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Pesquisador da UnB: Pazuello quer fugir do crime de charlatanismo
O professor Heleno Corrêa Filho, pesquisador colaborador da UnB, critica severamente as posturas de Bolsonaro, do presidente do CFM, Mauro Ribeiro, do ministro-general Pazuello e da secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde do Ministério da Saúde, Mayra Pinheiro
Blog da Saúde VIOMUNDO na Pandemia

Pesquisador da UnB: Pazuello quer fugir do crime de charlatanismo


19/01/2021 - 17h43

 por Conceição Lemes

Em 23 de abril de 2020, o Conselho Federal de Medicina (CFM) autorizou o uso da cloroquina e da hidroxicloroquina para tratamento da Covid-19

O anúncio foi feito pelo próprio presidente do CFM, Mauro Ribeiro, após reunir-se com o presidente Jair Bolsonaro (sem partido) e o então ministro da Saúde, Nelson Teich.

Na ocasião, Ribeiro entregou um parecer do conselho do qual foi relator sobre a administração desses medicamentos em pessoas infectadas pelo novo coronavírus.

Em 20 de maio, o Ministério da Saúde, “considerando que recentemente o Conselho Federal de Medicina autorizou”, divulgou protocolo para “tratamento medicamentoso precoce de pacientes com diagnóstico da covid-19” com cloroquina e hidroxicloroquina, no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS).

Desde então, respaldado pelo CFM, o Ministério da Saúde ampliou o emprego dos dois medicamentos e ainda introduziu outros, igualmente sem comprovação da sua eficácia no tratamento ou na prevenção da Covid-19.

Nessa segunda-feira, 18-01-2021, o ministro da Saúde, o general Eduardo Pazuello, afirmou a uma repórter:

“A senhora nunca me viu receitar, dizer, colocar para as pessoas tomarem este ou aquele remédio. Nunca. Não aceito a sua posição. Eu nunca indiquei medicamentos a ninguém, nunca autorizei o Ministério da Saúde a fazer protocolos indicando medicamentos”.

Mentira deslavada? Tergiversação? Ou o quê?

Eu entrevistei o professor Heleno Corrêa Filho, pesquisador colaborador da Universidade de Brasília (UnB) e diretor executivo do Centro Brasileiro de Estudos em Saúde (Cebes), sobre a fala do ministro do ministro-geral e o posicionamento do CFM.

Desde 23 de abril, ele tem denunciado o “kit Covid-19”, que o Ministério da Saúde chama de “tratamento precoce”. Por exemplo, aqui, aqui e aqui)

Blog da Saúde – Como classifica a fala do ministro-general, considerando que ele já defendeu publicamente o “tratamento precoce” e o Ministério da Saúde orienta nesse sentido os médicos e a população?

Heleno Corrêa – Acho que ele deseja se excluir de ter que responder por crime de responsabilidade e charlatanismo, deixando isso para sua subordinada médica que assinou a carta prescrevendo regime de tratamento com drogas usadas para tratar outras doenças e sem atuação verificada contra a Covid-19.

O ministro-general comanda, sai pela tangente e deixa o ônus para seus subordinados internos.

Do ponto de vista cível-criminal pode até funcionar, uma vez que quem deve responder pelos documentos ministeriais são os técnicos, embora ele seja a última pessoa que assina e manda a ordem de “tratamento precoce” — usado por grande parte dos mortos de Manaus.

Em última instância, quem pratica esse crime de responsabilidade por charlatanismo e desídia – deixar deliberadamente de responder às necessidades conhecidas do cargo que ocupa – é o Presidente da República, que administra hidroxicloroquina às emas, e desagrada, até elas.

Blog da Saúde – Desde 23 de abril de 2020, o senhor denuncia a autorização do CFM para o uso da cloroquina/hidroxicloroquina na Covid-19. Já na França, desde dezembro, seis médicos defensores da hidroxicloroquina, entre os quais professor Didier Raoult, do Mediterranean University Hospital Institute (IHU), estão sendo processados pelo Conselho Nacional da Ordem dos Médicos de lá. São acusados de charlatanismo. Nessa segunda-feira, 18-01, Didier, o “pai” do uso da hidroxicloroquina na Covid-19, veio a público dizer que ela é ineficaz contra o novo coronavírus. Como explica essa diferença de comportamento, já que até hoje o CFM não voltou atrás na prescrição da cloroquina/hidroxicloroquina?

Heleno Corrêa –– O CFM agiu politicamente ao dar apoio a uma proposta de “tratamento precoce” de caráter fantasioso quando não havia publicações científicas que fundamentassem o “redirecionamento” para Covid-19 de drogas usadas para outras doenças.

Atualmente, portanto, nove meses depois, já existe grande quantidade de ensaios clínicos, negando efeitos benéficos dessas drogas redirecionadas.

Mesmo alguns poucos ensaios não aleatórios ou não randomizados que dão suporte ao uso “pré-sintomático”, apareceram seis meses após o apoio taxativo do CFM ao “kit Covid-19”, cujo criador morreu pela doença tomando todas.

Se fosse pela quantidade e qualidade das pesquisas, o CFM teria corrigido sua trajetória política de apoio ao negacionismo que produziu tanto sofrimento e morte, inclusive de médicos da linha de frente do tratamento à doença.

