Fernando Nogueira da Costa: O Financista e o Social-Desenvolvimentista
Tempo de leitura: 9 min
Um apólogo sobre o polvo, os juros e a arte de enriquecer sem empobrecer as ideias
Por Fernando Nogueira da Costa*
Era outubro de 2026. Depois de uma manifestação pró-Lula, no Largo da Batata em São Paulo, um professor aposentado da Unicamp resolveu almoçar no Mercado Municipal de Pinheiros.
Ao procurar uma mesa, encontrou um antigo colega de graduação em Ciências Econômicas da FEA-USP. Não se viam havia décadas.
O aposentado usava uma camiseta vermelha, com a inscrição “Desenvolvimento com Inclusão Social” e selo “Vote 13”. O operador ainda na ativa vestia o tradicional coletinho de nylon, uniforme oficioso dos “guerreiros da Faria Lima”, embora fizesse um calor de trinta graus.
Resolveram compartilhar a mesa e um prato: um arroz negro com polvo.
— Ora, ora! — exclamou o Financista. — Você gosta do povo até na hora do almoço? Virou populista?
— Não fui como você trabalhar no Banco Master… Dediquei-me à carreira acadêmica e tornei-me multimilionário somente aplicando em renda fixa, aliás, pós-fixada, de baixo risco. Para me tornar rico não necessitei me tornar um reacionário!
— Como?! Apenas com o salário do topo do funcionalismo público, cerca de trinta salários mínimos? Eu achava isso ser impossível…
— Desde o Plano Real, em meados da década de 1990, quando me tornei livre-docente, apliquei sistematicamente um terço do salário em investimentos remunerados por 100% do CDI. Em uma comparação histórica aproximada, o CDI acumulou 10.809%, enquanto o Ibovespa acumulou 5.667%.
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Essa diferença ilustra a força dos juros compostos e da disciplina financeira ao longo da vida.
— Pois é… — suspirou o Financista. — Fui seguir os conselhos dos colegas da Faria Lima de especular na Bolsa, como se aqui fossem os Estados Unidos, e me dei mal. Você enriqueceu com paciência em longo prazo, enquanto eu tentava descobrir a próxima ação capaz de multiplicar rapidamente meu patrimônio por dez!
— E descobriu?
— Descobri ser mais fácil multiplicar por dez as previsões erradas!
— Pior foi você ir trabalhar para Daniel Vorcaro, não? Perdeu a honra e o emprego…
O Financista ajeitou o coletinho, desconfortável.
— Calma! Trabalhar em um banco não torna ninguém automaticamente responsável pelas decisões de seus controladores. Eu fazia análises de mercado. Não me confunda com quem tomava decisões suspeitas!
— Tem razão. Retiro a generalização. Mas não retiro minha crítica à cultura de transformar toda oportunidade de rendimento em demonstração de genialidade financeira.
O garçom interrompeu:
— Os senhores vão pedir?
— Arroz com polvo para dois! — respondeu o professor.
— Mais polvo?! — ironizou o Financista. — Depois de uma manifestação petista, você quer comer até o símbolo dos tentáculos do Estado?
— Não confunda polvo com povo, meu caro! E muito menos Estado com um ser de diversos braços apropriadores. Aliás, compartilhar o prato é uma experiência prática de economia solidária.
— Caso você pague sua metade!
— Naturalmente. Social-desenvolvimentismo não é apropriação privada do almoço alheio.
O debate sobre os juros
Enquanto esperavam o prato, o Financista retomou sua especialidade.
— Você pode ter enriquecido com o CDI, mas deveria agradecer aos economistas da Faria Lima. Nós exigimos responsabilidade fiscal para proteger seus investimentos!
— Proteger? Durante três décadas, os juros reais brasileiros estiveram frequentemente entre os mais elevados do mundo. A política monetária ajudou a multiplicar meu patrimônio, mas encareceu o financiamento das empresas e das famílias.
— Ora, juros elevados combatem a inflação!
— Podem combater a inflação de demanda, mas também aumentam os encargos financeiros, desestimulam investimentos com alavancagem financeira, porque as despesas operacionais superam o retorno operacional, e redistribuem renda entre devedores e credores. Você só enxerga o rendimento do título, enquanto eu procuro enxergar o funcionamento da economia inteira com uma abordagem sistêmica.
— Sem estabilidade fiscal, ninguém compra títulos públicos!
