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Raquel Rolnik: Segregação urbana aceita na ditadura segue sendo o padrão
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Raquel Rolnik: Segregação urbana aceita na ditadura segue sendo o padrão


04/04/2014 - 13h14

por Luiz Carlos Azenha

A arquiteta Raquel Rolnik, professora da Faculdade de Arquitetura da Universidade de São Paulo (FAU), está encerrando seus seis anos de mandato como Relatora Internacional do Direito à Moradia Adequada do Conselho de Direitos Humanos da ONU.

Durante este período, ela fez 12 missões internacionais avaliando as condições de moradia no mundo.

No Brasil, ela diz que pouco mudou desde que a ditadura militar promoveu a urbanização segregacionista, que reservou as melhores áreas urbanas aos ricos e jogou os pobres na periferia, distantes dos serviços públicos. Embora tenha havido avanços na Constituição de 1988, pouco saiu do papel. O direito à posse, previsto na Carta, é atropelado sempre que o Estado precisa de espaços para novas obras, como se viu no caso da Copa de 2014 e das Olimpíadas de 2016. A reforma urbana foi abandonada.

O Minha Casa, Minha Vida, tocado com dinheiro da Caixa Econômica Federal, paga às construtoras o mesmo valor pelos imóveis, independentemente de onde sejam construídos. Para aumentar a lucratividade, as construtoras optam por construir em áreas distantes dos serviços, embora tenham de atender a certas condicionalidades.

Raquel diz que, hoje em dia, por causa da globalização, os capitais internacionais passaram a disputar a localização com os mais pobres. Ou seja, um investidor árabe interessado em construir no Recife disputa o terreno com o morador pobre que ocupa imóvel no centro da cidade! Sem que haja proteção aos mais pobres, segue a gentrificação.

Na entrevista abaixo, a arquiteta fala também do fracasso das ideias de Hernando de Soto, o economista que pregava dar títulos de propriedade aos pobres como panaceia para todos os males. Em tese, esses títulos permitiram aos novos proprietários ter acesso ao sistema financeiro e sair da pobreza. Nada disso aconteceu. Aliás, as ideias neoliberais do economista permitiram a paises desenvolvidos o desmonte de seus programas habitacionais. Nos Estados Unidos e na Espanha, quando o mercado imobiliário bombado artificialmente implodiu, em 2008, os bancos foram salvos pelo Estado e os pobres perderam suas casas!

Sobre a crise urbana no Brasil, Rolnik diz que sempre existiu para os mais pobres, mas ganhou relevância agora por ter tocado na classe média que não consegue mais se deslocar de automóvel.

Ouçam a esclarecedora entrevista:



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16 comentários

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Wagner

29 de março de 2015 às 21h31

Olá, gostaria de saber onde posso encontrar a entrevista, pois o link do audio não funciona mais.

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    Conceição Lemes

    29 de março de 2015 às 21h46

    Wagner, tente agora. Corrigimos o link. Obrigada. abs

ricardo silveira

07 de abril de 2014 às 20h22

A segregação urbana, parece-me, é determinada pela acumulação do capital, bairros bem equipados custam caro, de modo que as políticas de ocupação podem, eventualmente, não corroborar com a segregação mas, há limite. As experiências de urbanização de favelas, por exemplo, leva, a médio prazo, à expulsão dos que têm menos poder de compra. A solução é a desmercadorização das relações, pelo menos nos serviços essenciais, como saúde, educação, saneamento, transportes, lazer, entretenimento, mas, aí já é outra história.

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ricardo

07 de abril de 2014 às 16h37

E aí pilantragem,alguma notícia sobre o cara do jatinho?

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Tomudjin

06 de abril de 2014 às 13h29

O Pior de tudo é saber que eles estão reivindicando um governo padrão FIFA.

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jõao

06 de abril de 2014 às 12h22

ISTOÉ REVELA CONTA DE R$ 64 MILHÕES DO PSDB NA SUÍÇA
:
Ela se chama “Marília” e foi aberta no Leumi Private Bank, em Genebra; por ela transitaram cerca de R$ 64 milhões das propinas que azeitaram os negócios da Siemens e da Alstom no Brasil; a conta foi também movimentada por homens da cozinha dos governos de Mario Covas, em São Paulo, e até do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso; documentos já estão em poder do Ministério da Justiça e parte dos recursos foi bloqueada por autoridades suíças; e agora: será que tucanos serão denunciados pelo Ministério Público?
23 DE AGOSTO DE 2013 ÀS 21:41
247 – Uma conta bancária na Suíça, conhecida como “Marília”, foi usada para movimentar as propinas que azeitaram os negócios da Siemens e da Alstom com governos do PSDB, em São Paulo. Por ela, transitaram cerca de R$ 64 milhões em propinas e os recursos foram gerenciados por homens da cozinha dos governos de Mario Covas, em São Paulo, e até do ex-presidente Fernando Henrique Cardoso. Este é o tema de uma reportagem bombástica da revista Istoé, que acaba de chegar às bancas. Até agora, o procurador Rodrigo de Grandis reluta em denunciar tucanos indiciados pela Polícia Federal (leia aqui). Será que vai manter a conduta?

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Regina Braga

05 de abril de 2014 às 16h32

Poxa,a exclusão é tão grave que…favelas, em zona nobres, são consumidas pelo fogo…Tudo contra os pobres!Até o fogo…já o setor imobiliário, faz grandes edificios, em zonas de proteção ambiental e todos ficam calados!

