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Movimento protesta contra financiador da Vila Isabel


31/01/2013 - 09h52

Rio de Janeiro, 22 de janeiro de 2013

Ao Grêmio Recreativo Escola de Samba Vila Isabel,

Recebemos com enorme alegria a notícia de que o samba da Vila Isabel do ano de 2013 terá como tema a agricultura e os agricultores, no enredo “A Vila canta o Brasil celeiro do mundo – água no feijão que chegou mais um…”.

Este tema é bastante caro a nós que lutamos por uma agricultura sem venenos e que possa produzir alimentos saudáveis para toda a população. Entendemos a agricultura feita pelas famílias camponesas e de pequenos agricultores como atividade fundamental para a sociedade, pois é ela quem coloca na mesa de nós, brasileiras e brasileiros, o alimento do qual dependemos para sobreviver.

Neste sentido, o enredo composto por Rosa Magalhães, Alex Varela e Martinho da Vila consegue traduzir de forma bastante poética e bonita o dia-a-dia de milhões de famílias camponesas e de pequenas de agricultoras e agricultores, que apesar de todos os problemas, ainda “agradecem a deus por ver o dia raiar e pegam a viola, parceira de fé, caminho da roça para semear o grão e saciar a fome com a plantação.”

A letra da música reflete de forma impecável a beleza da agricultura camponesa e familiar brasileira. Segundo o Censo Agropecuário do IBGE de 2006, ela é responsável por 70% do alimento que chega à mesa dos brasileiros, mesmo ocupando apenas 25% das áreas agricultáveis. Mesmo recebendo apenas 14% do crédito dado pelo governo à produção agrícola, a agricultura familiar emprega 9 vezes mais pessoas por área e ainda é responsável por um terço das exportações agropecuárias do país.

O outro modelo de produção agrícola, vigente hoje no Brasil, tem recebido o nome de agronegócio. Este modelo, que abocanha 86% do crédito, 75% das terras, mas produz apenas 30% dos alimentos que compõem a alimentação da população e emprega somente 1,5 trabalhadores a cada 100 hectares, tem causado enormes prejuízos ao Brasil.

Ao focar sua produção na soja, eucalipto e cana-de-açúcar, o agronegócio brasileiro tem contribuído para o aumento dos preços dos alimentos, especulação e, consequentemente, para a fome no mundo – haja vista que quase um bilhão de pessoas no mundo passa fome. Essa produção, voltada quase que exclusivamente para exportação, usa o solo, a água e trabalho dos brasileiros para exportar mercadorias agrícolas sem nenhum valor agregado para o exterior.

Entretanto, este ainda não é o pior problema. Graças ao agronegócio brasileiro, dito moderno, desde 2008 nos tornamos os maiores consumidores de agrotóxicos do mundo. Esta enorme quantidade de veneno jogada em nossas lavouras tem causado contaminações nos rios, na chuva, no solo e até no leite materno. Os danos à saúde vão desde dores de cabeça e enjoos até depressão, podendo levar ao suicídio, e diversos tipos de câncer, incluindo de cérebro, pulmão, próstata e linfoma, como pode ser comprovado pelos três dossiês publicados em 2012 pela Associação Brasileira de Saúde Coletiva (ABRASCO).

Diante deste quadro, causou-nos espanto e tristeza saber que este enredo está sendo financiado pela empresa alemã BASF. A estrutura de poder que permite que o agronegócio brasileiro continue envenenando o país está sustentada por dois pilares: a bancada ruralista no Congresso Nacional, composta por deputados e senadores donos de vastas fazendas, que legislam a seu favor, e as empresas produtoras de agrotóxicos, sementes transgênicas e outros insumos agrícolas. Dentre estas, umas das mais importantes é exatamente a BASF.

A história de destruição causada por esta empresa não é recente. Já em 1921, uma explosão em sua fábrica na Alemanha causou a morte de 561 pessoas. Durante a Segunda Guerra mundial, a BASF foi uma das fabricantes do gáz Zyklon B, utilizado nas câmaras de gás nazistas para matar milhões de prisioneiros do regime. Entre eles, nossa querida Olga Benário, que inclusive utilizou a Zona Norte do Rio como esconderijo da ditadura Vargas.

No Brasil, a empresa provocou, em 2001, um vazamento de 11 mil litros de Mollescal, um corrosivo destinado ao curtimento de couro. Depois do acidente, a BASF forneceu informações falsas ao serviço de emergência sobre o grau de toxidade da substância, colocando em risco os profissionais envolvidos no atendimento à população. Em 2000, a empresa adquiriu uma fábrica de agrotóxicos da Shell em Paulínia, sabendo que havia mais de 1000 trabalhadores intoxicados e 180 famílias que tiveram que deixar o local, pois o solo e a água estavam contaminados. A BASF continuou por dois anos a fabricação de Aldrin, substância reconhecidamente cancerígena.

