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Venezuela: Guerra psicológica induz ao exorcismo contra o governo
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Venezuela: Guerra psicológica induz ao exorcismo contra o governo


09/06/2014 - 11h10

A Venezuela diante da manifestação da guerra psicológica

Escrito por Edgar Barrero Cuellar*

Traduzido ao português por Jair de Souza, especial para o Viomundo

Durante vários meses, dia a dia, sem descanso, a notícia central nas grandes cadeias informativas é proveniente da Venezuela. Muito além da conjuntura econômica que o país está vivendo e da disputa de poder que está em marcha, não faltam os qualificativos dos criadores de opinião. Guerra psicológica? Como funciona isto? Quais são suas características centrais e seus efeitos? Apresentamos aqui uma aproximação a esta realidade de tantas recordações ruins para a Humanidade.

Pouco se fala sobre as novas e sofisticadas armas de guerra dos Estados Unidos: estratégias de manipulação mental em grande escala, instalação do medo na cotidianidade dos habitantes escolhidos como alvos de suas operações, a implantação de sentimentos de ódio, racismo, segregação e vingança entre habitantes de um mesmo país; desestruturação intelectual mediante a inoculação de imagens que distorcem a realidade; a exarcebação de sentimentos justificadores da crueldade e até mesmo a manipulação atroz de crenças espirituais através de incitadores da morte física ou simbólica dos que são considerados inimigos da fé.

Um arsenal completo que conjuga diferentes técnicas e disciplinas do saber que, ao ser implementadas, recebem o nome genérico de guerra psicológica (gps).

Diante do ataque desestabilizador que o governo venezuelano está enfrentando, é oportuno e importante que nos aprofundemos nos aspectos psico-sócio-antropológicos deste tipo de guerra, tratando de localizar seus elementos estruturais quanto à forma de construção ideológica; assim como os aspectos potenciais para seu enfrentamento e desestruturação como parte do combate pela verdade histórica, a contra-manipulação e a resistência organizada contra as montagens pulsionais construídas para levar à obediência cega e à submissão.

A viúva negra

De acordo com a investigadora Eva Golinger (1), a fase mais recente das operações de gps contra a Venezuela remonta ao ano 2006, quando desde Washington e Bogotá foi lançada uma estratégia aberta de indicações sobre a suposta aliança de Hugo Chávez com as FARC. Na Colômbia, tal campanha foi cinicamente assumida pelo ex-presidente Álvaro Uribe, sobre quem pesa uma infinidade de acusações relativas a seus vínculos com a estrutura paramilitar que converteu a Colômbia numa imensa fossa comum (2).

Esta é apenas a cabeça visível do grande emaranhado de arapucas psicológicas que tratam de captar mentes e corações desprevenidos. Sobretudo, a aceitação das classes médias, que caem magicamente nas teias dessa viúva negra, a qual não terá nenhum prurido em sacrificá-las de imediato para dar sequência a seu cruel plano de pôr fim às tentativas que vêm sendo feitas na Venezuela para mudar as condições sociais e econômicas.

Um caso próximo a isso pode ser visto na tentativa de assassinato de Leopoldo López [líder da oposição venezuelana] por parte dos mesmos setores que o impulsaram a liderar as arruaças e a violência que tiveram lugar em algumas cidades durante os passados meses de fevereiro e março (3).

Primeiro seduzir para logo exterminar, este é um dos princípios do pensamento psicológico ali imposto, o que inclui o sacrifício necessário dos próprios aliados, tal como está demonstrado ao longo da história da Humanidade.

Vejamos a matriz da gps lançada contra a Venezuela em sua dupla perspectiva de ataque imperialista à maior reserva mundial de petróleo e, por sua vez, as possíveis respostas – à luz do direito universal – para a defesa da dignidade e da soberania dos povos. Isto pode ser graficamente esquematizado da seguinte forma:

Corpo físico. Na gps contra o corpo físico dos venezuelanos encontramos a geração maciça de terror através de operações de guerra suja que têm como intenção fundamental a construção de um clima de medo e total sensação de vulnerabilidade que conduza a um pedido de ajuda internacional, tal como fica demonstrado com as 41 pessoas assassinadas e os mais de seiscentos feridos desde fevereiro de 2014 até a presente data (4).

Para a aplicação desta técnica de manipulação e controle, é preciso ocasionar mortos e feridos, que devem ser atribuídos ao Governo e exibidos de forma espetacular nos meios de comunicação impressos, na televisão e nas redes sociais. Esta estratégia busca produzir dor física real naqueles que são vítimas dos franco-atiradores, dos arames que decapitam os motociclistas, da queima de pessoas vivas nos centros de saúde e da tortura mediante golpes a pessoas indefesas.

Corpo mental. Depois da dor física atribuída ao mandatário do país, é preciso vir a expressão de tristeza, fatalismo e raiva social que mobilize a população para a derrubada do governo legitimamente constituído. Primeiro dor física, tristeza social, a seguir, e finalmente raiva irracional são os aspectos potenciados desde a gps contra o governo venezuelano.

Um exemplo disso pode ser evidenciado na campanha internacional de Maria Corina Machado, mostrando imagens distorcidas da realidade, as quais chegaram mesmo a merecer rechaço em âmbitos tão importantes como o Congresso brasileiro, onde a senadora Vanessa Grazziotin qualificou seu vídeo de “uma montagem grotesca” (5).

Corpo inconsciente. Ao nível do corpo mental, as operações psicológicas buscam a instalação de imagens distorcidas da realidade na estrutura intelectual e afetiva das pessoas. Isto se consegue concretizar pela ação contínua e repetitiva dos grandes meios de desinformação, que constroem um universo visual-auditivo para a aceitação passiva da mentira.

Esta situação foi denunciada pela própria Defensora do Povo na ONU, como parte de uma campanha midiática internacional de desprestígio contra a Venezuela, através da qual buscam “difamar as instituições públicas venezuelanas e, assim, deixar transparecer que os direitos humanos de quem protesta violentamente estão sendo desrespeitados e, com isso, propiciar uma intervenção estrangeira nesse país” (6).

Desde a perspectiva da Psicologia da Libertação, este fenômeno pode ser denominado como uma espécie de esquizofrenia social induzida via ocultação sistemática da verdade e pela instalação de realidades paralelas, fantasiosas, por trás das quais habitam fantasmas, demônios e monstros assassinos.

