Fernando Nogueira da Costa: O Anticomunista, o Anticlerical, o Neofascista, a Alienada, a Apática e o Antifascista
Tempo de leitura: 14 min
Apólogo sobre a Economia Política da Transição Sistêmica
Por Fernando Nogueira da Costa*
Cinquenta anos depois da formatura no Ensino Médio, uma turma de antigos colegas resolveu organizar uma festa de confraternização. O convite anunciava: “Cinquentenário da Formatura — Meio Século de História, Amizade e Transformações!”
O reencontro dos sobreviventes ocorreu no salão de festas de um clube tradicional, onde os antigos estudantes, agora septuagenários, procuravam reconhecer uns aos outros por trás dos cabelos brancos, das barrigas proeminentes, das rugas e dos aparelhos auditivos.
Na entrada, um cartaz exibia a fotografia da turma: rapazes de cabelos compridos, moças de minissaias, alguns de calças boca de sino e todos com aquele ar de quem acreditava ter todo o futuro a conquistar pela frente.
— Impressionante! — comentou um senhor de bigode grisalho. — Naquela época, éramos todos jovens revolucionários!
— Fale por você! — retrucou outro, de postura militar. — Eu sempre fui conservador!
— Conservado você parece ter sido… — comentou uma antiga colega. — Cinquenta anos depois, continua com as mesmas ideias!
Todos riram. Como ninguém se lembrava dos nomes de todos os presentes, alguém propôs uma fórmula divertida: cada um deveria se reapresentar pelo apelido correspondente à sua principal convicção atual.
Assim começou uma noite destinada a demonstrar como, embora todos os corpos envelheçam, as ideias nem sempre acompanham a evolução da História.
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1. O Anticomunista e o fantasma da Guerra Fria
O primeiro a se apresentar foi um antigo oficial da reserva.
— Podem me chamar de Anticomunista! Servi ao Exército durante a Guerra Fria. Aprendi desde cedo o comunismo ser a maior ameaça para a liberdade, a propriedade privada, a família e a civilização ocidental!
— Mas a Guerra Fria acabou há trinta e cinco anos! — observou uma colega.
— Acabou nada! Os comunistas estão infiltrados nas universidades, nos sindicatos, na imprensa e até nos tribunais!
— E quem são esses comunistas? — perguntou outro.
— Ora, os petistas, os socialistas, os progressistas e todos aqueles com vontade de aumentar a tributação progressiva de acordo com o nível de renda!
Um antigo colega interrompeu:
— Mas você não recebe aposentadoria militar paga pelo Estado?
— Recebo! É um direito adquirido!
— E quando os trabalhadores reivindicam direitos previdenciários não é?
— Aí é populismo!
A mesa explodiu em gargalhadas. O Anticomunista, contrariado, continuou:
— O problema é esse governo querer distribuir dinheiro para vagabundo sem trabalhar!
— De fato, no Brasil, a idade média de aposentadoria (passagem para a reserva remunerada) dos militares das Forças Armadas é de 48 anos…
— Eu trabalhei pela pátria!
— Os outros também trabalharam pela pátria, meu caro. Apenas não usavam farda!
O militar resolveu pedir outra bebida. Afinal, havia batalhas mais fáceis de vencer.
2. O Anticlerical e a disputa com o Todo-Poderoso
O segundo personagem era um antigo estudante curioso, leitor de Filosofia, Ciência do Conhecimento e História das Religiões.
— Podem me chamar de Anticlerical. Passei meio século investigando religiões. Frequentei igrejas, ouvi pastores, padres, médiuns, missionários e gurus. Quanto mais estudava, menos acreditava.
— Virou ateu? — perguntou uma senhora.
— Sim. Mas meu anticlericalismo é político. Não pretendo impedir ninguém de acreditar em Deus. Apenas não aceito autoridades religiosas governando a vida de quem não compartilha suas crenças.
— E por que você deixou de acreditar?
— Porque encontrei dificuldades lógicas na concepção tradicional de um Deus simultaneamente onipotente, onisciente e perfeitamente bom diante da existência do mal.
