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Maria Luisa Mendonça: O impeachment de Dilma se transformou num teatro do absurdo
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Maria Luisa Mendonça: O impeachment de Dilma se transformou num teatro do absurdo


18/07/2016 - 21h22

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O teatro do impeachment

por Maria Luisa Mendonça

“Quando um processo que nem ao menos é justo, é conduzido por interesses inconfessáveis mas que todo mundo mais ou menos já sabe, então se cria uma espécie de capa de cinismo que encobre os processos sociais legítimos da política”.

Essa observação, da psicanalista Maria Rita Kehl, resume o contexto no qual presenciamos o impeachment da presidente Dilma Rousseff, que lembra também o livro “Ensaio sobre a cegueira” de José Saramago e sua metáfora para descrever o sofrimento daqueles que sāo capazes de enxergar quando a sociedade mergulha em um processo de autodestruição.

Desde o início estava claro que a acusação declarada contra Dilma, que seria baseada nas “pedaladas fiscais”, servia somente como uma “capa de cinismo” para barrar as investigações de corrupção e implantar uma agenda conservadora que tem sido rejeitada pela maioria da sociedade nas eleições presidenciais desde 2002. Estava claro, portanto, que se tratava de um golpe parlamentar contra uma presidente eleita e reeleita.

Atualmente ganha força entre os golpistas a estratégia de criar a impressāo de que o impeachment seria um fato consumado, nāo importa o que aconteça. Esse teatro já conta com tantas cenas patéticas que pode ser descrito como surreal — quando a representação dos fatos apresenta contornos absurdos.

Começou com a votação na Câmara dos Deputados, quando uma maioria de parlamentares que é investigada por corrupção aprovou o impeachment em nome de Deus e da família.

No Senado, novamente, a estratégia dos golpistas foi desviar a atenção daquilo que deveria ser a base de suas acusações — as tais “pedaladas”.

Assim, garantem que grande parte da sociedade nem mesmo entenda a acusação contra Dilma.

Basicamente, o que se caracterizou como “pedalada fiscal” representa um tipo de mecanismo financeiro utilizado não somente no Brasil, mas faz parte da estratégia de financiamento das estruturas do Estado em todos os países, que emitem dívida para cobrir o orçamento público.

No caso específico da acusação contra Dilma, como mostrou o Ministério Público Federal, as operações foram feitas para subsidiar empréstimos a taxas de juros menores do que aquelas estabelecidas como taxas de referência no mercado financeiro.

Esse fato seria suficiente para mostrar que o debate principal não deveria ocorrer na esfera jurídica, já que o caso analisado tem relação com opções políticas e econômicas, que devem ser avaliadas criticamente, mas não constituem base suficiente para justificar o impeachment.

Outro elemento ausente nesse processo é o entendimento sobre a chamada lei de “responsabilidade fiscal”, muitas vezes utilizada para atropelar a “responsabilidade social”, ou seja, para violar direitos básicos de bem-estar social.

Obviamente, esse tipo de manipulação não seria possível sem o apoio da mídia corporativa, que sequer pretende demonstrar minimamente alguma “imparcialidade”.

A boa notícia é que essa chamada “grande” mídia tem perdido espaço para meios alternativos, diversos, criativos e que trazem informações confiáveis.

As cenas patéticas continuaram, com a queda de três ministros de Temer e as gravações que revelaram a conspiração desses políticos contra Dilma.

Mas o grande ato tragicômico foi reservado para o ator principal, Eduardo Cunha, que permanece controlando seus marionetes nos bastidores.

Tudo isso sob a “capa” de silêncio do Supremo Tribunal Federal.

Recentemente, a constatação de maior relevância para o processo de impeachment foi o pedido de arquivamento pelo Ministério Público Federal da investigação criminal contra Dilma sobre as “pedaladas fiscais”.

Porém, novamente, um fato central para o processo foi minimizado pela mídia e por políticos interessados no golpe.

A cada dia fica mais evidente que a sentença contra Dilma já estava definida antes mesmo do início desse teatro chamado impeachment.

Voltando à observação de Maria Rita Kehl, essa é a “capa de cinismo que encobre os processos sociais legítimos da política”, em outras palavras, que pode alimentar traços de fascismo no Brasil.

A construção dessa hegemonia conservadora facilita a eliminação de direitos fundamentais nas relações de trabalho, educação, saúde, com impactos negativos de longo prazo.

Não precisamos ir muito longe para compreender as conseqüências da quebra das regras fundamentais em uma democracia.

A memória do golpe de 1964 que instalou uma ditadura no Brasil por mais de duas décadas ainda deixa marcas profundas na sociedade.

Maria Luisa Mendonça é doutora em Geografia Humana pela Universidade de São Paulo (USP) e coordenadora da Rede Social de Justiça e Direitos Humanos.