A gps penetra a subjetividade por meio de imagens e discursos altamente ideologizados que conseguem instalar-se na psique e, uma vez ali, adquirem vida própria, se auto-reproduzem com o mais leve contato de novas imagens e/ou de novas mensagens provenientes da matriz mágica do encantamento fascista que infantiliza em grande escala.

Tal infantilização e embrutecimento fica claramente evidenciada nos fatos relacionados com o assédio e a agressão à embaixada de Cuba na Venezuela no ano 2002. Homens e mulheres são induzidos de forma cega a agredir os veículos da missão diplomática usando as partes mais frágeis de seu corpo – como as próprias mãos – para destruir a golpes objetos que são claramente indestrutíveis com um simples golpe.

A capacidade de raciocínio desaparece por completo para dar lugar ao desbordo emocional por meio da imitação e o contágio psicossocial. A habilidade humana para pensar utilizando ferramentas e antecipando consequências é substituída pelo instinto animal, que se mobiliza unicamente pela via da satisfação de necessidades primárias. É por isso que a massa é conduzida como ovelhas ao rebanho.

Corpo mágico. O que acabamos de ver fica articulado de maneira sincronizada com o campo do corpo mágico. Ali, a gps tem como função disparar uma série de dispositivos para a geração de um certo encantamento psico-sócio-antropológico por meio do qual apodera-se completamente da vontade de grandes grupos de seres humanos a nível nacional e internacional.

Como nas velhas épocas de fábulas e contos encantados, na fase atual da guerra contra a Venezuela recorrem a este antigo método de gps mediante o qual conseguem criar uma percepção social da realidade totalmente falsa e acomodada aos interesses dos poderosos grupos econômicos, políticos e militares. Na consciência mágica, o ser humano tem um certa noção do que realmente está ocorrendo, mas é tanta a efetividade do encantamento que perde-se por completo a capacidade de resposta crítica diante dos fatos reais.

Uma forma concreta de ver como opera este nível da gps contra o Governo Bolivariano pode ser observada na maneira como conduziram um grande número de pessoas a um enfrentamento com os simpatizantes chavistas que defendiam o legítimo mandato de Hugo Chávez quando da frustrada tentativa de golpe de Estado de abril de 2002, episódio conhecido como o massacre de Ponte Llaguno.

É preciso estar encantado para não se dar conta do perigo de morte a que foram conduzidos, pois nesse momento se falava de franco-atiradores disparando contra ambos lados da multidão. É necessário estar “abobado” para não se dar conta de que os que promoviam o massacre entre irmãos desapareceram dali ao mesmo tempo que propiciavam os enfrentamentos (7).

[Nota do Viomundo: O documentário A Revolução Não Será Televisionada descreve detalhadamente o episódio. De última hora, uma manifestação oposicionista foi transformada em marcha ao Palácio Miraflores, onde todos sabiam haver uma multidão de chavistas. O objetivo era criar as vítimas fatais posteriormente atribuídas à repressão do governo]

O corpo mágico da sociedade é um dos mais lesionados com a gps, técnicas com as quais capturam e enfeitiçam grandes grupos humanos, levando-os inclusive à morte, a qual pode ser física, mas também psicológica e espiritual. Ou seja, que não apenas se entrega a vontade física dos seres humanos para seu sacrifício, senão que também entregam a vontade psicológica e espiritual que estabelece os limites éticos e morais.

Um exemplo disso é a forma como parte da indústria midiática estabelecida em países como a Colômbia manipulam as notícias. Parece que meios como NTN, Caracol e RCN entendem que a distorção total da realidade é o único referencial ético para o que está acontecendo no país vizinho (8).

Corpo espiritual. Neste plano, pode-se constatar uma poderosa manipulação das dimensões mais sagradas do ser humano, até o ponto de levá-lo – sem que ele se dê conta – a situações de atrocidade, como o gosto ou o prazer por/com a barbárie, a morte, a tortura e a desaparição do outro (9).

A combinação estratégica de mitos espirituais e/ou religiosos com símbolos patrióticos pode levar a níveis de fanatismo nos quais o sentido formal das crenças chega a ser transformado, sutilmente substituído por outros carregados de conteúdos ideológicos imperceptíveis para a pessoa crente. Talvez seja duro aceitar isso, mas muitas vezes utilizam elementos tão sagrados como a eucaristia para incentivar a guerra e o sacrifício dos próprios irmãos.

O que acabamos de mencionar pode ser evidenciado nas missas oferecidas pelo sacerdote venezuelano Pedro Freites, em Bogotá.

No púlpito, ele coloca a bandeira da Venezuela, na qual aparecem apenas sete estrelas e não oito, como realmente está aprovada pela Constituição Bolivariana, posto que a oitava estrela foi uma iniciativa de Hugo Chávez ao retomar um decreto de 1817 do próprio Libertador Simón Bolívar, no qual decreta a incorporação da oitava estrela como um reconhecimento da independência da província da Guayana.

Um aspecto ainda mais importante tem a ver com a entoação do hino da Venezuela no momento da consagração.

Ali se materializa essa combinação perversa de simbologia religiosa e nacionalista com que se criam fantasmas diabólicos aos quais o dever cristão conclama a combater: “Nós precisamos estar claros que necessitamos uma estrutura democrática contra um regime ditatorial e não pudemos obter a luz […] este evangelho de São Paulo cai como um anel no dedo, ao final nos diz, desperta tu que dormes, levanta-te e vê a luz e não obtivemos a luz” (10).

A luz aparece como símbolo messiânico da salvação e como dever moral a seguir.

Nas palavras de Hinkelammert, “O império só adverte maldades nos outros, ações diabólicas, e, por isso, entende sua própria política como um grande exorcismo” (11).

A manipulação da espiritualidade e da religiosidade dos povos é uma das formas mais certeiras das operações psicológicas.

É possível fazer algo contra esta matriz?

Quem sofre este tipo de ataques deve analisar criticamente a forma de desmascará-los: mostrar as verdadeiras imagens e repetir incessantemente a mensagem da verdade.

Não se trata de mostrar ou demonstrar razões, pois aqueles que caíram nesse estado de encantamento ideológico não são capazes de discernir argumentos, senão de deixarem-se levar por suas emoções e espiritualidades sutilmente manipuladas. Isto foi brilhantemente demonstrado por Wilhelm Reich em Psicologia das massas no fascismo.

Os discursos nacional-socialistas de propaganda se caracterizavam por fazer hábeis chamadas aos sentimentos dos indivíduos integrados na massa, e pela renúncia, à medida do possível, a toda argumentação objetiva. Em sua obra Mein Kampf (Minha Luta), Hitler ressalta em repetidas ocasiões que a boa tática em matéria de psicologia de massas reside em renunciar a toda argumentação e em apresentar às massas somente “a grande meta final”.

