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Entre a Craig’s List e a mídia perecível, os professores da PUC


10/05/2010 - 22h59

por Luiz Carlos Azenha

A revolução da internet ainda não chegou de fato ao Brasil. Chegará se a Telebrás, de fato, implantar uma rede nacional de banda larga que torne a rede acessível a todos os brasileiros. Não por motivos políticos, mas acima de tudo econômicos: num país continental como o nosso a interconexão entre pessoas, empresas e entes públicos tem o potencial de aumentar a produtividade, reduzir os custos com transporte e permitir a troca de conhecimento entre professores, estudantes e pesquisadores que estejam fisicamente distantes.

As equipes da Baboon que produzem o programa Nova África já deram três exemplos de como países relativamente menos desenvolvidos que o Brasil deram saltos importantes usando as tecnologias de informação.

No Quênia, ausente uma rede bancária de penetração nacional, a telefonia celular ocupou o espaço. As pessoas pagam quase tudo — inclusive passagem de ônibus — usando dinheiro eletrônico. As consequências para a economia como um todo foram consideráveis. Num país que depende da produção agrícola, os agricultores agora podem cotejar eletronicamente os diferentes preços oferecidos pelos compradores. Não saem mais de suas propriedades na zona rural com a produção perecível, não são mais reféns de um único intermediário. Melhores preços, no campo, refletem em mais consumo de gêneros de primeira necessidade e estimulam a economia como um todo.

Trechos da chamada do programa:

Revolução do Celular from Baboon Filmes on Vimeo.

Na África do Sul, uma escola de cinema, a Big Fish, se dedica a ensinar mais que o “modo de fazer”: incentiva os estudantes a filmar e refletir sobre a realidade que os cerca, rompendo com modelos importados de cultura e informação.

Um trecho:

Big Fish from Baboon Filmes on Vimeo.

Em Cabo Verde, o governo oferece conexão wireless em 14 praças públicas do arquipélago.  E está interconectando todas as repartições do governo, começando pelas escolas e os hospitais. Um sistema de monitoramento de uma epidemia de dengue, em tempo real e online, permitiu calibrar a resposta do governo: o combate ao mosquito foi focado nas áreas onde era maior o surgimento de novos casos.

O Plano Nacional de Banda Larga brasileiro é, portanto, muito mais que uma forma de democratizar a produção de conteúdo e o acesso à informação.

Não há dúvida, no entanto, de que representa uma ameaça àqueles que estão acostumados a pensar dentro do quadrado, ou seja, dos que ainda estão grudados a modelos políticos, econômicos e tecnológicos do século 20 — ou os que defendem o controle de duas dúzias de famílias sobre o setor.

Dentre os novos desafios para os jornalões, por exemplo, figurará a perda de bases de financiamento tradicionais, como os classificados e os anúncios do mercado imobiliário.

Estou certo de que não demorará a surgir uma versão brasileira da Craig’s List. A Craig’s List nasceu informalmente, nos Estados Unidos, como um serviço para dar a volta nas taxas de aluguel cobradas pelas imobiliárias. Em Nova York, por exemplo, é comum o corretor cobrar um mês de aluguel como taxa no fechamento do contrato. Através da internet, os proprietários e locatários estabeleceram um canal de comunicação direta. Hoje, a Craig’s List tem ofertas de imóveis do mundo todo, inclusive aqui mesmo em São Paulo.

A migração desses dois tipos de anunciantes — dos classificados e do mercado imobiliário — para a internet, aliás, foi um das causas da profunda crise enfrentada pela mídia tradicional nos Estados Unidos.

Não há nenhum motivo para acreditar que o mesmo não está em vias de acontecer no Brasil.

Nos Estados Unidos, as saídas encontradas pelas empresas tradicionais de mídia foram múltiplas.

A Washington Post Co., por exemplo, decidiu focar seus investimentos na produção de conteúdo educativo, mais ou menos como a Abril fez no Brasil, com livros didáticos, revistas e apostilas. No caso brasileiro, nascem disso as tentativas da Abril, através de seu principal braço jornalístico, a revista Veja, de desqualificar as escolas públicas, os cursinhos, os livros didáticos ou os profissionais de educação que, literalmente, não rezem por suas cartilhas.

