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Stedile: O Massacre de Carajás e o pacto do latifúndio com o Judiciário
Stedile: "Passados 17 anos do massacre de Carajás, a Justiça se contentou em apresentar à sociedade dois bodes expiatórios"
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Stedile: O Massacre de Carajás e o pacto do latifúndio com o Judiciário


17/04/2013 - 16h18

Stedile: "Passados 17 anos do Massacre de Carajás, a Justiça se contentou em apresentar à sociedade dois bodes expiatórios"

por João Pedro Stedile, em Terra Magazine

Uma marcha pacífica com mais de mil trabalhadores rurais organizados pelo MST percorria uma rodovia de Parauapebas a Marabá em 17 de abril de 1996. Foram encurralados por dois batalhões da Policia Militar, em uma no localidade conhecida como Curva do S, no município de Eldorado de Carajás.

Um batalhão saíra de Parauapebas e outro de Marabá, apoiados por caminhões boiadeiros, que trancaram a estrada dos dois lados.

Assim começou um massacre premeditado, realizado para dar uma lição naqueles “vagabundos vindos do Maranhão”, como expressaram os policiais nos autos dos processos. Os policiais saíram dos quartéis sem identificação na farda, com armamento pesado e balas verdadeiras. O comando de Marabá chegou a avisar o Pronto Socorro e o Instituto Médico Legal (IML) para ficarem de plantão…

O julgamento demonstrou que, além das ordens explícitas de Paulo Sette Câmara, secretário de segurança do governo tucano de Almir Gabriel, a empresa Vale do Rio Doce financiou a operação, cobrindo todos os gastos, porque o protesto dos sem-terra na rodovia atrapalhava a circulação de seus caminhões.

O resultado foi 19 mortos no ato, sem direito a defesa, 65 feridos incapacitados para o trabalho e dois mortos dias depois. O líder Oziel da Silva, com apenas 19 anos, foi preso, algemado e assassinado a coronhadas, na frente dos seus companheiros, enquanto um policial mandava que gritasse “Viva o MST”.

Esses episódios estão registrados em mais de mil páginas dos autos do processo e foram descritos no livro “O Massacre”, do jornalista Eric Nepomuceno (Editora Planeta). Passados 17 anos, foram condenados apenas os dois comandantes militares, que estão recolhidos em algum apartamento de luxo dos quartéis de Belém.

O coronel Pantoja ainda tenta se livrar da prisão e pede para cumprir a pena de 200 anos em regime domiciliar. Os demais responsáveis no governo federal e estadual e empresa Vale foram inocentados. A Justiça se contentou em apresentar à sociedade dois bodes expiatórios.

Impunidade dos latifundiários

No Brasil inteiro, o cenário é o mesmo: desde a redemocratização, foram assassinados mais de 1.700 lideranças de trabalhadores e apoiadores da luta pela terra. Somente 91 casos foram julgados. Apenas 21 mandantes foram condenados.

O Massacre de Carajás se inscreve na prática tradicional dos latifundiários brasileiros, que com seus pistoleiros fortemente armados ou por meio do controle da Polícia Miliar e do Poder Judiciário, se apropriam de terras públicas e mantêm privilégios de classe, cometendo sistematicamente crimes que ficam impunes.

A atuação do latifúndio corresponde à correlação de forças políticas. Durante o governo José Sarney, diante do avanço das lutas sociais e da esquerda, organizou a UDR (União Democrática Ruralista). Com isso, se armou até os dentes, desrespeitando todas as leis. Foi o período com o maior número de assassinatos. Os fazendeiros chegaram à petulância de lançar seu próprio candidato à Presidência, Roberto Caiado, que foi solenemente condenado pela população brasileira ao receber apenas 1% dos votos.

Nos governos Fernando Collor e FHC, com a derrota do projeto democrático-popular e da luta social que se aglutinava ao redor da candidatura de Luiz Inácio Lula da Silva em 1989, os latifundiários se sentiram vitoriosos e utilizaram sua hegemonia no Estado para controlar a manu militari a luta pela terra. Nesse período, aconteceram os massacres de Corumbiara (RO), em 1995, e de Carajás.

