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Conceição Oliveira propõe que homens discutam violência fundadora da cultura brasileira: o estupro
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Conceição Oliveira propõe que homens discutam violência fundadora da cultura brasileira: o estupro


28/05/2016 - 14h33

Captura de Tela 2016-05-28 às 14.31.26

Homens, vocês precisam discutir a cultura do estupro

Maria Frô, em seu blog, 26 de maio de 2016, reprodução parcial

Eu tenho 52 anos.

Eu eu ainda sofro assédio na rua e nos transportes públicos.

Eu já me desvencilhei inúmeras vezes no aperto dos ônibus e metrôs de homens com pau duro roçando em minhas nádegas.

Eu sinto raiva, eu sinto ódio, eu tenho vontade de chutá-los, mas nossa primeira reação é proteger o nosso corpo violado sem nosso consentimento e, instintivamente, empurramos outros para conseguir se afastar do agressor e mudar de lugar e se livrar do abuso.

Isso é cotidiano na vida de todas as mulheres.

Não faz muito tempo, eu fui seguida e brutalmente agredida verbalmente por um homem mais jovem do que eu que me dizia em alto e bom som que iria ‘bater punheta’ com a imagem de minha bunda na mente.

Eu apertei o passo e mesmo assim ele me seguiu por mais de 500 metros na hora do almoço, num dia de chuva e rua deserta me falando os maiores absurdos.

Eu não sabia se o desgraçado estava ou não armado.

Não havia a quem gritar ou pedir socorro.

Era um dia frio e de chuva, eu estava com um vestido cujo comprimento era abaixo dos joelhos, eu estava de casaco.

Meus seios, meu corpo estavam cobertos, só parte de minhas pernas estavam descobertas.

Aos 52 anos eu senti o mesmo asco e o mesmo pavor que senti aos 4 anos, quando minha mãe com meus dois irmãos menores não conseguiu me levar com ela a uma farmácia dentro de uma rodoviária e pediu para um senhor cuidar de mim.

Minha mãe se deslocou com minha irmã, à época um bebê recém-nascido e meu irmão com 1 ano e dois meses de idade poucos metros para entrar na farmácia e comprar antitérmico para meu irmão.

Foi o suficiente, o velho começou a me tocar, chegou a colocar a mão em minha calcinha.

Meu desconforto era visível em todo o meu pequeno corpo de criança, eu tinha vontade de gritar, comecei a chorar, implorando para que a minha mãe viesse logo, sem entender o que estava acontecendo.

Uma mulher ao perceber o abuso chamou a polícia. Essa é uma das memórias mais profundas que tenho da infância.

A cultura do estupro não poupa sequer as crianças.

A cultura do estupro não tem nada a ver com a idade, com as roupas que vestimos, ela tem a ver com a impunidade, com a naturalização da violência contra a mulher, com a relação de poder estabelecida na sociedade entre os gêneros, onde o sexo feminino é visto como objeto sexual e não como ser humano dotado de direitos.

Captura de Tela 2016-05-28 às 14.26.16

Gentili em 2012 e Kataguiri em 2014: reproduzindo nossa cultura centenária

Só a cultura do estupro pode explicar Alexandre Frota teatralizar um estupro em tv aberta sob aplausos e não ter qualquer sanção para o seu ato (leia: Em rede nacional Frota confessa estupro e povo aplaude).

Só a cultura do estupro dá o direito a Alexandre Frota se sentir ofendido com a reação das mulheres após suas declarações em tv aberta e entrar na Justiça contra ativistas que repudiaram aquela excrescência e ainda ameaçá-las no Facebook (veja aqui: Após declaração sobre estupro e ameaça, Alexandre Frota denuncia à polícia ativista que o repudiou).

Só a cultura do estupro permite que a sociedade brasileira continue a admitir as declarações criminosas de Bolsonaro sobre estupro em pleno Congresso Nacional, nas redes sociais nos programas de tv, nas manifestações de rua.