— Explique!
— Se Deus conhece antecipadamente todo sofrimento, pode impedi-lo e deseja evitá-lo, por que o sofrimento existe? Os teólogos apresentam respostas, como o livre-arbítrio, mas nenhuma me convenceu.
O Anticomunista interrompeu:
— Você está querendo acabar com a religião!
— De maneira alguma! Quero preservar a liberdade religiosa, inclusive a liberdade de não ter religião. O Estado laico protege ambas.
O Anticlerical prosseguiu:
— Minha crítica é dirigida ao clericalismo: a pretensão de transformar dogmas particulares em leis obrigatórias para toda a sociedade. Não confundo fé individual com poder político religioso.
— E você acredita em alguma coisa? — perguntou uma colega.
— Acredito na capacidade humana de conviver com diferenças sem recorrer a ameaças sobrenaturais!
O Anticomunista murmurou:
— Isso é coisa de comunista!
— Pronto! — respondeu o Anticlerical. — Você acaba de demonstrar ser o anticomunismo uma religião sem Deus, mas com um Diabo onipresente!
As gargalhadas interromperam a discussão.
3. O Neofascista e a culpa dos outros
O terceiro personagem chegou atrasado.
Vestia uma camiseta verde-amarela, carregava o celular na mão e parecia disposto a transformar a confraternização em comício.
— Eu sou o Neofascista!
Todos se surpreenderam.
— Você se considera fascista?!
— Não! Mas a esquerda me deu esse apelido. Sou patriota, conservador, defensor da família, da propriedade e da liberdade de expressão para meus pares!
— E por que o apelido pegou? — perguntou o Anticlerical.
— Porque não tenho medo de defender um governo armamentista, capaz de matar os concorrentes dos milicianos, colocar ordem no país e impedir a destruição dos valores tradicionais!
O antigo colega havia tentado administrar uma pequena loja de armas. Depois de sucessivos prejuízos, transformara-se em microempreendedor individual, trabalhando sozinho e vendendo produtos pela internet.
— Meu negócio não prosperou por culpa do governo! Impostos, burocracia, concorrência desleal e essa tal ideologia de gênero!
Uma senhora perguntou:
— A identidade de gênero interferiu em suas vendas de armas?!
— São pacifistas mancomunados com LGBT+! A sociedade perdeu seus valores!
— Seus clientes deixaram de comprar armas porque mudaram de valores?
— Vocês não entendem! Está tudo conectado!
— Pela marcação de balas? — perguntou o Anticlerical.
Nova gargalhada. O Neofascista ficou vermelho.
— Vocês riem porque tiveram oportunidades! Alguns cursaram universidades públicas, conseguiram empregos estáveis, aposentadorias e patrimônio. Eu tive de empreender sozinho!
— Mas você poderia ter estudado depois do colégio — comentou o Anticomunista.
— Não tive condições!
— Então você reconhece nem todos partirem das mesmas condições? — perguntou uma antiga colega.
O Neofascista preferiu consultar o celular. Acabara de receber um vídeo anunciando o iminente colapso da civilização ocidental. Compartilhou imediatamente com três grupos de WhatsApp.
4. A Alienada e a Apática: duas maneiras de abandonar a política
Duas antigas colegas acompanhavam a discussão.
A primeira resolveu se apresentar:
— Podem me chamar de Alienada. Nunca gostei de política. Cuidei da minha família, trabalhei, eduquei meus filhos e administrei meu patrimônio. Não quero saber de partidos nem de ideologias.
— Mas você vota? — perguntou o Anticomunista.
— Voto quando sou obrigada. Escolho alguém boa prosa e pronto. Política não muda minha vida!
A segunda colega, anteriormente militante estudantil, apresentou-se com um sorriso melancólico:
— Eu sou a Apática. Diferentemente dela, participei de movimentos sociais, campanhas eleitorais e manifestações. Depois de uma derrota eleitoral muito dolorosa, perdi a esperança. Cansei de lutar para depois ver tudo retroceder.
— Então vocês duas pensam igual! — comemorou o Neofascista.