Lula chegou ao governo, em 2003, quando parte dos latifundiários tinha se modernizado e preferiu fazer uma aliança com o governo, apesar de ter apoiado a candidatura de José Serra. Em troca, recebeu o Ministério da Agricultura. Um setor mais truculento e ideológico resolveu dar uma demonstração de força e mandar avisos para demonstrar “quem de fato mandava no interior e nas terras”, ainda mais depois de Lula colocar o boné do MST.

Nesse contexto, aconteceram dois novos massacres, com ares de perversidade. Em 2004, a poucos quilômetros do Planalto Central, no município de Unaí (MG), uma quadrilha de latifundiários mandou assassinar dois fiscais do Ministério do Trabalho e o motorista da viatura, quando o grupo se dirigia a uma fazenda para fazer uma inspeção de trabalho escravo. Um dos fazendeiros se elegeu prefeito da cidade pelo PSDB e, até hoje, o crime está impune. O Estado não teve coragem de defender seus servidores.

O segundo massacre foi em novembro de 2005, no município de Felisburgo (MG), quando o fazendeiro-grileiro Adriano Chafik resolveu acabar com um acampamento do MST. Chafik foi com seus pistoleiros à fazenda e comandou pessoalmente a operação em um sábado à tarde. No ataque, deram tiros em direção às famílias, colocaram fogo nos barracos e na escola. O saldo foi o assassinato de mais cinco trabalhadores rurais e dezenas de feridos. Depois de oito anos de espera, o Tribunal de Justiça de Minas Gerais marcou o julgamento do fazendeiro para 15 de maio, em Belo Horizonte. Esperamos que a justiça seja feita.

Os fazendeiros truculentos – que felizmente não são a maioria – agem assim, porque têm certeza absoluta de sua impunidade, graças ao conluio que mantêm com os poderes locais e com o Poder Judiciário. Agora, nos últimos anos, seu foco está voltado para o Poder Legislativo, onde mantêm a chamada Bancada Ruralista, para mudar leis e para se proteger da lei vigente.

Já fizeram as mudanças no Código Florestal e impedem a implementação da lei que obriga a desapropriação das terras dos fazendeiros que exploram o trabalho escravo. A cada ano, a Polícia Federal liberta em média dois mil seres humanos do trabalho escravo. No entanto, os latifundiários continuam com essa prática, apoiados na impunidade do Poder Judiciário.

Tiveram a coragem de encaminhar projetos de lei que contrariam a Constituição para impedir a demarcação das terras indígenas já reconhecidas, legalizar o arrendamento das áreas demarcadas e permitir a exploração dos minérios existentes. Foram apresentados projetos também para travar a titulação de terras de comunidades quilombolas.

Uma série de projetos foi apresentada para liberar o uso de agrotóxicos proibidos na maioria dos países, classificados pela comunidade cientifica como cancerígenos, e para impedir que os consumidores saibam quais produtos são transgênicos. Por que não querem colocar no rótulo nos produtos transgênicos, já que garantem segurança total para a saúde das pessoas?

A sanha da ganância dos fazendeiros não tem limites. No interior, usam com mais frequência a violência física e os assassinatos. No entanto, essa sanha tem consequências diretas para toda a população, pela apropriação das terras públicas, pela expulsão dos camponeses do meio rural que incha as favelas e pelo uso indiscriminado dos agrotóxicos, que vão parar no seu estômago e causam câncer. Infelizmente, tudo isso é acobertado por uma mídia servil e manipuladora da opinião pública.

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11 comentários

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Sergius Gandolfi: Atual Código Florestal beneficia o capitalismo selvagem - Viomundo - O que você não vê na mídia

27 de julho de 2013 às 19h01

[…] Stedile: O Massacre de Carajás e o pacto do latifúndio com o Judiciário […]

Responder

Urbano

18 de abril de 2013 às 16h39

Esse pacto vem de longas datas… imemoriais mesmo. Há momentos que nem se sabe quem é quem.