Só a cultura do estupro permite que o ministro da educação do governo provisório e golpista considere que uma figura como Frota tenha contribuições a dar a educação pública brasileira.

Está na hora de os homens discutirem seriamente e agirem contra a cultura do estupro.

Não é possível que aceitemos tamanha violência e barbárie que legitima Michel Temer como primeiro ato de seu governo golpista acabar com a Secretaria das Mulheres, montar um ministério sem nenhum negro, sem nenhuma mulher e acharmos que isso é um ato legítimo.

Não é possível que consideremos que seja um caso isolado a barbárie de 30 homens estuprarem uma jovem e distribuírem fotos e vídeos de seu corpo sangrando nas redes sociais.

Não é possível.

Pitaco do Viomundo: A cultura brasileira foi assentada sobre a violência cotidiana do estupro. O que faziam os senhores de engenho com as escravizadas? Aquelas adolescentes negras podiam consentir no sexo com os escravistas? Desde então o que vemos no dia-a-dia é a reprodução do mesmo modelo cultural, com avanços aqui e ali. Mas a ideia central permanece a mesma e, de maneira lateral, se expressou na escolha do ministério interino de Michel Temer: a mulher como enfeite, como prova da vitalidade sexual masculina, um objeto desprovido de autonomia para decidir sobre seu próprio corpo. A eterna costela do homem. Solução: educação na rede pública, polícia e cana para os marmanjos, políticas sociais de empoderamento das cidadãs, 50% de mulheres em todas as esferas do poder público!

Leia também:

Secretária de Direitos Humanos de Temer caladinha sobre Frota





20 comentários

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Julio Silveira

30 de maio de 2016 às 10h34

Para mim existe a cultura do crime, que se expressa de diversas formas e matizes, o estupro, o roubo do patrimônio alheio, inclusive público, e outros, fazem parte dessa cultura que vem sendo disseminada no Brasil. Muitos pensam não haver conexão, mas elas estão muito interligadas, o amoralismo que inunda o Brasil, principalmente pelo topo, cada dia mais assumidamente canalha e hipocrita, transforma as pessoas em zumbis, em insensíveis, e isso tem sido um grande facilitador nisso tudo. Acho que de caso pensado por uma inteligência externa para enfraquecer o país e o povo. É nós aceitando mano.

Responder

Bel

29 de maio de 2016 às 19h56

Empresas poderiam copiara atitude da Chiaroscuro Studious, demitindo quem fizer apologia ao estupro: “A apologia e banalização da violência e da discriminação não cabem mais na sociedade e tampouco em nossa empresa. Por esse motivo e à luz dos recentes acontecimentos que acabam de chegar ao nosso conhecimento, decidimos encerrar o relacionamento com artistas não alinhados com valores que, para nós, são absolutamente inegociáveis”, posicionou-se o estúdio, através de nota publicada no sábado, 28 de maio.http://emais.estadao.com.br/noticias/gente,estudio-rompe-com-cartunista-brasileiro-da-dc-apos-comentarios-sobre-estupro,10000054052. Se os veículos brasileiros de comunicação demitirem quem faz apologia ao estupro…

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Bel

29 de maio de 2016 às 19h45

Estupro é estupro e não pode ser tolerado de nenhuma forma. A mídia golpista parece estar rindo e maliciosamente cita ¨contra estupro coletivo¨. Seria a favor de estupro não coletivo? São hipócritas esses que tem o poder da comunicação nas mãos e comunicam de forma tão rasteira.