— Não exatamente — respondeu a Apática. — Ela nunca se interessou. Eu me interessei tanto a ponto de ficar esgotada.
— O resultado é o mesmo! — insistiu ele. — Vocês não atrapalham quem deseja governar!
A Alienada concordou:
— É melhor cada um cuidar da própria vida.
A Apática suspirou:
— Talvez seja mesmo.
Foi quando uma voz conhecida surgiu atrás da mesa:
— O problema é justamente esse: quando os cidadãos abandonam a política, a política não abandona os cidadãos!
Todos se viraram.
5. A chegada do Antifascista
Era o último colega esperado.
Havia se tornado professor universitário, pesquisador de Economia Política e intelectual público. Publicava livros, artigos e análises sobre as transformações do capitalismo.
— Chegou o nosso filósofo! — ironizou o Anticomunista.
— Ou o comunista de estimação da turma! — cutucou o Neofascista.
— Prefiro ser chamado de Antifascista — respondeu o recém-chegado. — Não porque defenda uma ditadura de esquerda, mas porque considero a democracia pluralista com alternância de poder via eleições uma conquista histórica.
Sentou-se e pediu uma taça de vinho.
— Antes de começarmos, proponho um brinde aos nossos cinquenta anos de convivência. Sobrevivemos à ditadura militar, à inflação elevada, às crises econômicas, às transformações tecnológicas e às nossas próprias escolhas equivocadas.
— E ao comunismo! — acrescentou o militar.
— Não exatamente. O comunismo soviético deixou de existir, em 1991, mas você continua combatendo sua lembrança.
O Anticomunista protestou:
— O perigo continua!
— O perigo de regimes autoritários continua, sem dúvida. Mas precisamos distinguir a crítica legítima ao comunismo histórico de chamar qualquer política social de comunista.
O professor explicou:
— O PT participa da economia capitalista, respeita a propriedade privada e governa por meio de instituições democráticas e alianças partidárias. Podemos criticar suas políticas, seus erros e suas contradições. Mas classificá-lo indiscriminadamente como comunista é substituir análise por propaganda.
— Você quer dizer que meu anticomunismo está ultrapassado?
— Quero dizer que você continua lutando uma guerra encerrada, enquanto uma transformação sistêmica muito mais profunda ocorre diante de seus olhos!
O Neofascista ergueu a sobrancelha.
— Lá vem a conversa de professor!
— Exatamente! Mas prometo dispensar a prova final…
6. O capitalismo mudou enquanto discutíamos o passado
O Antifascista pegou um guardanapo e desenhou três círculos: Produção, Renda e Patrimônio.
— Quando nos formamos, o capitalismo era identificado principalmente com fábricas, patrões, operários assalariados e sindicatos. O emprego industrial simbolizava a ascensão social.
— E agora? — perguntou a Alienada.
— Agora vivemos uma transição sistêmica. A agricultura foi mecanizada, a participação da indústria no emprego diminuiu em economias ocidentais e os serviços passaram a concentrar a maior parte das ocupações. Ao mesmo tempo, plataformas digitais, inteligência artificial e robótica reorganizam o trabalho.
O Neofascista interrompeu:
— Exatamente! O futuro pertence aos empreendedores como eu!
— Depende. Você determina os preços dos produtos vendidos pela plataforma?
— Nem sempre.
— Controla o algoritmo responsável por mostrar seus anúncios?
— Não.
— Pode negociar individualmente as taxas cobradas?
— Dificilmente.
— Então você é formalmente independente, mas economicamente dependente de empresas gigantescas. Não possui patrão tradicional, porém está submetido a regras estabelecidas por proprietários de plataformas e redes de distribuição.
— Mas sou meu próprio chefe!
— Você é seu próprio chefe na hora de trabalhar e seu próprio empregado na hora de pagar as contas!
A Alienada começou a rir.
O professor prosseguiu:
— Essa é uma contradição central da transição: individualização dos riscos do trabalho e centralização do controle do capital. O trabalhador assume despesas, instabilidade de renda e proteção previdenciária limitada, enquanto grandes empresas concentram dados, tecnologia e capacidade de decisão.
