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Luiz Antonio Simas e o assassinato de Ágatha: O problema das polícias militares não é ter dado errado, é ter dado certo
Foto das redes sociais
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Luiz Antonio Simas e o assassinato de Ágatha: O problema das polícias militares não é ter dado errado, é ter dado certo


21/09/2019 - 23h53

Segundo levantamento do Fogo Cruzado, as 16 crianças baleadas em 2019 no Rio de Janeiro estão na base da pirâmide social. Coincidência?

Quase 30% da renda do Brasil está nas mãos de apenas 1% dos habitantes do país, a maior concentração do tipo no mundo. É o que indica a Pesquisa Desigualdade Mundial 2018, coordenada, entre outros, pelo economista francês Thomas Piketty. Notícia do El Pais de 14.12.2017

Um terço dos moradores do Rio estão nas comunidades, que não são compostas de gente envolvida no crime. Tem tráfico? Tem, mas os moradores são as maiores vítimas do que acontece lá. Hoje, o governador [Wilson Witzel, PSC-RJ] disputa com o tráfico quem faz mais mal à favela. O silêncio do presidente da República Jair Bolsonaro, do ministro da Justiça Sergio Moro e do governador Wilson Witzel diante do assassinato brutal de uma criança de 8 anos é de uma covardia ensurdecedora que dá a medida exata do caráter desse trio. Marcelo Freixo, deputado federal (Psol-RJ), no twitter

Fora Witzel: Tenho evitado tuitar esses dias. Coisas absurdas acontecendo. Mas, com toda sinceridade, eu realmente penso que há razões de sobra para que se peça o impeachment de Witzel. Ele é o grande responsável pelas atrocidades que se cometem no Rio de Janeiro. Um assassino! Fernando Haddad, ex-prefeito de São Paulo, no twitter

O Brasil tem ministro da Justiça? No dia em que o país se comove com a morte de uma menina de 8 anos baleada no Rio, o que faz Sergio Moro? Fica calado. Moro nunca foi juiz, mas justiceiro a serviço de um projeto de extrema direita. Nunca foi Ministro da Justiça, mas do arbítrio. Rodrigo Vianna, jornalista, no twitter

Ágatha foi baleada 6ª-feira. Mais de 24 hs depois, o ministro da Justiça ainda não convocara a cadeia nacional para informar providências e oferecer amparo à família. Tampouco o Presidente da República emitira um gesto de solidariedade. Distanciamento e frieza das tropas de ocupação. Carta Maior, no twitter

Ninguém tem coragem de dizer: as PMs promovem genocídio de negros e pobres. Só sobrevivem para manter o apartheid. Que o Brasil não vê, já que a Globo e a Folha [que pautam os outros] acham que somos uma democracia racial. A mentalidade das PMs é a da Doutrina de Segurança Nacional, desenvolvida nos EUA para combater o comunismo. Coisa do século 20. O povo brasileiro é o “inimigo interno”. Povo pobre e negro, claro. A PM vai para a rua “em combate”, estimulada por idiotas como Witzel, Bolsonaro e Doria. Mário Covas era um tucano de bico duro: propôs a extinção da PM nos anos 80/90. O bicudo Hélio, quando era do PT e enfrentou o esquadrão da morte em SP, a mesma coisa. Polícia é civil e desvinculada dos brucutus do Exército [as PMs são formalmente vinculadas ao Exército]. Mas, sabe como é, o lobby das PMs tem milhões de votos. Viomundo, no twitter

A PM matou uma criança. Vou insistir. A Polícia Militar do Rio de Janeiro foi criada por D. João, no início do século XIX, em um contexto em que a revolução dos pretos do Haiti apavorava, pelo poder de inspirar movimentos similares, as elites do Brasil. A função original da polícia era defender a propriedade de terras e gente e seus donos. Não custa lembrar que o símbolo da PM/RJ traz um pé de açúcar, um pé de café, duas armas e a coroa imperial. Mais explícito é impossível: braço armado em defesa da propriedade e do poder.  Sou dos que acham que não adianta dotar esta polícia de um suposto “perfil cidadão”, ensinado em algumas aulas, e tá resolvido. O buraco é mais embaixo. A PM foi criada para matar e morrer e nesse sentido é uma das instituições mais bem sucedidas do Brasil: mata e morre. Alguém conhece aí a fábula da natureza do escorpião, que não consegue deixar de usar o ferrão, a ponto mesmo de morrer durante a travessia de um rio porque picou o sapo que o carregava? Há, evidentemente, policiais do bem, mas a missão que justifica a corporação, inscrita em sua história, é defender o status quo contra ameaças, fundamentando essa defesa no monopólio da violência, prioritariamente voltada contra os mesmos pretos e pobres dos tempos do rei. A discussão sobre o que deu errado na polícia parte de um pressuposto equivocado. O problema das PMs não é ter dado errado. É ter até hoje dado certo. Escorpiões não foram feitos para voar como os pássaros. Luiz Antonio Simas, escritor, no twitter

Foto Voz da Comunidade

Família de menina baleada no Alemão nega confronto entre PM e traficantes

Ágatha Félix, de 8 anos, morava no Complexo do Alemão

Lucas Altino, no Extra

Familiares da pequena Ágatha Vitória Sales Félix, de 8 anos, baleada na noite desta sexta-feira no Complexo do Alemão, Zona Norte do Rio, negam a informação dada pela Polícia Militar de que, na hora do disparo que acertou a criança, equipes policiais da UPP Fazendinha foram atacadas de várias localidades de forma simultânea.