Não se trata de renunciar ao nível da argumentação. O desafio é incorporar outros elementos estruturais do psicológico, como o emocional e o espiritual, pois sobre eles é que a guerra psicológica implementada contra a Venezuela se sustenta.

Isto implica criar melhores formas de comunicação social a nível interno e externo, com a presença de psicólogos especialistas no tratamento de montagens emocionais e espirituais, o que inclui edição impressa, presença constantes em canais públicos e privados de televisão, ofensivas comunicativas em redes sociais e, se possível, aquisição de canais próprios – como a Telesur – para a educação e conscientização política.

É um desafio urgente para este tipo de governo. Ao observar com atenção os discursos da chamada oposição na mesa de diálogo para a paz (10 de abril de 2014), pode-se ver que ali não havia um alto nível de argumentação, senão que, ao contrário, um desbordo emocional que passava do riso irônico e burlão aos olhares de ódio e desprezo para com os representantes legítimos do governo.

Inclui estratégias bem elaboradas, como chamar pelo nome o presidente Maduro, tal como fez Capriles, que buscam deixar uma imagem de bom homem, respeitoso e confiante, que não seria capaz de fazer mal a ninguém. Esse nível sutil da gps é o que penetra profundamente na estrutura ideoafetiva da massa.

É nesses momentos que a psicologia pode fazer suas verdadeiras apostas ético-políticas pela verdade histórica. O papel de psicólogos, psiquiatras e outros especialistas não pode permanecer funcional à guerra, à tortura e à polarização psicossocial.

Nosso proceder tem de servir à sociedade plenamente, sem submeter-se às pequenas elites que historicamente vem submetendo os povos a crueis condições de existência material, psicológica e espiritual. A grande missão dos Psicólogos pela Verdade pode ser uma forma de concretização deste ideal humanista.

* Psicólogo Social, mestre em Filosofía

1 — Disponível aqui.

2 — No livro Por las sendas del ubérrimo de Iván Cepeda e Alirio Uribe, estão documentadas as obscuras relações de Álvaro Uribe Vélez com a estrutura paramilitar colombiana, narcotraficantes e até a delinquência comum. Ali se fala de “276 denúncias radicadas perante a Comisisão de Investigação e Acusação da Câmara de Representantes que comprometem ao ex-presidente Álvaro Uribe” (p.196).

3 — Disponível aqui.

4 — Disponível aqui.

5 — Disponível aqui.

6 — Disponível aqui.

7 — Esta forma de proceder está suficientemente documentado no trabalho investigativo de Ángel Palacios denominado Puente Llaguno: claves de una masacre:

8 — Ver aqui.

9 — Se desejam se aprofundar neste aspecto da guerra psicológica, podem consultar o livro De los pájaros azules a las águilas negras: estética de lo atroz. Psicohistoria del conflicto armado en Colombia, de Edgar Barrero Cuellar, editado por Fondo Editorial Cátedra Libre en 2011, Bogotá-Colombia.

10 — Sacerdote Pedro Freites. Palavras pronunciadas na celebração da missa na Parróquia Santa Clara (Bogotá) em 30 de março de 2014. A esta missa compareceram o candidato uribista Oscar Iván Zuluaga e a senadora Tania Vega, esposa do Coronel Luis Alfonso Plazas Vega, condenado a 30 anos pelo delito de desaparição forçada no holocausto do Palacio de Justiça em 1985.

11 — Franz Hinkelammert. El asalto al poder mundial y la violencia sagrada del Imperio. San José de Costa Rica, Editorial Departamento Ecuménico de Investigaciones (DEI), 2003.

Leia também:

Eric Nepomuceno: No ar, no Brasil, um movimento desestabilizador





21 comentários

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Cláudio

13 de junho de 2014 às 10h13

… “Com o tempo, uma imprensa [mídia] cínica, mercenária, demagógica e corruta formará um público tão vil como ela mesma” *** * Joseph Pulitzer. … … “Se você não for cuidadoso(a), os jornais [mídias] farão você odiar as pessoas que estão sendo oprimidas, e amar as pessoas que estão oprimindo” *** * Malcolm X. … … … Ley de Medios Já ! ! ! . . . … … … …

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Elkson

12 de junho de 2014 às 23h22

Artigo muito bom para entendermos a estratégia do PT e do esquerdismo em geral.

Responder

Mardones

12 de junho de 2014 às 09h08

Excelente artigo. Parabéns!

Vou reler mais uma vez durante a Copa.

Responder

jsr

10 de junho de 2014 às 22h55

Parei de ler em “Colômbia fossa comum”, a Colômbia, em 2 anos, passará a Argentina e será a 2a. Economia da América do Sul, enquanto a Venezuela…… , a Venezuela é ……?????

Jsr

Responder

    Jair de Souza

    12 de junho de 2014 às 14h10

    Claro que era o momento certo de você parar a leitura. Nessa imensa fossa comum em que se transformou a Colômbia durante o período em que foi governada pelo narco-traficanta nº 82 dos arquivos da DEA (nesta você, sem dúvida, confia) foram enterrados milhares de camponeses humildes, os falsos positivos do uribismo. Se ali tivessem sido lançados burgueses, latifundiários, narco-traficantes, aí, talvez, você continuaria lendo até o fim para sentir indignação.

    Nelson

    13 de junho de 2014 às 11h02

    Parabéns, Jair. Deu no meio!

    Tenho que parabenizá-lo e agradecê-lo também por ter trazido para nós o artigo de Edgar Cuellar.

    Luís Carlos

    12 de junho de 2014 às 16h18

    A Venezuela é a maior reserva de petróleo no continente e no mundo, cobiçada pelos EUA.

Mário SF Alves

10 de junho de 2014 às 12h18

Considerando não apenas a já dramática e INJUSTIFICÁVEL situação política na Venezuela, mas a realidade do Planeta como um todo, especialmente, o evento mais recente, o golpe de Estado na Ucrânia, que ameaça jogar o mundo numa nova guerra mundial, fica-nos a dúvida: afinal, que embate é esse? Como defini-lo? Como conceituá-lo?

_______________________________

Seria este que parece ser o derradeiro embate, um embate:

1) Entre forças materiais e/ou concepções de mundo ideologicamente contrárias?

2) Pela hegemonia de poder [e controle] sobre o destino de toda a Humanidade?