Responder

FrancoAtirador

29 de maio de 2016 às 08h15

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#AmarSemTemer
https://twitter.com/hashtag/AmarSemTemer

http://imgur.com/pjDRQ82
https://youtu.be/tMCbgRHspcs

DOMINGO, 29/5
Praça do Ciclista
Avenida Paulista
10 HORAS

https://pbs.twimg.com/media/CjZf1ZcWEAAM-Gd.jpg
https://pbs.twimg.com/media/CjlbOAzXIAA8zl_.jpg
.
Quero
(Thomas Roth)
Por Elis Regina
.
Quero ver o sol
atrás do muro
Quero um refúgio
que seja seguro
Uma nuvem branca,
sem pó nem fumaça
Quero um mundo feito
sem porta, ou vidraça
Quero uma estrada
que leve à Verdade
Quero a floresta
em lugar da cidade
Uma estrela pura
de ar respirável
Quero um lago limpo
de água potável

Quero voar
de mãos dadas com você
Ganhar o espaço
em bolhas de sabão
Escorregar
pelas cachoeiras
Pintar o mundo
de arco-íris
Quero rodar
nas asas do girassol
Fazer cristais
com gotas de orvalho
Cobrir de flores
campos de aço
Beijar de leve
a face da lua
.
https://youtu.be/13yRgQJICWk
.
https://twitter.com/DeputadoFederal/status/736720316492357632
https://twitter.com/OcupeDemocracia/status/735880961095815168
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Responder

FrancoAtirador

29 de maio de 2016 às 07h22

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Quando a Cultura do Estupro
é Alimentada pela Publicidade

http://ln.is/com.br/BO66t
https://twitter.com/nad_pimentel/status/736779171515502592
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Responder

FrancoAtirador

29 de maio de 2016 às 04h41

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“O Brasil Nasceu de Centenas de Milhares
de Estupros Contra Mulheres Escravizadas.
O Brasileiro Cordial é a Negação
desta Verdade Dolorosa.”

https://twitter.com/VIOMUNDO/status/736732913438449665
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Responder

C.Pimenta

28 de maio de 2016 às 18h58

Ao receber no MEC com pompa e circunstância um apologista do estupro, o desprezível alexandre frota, o desgoverno ilegítimo e corrupto deu carta branca aos estupradores. É como se disessem “podem estuprar à vontade que o governo garante”.

E se depender do nosso pequenino stf, aí que os estupradores podem dormir à vontade pois lá também são tratados com carinho:
http://noticias.uol.com.br/opiniao/coluna/2014/09/05/gilmar-mendes-deu-a-adbelmassih-a-liberdade-que-as-vitimas-nao-tiveram.htm

O que se pode esperar de um tribunal que se mira no exemplo de seus similares de Honduras e Paraguai ao tentar dar um status de legalidade ao golpe midiático-judicial?

Responder

Luiz Fernando Nunes Rodrigues

28 de maio de 2016 às 18h03

A Bíblia é machista, diz que o homem é a cabeça e a mulher é a cauda, ou seja, patriarcado.

Responder

FrancoAtirador

28 de maio de 2016 às 16h40

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CULTURA DA BARBÁRIE DO 3º MILLENIUM

É REGRESSÃO CIVILIZACIONAL DO OCIDENTE

https://youtu.be/tTReus2UvhY
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Responder

    FrancoAtirador

    28 de maio de 2016 às 18h36

    .
    .
    Ingredientes para Implantação do Fascismo:

    1) Uma Base Cultural Histórica Milenar Assentada
    no Patriarcalismo, em uma Sociedade de Castas.
    com Estigmatização de Segmentos, Inferiorizados
    e Colocados à Margem, na Completa Ignorância.

    2) A Padronização do Comportamento, Estereotipado
    por uma Doutrina Moral Arcaica e Intransigente,
    cuja Rigidez do Conceito Hierárquico Autoritário
    proíbe a Aceitação da Diversidade e da Diferença,
    mas, ao Contrário, pretende a sua Aniquilação.