O NaMaria News explica isso melhor, ao tratar da venda de revistas sem concorrência pública

O New York Times se prepara para lançar um modelo híbrido na internet: parte do conteúdo produzido será pago, parte será gratuito. O grande dilema dos formuladores do modelo é que o Times não pode deixar de ser referência na internet. A internet é uma rede colaborativa e horizontal, que tromba com o modelo verticalizado, tradicional. Ser citado por alguém, na internet, como referência, é essencial para sustentar o tráfego de leitores, que agrega valor aos anúncios publicados nas páginas digitais do Times.

Depois de trombar com a parede do conteúdo pago algumas vezes o internauta geralmente se desinteressa. O Times considera oferecer todo seu conteúdo, absolutamente grátis, para blogs ou sites: seriam milhares de portas de entrada espalhadas pelo mundo, multiplicando exponencialmente o potencial de captura de novos leitores para o conteúdo exclusivo.

É um erro acreditar, portanto, que a expansão da banda larga represente um golpe de morte na mídia tradicional. Pelo contrário, o potencial econômico de uma sociedade verdadeiramente midiatizada é enorme, ainda que haja  muitos desafios à frente.

Como competir com emissoras que oferecem todo o seu conteúdo online, em tempo real, na internet, como acaba de fazer a TV Brasil? Qual o impacto que isso terá no custo da propaganda? Investir em conteúdo perecível ou em documentários mais caros mas com maior potencial de reapresentação?  Gastar em novelas datadas ou em seriados que possam ser vendidos mais tarde em DVD, como faz a HBO?

São todas questões pertinentes e é a resposta a elas que vai determinar o futuro dos grupos tradicionais de mídia.

Mas o potencial, como eu dizia acima, é enorme.

Quando escrevemos, na Baboon, o projeto editorial da revista Nova África, por exemplo, consideramos que por se tratar de uma emissora pública deveríamos ter compromisso com o interesse público e educativo. Levamos em conta o potencial didático da série. E buscamos uma unidade editorial entre os diversos episódios. Mais que um mosaico, um conjunto que tocasse em questões essenciais da África contemporânea: num continente eminentemente agrícola, a disputa pela terra e pelos recursos naturais como origem dos mais diversos conflitos locais; num continente marcado pelo colonialismo europeu, o resgate das culturas e idiomas, um processo que está em andamento e é fascinante; num continente marcado pela carência de infraestrutura, os saltos tornados possíveis pelas novas tecnologias.

Do lado de cá, encontramos muita gente ávida por informação de qualidade, sem os filtros que nos relegaram ao papel de consumir TV de segunda mão, via Nova York, Lisboa ou Paris ou via brasileiros cuja mente colonizada continua sustentando nossa subordinação informativa e cultural.

Por iniciativa da Baboon Filmes, todos os professores que requisitaram cópias dos programas foram atendidos. Registro, aqui, uma das mensagens recebidas de volta:

Venho agradecer sua atenção ao nos enviar os filmes sobre a África, em especial sobre Moçambique. Ficamos encantadas com a qualidade dos filmes, com o conteúdo das reportagens e com beleza das imagens.

No próximo mês estaremos inciando um curso de especialização em fonoaudiologia para um grupo de profissionais de Moçambique e a possibilidade de conhecer um pouco mais sobre seu país de origem, com certeza nos ajudará muito. Em nome do IEAA e de todos os professores do nosso instituto, cumprimento a sua equipe pela produção de um material de tão alta qualidade.

Atenciosamente, Profa. Dra. Teresa Momensohn, Fonoaudióloga, Professora da PUC São Paulo, Diretora do IEAA – Instituto da Audição

Um trechinho de um dos programas a que ela se refere está aqui:

O curioso é que os que não sabem fazer ou não aceitam competir atacam justamente o modelo de concorrência pública ou de pitching adotado pela TV Brasil, quando 99,9% dos programas de rádio e TV no país são resultado de contratação direta, em decisões às vezes marcadas pelo compadrio ou pelo uso de um bem público para promover amigos e nanoamigos —  na forma de espaço em programas, promoção de livros e outros favores do gênero. É o século 20, resistindo firme em pleno século 21.

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16 comentários

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Claudio Rodrigues

14 de maio de 2010 às 22h38

Azenha,

Profético.

