Lelê Teles: Chega de brincadeira! Nikolas e o pós bolsonarismo
Tempo de leitura: 4 minPor Lelê Teles
Por Lelê Teles*
“antes o voo da ave, que passa e não deixa rasto, que a passagem do animal, que fica lembrada no chão”, fernando pessoas
o boiada passou.
nikolas e seu rebanho deixaram um rastro de merda pelo caminho.
sim, eu disse a mim mesmo que não escreveria uma linha sobre a vaquejada cívica que tomou a beérre zeroquatenta na última semana.
mesmo cobrado por alguns leitores e leitoras, mantive-me firme.
nada escreveria sobre aqueles trotantes homens-faunos e seus cascos cheios de bolhas.
mesmo porque seria chover no molhado falar sobre um assunto que tava todo mundo falando.
nas redes sociais, nas tevês, nos cultos e nas rádios não se falava em outra coisa.
até bebês já balbuciavam para as suas babás: “chupetinha”.
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a marcha estava sendo registrada em fotos, vídeos, memes, mímicas, músicas, libras, gravuras, salmos e louvores.
o chupetinha pautou a nação por uma semana, e é isso o que de fato importa!
confesso que fiquei decepcionado com algumas análises que procuraram, de forma infantilizada, apenas ridicularizar o molecote que, aliás, é um homem de quase trinta anos!
vi, com esses olhos que a terra há de comê-los, ateus atribuírem a deus um raio que caiu do céu.
veja que curioso.
vi mesmo gente que chegou ao disparate de dizer que o evento flopou!
como flopou?
me vi forçado a contribuir com o debate, e aqui vão os meus cinquenta centavos, no píquis.
primeira lição de um caminhante: o que realmente importa numa caminhada não é a partida e nem a chegada, mas o caminhar.
o mais importante é o caminho em que se caminha, não o destino para o qual nos encaminhamos.
o pequeno nikolas (le petit nikolas) partiu em sua jornada forrestegâmpica, usando calça jeans skinny e sapato de couro.
parecia que o cara tinha dado a louca. acordou, amarrou os cadarços, se olhou no espelho e lhe disse: me vou.
e se foi.
esse improviso inesperado, desprendido, porraloka e messiânico é claramente a decisão de alguém que recebeu um chamado.
veja aí a malandragem.
no caminho, le petit nikolas anunciou que marchava pela liberdade e pela justiça.
ganhou um cajado, um escalda pés e um bebê enfermo precisando de oração.
mistificou-se no caminho.
não nos enganemos, o chupeta não é idiota.
ele sabia que sua peregrinação caminhosa não libertaria o minion-tauro e nem ressuscitaria o clesão, mas ele precisava de um slogan.
mandou esse.
e o milagre aconteceu.
no caminho foram surgindo adesões: tropeçando nas pernas, chegou o senador magno malte, mamado.
o nosso bravo forrest drunk largou as moletas, sentou num carrinho de bebê, pegou sua mamadeira de corote e obrigou um trouxa a empurrá-lo.
um sujeito desceu de helicóptero, teve gente vindo de trator, de cavalo…
chegou gayer, pavanato, adrilles, fernando feriado, o diabo.
o baixo clero, acéfalo, se juntou ao bezerro de ouro.
nikolas, claramente, tava montando ali um time com um plantel da segunda divisão, só tinha perna de pau.
percebendo a jogada do pequeno nikolas, emilio surita chegou a dizer que o sujeito merecia colocar a braçadeira de capitão!
sacaram a troca de um capitão por outro?
nikolas, em sua caminhada, estava a mandar um recado.
seria ele quem ocuparia o vazio deixado na ultra direita, e na outra direita, desde o confinamento do minion-tauro no labirinto da papudinha.
órfão do papudim, o gado estava recluso nos currais domésticos.
o mito, desmitificado pela família, havia se tornado um molambo velho: fraco, depressivo, condenado, inelegível, broxável, comível, sucumbindo às comorbidades e reclamando da tortura de um ar-condicionado.
o touro indomável havia se convertido num bode velho, um traste, um morto-vivo.
nikolas abriu a porteira, tocou o berrante e mugiu: “quem quiser vir é só me seguir”.
o gado foi.
percebam que na primeira fila estavam os jovens inconsequentes que emporcalham o congresso.
no meio deles está o senador magno malta, representando a turma do presidiário derrotado.
enquanto os jovens caminham e cantam, debaixo de sol e de chuva, malta apodrece numa cadeira de rodas e precisa ser empurrado.
o senador representava, naquela marcha, a decrepitude do malafaia, do minion-tauro, do caiado, do zema, e o apodrecimento do eduardo, do carluxo e do tarcísio.
nikolas representa o novo.
ele caiu pra dentro antes que o mbl ocupasse o vácuo.
nas eleições passadas, nikolas atuou diretamente na campanha de mais de cem prefeitos.
era tido como um fenômeno da internet, um ímã que imantava seguidores e engajamento.
só que agora nikolas saiu das redes e ganhou as ruas.
a partida e a chegada são apenas detalhes, tudo aconteceu no caminho.
pouco importa se teve churrasco, banho quente, cama fofa e quartos de hotéis.
o gado não liga pra isso!
pouco importa se não havia uma pauta clara ou um projeto de futuro para o país.
o gado tá como o adrilles, cagando e andando pra isso.
o que importa é que o sujeito botou gente na rua, sem trio elétrico, sem banda, sem pastores impostores, sem massagem.
pra estar com ele tinha que fazer um pequeno sacrifício.
esse foi um simbólico rito de passagem do bolsonarismo ao pós-bolsonarismo
sobre o flop eu só posso dizer que vi, debaixo de um pé d’água dos diabos, quase vinte mil cabeças de gado esperando nikolas na praça do cruzeiro.
isso não é coisa para se brincar.
o fazendeiro hoje é ele, é ele quem toca o berrante.
não nos esqueçamos que chovia no deéfe inteiro.
naquela mesma manhã, na ceilândia, carros estavam sendo arrastados pela enxurrada.
muita gente não foi porque não pode ir.
e quem foi, foi pelo nikolas.
ah, e fodasse o raio, cara. nikolas está reeleito.
uma enxurrada de candidatos se aproximarão dele no próximo pleito.
a partir de vinte e sete, com lula reeleito, flávio, caiado, ratinho, zema e leite derrotados, o pequeno nikolas vai mandar na porratoda.
quem tiver ouvidos pra ouvir que ouça.
palavra da salvação.
*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
Lelê Teles
Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).




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