— Ninguém? O Tesouro Nacional oferece ativos denominados em moeda nacional, com elevada liquidez e remuneração atraente. Há demanda estrutural dos costumazes detentores de títulos de dívida pública, principalmente, bancos, fundos de pensão e fundos de investimentos. Quando há vencimentos de uns, compram outros. Encontrar compradores é fácil, mais difícil é saber a qual custo e em quais condições de prazo a dívida será refinanciada.
— A dívida cresce! Um dia será preciso pagá-la!
— Você já viu algum grande banco liquidar definitivamente todos os seus depósitos? Ou uma empresa sólida decidir quitar todas as suas dívidas e nunca mais captar recursos?
— De fato, não. Os passivos são sempre refinanciados.
— Pois então! A dívida pública também pode ser rolada por sucessivas gerações. O problema é administrar seu custo, prazo e relação com a capacidade de arrecadação. Não existe uma obrigação econômica de zerar o estoque.
— Mas não existe almoço grátis!
— Tampouco arroz com polvo… Mas existe diferença entre financiar investimento público produtivo e pagar juros excessivos para carregar dívida antiga.
O segredo dos títulos longos
O Financista sorriu. Finalmente, a conversa chegou ao seu tema favorito.
— Você fala muito em juros, mas sabe como se ganha dinheiro de verdade com títulos públicos?
— Além de receber juros?
— Com a valorização dos papéis no mercado secundário! Imagine um título prefixado a pagar mil reais daqui a dez anos. Se a taxa exigida for 14% ao ano, seu preço será aproximadamente R$ 270, dividindo 1.000 por 1,14 elevado à décima potência. Se cair para 12%, mantido os demais valores, o preço sobe para cerca de R$ 322. Multiplique esse valor por milhões ou bilhões.
— Dá uma valorização próxima de 19%, sem precisar esperar pelo vencimento.
— Exatamente! Eis a magia da duration! Quando os juros longos caem, o preço dos títulos antigos sobe. Quem antecipou o movimento pode vender com lucro!
— Então você defende austeridade fiscal porque espera a queda das taxas longas e a valorização dos títulos?
— Não só por isso! Também me preocupo com a sustentabilidade fiscal.
— Muito bem. Mas agora entendo por qual razão você acompanha cada declaração do ministro da Fazenda como um pescador espera um peixe. A expectativa de ajuste fiscal pode reduzir o prêmio de risco e valorizar sua carteira.
— Pode. Mas, se o governo perder credibilidade, as taxas longas sobem e minha carteira desvaloriza!
— Logo, você não está simplesmente defendendo uma teoria econômica. Está também administrando uma posição patrimonial.
— E você não está simplesmente defendendo o desenvolvimento! Está usufruindo dos rendimentos do CDI!
— Exatamente. A diferença é eu reconhecer meus interesses patrimoniais sem transformá-los automaticamente em recomendações para toda a sociedade.
O Financista ficou em silêncio por alguns segundos.
— Essa doeu mais do que uma marcação a mercado (atualização diária do valor de um investimento com base no preço pelo qual ele seria negociado no mercado naquele exato momento) negativa. Snif, snif…
O povo e o mercado
O garçom chegou com uma travessa generosa de arroz com polvo.
— Cuidado, senhores! O polvo parece estar vivo!
O Financista apontou para os tentáculos.
— Veja! Parece o Estado brasileiro: braços para todos os lados, alcançando cada pedaço da economia!
— E você cobra ele parecer com um operador financeiro: só se interessar pelos tentáculos capazes de rentabilizar sua carteira.
— Injustiça! Também me preocupo com a inflação, o câmbio, o déficit público e a confiança dos investidores!
— Não duvido. Mas e o emprego? A renda real? A produtividade? A desigualdade? A educação? A saúde? O investimento em infraestrutura?
— Tudo isso depende da confiança do mercado!
— Essa é precisamente nossa divergência. Você considera a confiança dos investidores a variável central. Eu considero o desenvolvimento um processo complexo, no qual produção, distribuição, instituições, tecnologia e finanças interagem.
— Sem capital financeiro não há investimento!
— Concordo. Mas capital financeiro não se transforma automaticamente em investimento produtivo. Comprar um título já existente no mercado secundário não é semelhante a construir uma fábrica, desenvolver uma tecnologia ou financiar uma universidade.