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dukrai

12 de maio de 2010 às 16h55

Ô Azenha, convoca o TOP DEZ do Viomundo e faz esse trein aqui explodir, este blog pelo nível dos textos é igual à Carta Maior e pela interatividade e nível dos comentários bota o Nassif e PHA no bolso.
Tem uma penca de gente pronta pra colaborar, já pensou ter reportagens com vídeos de Belém, Manaus, BH, Goiânia, …

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    Leider_Lincoln

    15 de maio de 2010 às 19h58

    Eu tenho uma DCR SR 45 e moro no interior de Goiás. Nem sei se acontece muita coisa aqui…

yacov

11 de maio de 2010 às 17h19

E o melhor de tudo é que com o sofware livre podemos nos livramos do jugo da "Microsoft" e seus programinhas milinários. Ainda verei o sofware livre implantado em todos os istemas do serviço público do país. Só a economia que se faria nesta operação, eu acho que dava para cobrir o famigerado rombo da previdência.

"O BRASIL DE VERDADE não passa na glObO – O que passa na glObO é um braZil para os TOLOS"

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    Emerson

    11 de maio de 2010 às 22h10

    Vale ressaltar que o rombo da Previdência Social é uma farsa denunciada pela Prof. Dr. Denise Gentil – UFRJ. Esta é apenas uma manobra na Lei de Responsabilidade Fiscal, inconstitucional, para prevalecer os interesses de grandes grupos interessados no potencial de lucro da Previdência Privada. Os dois links abaixo explicam essas manobras.
    http://www.jornal.ufrj.br/jornais/jornal24/jornal
    http://www.direitosociais.org.br/_arquivos/2007/1

yacov

11 de maio de 2010 às 17h14

"Você não sente nem vê, mas eu não posse deixar de dizer meu amigo, que uma nova mudança em breve, vai acontecer, e o que era novo e jovem hoje é antigo, e precisamos todos rejuvenescer…" Esta letra do BELCHIOR nunca foi tão atual. A integração nacional que o PNBL vai trazer será uma coisa fora do comum. Vai alavancar o volume de negócios, trazer informação e entretenimento barato e de qualidade para todos, além de integrar todo o território nacional. A meu ver isso é irreversível, pois a tendência mais em relevo atualmente, ou seja, os jornações e até mas mídias televisivas terão que se adaptar qualificando sua programação e quem não se adaptar será eliminado. Como diria mr. Darwin: Isso nada mais é que "seleção natural" aplicada ao nosso universo social.

"O BRASIL DE VERDADE não passa na glObO – O que passa na glObO é um braZil para os TOLOS"

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Hans Bintje

11 de maio de 2010 às 14h56

É o momento "improvável" do Azenha. É o que me deixa feliz!

Eu escrevi para o Nassif que uma das maiores alegrias que tive for sair do clima de fim-de-mundo das capitais Lisboa e Madri e num dos lugares mais improváveis do mundo, no interiorzão da Espanha, conhecer a revolução tecnológica que o software livre está promovendo na região de Extremadura.

São os bárbaros (nos dois sentidos da palavra) em ação na Europa. O jornalista George Monbiot, do "The Guardian", explica (http://www.monbiot.com/archives/2010/04/21/the-we… ):

"Os ingleses gostam de pensar sobre si mesmos como uma nação moderna e sofisticada, e às vezes por ignorância veem os galeses como atrasados e bárbaros. Mas na medida em que a democracia está em causa, os ingleses estão anos-luz atrasados. Westminster [sede do parlamento britânico] tem muito mais a aprender com Cardiff [capital do País de Gales] do que Cardiff tem de Westminster."

A Revolução Galesa é fascinante e o relato de George Monbiot emociona. Vale a pena a leitura!

Um leitor mais atento vai perceber que o espírito do texto publicado pelo "The Guardian" é muito semelhante ao do texto do Azenha. São bárbaros e "improváveis", por isso mesmo, essenciais.

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Milton Hayek

11 de maio de 2010 às 14h20

Ao professor fundador do DSC da UFCG,o falecido paulista(do ITA) Mário Toyotaro Hattori:

Computação UFCG no Google Summer of Code 2010
http://www.computacao.ufcg.edu.br/graduacao/desta

Sobre o Google Summer of Code

Para os que não conhecem o programa, o GSoC seleciona estudantes universitários do mundo inteiro para colaborarem com projetos de desenvolvimento de software open source. A colaboração dura apenas alguns meses (tipicamente, as férias de verão do hemisfério norte). Por esse trabalho, os estudantes recebem uma remuneração que pode chegar a US$ 5.000,00, a depender dos resultados obtidos.
UFCG nas edições anteriores do GSoC

Estudantes de computação e elétrica da UFCG têm sido eleitos para participar nas últimas duas edições do GSoC, com sucesso nos projetos escolhidos. Este ano, contudo, o número de estudantes da UFCG aceitos aumentou significativamente.