3) Algo estúpido, pré-histórico, caracterizado pela simples defesa de riquezas, privilégios e territórios?

4) Algo superior a tudo isso, e como tal, um embate entre modelos civilizacionais?

_____________________________________
Seja como for, creio que o que melhor define esses Titãs em luta de vida ou morte é o modo de agir de cada um em razão das condicionantes às quais sujeitam-se ou adotam. Assim, na busca de tal definição, vale considerar:

1) Que um, pela própria natureza de seu poder, e sob pena de se desmascarar ante os povos e perder a guerra, está e sempre esteve terminantemente proibido de abrir o jogo, expor a verdade ou apresentar publicamente seus objetivos e as armas por ele utilizadas em tal embate, isso a gente já sabe;

2) Que, enquanto um, visivelmente atropelado pela crise resultante da própria dinâmica de seu sistema econômico e de valores, atualmente desesperadamente adota a esdrúxula teoria do Estado Mínimo e a insana máxima da liberdade de mercado acima de tudo, o outro segue acreditando no planejamento de uso de recursos disponíveis segundo o interesse da maioria, isso a gente também já sabe;

3) Que, enquanto um só enxerga saída para a crise na qual meteu o Ocidente inteiro pela via da conservação de suas nem sempre lícitas riquezas, seus privilégios e superstições, o outro vê-se na contingência de [obrigatoriamente] superar a velha, desumana e [na maioria das vezes] caótica ordem estabelecida, são fatos [históricos].

__________________________________
E por último, a pergunta que não quer calar: o que a classe média, realmente média, tem a ver com tudo isso?

Responder

Mário SF Alves

10 de junho de 2014 às 00h05

Só um trechinho:

“…. a exarcebação de sentimentos justificadores da crueldade e até mesmo a manipulação atroz de crenças espirituais através de incitadores da morte física ou simbólica dos que são considerados inimigos da fé.”

—————————-
E precisava ter dito mais? Precisava ter dito mais para demonstrar até aonde a coisa fascista vai?

Responder

Luís Carlos

10 de junho de 2014 às 00h00

Texto conduz a linha elucidativa do processo de dominação simbólica atual, nãomapenas na Venezuela, mas aqui no Brasil também. Estamos apenas alguns passos atrás do que ocorre na Venezuela nesse momento, pois manifestações de rua no Brasil perderam força quando da morte do cinegrafista da Band por Black Blocks. Caso contrário,objetivos e método seriam rigorosamente os mesmos, aqui e lá, com único objetivo de desestabilizar governos autônomos de Washington e fazer prevalecer interesses econômicos e políticos dos EUA.

Responder

FrancoAtirador

09 de junho de 2014 às 22h40 Responder

    FrancoAtirador

    10 de junho de 2014 às 08h17

    .
    .
    A própria autodenominação presunçosa e arrogante

    dos United States, que se confundem com a ‘América’,

    como se todo o território do Continente Americano,

    das ilhas de Nunavut, no Arquipélago Ártico Canadiano,

    à Ushuaia de la Tierra del Fuego, na Patagônia Argentina,

    pertencesse unicamente ao país do Hemisfério Norte.

    Daí a série de slogans criados ao longo da História

    e disseminados pelos Meios de Comunicação de Massa

    (“What Is Good for America Is Good for the World”;

    “America for the Americans”; “American Way of Life”),

    servindo para reforçar idéias de supremacia racial,

    de superioridade religiosa e de predominância étnica,

    culturalmente assimiladas da Matriz Colonial Européia,

    nas elites perpetuadas com a subjugação dos nativos,

    os legítimos Americanos, que vieram do Leste da Ásia

    e não da Europa como afirmam alguns rafeiros locais.

    (http://www.vermelho.org.br/editorial.php?id_editorial=1324&id_secao=16)
    (http://migre.me/jJXjZ)
    (http://migre.me/jJXm2)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Classifica%C3%A7%C3%A3o_dos_nativos_americanos)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Povos_amer%C3%ADndios)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Nunavut)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Inuktitut)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Inu%C3%ADtes)
    (http://pt.wikipedia.org/wiki/Ushuaia)
    (http://www.dialogosdosul.org.br/a-invasao-silenciosa-dos-eua-na-america-latina)

    A AMÉRICA PARA @S [email protected]!

    JOVEM INUÍT CANADENSE

    FAMÍLIA AMERICANA

    TIERRA DEL FUEGO ARGENTINA/CHILE
    (http://migre.me/jK0Ic)

    CRIANÇAS AMERICANAS

    NUNAVUT (NOSSA TERRA) CANADÁ
    (http://migre.me/jK0vD)

    (http://www.historiacocina.com/paises/articulos/argentina/patagonia2.htm)
    .
    .

    FrancoAtirador

    10 de junho de 2014 às 10h21

    .
    .
    O BraZil tem nojo do BraSil
    e sua mais recente vítima é a Copa

    Por Conceição Oliveira, no Blog Maria Frô

    Ontem escrevi um pequeno texto no meu Facebook
    sobre algo que anda me incomodando deveras:

    “COXINHA, O POVO BRASILEIRO É UM ESTRANGEIRO PARA VOCÊ

    Coxinha, eu sei que você é braZileiro/a embora sonhe em ter nascido além mar desde seu tetravô.
    Se você tiver um pezinho de parentesco com os carcamanos da Itália, Espanha, Portugal ou outro país europeu sei até que já tirou sua dupla cidadania (fazer o que lá é que eu não sei).
    Façamos um combinado, vá para o shopping comprar sua camisa símbolo de complexo de colonizado, mas faça-nos um grande favor, não use o nome do Povo Brasileiro em vão.
    Você não conhece o Povo Brasileiro, este é um completo estrangeiro para você.
    Você não sabe o que é Povo, quando o Povo se aproxima e resolve dar um rolezinho no shopping vc já se assusta se esconde e pede pra polícia Geraldo Alckminsta baixar o cacete.
    No bairro onde você vive não há ausência do poder público, você tem plano de saúde e foi contra o Mais Médicos e adora dizer que o SUS é uma merda.
    Você não segue enlatado nos trens da CPTM, calorentos desumanos.
    Você nunca pôs os pés na periferia, você como o ignorante e oportunista do Álvaro Dias vive repetindo bordões como “bolsa família estimula a preguiça”.
    Você nunca esteve no sertão sofrido para ver como o Povo Brasileiro é.
    Você diz que ‘político é tudo igual’, mas sempre escolhe a candidatura mais reacionária que se apresente.
    Favor não falar por mim, eu sou e sei o que é e como vive o Povo Brasileiro.”