    3) A Concentração Absoluta do Poder Econômico,
    por Imposição da Ideologia da Classe Privilegiada,
    que possui o Dinheiro, a Propriedade e o Saber,
    e detém o Monopólio dos Meios de Comunicação,
    subordinando o Poder Político à Casta Superior,
    para Atendimento Exclusivo do Interesse Próprio,
    usando as Forças de Repressão para Dominação,
    Controle e Espoliação do Estado Nacional e da Nação.
    .
    “The Dream Is Over” (https://youtu.be/BQcU5w915p8)
    .
    (http://sociologas.blogspot.com.br/2010/09/karl-marx-ideologia-e-classe-dominante.html)
    (http://www.cartacapital.com.br/economia/poder-politico-e-poder-economico-nas-democracias-capitalistas)
    .
    .

Gerson Carneiro

28 de maio de 2016 às 15h37

Mais ou menos assim como você, Conceição Oliveira, não discutiu a famigerada Medida Provisória 557/2011 porque foi o Padilha que no apagar das luzes aprovou, né. Eu me lembro disso. Muitas “feministas” ficaram caladinhas.

Responder

    Viviane

    29 de maio de 2016 às 19h29

    Não entendi. O que tem um tema a ver com o outro? Ok, ambos tratam de direitos das mulheres, mas por que trazer essa discussão à tona aqui? Bem, posso estar desinformada sobre uma possível “treta de Facebook ou Twitter”. Acho que merecemos um esclarecimento do sr.

    Gerson Carneiro

    29 de maio de 2016 às 22h20

    Viviane, deixo os esclarecimentos para quem te informou sobre uma possível “treta de Facebook ou Twitter”. Abs.

    Viviane

    30 de maio de 2016 às 09h37

    Ninguém me informou, Gerson, mas eu “desenho” para você: como eu não frequento essas redes sociais, levantei a hipótese de que você e a Conceição tivessem tido uma discussão no Facebook ou Twitter e você está questionando-a por isso. Se não foi isso, desculpe-me se me expressei mal, mas você há de convir que é, no mínimo, estranho levantar esse tema num post em que se discute estupro. Ainda mais quando sabemos da cultura de silenciamento das vozes femininas quando se discutem temas dessa natureza.
    Por enquanto, estou sendo educada com você, mesmo suspeitando que posso me arrepender amargamente…

    Gerson Carneiro

    31 de maio de 2016 às 06h20

    Viviane,

    Estranho é você aparecer de repente advogando para a Conceição Oliveira, levantando suspeita, sem conhecer a causa, me intimando, e ainda em tom de ameaça.

    Vai, tire a máscara. Seja natural. Seja mal educada comigo.

    Ai meus sais…

    PS: muito obrigado pelo desenho. Você desenha muito mal.

    Paulo Cavalcanti

    01 de junho de 2016 às 10h38

    Caro Gerson, em certos debates, em especial nos temas polêmicos como esse, a proponente no caso (Maria Fro), deve antes de tudo sempre se “desarmar” de domínio da verdade absoluta. Sempre que ela posta uma matéria ou faz uma postagem ou vc concorda com ela, ou é destratado e se for o caso bloqueado. É lamentável falar de “intolerância” sendo intolerante, é o supra sumo do paradoxo. OBS : O tema é importantíssimo, a autora foi muito feliz na abordagem, merece aplausos. Abs

FrancoAtirador

28 de maio de 2016 às 15h11

.
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http://imgur.com/djlY2uJ
.
Xico Sá fez uma Reflexão Importante: https://t.co/RHwyXcW5X1
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“Por mais que você, homem sensível, diga que sente na pele,
jamais sentirá o pavor de vislumbrar no beco a ameaça
do estupro que ronda as mulheres no Brasil”
.
“Por mais que tudo isso seja um avanço,
ainda é pouco, muito pouco, pouco mesmo
para sentir o drama que apavora as mulheres
no vagão do trem, na rua escura, no parque”…
.
“Por mais que você se ponha no lugar da vítima,
nunca saberá o terror que se instala no cérebro
como um pesadelo interminável”…
.
https://twitter.com/xicosa/status/736276757389684736
.
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