— Então o capitalismo está acabando? — perguntou o Anticomunista.
— Não necessariamente. Está se metamorfoseando. O assalariamento continua importante, mas convive com ocupações fragmentadas, trabalho por conta própria e novas formas de subordinação econômica.
— E o que isso tem a ver com fascismo? — perguntou o Neofascista.
— Muito. Quando as pessoas enfrentam insegurança econômica, procuram explicações. Algumas encontram respostas na análise das estruturas produtivas e das instituições. Outras são atraídas por narrativas capazes de transformar frustrações em ressentimentos contra inimigos imaginários.
— Está dizendo que fui enganado?!
— Estou dizendo que a insatisfação econômica pode ser legítima, mas sua interpretação política pode estar equivocada.
7. O negócio do medo e a fabricação de inimigos
O Antifascista voltou-se para o Neofascista.
— Você atribuiu o fracasso de seu empreendimento ao governo e à chamada ideologia de gênero. Entretanto, não mencionou juros, demanda dos consumidores, concorrência de grandes empresas, plataformas digitais, concentração de mercado ou mudanças tecnológicas.
— Porque o problema é moral!
— Esse é precisamente o mecanismo político necessário de se examinar.
O professor desenhou três palavras no guardanapo: Ruptura — Decadência — Apocalipse.
— A extrema-direita contemporânea organiza acontecimentos distintos em uma narrativa: primeiro, afirma ter ocorrido uma ruptura com uma suposta Idade de Ouro; depois, apresenta a sociedade como moralmente decadente; finalmente, anuncia uma catástrofe iminente, caso um líder salvador não assuma o poder.
— Mas existem crises reais! — retrucou o Neofascista.
— Evidentemente. A manipulação consiste em atribuir problemas complexos a um único inimigo, oferecendo soluções autoritárias para dificuldades econômicas e sociais.
O Anticlerical interveio:
— E a religião pode ser utilizada nessa operação?
— Pode, quando lideranças religiosas transformam diferenças morais em ameaças existenciais e procuram impor suas crenças a toda a sociedade. Mas não devemos confundir isso com a religiosidade das pessoas. Há religiosos democratas, conservadores democratas e, felizmente, religiosos antifascistas.
O Anticomunista perguntou:
— E por que você insiste no antifascismo?
— Porque o fascismo histórico não foi combatido exclusivamente por comunistas. Liberais, socialistas, republicanos, católicos, conservadores democráticos e muitos outros participaram de frentes de resistência. O antifascismo é uma defesa plural das instituições democráticas contra projetos autoritários.
— Então posso ser anticomunista e antifascista?
— Perfeitamente! Basta reconhecer que seus adversários políticos possuem o direito de disputar eleições, governar quando eleitos e continuar existindo quando derrotados.
— E posso ser religiosa e antifascista? — perguntou a Alienada.
— Naturalmente. Democracia não exige unanimidade ideológica, mas respeito às regras comuns e aos direitos fundamentais.
O Neofascista protestou:
— E a liberdade de expressão?
— Inclui o direito de criticar governos, religiões e ideologias. Não implica autorização irrestrita para ameaçar adversários, defender violência política ou destruir instituições democráticas.
O militar ficou pensativo.
Pela primeira vez naquela noite, percebeu que combater o comunismo não exigia apoiar qualquer governante disposto a se declarar anticomunista.
8. A Alienada descobre sua vida privada ser política
A Alienada aproveitou uma pausa.
— Tudo muito interessante, mas continuo achando melhor cuidar da minha vida particular.
O Antifascista perguntou:
— Você utiliza serviços médicos?
— Evidentemente.
— Recebe aposentadoria?
— Sim.
— Seus netos frequentam escolas?
— Claro.
— Possui investimentos financeiros?
— Alguns.
— Então sua vida privada depende de decisões coletivas sobre saúde, educação, previdência, tributação, juros e regulação financeira.
Ela respondeu:
— Mas não sou obrigada a acompanhar cada discussão política!