    Vivemos numa democracia, as pessoas podem se expressar e emitir suas opiniões, mas o que não aguento mais é um discurso reacionário feito por uma camada da população (o mote de agora é a Copa, mas já foi o Mais Médicos, e há 12 anos é o Bolsa Família).

    O mote variável é sempre usado por uma parcela com acesso a bens públicos e privados que tenta nos fazer crer que seu discurso de complexo de colonizado, reacionário e excludente é um discurso em defesa do povo brasileiro. Não é.

    E como argumentei no texto, me oponho terminantemente que façam uso do significado de ‘Povo Brasileiro’ para falar por mim e pelo Povo Brasileiro.

    https://lh6.googleusercontent.com/-M4fdqS0WMgU/U5R4dAiRT0I/AAAAAAAAW74/PKVpwFfDwhE/s800/coxinhas.jpg

    Hoje Marcão me manda este tumblr que é a cara dos ‘braZileiros’ a que me refiro: (http://sonobrazil.tumblr.com)

    O texto de Arnaldo vem nessa linha e acho que com muita clareza e elegância nos revela essa hipocrisia:

    Pererê, camará, tororó, olererê

    Por Arnaldo Ferreira Marques, em seu Facebook

    07/06/2014

    Em junho de 2001, a imprensa brasileira e mundial dava destaque a um aspecto pouco noticiado até então.
    No Peru, coração do antigo império dos incas, havia sido eleito o primeiro presidente indígena da história do país.
    Ficava claro que o país se dividia radicalmente entre os brancos descendentes dos colonizadores europeus e os não brancos, basicamente indígenas.
    Curiosamente entre os “brancos” estavam também os peruanos nipo-descendentes, que formam a segunda maior colônia fora do Japão
    (apesar de emigração forçada para os campos de concentração dos EUA na Segunda Guerra).
    Enfim, quem dominou o Peru independente no início do século 19 foram os “brancos”.
    Os outros ficaram de lado e eram desprezados de todas as formas, da cultura à política.
    A situação peruana não era única na chamada hispano-américa naquele começo de século 21, como os noticiários iriam mostrar.

    O mesmo ocorria na Venezuela, onde Hugo Chávez era “acusado”(?) de ser índio pela classe média Armani-Gucci, enojada, em marcha pelas ruas mais elegantes de Caracas.

    E ficou escancarado na Bolívia, com a eleição pós-revolução de Evo Morales, um indígena aymará.

    Da “ilha” Brasil, olhávamos para o Oeste e pensávamos como eram atrasados e bárbaros esses nossos estranhos vizinhos.
    Será mesmo?
    Verdade que aqui os indígenas foram um “problema” resolvido pelos brancos no século 18.
    Mas, o fato é que surgiram no Brasil novos “índios”, fruto da mistura de indígenas resistentes, brancos desgarrados e principalmente negros arrancados da África para produzirem tudo.
    “Índios” que, com o passar dos séculos, criaram um sotaque próprio, modos de falar, ritmos musicais, jeitos de festejar.
    Tudo fruto de um mix de coisas: a falta de educação formal, as raízes históricas, a miséria, a inteligência para superar os limites e as adversidades, a exclusão do poder.

    O Brasil é, e reafirmo, o Brasil ‘É’ a mistura da ocidentalização dominante (que teve sucesso em impor a língua e a religião, por exemplo) com esses “índios” não ocidentais.
    Mistura que às vezes anda e dá liga, e às vezes desanda.

    Quem mais contribui para o desandar são os “brancos” que só admitem a ocidentalização radical, pretensos lisboetas na Colônia que no século 19 se tornaram pretensos parisienses uns, londrinos outros, berlinenses os mais ousados.
    Nova-iorquinos quase todos no século 20.
    É o povo do BraZil.

    Para o BraZil, os “índios” são vagabundos, bêbados, fracos para os vícios (sexo, drogas, ociosidade etc. etc.), que só querem festejar, batucar, jogar bola, trepar.
    São bregas, ignorantes.
    Culpados por sua pobreza e inferioridade social atávicas.

    Ao BraZil, Miami. Ao BraSil, a Rota (ou o Bope)!

    Cantava Elis que “o BraZil não conhece o BraSil”.
    E que “o BraZil tá matando o BraSil”.

    Eu diria que o BraZil tem nojo do BraSil.

    E a mais recente vítima do BraZil é a Copa.
    Claramente uma parte do ‘não vai ter Copa’
    é o coro do BraZil contra o BraSil.

    Alguns textos por aí são explícitos ao afirmar isso.

    O BraZil não quer educação e saúde públicas caras para o BraSil.
    Mas faz demagogia com isso para destilar o nojo contra essa negada suada que insiste em jogar futebol e, pior, torcer pelo futebol.

    O BraZil da Fórmula-1, do MMA, do Grand Slam, cada vez mais torce para o futebol do Barça, do Chelsea, do Bayern.
    O Curíntia, o Mengo & cia. vão ficando para o BraSil mesmo.

    Quem sabe se o BNDES tivesse financiado estádios na Europa…

    Ah, que tempos dissimulados. Que chato tudo isso…

    (http://mariafro.com/2014/06/08/arnaldo-marques-ah-que-tempos-dissimulados-o-brazil-tem-nojo-do-brasil-e-a-mais-recente-vitima-do-brazil-e-a-copa)
    .
    .

    Mário SF Alves

    10 de junho de 2014 às 12h29

    E resumidamente:

    O que está em questão é o embate fenomenal entre o “Brasil, Um País de Todos” e o regime Casa-Grande-Brasil-Eterna-Senzala.

    O que está em jogo é a vitória do “Brasil Um País de Todos” e o respectivo impacto que tal vitória sobre o resto do mundo.

    Ou, dito noutros termos, quem e quais forças se interpõem com unhas, dentes, armamento convencional-cibernético e guerra psicológica contra tal vitória?

    Enfim, por que o Brasil é hoje, mais do nunca, um cenário e um País tão importante?

    Mário SF Alves

    10 de junho de 2014 às 15h20

    Continuando…

    “…Ou, dito noutros termos, quem e quais forças se interpõem com unhas, dentes, armamento convencional-cibernético e guerra psicológica contra tal vitória?

    Enfim, por que o Brasil é hoje, mais do nunca, um cenário e um País tão importante?”