Em 2010, a BASF foi a terceira maior vendedora de agrotóxicos no Brasil, lucrando 916 milhões de dólares com a doença dos brasileiros e brasileiras. E não são só os agricultores que sofrem com os venenos: segundo a Agência Nacional de Vigilância Sanitária, a ANVISA, quase dois terços do alimentos que chegam à nossa mesa contêm resíduos de agrotóxicos, sendo que um terço foi classificado como irregular pela Agência.

Diante disso, gostaríamos respeitosamente de repudiar a atitude da Escola de samba Vila Isabel em aceitar dinheiro advindo do veneno, da doença e do câncer de famílias camponesas e de agricultoras e agricultores brasileiros. Uma Escola que já nos presenteou com belos sambas falando de um mundo melhor não deveria se submeter ao interesse vil desta multinacional.

Além disso, denunciamos que a Vila Isabel está sendo usada pelo agronegócio brasileiro para promover sua imagem, manchada pelo veneno, pelo trabalho escravo, pelo desmatamento, pela contaminação das águas do país e por tantos outros problemas. O agronegócio, que não pinga uma “gota de suor na enxada”, nem “partilha, nem protege e muito menos abençoa a terra”, quer se apropriar da imagem dos camponeses e da agricultura familiar, retratada no samba enredo de 2013, para continuar lucrando às custas do envenenamento do povo brasileiro.

O velho sonho de alimentar o mundo e do bem viver será concretizado somente quando camponesas e camponeses do mundo inteiro tiverem terra para produzir alimentos saudáveis, adequados à cultura local, sem uso de agrotóxicos nem de sementes transgênicas, e, sobretudo, sem precisar se subordinar às grandes multinacionais do agronegócio. A agricultura camponesa é a única que pode produzir alimentos saudáveis, para o Brasil e para o mundo, de forma sustentável, e é a única forma de atingir nosso tão almejado “bem viver”.

Certos de que a Escola é solidária a essas questões, reafirmamos nossa posição e nos colocamos à disposição para quaisquer esclarecimentos.

Saudações,

Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida

Organizações que participam da Campanha e assinam esta carta:

Movimentos Sociais e Redes: Via Campesina, MAB – Movimento dos Atingidos por Barragens, MPA – Movimento dos Pequenos Agricultores, MST – Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra, MMC – Movimento das Mulheres Camponesas, MPP – Movimento dos Pescadores e Pescadoras Artesanais, CIMI – Conselho Indigenista Missionário, PJR – Pastoral da Juventude Rural, CPT – Comissão Pastoral da Terra, RADV – Rede de Alerta Contra o Deserto Verde, RECID – Rede de Educação Cidadã, ANA – Articulação Nacional de Agroecologia, PJMP – Pastoral da Juventude do Meio Popular, FBSSAN – Fórum Brasileiro de Segurança e Soberania Alimentar, Rede de Educadores do Vale do São Francisco, FBES – Fórum Brasileiro de Economia Solidária, Consulta Popular, Levante Popular da Juventude.

Universidades e Instituições de Pesquisa

Nacional: ABRASCO – Associação Brasileira de Saúde Coletiva, FIOCRUZ – Fundação Osvaldo Cruz, INCA – Instituto Nacional de Câncer José Alencar Gomes da Silva.

Regional: UNIVASF – Universidade Federal do Vale do São Francisco, Núcleo Tramas – UFC (CE), Soltec/UFRJ – Núcleo de Solidariedade Técnica (RJ), Universidade Federal da Fronteira Sul (UFFS), EBDA – Empresa Baiana de Desenvolvimento Agrário (BA).

Movimento Sindical

Nacional: CONTAG, CUT, CREA, SENGE, SEPE, SINTAGRO, SINTRAF, SINPAF, Conselho Federal de Nutricionistas (CFN).

Regional: Federação dos Trabalhadores na Agricultura do Estado de Minas Gerais – FETAMG (MG), Sindicato dos Comerciantes de Petrolina (PE), STR de Petrolina (PE), Associação dos Engenheiros Agrônomos da Bahia – AEABA (BA), Sindicatos dos Engenheiros – Senge (RJ), Sindicato dos Petroleiros – Sindipetro (RJ).

Entidades, ONGs, Assessorias, Associações

Nacional: Instituto Brasileiro de Defesa do Consumidor – IDEC, Federação de Órgãos para Assistência Social e Educacional – FASE, Agricultura Familiar e Agroecologia – AS-PTA, Fundação Rosa Luxemburgo.

Regional: Políticas Alternativas para o Cone Sul – PACS (RJ), Visão Mundial, Associação Advogados de Trabalhadores Rurais – AATR (BA), Centro de Estudos e Ação Social – CEAS (BA), Serviço de Assessoria a Organizações Populares Rurais – SASOP (BA), Centro de Estudos e Pesquisas para o Desenvolvimento do Extremo Sul – CEPEDES (BA), Associação das Rendeiras de José e Maria, Grupo de Agroecologia de Umbuzeiro – GAU,Terra de Direitos, GIAS – MT, Instituto Kairós, Rede Social de Justiça e Direitos Humanos, FORMAD, Radio AgênciaNP, Semeadores Urbanos, CAA – Centro de Agricultura Alternativa do Norte de Minas.

