Tânia Mandarino: Lacração de Flávio deu ruim; colou-o ainda mais ao pai

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Por Tânia Mandarino

Tânia Mandarino: "Neste domingo, Flávio passou a noite inteira atrás de Lula. Debochou, provocou, fez caretas, tentou roubar a cena. Não conseguiu". Ilustração: Imagem extraída da tela da Band

Por Tânia Mandarino*

Terminei de assistir ao debate da Band trocando mensagens com um amigo, e a primeira coisa que escrevi foi: está feio para o Flávio essa lacração. Não está bacana.

Passadas algumas horas, mantenho a impressão. O que se viu neste domingo foi um desequilíbrio evidente entre a agressividade de um candidato e a disposição do outro para o debate.

Era o primeiro encontro cara a cara entre Lula e Flávio Bolsonaro nesta campanha, já que nenhum dos dois foi aos debates do primeiro turno.

Com as pesquisas apontando empate técnico a uma semana da eleição, havia muita expectativa sobre como o senador se apresentaria diante do presidente. A resposta veio cedo: no tom de quem prefere o recorte para as redes sociais ao argumento.

A deixa que Lula deixou passar

Logo no início, Lula perdeu uma grande chance. Flávio trouxe para o debate o tema das “escravas sexuais”, e a resposta estava pronta, servida na bandeja. Bastava lembrar das “escravas” de Daniel Vorcaro, o banqueiro do Master, a quem o próprio Flávio está ligado.

Não é invenção de adversário. Mensagens extraídas do celular de Vorcaro pela Polícia Federal e reveladas pelo UOL mostram o banqueiro e seus operadores tratando mulheres recrutadas, entre elas refugiadas ucranianas, como “escravas”. A PF investiga exploração sexual – inclusive de menores – e tráfico de pessoas.

Quer mais insegurança para o país do que esse tipo de bandido e de facção, que mata aposentados de fome para fazer orgias e influenciar os poderosos?

Se Flávio queria falar de segurança e de exploração de mulheres, era a hora de perguntar a ele de que lado estão os seus amigos. Lula deixou passar.

O filho que queria ser outro

Flávio passou boa parte da pré-campanha tentando se descolar da imagem do pai; era o que a burguesia exigia dele. Vendeu-se como o Bolsonaro moderado, o mais palatável, aquele capaz de conversar com o centro e com quem se cansou da gritaria. No debate, não conseguiu sustentar essa construção.

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Bastou o primeiro embate direto para que o personagem cedesse ao repertório conhecido: o deboche, a provocação, a frase pensada para viralizar. A lacração pode render curtidas, mas cobra um preço. Ela mostra ao eleitor que a moderação era figurino, e que por baixo dele está o mesmo estilo que o Brasil já conhece bem.

Diz-me com quem andas

Repare em quem cada um levou ao debate. Lula chegou tranquilo, acompanhado da esposa e, claro, da sua equipe de assessoria.

Flávio não teve coragem de ir assim. Levou consigo figuras nefastas da cena jurídico-política do Brasil: Deltan Dallagnol, Sergio Moro, o deputado Nikolas Ferreira e outros que prefiro nem citar aqui.

Aquilo, por si só, já dizia muito. Mostrava que o media training de Flávio era, na verdade, o treinamento da provocação.

E a provocação veio. Enquanto Lula falava, Flávio ficava o tempo todo atrás dele, fazendo micagens, debochando, tentando tirá-lo do eixo.

Lamentavelmente, a Band só impediu Flávio de ficar atrás de Lula, como um encosto, um demônio a ser exorcizado, no final do debate, na última participação do presidente. A essa altura, o prejuízo poderia já ter se configurado. Quem conhece um pouco de tribunal do júri reconhece a técnica: desestabilizar o outro lado enquanto ele fala, para que os jurados prestem atenção no gesto e não no argumento.

Não me surpreenderia se a lição tivesse vindo de Dallagnol, ou do media trainer que atende a todos eles.

Só que debate presidencial não é júri, e o eleitor não é plateia de lacração. Ficou feio. Não ficou nada bom para o Flávio tamanha agressividade e desrespeito.

Mentiras que não resistem ao Google

As mentiras de Flávio não sobrevivem a uma rápida pesquisa no Google.

Faça o teste. Digite “Flávio miliciano”, “Flávio Ana Clara” e “Flávio Comando Vermelho”. Não por acaso, esses termos sobem nas buscas sempre que ele fala em segurança pública.

Na primeira busca, aparece Adriano da Nóbrega, apontado pelo Ministério Público como chefe da milícia de Rio das Pedras e do Escritório do Crime. Como deputado estadual, Flávio o homenageou com uma moção de louvor e, depois, com a Medalha Tiradentes, a maior honraria da Alerj. A mãe e a esposa de Adriano trabalharam no gabinete de Flávio.

Na segunda, aparece Ana Clara Gomes Machado, uma menina de 5 anos morta em 2021. Às vésperas do julgamento do policial militar acusado pela morte, Flávio, já senador, entrou na defesa dele como advogado. Cinco anos depois, o caso ainda não foi julgado.