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Pedro

05 de abril de 2014 às 11h40

Ok, Rolnik, seria ótimo o Estado Brasileiro proporcionar o Eldorado. Mas e o nível de investimento interno no Brasil? E o 1/3 do Orçamento que vão para os juros? Hoje o Estado precisa ter sócio. Aí o questão fica mais pragmática: Construo em parceria com esse cara aí ou deixo o outro cara/eleitor na rua?

Difícil, não é. Mas mesmo assim valeu. Esclarecedor.

Viomundo, montem um podcast semanal!

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Marcio Ramos

05 de abril de 2014 às 09h00

… muito boa esta entrevista como outras aqui… enquanto isso ali na cracolandia o Estado via Secretaria da Cultura despejou mais 27 familias semana passada que so não foram parar na rua por causa do projeto Braços Abertos da prefeitura…

… Fora Alckmin, filhote da ditadura!!!!

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Augusto

05 de abril de 2014 às 08h41

Interessante essa coisa, diria ate que a entrevista è mais positiva que negativa, mas acho o ponto de vista da professora ingenuo, se nao totalmente alienado. Veja bem, ela sustenta que a segregacao urbana brasileira, que segue a todo vapor hoje, seria uma das herancas da ditadura. Ledo engano, a segregacao urbana brasileira è a implementacao arquitetonica coletiva da unica ideologia que realmente fez escola em nosso pais. Me refiro ao escravismo. Na genese, ou no DNA, da sociedade brasileira existem a casa grande, a senzala, e para o negro liberto ou “fugido”, resta o quilombo. Do quartinho da empregada às favelas, do codominios de luxo nas zonas urbanas privilegiadas, ao minha casa minha vida naqueles bairros genericamente referidos como “la na pqp!”, o espaco urbano brasileiro, no micro e no macro, se organiza em torno desses paradigmas que eu listei.

Agora è moda colocar a culpa de tudo na ditadura. Eu sou profundamente libertario e incondicionalmente contra ditaduras, mas essa conversa fiada de vizualizar a ditadura como um evento particularmente especial na nossa historia nao me convence.

O golpe militar foi, como muitas outras coisas, uma expressao da mentalidade colonizada e escravista difusa na sociedade brasileira em geral, mas definidora
do ideario da elite brasileira.

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Jose Mario HRP

05 de abril de 2014 às 08h39

Até quando o DITADOR Barbosa vai negar o semi aberto a Zé Dirceu?

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Julio Silveira

04 de abril de 2014 às 18h42

O Brasil tão longe e tão próximo da Índia, em suas mazelas corruptas e suas sociedades de castas.

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Edgar Rocha

04 de abril de 2014 às 17h59

À época da ditadura, o padrão de loteamento popular não era algo muito diferente do que se concebe hoje como sendo uma favela de cimento armado. Aqui no Jardim do Carmo, em Itaquera, chegamos em 1977 e a grande maioria dos loteamentos era de 20 X 25. O problema era que os terrenos loteados podiam chegar a um nível de inclinação de mais de 75 graus (às vezes não era mais que uma beira de barranco com 90 graus de inclinação). O sujeito comprava o terreno com frente pra uma rua e precisava construir quatro andares pra chegar no nível do asfalto. E todo mundo comprava loteamento regularizado. Não era invasão, não. Quando vejo a paisagem, apesar de estar num bairro supostamente oficializado, não difere em nada do que vemos na Rocinha ou Vila Brasilândia. E toda a infraestrutura foi conseguida com muita luta, com reivindicações: asfalto, água encanada, luz, esgoto, escola, posto de saúde, linha de ônibus… haja assembleia! nada foi previsto no “projeto”. Apenas na área mais alta, que pertencia ao BNH, com casinhas lindas, estilo subúrbio americano e mansões próximas ao Parque do Carmo, é que existia toda a infraestrutura planejada. Tínhamos então, no mesmo bairro, dois projetos diferentes de cidade. Era o Jd. do Carmo Baixo (onde moramos) e o Jd. do Carmo Alto (onde os granfinos moravam). Baixo e alto, em todos os sentidos. acho que era este o projeto urbanístico da Ditadura.

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    Edgar Rocha

    04 de abril de 2014 às 18h02

    Desculpe, errei o tamanho do terreno: 5 X 25.

Marisa

04 de abril de 2014 às 17h34

Essa tentativa do pessoal que apoia o PSOL de dizer que nada mudou e que ‘ainda vivemos na ditadura’ é bisonha – tanto do ponto de vista conceitual e acadêmico quanto do puramente político. Fabricam argumentos permanentemente para sustentar essa tese, que é a principal bandeira do partido para combater o PT e seu governo redistribuidor e desenvolvimentista. Se vivessem na era Jango, teriam ajudado a depô-lo…
Ela, Raquel Rolnik, vive em local privilegiado, pelos critérios dela mesma. E ganha dedicação exclusiva na USP sem dar exclusividade. Tá lá no currículum Lattes dela > 2008 – Atual Vínculo: Livre, Enquadramento Funcional: Professor Doutor – RDIDP, Carga horária: 40, Regime: Dedicação exclusiva.

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Temerário

04 de abril de 2014 às 14h04

E como “comemorar” o fim da ditadura desse jeito? Cada vez mais concordo com o Safatle de que a Ditadura venceu!

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