— De modo algum. Ninguém precisa viver em campanha permanente. O problema surge quando confundimos autonomia individual com indiferença às instituições responsáveis por nossas condições de vida.
O professor continuou:
— A alienação política não é apenas falta de informação. Também pode significar a perda de controle sobre forças sociais e econômicas condicionantes de nossas escolhas.
— Quer dizer: mesmo quando não me interesso pela política, continuo submetida às decisões políticas?
— Exatamente. Você pode abandonar o debate público, mas não consegue se retirar das consequências de suas decisões.
A Alienada olhou para o celular.
Acabara de receber uma notícia sobre mudanças nas regras de tributação de seus investimentos.
— Pensando bem, talvez eu devesse prestar mais atenção…
9. A Apática e o perigo da resignação
O professor voltou-se para a antiga militante.
— E você? Por que abandonou a participação política?
— Porque perdi a esperança. Dediquei anos à democracia, participei de campanhas, fiz reuniões, distribuí panfletos e enfrentei a repressão. Depois de uma derrota eleitoral, senti todo esse esforço ter sido inútil.
— Compreendo seu cansaço. Mas uma derrota eleitoral não representa necessariamente uma derrota histórica definitiva.
— Fácil falar!
— Nem tanto. Nossa geração baby-boom ou 68 aprendeu as mudanças sociais não seguirem uma trajetória linear. Existem avanços, retrocessos, crises, adaptações e novas oportunidades.
— Mas a extrema direita cresce!
— E isso torna a participação democrática ainda mais importante. Quando militantes democráticos se retiram, deixam espaço para organizações mais disciplinadas e mobilizadas.
O Neofascista sorriu:
— Finalmente concordamos em alguma coisa!
— Sim. Você percebeu uma oportunidade política. A diferença é eu defender sua disputa dentro dos limites constitucionais, enquanto você parece desejar eliminar os adversários.
O Neofascista ficou em silêncio.
O Antifascista prosseguiu:
— A apatia pode ser compreensível como reação emocional à frustração. Entretanto, quando se generaliza, enfraquece a capacidade coletiva de defender direitos e influenciar instituições.
— Então devo voltar a militar?
— Não necessariamente como antes. Você pode participar de associações, debates públicos, conselhos, movimentos culturais e iniciativas comunitárias. A democracia precisa de cidadãos ativos, não apenas de militantes partidários.
A Apática sorriu discretamente.
— Talvez ainda haja alguma coisa a fazer.
10. Robôs, imigrantes e o futuro da velhice
O Anticomunista, desejando mudar de assunto, perguntou:
— E essa história de inteligência artificial? Os robôs vão substituir todos os trabalhadores?
— Não todos. A automação pode substituir tarefas mecânicas e repetitivas, mas muitas atividades dependem de contato humano, julgamento contextual, empatia e cuidado.
— Como cuidar de idosos? — perguntou a Alienada.
— Exatamente. Nossa própria turma constitui uma demonstração da transição demográfica. Quando nascemos, as famílias eram maiores e a população crescia rapidamente. Agora, muitas sociedades envelhecem e enfrentam redução da população em idade ativa.
— Então os robôs cuidarão de nós? — perguntou a Apática.
— Poderão auxiliar. Mas dificilmente substituirão integralmente profissionais de enfermagem, cuidadores e familiares com empatia.
O Neofascista interveio:
— Para isso existem os imigrantes! Mas precisamos controlar nossas fronteiras!
— Eis outra contradição da transição sistêmica — respondeu o professor. — Países envelhecidos necessitam de trabalhadores estrangeiros em atividades essenciais, enquanto movimentos xenófobos estimulam sua rejeição.
— Mas os imigrantes tiram empregos!
— Em algumas situações pode haver concorrência ocupacional, mas também complementaridade, criação de demanda e preenchimento de vagas. O resultado depende das instituições, da qualificação, das condições de trabalho e das políticas migratórias. Transformar todos os imigrantes em inimigos não resolve os problemas demográficos.
O Anticlerical comentou:
— Curioso! Queremos robôs obedientes e cuidadores estrangeiros, mas não queremos compartilhar direitos com estes últimos.