    ____________________________
    De início, é hora de justiça. E justiça seja feita: na Venezuela estão usando de todo o radicalismo possível e de armas publicamente inconfessáveis para derrubar um governo bom. O radicalismo de direita, movido e amparado por forças alienígenas, e, a exemplo do que se fez antes contra o presidente Hugo Chávez, está, agora, nesse exato instante, forçando um governo escolhido pela maioria dos venezuelanos a, a contragosto, e como última instância, adotar o radicalismo de esquerda. Posso estar enganado, mas, quando, e se, a revolução social estourar ali, seus líderes de direita, algozes do atual presidente e do povo venezuelano, estarão de malas prontas para um desembarque livre, leve e solto e bem recepcionado em um outro país situado mais ao Norte.
    ___________________________________________
    Mas, voltando ao assunto, “Enfim, por que o Brasil é hoje, mais do nunca, um cenário e um País tão importante?”

    Lembro da Eco 92. Ocasião na qual o presidente dos EUA, o ex-diretor da CIA, Bush 1, causou perplexidade ao recusar-se terminantemente a assinar o Acordo de Biodiversidade. Terá sido por mero capricho?

    Não. Não foi por mera arrogância pessoal. Os estadunidenses e europeus sabem, talvez mais do que nós, sobre a real importância dos biomas brasileiros e a respectiva biodiversidade neles contida. Com o domínio das técnicas de manipulação genética, têm em vista o controle definitivo a “la custe o que custar” dessa incalculável riqueza. E mais do que nunca não podem se dar ao luxo de perdê-la. Até porque seus territórios encontram-se exauridos. Seu potencial de desenvolvimento já se esgotou.

    Nós, pelo contrário, e é isso que os alucina, temos todo um fantástico potencial de desenvolvimento pela frente. E paradoxalmente o “Brasil, Um País de Todos” ameaça isso. Ameaça a mansa e pacífica apropriação do butim.

    O Brasil é potencialmente o país mais poderoso do mundo. E é isso que os faz tão impacientes ao ponto de, assim como fizeram em 64, já tão descaradamente espionar o governo.
    ________________________________________
    Tá. E isso pensando só em termos de biodiversidade. E o que dizer se incluirmos o Pré-sal? O que dizer se incluirmos aí as incalculáveis reservas de minerais raros, estratégicos e nobres? E os nossos 8.500.000 Km² de território?

    Esse é o nosso dilema. O Brasil é rico demais, é grande demais, para se desenvolver, para ser um país soberano. E é o “Brasil, Um País de Todos” o alvo preferencial dos abutres. De todos eles. Mesmo dos que se dizem brasileiros.
    _____________________________________________________
    No mais, Viva o ex-presidente Lula! Viva a presidente Dilma! E por que não, viva a Copa das Copas!

    Abraço fraternalmente a todos. Inclusive aos descrentes e aos de direita que invariavelmente pousam aqui no Viomundo.

Alberto

09 de junho de 2014 às 14h58

É o que a mídia e a elite estão fazendo no Brasil: Lavagem cerebral!
Quando a tal “classe média” abrir o olho, será tarde demais. Os que vivem de salário e os micro, pequenos e médios empresários serão jogados na rua da amargura sem ter a quem recorrer, pois, ajudaram a implantar um regime fascista que só protegerá a elite.

Responder

    Sidnei

    09 de junho de 2014 às 18h17

    A classe média precisava ser relembrada dessas coisas aqui. É da Folha, em 16.5.1999. É meio longo. Não precisa ler tudo. Leia só algumas dessas cartas escritas em 1999.

    Vou colar, com os respectivos links:

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059915.htm

    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    A pedido da Folha, 9 dos 50 mil candidatos a uma vaga em frente de trabalho contam o que estão vivendo
    Cartas revelam aflição de desempregados
    ARMANDO ANTENORE
    da Reportagem Local

    Os nove personagens que se espalham por esta página representam, em teoria, o Brasil que deu certo.
    Moram na Grande São Paulo, a região mais próspera do país, e concluíram o segundo grau. A maioria dispõe de telefone em casa e frequentou pelo menos um ano de faculdade.
    Há uma semana, porém, todos engrossavam a fila de 50 mil desempregados que disputavam as 10 mil vagas de uma frente de trabalho aberta pela prefeitura paulistana. Candidatavam-se a varrer as ruas por seis meses em troca de um salário mínimo (R$ 136).
    Acabaram sem conseguir nada porque os recrutadores deram preferência àqueles que só têm o primeiro grau ou menos.
    Na última quarta-feira, a Folha reuniu os nove e lhes fez uma proposta: que escrevessem cartas falando do desemprego. Poderiam endereçá-las para quem quisessem, famosos ou não.
    Dos nove, somente um se dirigiu ao presidente FHC. Mas quatro recorreram a artistas de televisão ou grupos de pagode. Um procurou o programa “Fantástico”, e outro, “o Silvio Santos empresário”.
    Os trechos das cartas que a Folha publica estão quase na íntegra. Sofreram apenas correções ortográficas e de pontuação.

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059916.htm

    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para Xuxa
    “Você, escolhida uma rainha com brilho de uma estrela dalva. Orei para Deus pedindo luz, socorro. Pedi para que me enviasse um mensageiro, que me tire desse problema, do abismo. Não quero ser mais um a se jogar de um prédio.
    Xuxa, Deus me ouviu e me enviou essa oportunidade para falar com você (…). Fiquei na fila do desempregado, no Sindicato dos Trabalhadores. Eu orei muito na fila.
    Hoje estou aqui com emoção e desabafando (…). Estou precisando de um emprego. Vivo miseravelmente. Tenho a minha mãe com 81 anos com problema de saúde. O dinheiro que ela recebe de aposentadoria, R$ 130, não dá para viver, pois tenho que comprar remédio, comprar um certo alimento delicado de idoso. Não dá, Xuxa.
    A minha casa está chovendo dentro. Estou com medo que ela venha demolir em cima de nós duas. O encanamento péssimo, muita rachadura na parede.
    Xuxa, fale para a Marlene. Eu quero trabalhar.
    Tenho dois anos de jornalismo. Foi e é meu sonho de ser uma boa jornalista. Tenho vários cursos. Exemplo: detetive particular, recepcionista, informática e acompanhante de idoso.
    Tenho certeza que Deus me ouviu, como tenho certeza que você vai ler esta carta e uma luz no fundo do seu coração vai acender e você vai responder a minha súplica.”

