Nelice Pompeu: Acadêmicos de Niterói apresenta a verdade na Sapucaí e bolsonaristas surtam

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Nelice Pompeu: ''O enredo incomodou porque dialogou diretamente com o povo''. Fotos: Acadêmicos de Niterói

Por Nelice Pompeu*

Carnaval é arte que fala, cultura que provoca e memória em movimento. É reflexão, luta e resistência.

Por isso, é impossível falar da nossa história sem falar de Luiz Inácio Lula da Silva.

A homenagem foi mais que justa. Foi merecida. Nossa história é feita de lutas populares e de memória viva. Nosso sobrenome é Brasil da Silva.

O desfile da Acadêmicos de Niterói ecoou forte desde o primeiro minuto na Avenida.

O impacto foi imediato e inevitável. Basta observar as reações exaltadas e a revolta da extrema direita para compreender a dimensão do que foi apresentado.

O enredo incomodou porque dialogou diretamente com o povo. É isso que explica as tentativas judiciais frustradas de censura, que buscaram impedir que Lula estivesse nas ruas e no Sambódromo. Todas fracassaram.

Os defensores de Jair Bolsonaro insistem na ideia de que Lula não poderia ocupar o espaço público. Deve ser insuportável, para essa galera negacionista, vê lo aclamado na Sapucaí.

Durante todo o processo carnavalesco, a escola sofreu perseguições.

Conforme comunicado oficial, enfrentou ataques políticos, pressão de setores conservadores e, de forma ainda mais grave, tentativas de interferência na autonomia artística por parte de gestores do próprio Carnaval Carioca. Houve pedidos de mudança de enredo, questionamentos sobre a letra do samba e ações claras de censura e silenciamento.

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Nada disso funcionou.

Mesmo pressionada, a Acadêmicos de Niterói não se curvou.

Resistiu e levou para a Avenida um desfile verdadeiro, potente e coerente com sua identidade. Cumpriu seu papel histórico. E isso explica o surto bolsonarista.

Vestiram carapuças e se incomodaram porque reconheceram no boneco do Bozo preso o próprio Bolsonaro.

A imagem da prisão que por anos foi usada contra adversários políticos retornou como um espelho incômodo.

A representação de Bolsonaro e seus cúmplices como presidiários desmonta a farsa da chamada gente de bem e do discurso seletivo que defende prisão apenas para alguns.

Foi um choque. Talvez por isso o desespero. O eleitor pode começar a se perguntar se vale a pena votar em filhos e parentes de presidiários lançados como candidatos pelo país afora.

O resto foi cortina de fumaça.

Tentaram criar outras polêmicas no desfile para desviar o foco e evitar o ponto mais frágil e incômodo para os bolsonaristas. Jair Bolsonaro é um presidiário. E ponto.

Durante o desfile, a ala 22 da escola apresentou uma representação irônica de famílias conservadoras, inserida em uma narrativa artística mais ampla. A partir daí, o debate saiu da Avenida e tomou as redes sociais.

Rapidamente, o Instagram foi inundado por uma trend com imagens de famílias conservadoras retratadas dentro de latas em conserva, acompanhadas de frases como “Família conservadora” e “Com princípios cristãos firmados na Bíblia”.

Esse movimento não foi espontâneo nem inocente. Tratou-se de uma estratégia para desviar o foco do que realmente incomodou no desfile.

A escola homenageou Lula e apresentou uma representação simbólica de Bolsonaro como presidiário.

Diante disso, a reação foi tentar abafar essa imagem, deslocando o debate para a ideia de família como cortina de fumaça.

Família é base. Ninguém é contra a família.

O que está em debate não é a vida familiar, a fé ou os afetos, mas a hipocrisia de quem se autoproclama cidadão de bem enquanto naturaliza a violência, acredita em falsos messias, dissemina o ódio e despreza a democracia.

É uma tentativa consciente de silenciar a crítica e reduzir a arte a um ataque moral que nunca existiu.

No fim, ficou evidente que o incômodo nunca foi a família. Foi expor Bolsonaro preso!

E como diz o ditado, enquanto os cães ladram, a caravana passa.

Parabéns à Acadêmicos de Niterói.

Parabéns à sua comunidade, aos artistas e aos trabalhadores e trabalhadoras do carnaval que enfrentaram o medo com coragem e dignidade.

Em Niterói, o amor venceu o medo.

*Nelice Pompeu é professora, promotora legal popular e integrante do Movimento Escolas em Luta

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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