— Justamente. Podemos construir uma sociedade tecnologicamente avançada e socialmente regressiva.
O resultado não está predeterminado.
11. A financeirização: patrimônio para poucos ou proteção para muitos?
A conversa já ultrapassara a sobremesa quando a Alienada perguntou:
— Professor, você falou em produção, renda e patrimônio. Onde entram nossas aposentadorias e investimentos?
— Em um dos aspectos mais importantes da transição contemporânea: a financeirização.
O Anticomunista animou-se:
— Agora você vai defender o capitalismo!
— Vou explicar suas possibilidades e contradições.
O professor prosseguiu:
— Durante muito tempo, a acumulação capitalista foi identificada sobretudo com proprietários de empresas e trabalhadores assalariados. Hoje, fundos de pensão e fundos de investimento, investidores institucionais em títulos públicos e participações acionárias ampliam as formas de propriedade financeira.
— Isso é bom ou ruim? — perguntou a Apática.
— Depende de quem controla os ativos, de como seus rendimentos são distribuídos e de quais instituições regulam o sistema.
— Então todo trabalhador poderá virar capitalista? — perguntou o Neofascista.
— Poderá participar dos rendimentos do capital sem necessariamente controlar as empresas. A disseminação de investimentos financeiros pode complementar a renda do trabalho e contribuir para a segurança na velhice. Entretanto, o acesso aos ativos não elimina automaticamente a desigualdade patrimonial.
O professor explicou:
— Imagine uma economia onde a robotização eleve enormemente a produtividade. Se apenas alguns acionistas forem proprietários das empresas automatizadas, os ganhos tenderão a se concentrar. Mas, se fundos de pensão e outros mecanismos de propriedade coletiva ou disseminada permitirem participação mais ampla, parte desses ganhos poderá beneficiar muitos trabalhadores.
— Isso seria socialismo? — perguntou o Anticomunista.
— Não necessariamente. Poderia representar uma transformação institucional do próprio capitalismo, com propriedade privada mais disseminada e mecanismos de proteção social.
— Então não precisamos mais trabalhar? — perguntou o Neofascista.
— Precisamos distinguir rendimentos patrimoniais de produção efetiva. Ativos financeiros representam direitos sobre rendas futuras. Sua valorização não cria, por si só, todos os bens e serviços necessários à sociedade.
— E a dívida pública? — perguntou a Alienada.
— Os títulos públicos podem compor a poupança das famílias e financiar o Estado, mas seus juros também são despesas públicas e receitas de seus detentores. A distribuição desses rendimentos depende de quem possui os títulos, da tributação e das condições macroeconômicas.
O professor concluiu:
— A questão não é escolher abstratamente entre financeirização boa ou ruim. É construir instituições capazes de ampliar o acesso ao patrimônio, distribuir os ganhos de produtividade e evitar a concentração excessiva de poder econômico.
A Apática observou:
— Então até a financeirização depende de escolhas políticas?
— Exatamente. Tecnologia, demografia, finanças e política coevoluem. Nenhuma dessas transformações possui destino social inevitável.
12. A última lição: o futuro não está escrito
Já passava da meia-noite quando o organizador da festa anunciou a última fotografia coletiva.
Antes, porém, o Neofascista decidiu provocar:
— Professor, depois de tanta conversa, você acha que vai convencer todo mundo a votar no seu candidato?
O Antifascista respondeu:
— Não vim pedir votos. Vim defender algo anterior à preferência partidária: o direito de todos nós continuarmos discordando sem transformar adversários em inimigos.
O Anticomunista perguntou:
— Inclusive eu?
— Inclusive você. Pode continuar criticando o comunismo, caso não transforme qualquer divergência em conspiração revolucionária.
O Anticlerical acrescentou:
— E eu posso continuar criticando as religiões?
— Evidentemente. Se reconhecer o direito dos outros de professá-las. O Estado laico protege tanto sua descrença quanto a fé alheia.
A Alienada perguntou:
— E eu posso continuar cuidando da minha vida privada?
— Claro. Mas agora sabe seus interesses privados dependerem também de decisões públicas.