    Célia Maria Fernandes, 42 – Está desempregada desde 1996

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059917.htm

    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para FHC
    “Pare de se preocupar com os bancos que quebram. Se preocupe com os problemas sociais aqui no Brasil. Às vezes, acho que o senhor está vivendo em outro país. Talvez nos Estados Unidos, lá com o Bill Clinton. O senhor se relaciona com tantas pessoas lá fora que dá a impressão que o senhor não olha para as pessoas daqui, para os problemas delas: a violência, o desemprego.
    Abro aqui também um pequeno espaço para que eu anuncie aqui. Estou no terceiro ano de processamento de dados. Estou há um mês de atraso na faculdade.
    Continuando a mensagem ao presidente: deixe os banqueiros um pouco de lado. Não abandone o povo que te elegeu duas vezes.
    O desemprego está nos barrando. Por exemplo: não consigo arrumar emprego pela falta de experiência na área de informática, e é isso que está me barrando.
    Para mim, o mais duro do desemprego é não ter dinheiro e não saber se vou poder continuar pagando a faculdade e não poder realizar certos sonhos de consumo, sonhos que não são só meus, mas de outros rapazes e moças que conheço: comprar um celular, comprar roupas sociais que eu gosto tanto, um relógio não muito luxuoso, nem muito pobre, na média mesmo.

    Thiago Lima Moura, 19 – Está desempregado desde de 1998. Paulistano, mora com os pais e estuda na Faculdade Ítalo-Brasileira, que lhe custa R$ 389 por mês

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059918.htm
    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para o grupo Soweto
    Sei que vocês não têm nada a ver com a situação patética que o Brasil está passando (…). Mas sei que, quando nos calamos, somos covardes e piores do que aqueles políticos safados que estão levando o país a essa loucura.
    (…) Vocês, com seu enorme carisma e poder de falar na mídia, podem ajudar a mim e outras pessoas a ter nossa dignidade de volta. Falem com o meio artístico para que todos juntos formem uma corrente, e os governantes ouçam os gritos do povo e os meus.
    Meu pai lutou a vida inteira para dar boa educação aos filhos. Conseguiu, com muita batalha, pagar a faculdade para que eu não sofresse o que ele sofreu. Agora me vejo formada, sonho realizado de ser uma pedagoga. Para quê? Me submeter a subemprego, a não ter o trabalho reconhecido. Eu sou uma profissional. Não tirei meu diploma em nenhuma banca de jornal. Fui todos os dias na faculdade. (…)
    Sabe, eu quero ser alguém na vida; de preferência, eu mesma.
    Falem por mim.”

    Margarete de Oliveira, 26, está dsempregada a nove dias. Filha de um PM, é paulistana, solteira e se formou em pedagogia

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059919.htm

    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para o “Fantástico”
    “É com muito pesar que escrevo esta carta. Pesar porque estou como milhares, desempregado.
    Estou nessa situação já há alguns anos e só estou mandando para a redação do “Fantástico” porque acho que deveria ser aberto um novo quadro direcionado só ao desempregado, como no quadro “Bate-Papo”, mas com debates entre políticos de todas as áreas e pessoas que sofrem na pele com as leis que eles apenas impõem para serem obedecidas (…).
    Onde moro, na periferia, há várias pessoas até com curso superior desempenhando funções que nem sonhavam em fazer depois de formadas, como é o meu caso, com curso Senai e outras experiências.
    Então, pensei que seria o caso de uma pressão mútua e de idéias novas para melhorar não só São Paulo, mas o Brasil de uma forma geral. Claro que isso seria a longo prazo, porque ninguém é mágico como o Mister M.”

    Valdomiro do Nascimento, 23 – Está desempregado desde 1997. Paulistano, completou o terceiro grau e já fez três cursos profissionalizantes: o de desenho técnico mecânico, o de copiador de fotolito e o de tecnologia mêcanica. Solteiro, mora em Itaquera, zona leste de São Paulo, com o pai (metalúrgico) e a mãe (dona-de-casa)

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059920.htm
    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para o Conselho Regional de Contabilidade
    “Sr. presidente do C.R.C.,
    Sou contabilista formado em curso superior e inscrito nesse conselho. Estou desempregado desde 2 de maio de 95, como consta no meu último registro da carteira profissional, a qual eu tenho como prova documental desse meu grande sofrimento, além também de servir como prova para minha aposentadoria, se é que um dia eu vou conseguir me aposentar.
    Como não consegui mais me recolocar no mercado de trabalho, os meus filhos me ajudaram a comprar um computador e uma máquina de datilografia para eu começar a montar o meu pequeno empreendimento, ou seja, o meu escritório de contabilidade dentro da minha própria casa.
    Como o país vive um momento drástico de grande recessão econômica, até agora ainda não consegui o meu primeiro cliente.
    (…) É lógico que eu sei que esse problema não é de competência do presidente do C.R.C. O que compete ao presidente do C.R.C. é que, pelo mesmo motivo que eu não tenho dinheiro para pagar a previdência, também não tenho dinheiro para pagar a anuidade do C.R.C.
    Portanto, peço ao senhor que observe mais atentamente aos contabilistas desempregados e dê isenção total da anuidade ou, no mínimo, dê aquele desconto que existia antigamente de 80%.
    É por isso que eu me candidatei a uma vaga de trabalhador braçal na frente de trabalho, pois eu preciso ganhar algum dinheiro para manter paga em dia a anuidade do C.R.C., porque, se eu baixar o meu C.R.C., fico ilegal na profissão.
    Como a profissão de contabilista para mim é um sacerdócio, ou seja, eu gosto de trabalhar em contabilidade, eu faço das tripas um coração para não baixar o meu C.R.C.
    Estou desabafando não para comovê-lo, senhor presidente, (…) mas para mostrar-lhe a minha dura realidade e a de milhares de brasileiros.”