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cleuber

18 de abril de 2013 às 16h27

Estive na região e conheço um pouco desta história, é uma pena que a imprensa não mostre toda a verdade sobre o que aconteceu lá, não mostrou o que eles fizeram dias antes aonde roubaram 2 reses de um caminhão e fizeram churrasco, e também a carga de compras que iria a cidade de ELDORADO para ser entregue a um supermercado, e também não mostra que a policia foi lá para retirar eles da estrada e não para matar ninguém, e quem partiu para cima da policia foram os sem terra…quanta hipocrisia destes integrantes que somente querem ser as vitimas…quer comprar terra barata, basta ir a estes acampamentos que eles vendem e depois invadem outros lugares, isso já foi mais que provado…deveria as terras serem vendidas a eles e não entregues desta maneira.

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    abolicionista

    22 de abril de 2013 às 12h53

    Quanta mentira! Covardes como você há aos montes, meu caro, quero ver provar o que diz. Contar a versão dos fazendeiros é fácil, duro é esconder a verdade, assassino!

Magnandes

18 de abril de 2013 às 14h27

Esse mundo que vivemos, cruel e sem respeito ao ser humano que somos, em Almeirim, Pará, vivemos uma situação de conflito agrário com um grupo, que se diz dono de todas as terras no municipio, fez um CAR – Cadastro Ambiental Rural de quase um milhão de hectares na SEMA do Estado, isso no ano de 2012, o governo estadual do Pará é PSDB, é complicado as coisas mas essa é a verdade.

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Mardones

18 de abril de 2013 às 09h39

Pois é. A UDR do Sarney ficou protegida nos oito anos do Governo Lula e segue assim no governo Dilma.

O texto até que tenta, mas não consegue defender o ‘legado do PT’ a favor da rfeorma agrária e da justiça no campo, pois não há o que defender.

Lula abrigou o Sarney e as consequências estão aí.

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Fabio Passos

17 de abril de 2013 às 23h49

Revoltante.
Assassinos de camponeses protegidos pela “justiça” e apoiado pelo PiG.
Até quando milhares de famílias vão continuar sem meios de trabalhar e produzir alimentos no Brasil?

Demandar trabalho e justiça social é crime.
Assassinar camponeses não.

Que “justiça” de m!

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Ronei

17 de abril de 2013 às 17h57

Prezado camarada Stedile,
parabéns por tua luta e combate.
O triste é que, no caso do código florestal, quem liderou os ruralisas foi
um antigo aliado, o senhor Aldo Rebelo que é de um partido tão picareta que rouba inclusive, em sua recente propaganda televisiva, a história do velho Partidão… O Roberto Freire surrupiou os arquivos, o pcdob a história…

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    Julio Silveira

    17 de abril de 2013 às 19h38

    Como mudou a esquerda brasileira. Que saudade do Stedille que fazia. Tal e qual o PT, continuam com discurso afiado, sabendo onde mora o problema e onde se encontra a solução. Mas agora, mais amenos, parece que discursam apenas para motivar palestras. Serão remunerados para isso?

    renato

    17 de abril de 2013 às 21h54

    Que saudade.
    Quem tudo podia, agora nada pode!
    Pelo menos naquela época, se fazia
    passeatas, quebrava o pau, avermelhava
    a coisa, o pessoal era mais politizado
    (penso).
    Hoje, qualquer passeata, não tem pau,
    só folha de cartolina, muito mal escrito.
    E não se reúne meia duzia de pessoas em
    torno de qualquer pensamento.
    Sou Pt e Lula, e no máximo me reservo o
    tempo de tentar ficar sabendo o que ocorre
    para defender o Governo de pequenos e ululantes
    ( nada a ver com Lula), recados que recebo da
    da direita (sempre no final, dizendo para repassar
    a mensagem para mais dez, ou o Serra ira te visitar).

    Julio Silveira

    18 de abril de 2013 às 08h41

    Voce sabe como assustar um cidadão, esse negócio da visita do Serra é realmente um terror.


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