A Apática sorriu:
— E eu posso descansar mais um pouco antes de voltar a participar?
— Deve descansar quando precisar. A democracia não exige heroísmo permanente, mas não sobrevive à desistência coletiva.
Finalmente, o Neofascista perguntou:
— E eu? Posso continuar indignado com meu fracasso empresarial?
— Pode e deve procurar compreender suas causas. Mas sua indignação será mais produtiva se dirigida aos problemas reais: concentração econômica, dependência das plataformas, condições de crédito, desigualdade de oportunidades e ausência de proteção adequada ao trabalho por conta própria.
— Você está dizendo a culpa não ser toda minha?
— Nem toda sua, nem toda do governo. O desempenho de um empreendimento emerge das interações entre decisões individuais, condições de mercado, instituições, tecnologia e conjuntura econômica.
O Neofascista refletiu.
— Talvez eu precise estudar um pouco mais…
— Nunca é tarde! — respondeu o professor. — Você não cursou uma universidade, mas isso não impede aprender. E uma formação universitária, por si só, também não garante pensamento crítico.
militar ergueu sua taça:
— Aos cinquenta anos de formatura!
— Aos próximos anos de democracia! — acrescentou a Apática.
— À liberdade de consciência! — brindou o Anticlerical.
— À liberdade de empreender! — disse o Neofascista.
— Com direitos sociais! — completou a Alienada.
O Antifascista encerrou:
— À liberdade de discordar, à responsabilidade de conviver e à inteligência coletiva necessária para orientar democraticamente a transição sistêmica!
O fotógrafo pediu a todos se aproximarem.
Na primeira tentativa, o Anticomunista recusou ficar ao lado do Anticlerical.
O Neofascista não queria aparecer próximo do Antifascista.
A Alienada preferia ficar fora da fotografia.
A Apática não demonstrava entusiasmo.
O fotógrafo, impaciente, gritou:
— Meus amigos! Se vocês não conseguirem ficar juntos durante cinco segundos, como esperam conviver no mesmo país durante os próximos cinquenta anos?!
Todos riram. Finalmente, abraçaram-se.
O flash iluminou seis rostos envelhecidos, seis trajetórias distintas e uma possibilidade ainda aberta de convivência democrática.
Na saída, o Anticomunista aproximou-se do professor:
— Continuo discordando de quase tudo dito por você.
— Excelente! — respondeu o Antifascista. — Caso você aceite meu direito de continuar dizendo!
O Neofascista interrompeu:
— E se eu quiser publicar um vídeo criticando suas ideias?
— Publique! Mas seria bom verificar os fatos antes de compartilhar.
— Você quer acabar com minha liberdade!
— Não. Quero apenas sugerir uma inovação tecnológica revolucionária: usar o cérebro antes do botão de encaminhar!
Dessa vez, até o Neofascista caiu na gargalhada.
Moral do apólogo:
O passado pode explicar nossas convicções, mas não deve aprisionar nossa compreensão do presente.
O anticomunismo anacrônico combate fantasmas; o clericalismo pretende impor crenças particulares; o neofascismo transforma frustrações em ressentimentos e inimigos; a alienação ignora as consequências coletivas das escolhas privadas; e a apatia abandona a disputa pelo futuro. O antifascismo democrático, por sua vez, não exige uniformidade ideológica: exige o reconhecimento do pluralismo, dos direitos fundamentais e da legitimidade dos adversários.
Na transição sistêmica do capitalismo, a mecanização, a robotização, a servicificação, o microempreendedorismo, o envelhecimento populacional e a financeirização não determinam automaticamente nem a emancipação nem a submissão humana. Seus resultados dependerão das instituições, dos conflitos distributivos e da participação democrática.
A História não tem destino predeterminado: seu futuro emerge das interações entre indivíduos, classes sociais, instituições, tecnologias e escolhas políticas. Desse modo, como descobriram os antigos colegas, a democracia começa quando aprendemos a transformar inimigos em adversários — e a divergência em oportunidade de aprendizado coletivo.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]




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