    Marcos antonio Panzone, 40, esta desempregado há quatro anos. Nasceu em São Paulo, é casado e tem três filhos

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059921.htm
    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para Silvio santos
    “Esta carta não é para o apresentador Silvio Santos, mas para o empresário. Neste momento, me vejo -ou a sociedade brasileira me tacha- como ser desprezível, pelo fato de ser oriundo da raça negra, morar na periferia e estar com uma idade onde toda a sociedade ou vocês, empresários, acham que todas as pessoas de nível deviam estar ocupando um alto cargo de chefia ou de gerência.
    Mas, na realidade pobre (…), nós temos outra realidade de vida, onde temos que começar logo cedo quando garoto, por volta dos sete anos, a ter que conciliar trabalho ou subempregos, para ajudar nossas famílias, que normalmente vêm do interior para tentar a vida na grande cidade e que normalmente nossos pais não têm muita instrução e precisam da ajuda dos filhos.
    (…) Por ter de correr logo cedo atrás do prejuízo, fui deixando de lado um pouco meus estudos, onde agora estou quase concluindo meus estudos o mercado não me oferece oportunidade para que eu me desenvolva, e com isso cria uma série de problemas, tanto familiares como sociais.
    No familiar, se você não tem uma estrutura sólida no casamento, ele pode acabar em questão de dias, porque é como dizem: quando acaba o dinheiro, acaba o amor. Não sou machista, mas a sociedade brasileira está direcionada para que o homem conduza a família. É o padrão. É o costume.
    No social, dizem que um homem sem trabalho é um homem sem moral.
    Espero que esta carta chegue às mãos de todo o empresariado nacional.”

    João Luiz de Oliveira, 35 Está desempregado há seis anos. É filho de um pedreiro e de uma faxineira. Paulistano, casado, não tem filhos e cursa o quarto semestre da faculdade de processamento de dados. Sua mulher trabalha como analista de departamento pessoal e ganha R$ 1.500 por mês

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059922.htm
    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para Gugu Liberato
    “Sou viúva, tenho três filhos (…). Desde o falecimento de meu amado esposo, em 1992, sempre lutei e luto com unhas e dentes. Estudo, trabalhava porque agora isso ficou cada vez mais escasso.
    Com muito sacrifício, estou cursando faculdade. Sou beneficiada com o crédito educativo(…).
    Quando me inscrevi na frente de trabalho, fiquei sabendo que aquelas inscrições seriam apenas para as pessoas que estudaram até a oitava série. só que a fome não escolhe instrução nem graduação.
    (…) Agora, Gugu, te lanço uma pergunta: o que eu fiz me inscrevendo na frente de trabalho é vergonhoso? Ou vergonhoso é o quadro alarmante de desemprego o qual todos nós estamos vivendo?”

    Marcionila Maria do Nascimento Benedito, 39 Está desempregada desde fevereiro de 1997. É recifense e já trabalhou como metalúrgica, caixa de supermercado e supervisora de rostisseria

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059923.htm
    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Para ninguém
    “Vão pensar que sou radical, que não tenho perspectiva de futuro, mas não quero escrever carta para ninguém. O desemprego está aí. A violência também. Está todo mundo vendo. De que adianta mandar uma carta para alguém contando o que todo mundo já sabe?
    Tenho dois filhos, sendo que o mais novo faz uso de medicamentos. Isso me deixa aflita, pois custam dinheiro, e às vezes não tenho para comprar. Você não imagina como isso é triste.
    (…) Quem vai se importar comigo? Quem vai se importar de eu ficar repetindo o que todo mundo está cansado de saber?
    Eu não quero conversa. Eu só quero emprego.”

    Maria de Lourdes Trindade, 34, está desempregado há um ano

    http://www1.folha.uol.com.br/fsp/dinheiro/fi16059924.htm

    São Paulo, Domingo, 16 de Maio de 1999

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    DRAMA URBANO
    Ao grupo Só pra Contrariar
    “Eu escrevo esta carta para vocês porque sou sua fã e sei que vocês não têm preconceito com ninguém. Eu estou desempregada, não moro com os meus pais e nem com os meus irmãos, que vivem na Bahia.
    Sou bastante esperta. Já fiz várias coisas no mundo. Hoje eu preciso ajudar a minha mãe e não tenho como. Estou com muitas dívidas. Às vezes, chego a chorar, pois não tenho dinheiro nem para comprar uma passagem para conhecer os meus pais (…).
    Saio todos os dias procurando trabalho e só encontro “não, talvez, volte depois”. Até pessoas que estão empregadas passaram a tirar sarro de mim.
    No dia 27, eu tive uma decepção. Fui em um supermercado na Vila Formosa e perguntei se estavam fazendo ficha de emprego. Eles disseram que não. Aí minha colega, que é branca, foi, e eles fizeram a ficha dela (…).
    Estou fazendo de tudo para não sujar o meu nome. Eu não posso ficar desempregada e com o nome sujo (…).
    Eu perdi um tio na Vila Rica. Ele estava trabalhando e foi assaltado e reagiu. Levou sete tiros e não resistiu e morreu. Ele precisando do dinheiro, e o ladrão também.
    Eu preciso fazer um curso, mas não tenho como pagar. Gostaria de fazer: para telefonista e informática ou qualquer um que me dê emprego para ajudar minha família. Eu tenho um sonho de fazer o curso para militar, mas eu ainda não terminei meus estudos e nem tenho ninguém para me ajudar financeiramente.
    (…) Sei que não é só eu. Tem muita gente assim. Às vezes nós encontramos até senhores, rapazes e moças lutando para levar o que comer para casa.
    Aqui, as pessoas que têm firma discriminam as pessoas de cor escura e valorizam as pessoas mais claras.
    Eu sou escura, mas sou muito feliz, apesar da discriminação que tem no Brasil.
    Tenho certeza que vou conseguir um emprego e peço a ajuda de vocês. Espero que vocês leiam com atenção.”

    Jucineide Santos Oliveira, 20, está desempregada há dez meses. Baiana, mora com tios. Deixou Ipirá, sua cidade natal, ainda bebê e nunca reencontrou os pais. Já trabalhou como babá, feirante, gráfica e vendedora de aparelhos odontológicos. Pouco antes de perder o último emprego, comprou um forno microondas a prestação. Também deu entrada em um terreno na zona leste paulistana. Não quitou nenhum dos dois

    Alberto Santos Neto

    09 de junho de 2014 às 21h13

    Sidnei,
    concordo plenamente contigo! Hoje, nós brasileiros, não podemos nem alegar a tal “falta de memória”.

    Mário SF Alves

    10 de junho de 2014 às 12h34

    Isto posto, dizer mais o quê, senão, parabéns e obrigado, Sidnei.

Urbano

09 de junho de 2014 às 11h50

Aí é para se repetir que aqueles instrumentos humanos pertencentes à classe média, que vêm a fazer o serviço sujo do fascismo, até pela absurda cretinice da qual são portadores, sequer se dão conta de que virão a fazer parte das primeiras levas de vítimas do sistema. Creio que nem no agrupamento de animais tidos por irracionais ocorra caso igual. Por exemplo, quem já viu gnus entregando seus demais companheiros para um grupo de guepardos ou leões?

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