de 50 mil.
    Prenúncio do que ocorreria aqui?
    Impedir a transmissão da nova cepa não parece plausível, uma vez que já circula em vários estados, mas como suavizar seu impacto senão com a manutenção ou retomada de medidas restritivas de par com o avanço consistente da vacinação, sobretudo em grupos mais jovens?

    Estamos com seis meses do início da aplicação das vacinas no Brasil, sabidamente atrasados em relação a outros países, que começaram em dezembro do ano passado.
    Perdemos o timing da negociação de vacinas a despeito dos excelentes estudos de fase 3 que aqui se desenvolveram, com Pfizer e Janssen, além da CoronaVac e AstraZeneca, para assegurar as evidências de eficácia e subsidiar os processos regulatórios.

    Mesmo com a produção nacional da CoronaVac pelo Butantan e AstraZeneca pela Fiocruz, esta hoje majoritária em número de doses ofertadas, alcançamos pouco mais de 40% da população com uma dose aplicada e pouco mais de 15% imunizada com duas doses.
    É pouco para fazer frente à ameaça real de transmissão sustentada da nova cepa Delta.

    Grupos de pesquisa em virologia, como na UFRJ, tem sequenciado cerca de 700 amostras só do Rio de Janeiro por mês, num esforço de sairmos da taxa de menos de 1,0% de cepas genomicamente estudadas.
    Só a título de comparação o Reino Unido sequencia 10% das cepas detectadas em casos nacionais.

    Como operar nosso cotidiano e imaginário com tantas cifras, índices, taxas e proporções sem pensar na transcendência de cada um desses achados?
    Historicamente negar uma experimentação com bom resultado pode ser lido como uma negação de justiça.

    Se olharmos a velocidade e gravidade com que se deram as primeiras pestes, vemos como seus contemporâneos sobreviveram a elas quase ao acaso — ou por seleção natural darwiniana, os mais fortes.
    Na presente pandemia, mais do que em todas as antecedentes, vigoram inapelavelmente a Ciência e seus avanços e profunda empatia.
    Nesse sentido, opor bem querer e vigilância sanitária latu sensu é mais que incongruente, injusto.”
    .
    .
    Com a Variante Delta, os Hospitais no Brasil vão
    entupir mais do que o Genocida entupiu de M_erda.
    .
    .

    Zé Maria

    21 de julho de 2021 às 17h50

    ‘Primeira Onda’ Reloaded
    Atualmente, 6.920 Pacientes de Carne e Osso
    [mais de Osso do que Carne] estão internados
    em UTIs (Unidades de Terapia Intensiva) no
    Estado de São Paulo e outros 6.437 em
    Enfermarias. E aumentando.


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