— Mas o mercado secundário proporciona liquidez!
— Claro! E essa liquidez facilita até o financiamento primário. O problema começa quando a valorização dos ativos financeiros passa a ser tratada como objetivo supremo da política econômica.
— Você quer substituir o mercado pelo Estado?!
— Não. Quero um Estado capaz de coordenar investimentos, corrigir desigualdades, promover inovação e oferecer bens públicos, convivendo com empresas privadas, mercados competitivos e instituições financeiras eficientes.
— Isso tem nome?
— Social-desenvolvimentismo com planejamento indicativo. Crescimento econômico com distribuição de renda, inclusão social e sustentabilidade ambiental.
— Parece bonito. Mas quem paga a conta?
— Todos nós, segundo regras tributárias e decisões orçamentárias democraticamente estabelecidas. E a pergunta correta não é apenas quem paga. É também quem recebe, quem se beneficia e quais capacidades futuras de desenvolvimento são criadas.
A imprensa e o economista de coletinho
O Financista pegou o celular.
— Veja este editorial: “Mercado exige ajuste fiscal urgente para restaurar a confiança”.
— Mercado exige? — perguntou o professor. — Quem é esse senhor chamado Mercado? Tem CPF? Vota? Almoça polvo?
— Mercado é uma maneira de designar os investidores!
— Então por qual razão o jornal não escreve “alguns gestores de fundos e economistas de instituições financeiras defendem ajuste fiscal”? Seria mais preciso.
— Porque o título ficaria comprido!
— Ah, a teoria econômica defendida se adequa a uma manchete curta…
— Os jornais consultam especialistas.
— Especialistas em quê? Um gestor de renda fixa pode ser excelente para analisar juros futuros e preços de títulos. Isso não o transforma automaticamente em especialista em políticas de saúde, educação, pobreza e desenvolvimento industrial.
— Mas os economistas do mercado estudam a macroeconomia!
— Estudam, sim. O problema não é sua competência técnica. É apresentar uma perspectiva especializada como se representasse todo o interesse nacional.
— Você está dizendo a imprensa brasileira só fazer campanha contra os governos do PT?
— Estou dizendo algo verificável: quando a cobertura privilegia expectativas financeiras e só defende ajuste fiscal, pode relegar a segundo plano variáveis como emprego, renda, investimentos públicos e distribuição. Para demonstrar oposição editorial sistemática a um partido, seria preciso comparar o tratamento dado a diferentes governos e políticas semelhantes.
— Então você admite certo ajuste fiscal ser necessário?
— Evidentemente! Sou social-desenvolvimentista, não defensor de déficits ilimitados. Mas quero discutir a composição do ajuste, seus efeitos sobre o crescimento e quem suporta seus custos.
— Por exemplo?
— Por qual razão uma despesa com saúde pública é frequentemente chamada de gasto, enquanto os juros aparecem como encargos financeiros inevitáveis? Ambos exigem explicação. Os primeiros podem gerar benefícios sociais e econômicos; os segundos remuneram contratos e refletem condições monetárias e financeiras. Não são intercambiáveis e ambos precisam ser analisados como prioritários.
— E o Relatório Focus?
— É uma pesquisa de expectativas de participantes do mercado, não um oráculo nacional. A média das projeções sobre o futuro incerto não transforma opiniões díspares em uma única verdade científica.
— Você quer substituir o Focus por um relatório da Unicamp?
— Boa ideia [risos]. Quero pluralidade de fontes da imprensa, métodos e indicadores. Um país não deve ser avaliado apenas pelo humor dos gestores de fundos.
O dilema dos dois circuitos
Já estavam terminando o arroz quando o professor desenhou dois esquemas no guardanapo.
— Veja, meu caro. Existem pelo menos dois circuitos relevantes para nosso debate.
No primeiro escreveu:
Tributação → orçamento público → serviços e transferências → renda das famílias → consumo → produção → emprego → arrecadação.
No segundo:
Emissão de títulos de dívida pública → investidores → juros → rendimentos financeiros → acumulação patrimonial → reinvestimento financeiro.
— O primeiro é o circuito social. O segundo, o circuito financeiro. Ambos são importantes, mas seus beneficiários diretos e seus efeitos distributivos são diferentes.
— E ambos podem interagir — acrescentou o Financista.