Elias César, tio da criança, rebate a troca de tiros e afirma que houve apenas um disparo, o que atingiu Ágatha pelas costas.

— A ação da PM se deu porque os policiais haviam mandado um motociclista parar, mas ele não atendeu à ordem. A Kombi estava no Largo da Birosca (na Fazendinha) e os policiais atiraram na moto. É mentira que teve tiroteio , foi um tiro só.

Nenhum PM foi atacado — garante o tio, apontando a presença de, pelo menos, cinco militares.

A nota enviada pela corporação destaca que, na esquina da Rua Antônio Austragésilo com a Rua Nossa Senhora, equipes foram atacadas e os policiais revidaram à agressão.

“Os policias foram informados por populares que um morador teria sido ferido na localidade conhecida como ‘Estofador’. Uma equipe da UPP se deslocou até o Hospital Getúlio Vargas e confirmou a entrada de uma criança de 8 anos ferida por disparo de arma de fogo”, diz a nota.

Ainda segundo a PM, a Coordenadoria de Polícia Pacificadora (CPP) irá abrir um procedimento apuratório para verificar as circunstâncias.

Na manhã deste sábado, parentes e amigos foram até o Instituto Médico Legal (IML), no Centro do Rio, para a liberação do corpo.

Ainda não há informações sobre o local e o horário do velório e sepultamento da menina.

Segundo a família, os pais estão passando mal, ainda em estado de choque, e não tiveram condições de comparecer ao IML.

Segundo Elias César, uma mulher esteve no instituto e se apresentou como funcionária do governo estadual, oferecendo ajuda para custos de funeral. Porém, a família não aceitou a ajuda e recusou o contato.

Defensoria Pública: confronto se mostra ineficaz

A Defensoria Pública do Rio emitiu uma nota de solidariedade: “A defesa do direito à vida é um dos princípios basilares da nossa instituição. Por esta razão, acreditamos em uma política de segurança cidadã, que respeite os moradores das favelas e de qualquer outro lugar. A opção pelo confronto tem se mostrado ineficaz: a despeito do número recorde de 1.249 mortos em ações envolvendo agentes do estado apenas este ano, a sensação de insegurança permanece. No caso das favelas, ela se agrava”, diz o texto, que lembra também a morte do policial Leonardo Oliveira dos Santos, atingido em Niterói.

A nota reforça ainda que, “se coloca à disposição dos familiares de Ágatha — e de todo cidadão fluminense” — para auxiílio jurídico.

Manifestação reúne moradores no Alemão

Na manhã deste sábado, dezenas de moradores e ativistas sociais fazem uma manifestação pacífica pelas ruas do Complexo do Alemão.

Carregando faixas e cartazes, eles pedem pelo fim das mortes de crianças e jovens em comunidades do Rio.

Com a ajuda de um carro de som, os manifestantes também pedem a presença do governador Wilson Witzel.

Além disso, citam os nomes de moradores mortos em ações policiais seguidos pelo termo “presente”, grito que ganhou destaque após a morte da vereadora Marielle Franco.

— Em todas as comunidades se perdem vidas inocentes por essa política montada pelo governo do Estado. O Complexo do Alemão está presente, sim! Não queremos que a Agatha venha a ser apenas mais uma foto estampada. Vamos lutar pelos nossos direitos dentro da comunidade, onde vários inocentes são atingidos por ‘balas achadas’ todos os dias — afirma um manifestante sem se identificar.

Nas janelas e varandas da Avenida Itararé, onde a manifestação ocorre, moradores agitam panos brancos como sinal de paz. Mototaxistas também acompanham o grupo.

O coletivo Mães de Manguinhos também participa do ato para apoiar a família de Ágatha.

— Nós estamos cansados desses caveirões aéreos, desses caveirões terrestres. Basta do sangue do povo negro derramado na favela. Viemos aqui para lutar por essas vidas, crianças que vocês estão levando. Nos deixem viver em paz, sem essa falácia da guerra contra as drogas. Chega, são os nossos jovens que estão morrendo — afirma uma das mães do coletivo durante a caminhada pacífica.

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1 comentário

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Zé Maria

22 de setembro de 2019 às 01h13

Para escaparem da Frustração existencial, os militares sentem necessidade de um inimigo para combater.
Quando não o encontram fora do território nacional, buscam um dentro do próprio País.
No caso do Brasil, o inimigo dos Militares são os pobres e, por conseguinte, os pretos e pardos, e todos aqueles que os defendem,
hoje em dia, os petistas, lulistas, esquerdistas,
ativistas, socialistas, comunistas,
e istas, e istas, e istas ……

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