Estudante de Computação da UFCG premiado no OOPSLA
http://www.computacao.ufcg.edu.br/graduacao/desta

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Nova África está chegando ao final, mas fez história na televisão brasileira | Maria Frô

11 de maio de 2010 às 11h19

[…] Entre a Craig’s List e a mídia perecível, os professores da PUC […]

Responder

francisco.latorre

11 de maio de 2010 às 13h57

o século vinte um veio pra ficar.

belo artigo.

..

Responder

» Entre a Craig’s List e a mídia perecível, os professores da PUC Nova África

11 de maio de 2010 às 10h47

[…] Por Luiz Carlos Azenha, no Vi o Mundo […]

Responder

Milton Hayek

11 de maio de 2010 às 13h29

Ouro dia eu fui criticado aqui por defender que nós podemos encostar a direita na parede usando as idéias de livre mercado,concorrência e outros temas da Escola Austríaca de Economia.A esquerda acha que os "terríveis" economistas austríacos não devem ser nem lidos.
Quando você vai ler o que os caras escreveram,percebe que o povo do DEM/PSDB distorceu tudo o que eles falaram.
Nesse artigo vocês podem ver que,se o povo não quer uma revolução,o próprio capitalismo pode gerar empregos e distribuir renda.Isso se o Estado não for aparelhado por empresários-políticos que nos tributam para dar vida fácil para os compadres.
O Lula viu isso.Um capitalismo de massas pode desnortear completamente essa nomenklatura financista que é a raiz do DEM/PSDB.
Até o Armínio Fraga já está investindo em imóveis de baixa renda,vejam só,financiados pelo Minha Casa,Minha Vida:

Armínio, quem diria ?, vai investir em imóvel de baixa renda

Armínio, FHC: lá fora, o Brasil não presta

Saiu no Estadão, pág. B18 :

“Gávea compra 14,5% de unidade da Odebrecht.”

“Empresa de Armínio Fraga será sócio da Odebrecht na empresa criada para atuar na área de imóveis: foco é a construção para a baixa renda.”

“Até 2011, a empresa espera contratar 40 mil unidades do projeto Bairro Novo, além de oito mil unidades da primeira Parceria Público Privada (PPP) habitacional do País.”

“Podemos dizer que essa foi uma das estrelinhas que brilharam durante as negociações”, destacou Luiz Fraga, outro sócio da Gávea Investimentos. http://www.conversaafiada.com.br/economia/2010/05

Em suma,devido a gigantesca demanda reprimida do nosso povo em TUDO,dá pra falar em sociedade de consumo de massas no Brasil com 50 anos de atraso.Antes tarde do que nunca.
Lembro,por exemplo,dos meus amigos em Campina Grande.Lá é um centro pesado em engenharia.Na computação,por exemplo,eles tem o Laboratório de Sistemas Distribuídos(LSD): http://www.lsd.ufcg.edu.br/

Esses caras estão arrebentando a boca do balão.A universidade incentiva os mestrandos e doutorandos a criarem empresas a partir de seus trabalhos,nos mesmos moldes que a Federal de São Carlos.
Então é isso.Podemos passar por um ciclo de crescimento que pode incluir(como já está acontecendo no Nordeste) mihões de brasileiros.Mas temos que desprivatizar e "des-oligarquizar" o Estado brasileiro.Temos de combater o famoso socialismo para os ricos.
Podem me chamar de "reformista" se quiserem.Esse pássaro está na nossa mão.Estamos com as mãos no volante de uma potência econômica:o Brasil.O caminho pode ser esse,esquerda!!Desnorteiam a direita dando a chance ao povo de ter seu próprio meio de vida!!!

Responder

    francisco.latorre

    11 de maio de 2010 às 20h58

    lula..

    'Resolvi então que era preciso primeiro construir o capitalismo para depois fazer o socialismo; é preciso ter o que distribuir para poder distribuir.'

    ..

miharuu

11 de maio de 2010 às 13h18

Demais! Espero que esse projeto da Telebrás saia do papel e possamos sonhar com isso.

Responder

Marcos

11 de maio de 2010 às 02h58

Fantástico o artigo…

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Tweets that mention Entre a Craig’s List e a mídia perecível, os professores da PUC | Viomundo - O que você não vê na mídia -- Topsy.com

10 de maio de 2010 às 23h47

[…] This post was mentioned on Twitter by Eduardo Antonio. Eduardo Antonio said: Muito bom artigo do @viomundo: Entre a Craig’s List e a mídia perecível http://bit.ly/93kPq5 […]

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