— Exatamente! Finalmente você saiu do equilíbrio parcial e entrou na abordagem da complexidade!
— Também não exagere. Ainda prefiro uma boa planilha a um modelo ABM com milhares de agentes. ABM [Agent-Based Model ou Modelo Baseado em Agentes] é um tipo de modelo computacional, usado para simular as ações e interações de agentes autônomos, dentro de um ambiente, com o objetivo de observar como de interações de comportamentos individuais heterogêneos emergem fenômenos coletivos.
— Uma planilha pode ser excelente. Isto caso você não confunda suas células com a sociedade.
— E qual seria o problema central?
— Quando a política econômica se preocupa exclusivamente em preservar a valorização dos ativos financeiros, corre o risco de subordinar a produção, o emprego e o bem-estar à lógica patrimonial.
— Mas sem estabilidade financeira não há desenvolvimento sustentável!
— Correto. E sem desenvolvimento produtivo, renda e arrecadação, tampouco existe estabilidade financeira duradoura. Essa a retroalimentação todos os leitores de jornais (e eleitores) precisam compreender.
O Financista observou o guardanapo.
— Você está dizendo minha visão ser o mercado financeiro como o sistema inteiro, enquanto você o vê como um subsistema?
— Precisamente. Você analisa o preço dos títulos. Eu procuro analisar também o sistema produtivo responsável por gerar a renda e o distributivo com a qual os títulos serão remunerados.
— E quem está certo?
— Depende da pergunta. Para decidir se compro uma NTN-B amanhã, provavelmente você. Para decidir quais políticas econômicas o Brasil precisa adotar, durante os próximos vinte anos – espero com governos social-desenvolvimentistas –, precisamos de uma análise muito mais abrangente.
A conta chega
O garçom apareceu com a conta.
— Dividimos por dois? — perguntou o Financista.
— Claro. Metade para cada um.
— Você não vai propor tributação progressiva conforme nosso patrimônio?
— Poderia, mas você acabou de confessar perdas na Bolsa e desemprego recente. Não quero criar um imposto sobre sua má sorte.
— Muito generoso!
— Aliás, tenho uma proposta. Você voltar à universidade para estudar Economia da Complexidade.
— E abandonar o mercado financeiro?
— Não necessariamente. O país precisa de bons financistas. Só não precisa transformar todos eles em ministros da Economia por aclamação dos editoriais.
— E você poderia ensinar aos seus colegas desenvolvimentistas como funciona a duration.
— Aceito! Afinal, quem ignora a formação dos preços financeiros não compreende inteiramente o capitalismo contemporâneo.
O Financista tirou o coletinho.
— Está fazendo calor demais para continuar vestido de “guerreiro do mercado”.
— Ótimo! É o primeiro passo para descobrir também existir vida fora da Faria Lima.
Ao se despedirem, o operador financeiro olhou novamente para a travessa vazia.
— Sabe de uma coisa? Esse polvo era excelente. Mas custou caro!
O professor respondeu:
— Pois é. O importante é distinguir o custo do benefício. Você pagou por um almoço; não por um ajuste fiscal.
— E quem ganhou com a operação?
— O restaurante, o garçom, os fornecedores e nós dois. Eis uma pequena cadeia produtiva de valor!
O Financista sorriu e ironizou:
— Pelo menos desta vez o polvo teve mais braços diante do mercado e do Estado… e ninguém precisou fazer uma oferta pública de ações!
Os dois riram.
Ao sair, o professor apontou para o Largo da Batata:
— Da próxima vez, venha conhecer o povo. Não precisa concordar politicamente com ele para compreender suas necessidades.
— E você venha conhecer melhor o mercado secundário!
— Combinado. Mas só se você rever seus conceitos, votar no Lula e não mais confundir a cotação do título de dívida pública com o destino da nação.
Moral do apólogo: O Financista enxerga a economia pela cotação dos ativos; o Social-Desenvolvimentista procura enxergá-la pelas condições de vida da sociedade. Ambos conhecem partes relevantes do sistema, mas nenhuma parte, isoladamente, explica o todo.
A riqueza financeira pode crescer com juros compostos. A riqueza de uma nação exige também trabalho, produção, conhecimento, instituições e inclusão social.
E, se a Faria Lima tem seus operadores, o Brasil precisa de economistas capazes de compreender o país inteiro, inclusive a Faria Lima.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected]




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