Movimento Estudantil

Nacional: FEAB, ABEEF, ENEN, ENEBIO, DENEM.

Regional: DA de Agronomia da UNEB, DA de Agronomia da UNIVASF, GEAARA, DCE – UNIVASF, DPQ? (RJ).

Legislativo

Mandato do Deputado Estadual Simão Pedro (SP), Mandato do Deputado Federal Padre João (MG), Mandato do Deputado Estadual Marcelo Freixo (RJ).

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9 comentários

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Demetrius

01 de fevereiro de 2013 às 10h11

Há tempos o samba não é do povo que o criou, não é verdade?
As bandeiras das escolas de samba já não representam mais o orgulho do brasileiro em ir pra rua e comemorar o carnaval.

O grito de guerra das escolas no microfone não é mais alto que o sussurro do dinheiro na sala de negociação.

Carnaval é para os ricos, que enxergam os pobres lá dos camarotes acreditando que são funcionários deles, trabalhando para vosso entretenimento, Milord.

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Moacir Moreira

01 de fevereiro de 2013 às 08h53

O pobre perdeu a feijoada, o carnaval e futebol.

Toda diversão do pobre é convertida em mercadoria cara pelos donos do poder.

Responder

FrancoAtirador

01 de fevereiro de 2013 às 03h59

.
.
A par de todo o trabalho artístico e cultural

elaborado e executado pela maioria anônima

das Escolas de Samba do Rio de Janeiro,

não há como negar que o Carnaval Carioca

é uma grande indústria do entretenimento,

UM NEGÓCIO DIRECIONADO PARA FAMA E LUCRO.

É a exploração dos signos de prestígio,

como diria a Professora Marilena Chauí.
.
.

Responder

Murdok

01 de fevereiro de 2013 às 00h08

Estou desconfiado que nesse caso, o dinheiro está falando mais alto. Infelizmente.
Duvido que a escola va mudar de atitude.

Responder

Guanabara

31 de janeiro de 2013 às 19h42

Questão polêmica. Sem querer defender a BASF. Adoro o carnaval do Rio, e é das poucas produções culturais brasileiras hoje em dia em que AINDA há alguma qualidade. Porém, se antes eram financiadas pelo tráfico e jogo do bicho, hoje são as multi, donas do $$, que pegaram uma expressão cultural popular e se apropriaram dela, quase a privatização do carnaval do Rio. E se não tivesse ocorrido pressão popular, hoje o carnaval de rua do Rio estaria sujeito a “abadás”, áreas VIP, etc. Ainda assim, embora seja simplesmente uma festa popular, de inicitiva, organização e execução por parte do povo, algumas empresas tentam colar sua imagem de como se fossem patrocinadoras do evento, sem ter qualquer participação.

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Álvaro Sólon de França: Piratas sociais atacam a Previdência « Viomundo – O que você não vê na mídia

31 de janeiro de 2013 às 14h01

[…] Movimento protesta contra a Basf, financiadora da Vila Isabel […]

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Ronaldo Curitiba

31 de janeiro de 2013 às 13h27

O povo é inocente porque é mal informado.

O Coletivo citado neste artigo precisa levar o conhecimento aos interessados: os admiradores da Vila Isabel e ao povo carioca em geral.

Deixar claro para a Basf que haverá protestos, cartazes, boicote, o que for.

Aproveitem que vão detonar o agrotóxico e alertem também para o transgênico.

Responder

Roberto Locatelli

31 de janeiro de 2013 às 11h12

Lá na Alemanha os venenos produzidos pela BASF são, em sua maioria, proibidos. O que não é bom para a Alemanha é “bom” para o Brasil.

Responder

    Narr

    31 de janeiro de 2013 às 23h17

    A Basf não é alemã, a Basf é capitalista. Se a democracia alemã criou leis para proteger os cidadãos, isso não torna os alemães culpados dos nossos problemas. Tratemos de imitar deles que é razoável, ou seja, que nossos parlamentares elaborem leis semelhantes. Essa conversa-mole de que a Basf é nazista não só não é mais verdadeira (é anacrônica) como até justificaria o apoio às multinacionais norte-americanas e francesas que, afinal, são de países aliados na luta contra o fascismo… Esse negócio de patrocínio é muito complicado. O ideal é que só houvesse patrocínio estatal. A discussão é muito mais profunda, como acho que todos concordam. Assim como não sou vendido se bebo Coca-Cola nem acho que todo blog ou revista de esquerda sejam vendidos porque aceitam publicidade burguesa. Lutas de classes raramente são abertas, e então concessões são parte de acordos incessamente renovados sob novas cláusulas, conforme o balanço de vitórias e derrotas nessas lutas.


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