Na terceira, aparece o entorno político de Flávio no Rio. Rodrigo Bacellar, ex-presidente da Alerj apoiado pelo grupo de Flávio para o governo do estado, foi preso sob suspeita de vazar informações de uma operação contra o Comando Vermelho.

Flávio nega qualquer envolvimento com milícias ou facções. Mas o eleitor não precisa acreditar nem nele nem em mim. Basta pesquisar.

Firmeza não é falta de respeito

Ao meu amigo, que achava que Lula tinha ido mal, respondi que ele estava sendo rigoroso demais com o presidente. Lula pode não ter brilhado em todos os momentos, mas manteve a postura de quem estava ali para debater o país, e não para humilhar o adversário.

Tenho vários amigos perto dos 80 anos que são bolsonaristas. Discuto firme com eles, discordo, rebato, não deixo passar. Mas jamais lhes falto com o respeito, nem recorro ao deboche ou à agressividade.

Divergir com dureza é parte da política. Ridicularizar quem está do outro lado é outra coisa.

É por isso que o comportamento de Flávio me incomodou tanto. Ele não demonstrou a menor ideia de que deve respeito a um homem de 80 anos, que já presidiu o país três vezes e que está ali como seu adversário legítimo. Não se trata de poupar Lula de críticas. Trata-se de reconhecer que firmeza e desrespeito não são a mesma coisa, e que um candidato à Presidência deveria saber a diferença.

Não tenho dúvida de que isso pesará contra Flávio junto aos indecisos ou sobre os 70+ que não foram votar no primeiro turno.

Os pontos altos

Mas houve momentos em que Lula brilhou muito. Um deles foi quando Flávio o acusou de ter recebido o voto de todos os presidiários. Lula respondeu de pronto: até o seu pai, se quiser, pode votar em mim.

A tirada foi ótima, mas Lula poderia ter aproveitado para esclarecer o eleitor. Preso com condenação definitiva não vota; a Constituição suspende seus direitos políticos desde 1988. É o caso do próprio Jair Bolsonaro. Só votam os presos provisórios, que ainda aguardam julgamento, em seções que a Justiça Eleitoral instala dentro dos presídios.

E são poucos. Em 2022, menos de 13 mil presos provisórios estavam aptos a votar, pouco mais de 3% dos que estavam nessa condição. Este ano, a Lei Antifacção, sancionada pelo próprio Lula, proibiu também o voto do preso provisório. O TSE decidiu que a regra só vale a partir de 2027, porque mudanças eleitorais precisam de um ano de antecedência.

Detalhe saboroso: entre os presos que votaram no primeiro turno está Daniel Vorcaro, numa seção montada na Papuda. Se Flávio quer saber em quem os presidiários votam, talvez devesse perguntar ao amigo banqueiro.

Outro momento de brilho foi quando Lula desafiou Flávio a abrirem, os dois, as respectivas contas bancárias. Foi um golpe certeiro. Quem não deve não teme, e Lula mostrou que não teme.

Flávio, por sua vez, carrega a lembrança da rachadinha e de Fabrício Queiroz, seu ex-assessor, cujas movimentações financeiras levaram o Ministério Público do Rio a denunciá-lo por peculato, lavagem de dinheiro e organização criminosa. O processo acabou anulado no STJ, não por falta de indícios, mas por questões processuais.

Sem resposta à altura, Flávio partiu para a acusação: disse que Lula não tem dinheiro na conta porque o guardaria em caixa 2, em nome do filho, o Lulinha, e insistiu no nome de Roberta Luchsinger. Não colou.

Lula não embarcou na provocação e seguiu em frente, o que foi acertado. E ainda devolveu: pediu que Flávio entregasse o celular e abrisse o seu sigilo.

Diante dos dois desafios, o eleitor pôde ver quem estava à vontade e quem não estava. Foram os pontos mais altos da noite, e foi com eles que Lula ganhou o debate.

O que fica

O eleitor indeciso, que é quem decide esta eleição, assistiu a dois candidatos com posturas muito distintas. De um lado, alguém que tentou debater. Do outro, alguém que tentou lacrar. Se Flávio queria provar que é diferente do pai, o debate da Band mostrou o contrário.

Este foi o penúltimo debate presidencial da vida de Lula.

Na sexta-feira, dois dias antes da votação, vem o da Globo. Espero que a assessoria do presidente capriche mais no preparo para enfrentar um adversário treinado por media trainers absolutamente provocativos e cercado de aliados com o histórico que o Google não deixa esquecer.

Ao que tudo indica, se a sexta-feira repetir o domingo, o desfecho já está escrito. De um lado, um homem de 80 anos com fôlego de 30, carregado por um povo que tomou as ruas e as redes. Do outro, um candidato que trocou o debate pela lacração, a ideia pela micagem, a coragem pela claque de Dallagnol, Moro e companhia.

Neste domingo, Flávio passou a noite inteira atrás de Lula. Debochou, provocou, fez caretas, tentou roubar a cena. Não conseguiu. No dia 25, o Brasil pode confirmar nas urnas o que a Band mostrou na tela. A sina de Flávio Bolsonaro é esta, e não tem media trainer que dê jeito: ficar sempre atrás de Lula.

*Tânia Mandarino é advogada. Integra o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD).

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Tânia Mandarino

Advogada; integra o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD).


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