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12 comentários

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Urbano

20 de julho de 2016 às 15h12

Respeitemos o ‘Teatro do Absurdo’… A coisa em si foi um amontoada de tudo quanto não presta no submundo dos crimes mais hediondos. Sejamos justos…

Responder

    Urbano

    20 de julho de 2016 às 15h45

    O problema é que no que faz vez de cérebro estava plasmado umamontoado…

Messias Franca de Macedo

20 de julho de 2016 às 12h32

Tribunal Internacional Pela Democracia no Brasil – AO VIVO
20/07/2016
O veredicto da Corte
https://www.youtube.com/watch?v=M6RMpy0owI8

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Nelson F lima

20 de julho de 2016 às 11h15

É isso aí a verdade só dói nos mentirosos e enganadores se se incomoda é porque deve porque o jornalismo não força a saída Cunha? Outro sim por criticaram veemente quando o governo falou sobre a volta do imposto que o FHC usou em seu mandato e agora apóia o interino a volta novamente o imposto? Sacrificar a aposentadoria dos trabalhadores e as aposentadoria dos políticos agente público os grandes e outros mais não são sacrificados. O que há de errado com o Brasil . Será que brasileiros começa com B de bobos

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Mailson

20 de julho de 2016 às 08h26

Revelação é do The Intercept; gerente do Datafolha admite “imprecisão” do jornal
FOLHA COMETEU FRAUDE AO MANIPULAR DADOS DO DATAFOLHA SOBRE TEMER

Folha cometeu fraude jornalística com pesquisa sobre Temer, revela site
Postado em 19 de julho de 2016 às 7:51 pm

inO jornalista Glenn Greenwald revela, no site The Intercept, que a Folha cometeu fraude jornalística ao manipular a mais recente pesquisa Datafolha sobre o governo de Michel Temer.
Segundo o jornal, 50% dos brasileiros acham que é melhor para o país se Temer terminar o mandato; que apenas 4% disseram que não querem nem Dilma nem Temer; e que somente 3% querem novas eleições.

De acordo com Greenwald, não é verdade que metade dos ouvidos respondeu que seria melhor se Temer terminasse o mandato de Dilma: eles só disseram que seria a melhor opção se a outra fosse o retorno de Dilma.

“Além disso”, diz ele, “não confere que só 3% querem novas eleições, uma vez que não foram questionados sobre isso. Ao limitar falsamente a questão a apenas duas opções, a Folha garantiu que os resultados fossem totalmente distorcidos”.

O jornalista americano Alex Cuadros observou que as pesquisas anteriores sobre Dilma e Temer incluíam uma questão sobre um novo pleito. Greenwald lembra que se as outras alternativas estivessem incluídas, é quase uma certeza que o percentual dos que desejam Temer até 2018 cairia vertiginosamente.

“É uma manchete tanto sensacionalista quanto falsa”, escreve. A gerente do Datafolha Luciana Schong afirma que as perguntas foram determinadas pela Folha. Ela reconheceu que é enganoso afirmar que 3% dos brasileiros querem novas eleições já que os entrevistados não foram questionados sobre isso.

Schong também admitiu que declarar que 50% dos brasileiros querem Temer é uma imprecisão se não for esclarecido que a questão limitou as alternativas a apenas duas.

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Serjão

19 de julho de 2016 às 17h12

Dia 31 vem aí!

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José Junior

19 de julho de 2016 às 13h21

Beijo no coração de lata dos rapazes aí!

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Maria Santos

19 de julho de 2016 às 12h59

De onde saiu esta criatura defendendo Rousseff da cassação com tanta garra. Sessões que o PT transformou em piada com tantas testemunhas falando a mesma coisa, Para atrasar bem o andamento do processo.
Ah! Da USP berço dos comunistas. Está bem esplicado, porque está defendendo esta Rousseff incompetente.
Tchau querida!!!!!!

Responder

Luiz Carlos Rosa

19 de julho de 2016 às 11h57

Fui feliz em não ter sido aluno dessa exdruxula professora
Ridículo sua posição em defesa de um desgoverno ,que até gera duvidas se se elegeu ou foi fraldado o resultado ,Pois as maracutaias feitas pelo PT foram as maiores da história do.mundo. Se tivessemos com ela no Governo estaríamos vivendo um caos.Felizmente ela não voltará nunca mais.

Responder

FrancoAtirador

19 de julho de 2016 às 10h03

.
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Apenas Mais um Ato da Mesma Peça Tragicômica
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Responder

Jeferson Gustavo

19 de julho de 2016 às 05h19

Só um alienado não sabia desse golpe por que estuda pensa livremente sem usar da liberdade de expressão pra manipular como se ver nas mídias golpista a alienação é de mais e os discurso pobre de fundamentação teórica e metodologia a- crítica a- história num dava pra analisar a conjuntura qe nos vivemos de justiça partidarizada, de mídia como manipuladora antidemocrática plimplim, de correlações de força tremenda como o texto supracitado aponta com maioria conservadora e por aí vai, isso só é a ponta do furacão que a festa quem? Lógico a classe que vive do trabalho por o governo golpista de Temer em menos de 2 mesmo já tivemos o maior retrocesso da história das políticas públicas corta isso corta aqui direitos indo pro ralo a exemplo da reforma da Previdência Social e por aí vai pra não ser um artigo só digo uma coisa parem de ver rede Golpe de tv porque ela não dar diploma em mestrado em ciências políticas não

Responder

Carlos Soares

19 de julho de 2016 às 00h22

“Basicamente, o que se caracterizou como “pedalada fiscal” representa um tipo de mecanismo financeiro utilizado não somente no Brasil, mas faz parte da estratégia de financiamento das estruturas do Estado em todos os países, que emitem dívida para cobrir o orçamento público.”

De onde essa Sra tirou isso?

Não há NADA mais errado do q essa (des)informação prestada por essa Sra!

Emissão de Dívida é feita pelo TESOURO NACIONAL, por emissão de Títulos Públicos… Isso não tem absolutamente NADA a ver com as “pedaladas fiscais”!

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