O CFM preferiu o papel de “quem cala, consente”.

Assim como agora, está calado diante do achaque oficial de uma médica, a secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde, Mayra Pinheiro, contra os médicos que atuam na linha de frente em Manaus.

A corporação médica é cúmplice disso tudo na medida em que seus órgãos científicos, representativos e reguladores não se manifestam na defesa dos médicos que exercem a medicina do diagnóstico e tratamento com crítica científica e se negam a prescrever mezinhas.

Os médicos franceses podem ter saído da letargia, mas também demoraram mais de seis meses.

Diga-se de passagem, o estudo do médico da Riviera Francesa se destaca por dois aspectos: ser de péssima qualidade e ter escondido e excluído dos cálculos seis pessoas que morreram durante o estudo feito com grupos de trinta pessoas [Dos Santos, 2021; Gautret et al., 2021; veja referências ao final].

Blog da Saúde – Até hoje o presidente do CFM não veio a público dizer que a cloroquina não funciona. Ele está fazendo vista grossa?

Heleno Corrêa –– Não é que ele faça vista grossa. O presidente do CFM tem posições políticas, ele não defende posições científicas.

Ele desenvolve papel ativo na promoção de tratamentos não apoiados por pesquisas de maior relevo e em maior número.

Ele não se baseia em acúmulo e confronto de conhecimento científico favorável e contrário para tirar conclusões de apoio ao “tratamento precoce”, que é recomendado pelo Presidente da República e seu ministro general.

Blog da Saúde – Na semana passada, tornou-se pública a carta (veja PS, ao final) da médica Mayra Pinheiro, do Ministério da Saúde, pressionando os médicos de Manaus a adotarem o chamado tratamento precoce. Mesmo sendo Ministério da Saúde, ela teria autoridade/poder pra isso?

Heleno Corrêa — Qualquer autoridade que pressione médicos a mudarem conduta exerce ação antiética, mesmo essa pessoa sendo uma médica. Portanto, a postura dela foi antiética.

Os médicos de Manaus estão recebendo pressão de pacientes e familiares para prescrever esses remédios, pois acreditam nas ordens governamentais que leram na imprensa e ouviram no rádio e TV.

Estão prescrevendo, mesmo sabendo que não têm base científica. É apenas para evitar confrontos com pacientes enganados pela propaganda oficial.

Blog da Saúde — O senhor acha possível até um enfrentamento físico entre médicos e população por causa do “tratamento precoce”? 

Heleno Corrêa — Infelizmente, os profissionais de saúde estão colocados em situação de perigo para contentar a tática de disfarce dos gestores contra os crimes de responsabilidade, como falta de insumos básicos de tratamento, de pessoal e até do oxigênio para não morrer sem respirar pela Covid-19.

Blog da Saúde — Até agora o CFM e os CRMs estão calados sobre ”tratamento precoce”, recomendado pelo Ministério da Saúde. Seria afinidade ideológica com os “prescritores”?

Heleno Corrêa — A afinidade é ideológica e política entre os dirigentes dos conselhos de medicina e os médicos que odeiam colegas formados em países estrangeiros.

Diga-se de passagem, muitos gostariam de ter seus diplomas reconhecidos pelos governos da Inglaterra e dos EUA, em mecanismo igual ao do “Revalida” que buscam bloquear no Brasil. O que vale para eles não vale para os outros.

PS:  A médica Mayra Pinheiro ficou conhecida em 2013 ao participar de um protesto contra a chegada de médicos cubanos no Ceará. Na ocasião, eles foram vaiados, xingados e mandados de volta para a “senzala”.

No final de 2018, após a eleição de Bolsonaro, ela foi escolhida pelo então futuro ministro da Saúde, Luiz Henrique Mandetta (DEM-MS), para  ser secretária de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (STGES).  Justamente, o setor responsável pelo Programa Mais Médicos.

O cubano Juan Delgado sendo vaiado por médicos cearenses na Escola de Saúde Pública do Ceará, em 23 de agosto de 2013

Abaixo, a carta de Mayra Pinheiro aos médicos de Manaus para pressioná-los a usar o “tratamento precoce”.  Para o professor Heleno Corrêa Filho, “achaque oficial, postura antiética”

Referências

DOS SANTOS, M. R. Referring to the study: Hydroxychloroquine and azithromycin as a treatment of COVID-19: results of an open label non-randomized clinical trial. International Journal of Antimicrobial Agents, p. 106176, 2021/01/18 2021. ISSN 0924-8579. Disponível em: < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S0924857920303824 >. Acesso em: 2021/01/18.

GAUTRET, P. et al. Response to the use of hydroxychloroquine in combination with azithromycin for patients with COVID-19 is not supported by recent literature. International Journal of Antimicrobial Agents, p. 106241, 2021/01/18 2021. ISSN 0924-8579. Disponível em: < http://www.sciencedirect.com/science/article/pii/S092485792030460X >. Acesso em: 2021/01/18.





10 comentários

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Zé Maria

25 de janeiro de 2021 às 23h58

Ministro Ricardo Lewandowski, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a abertura de inquérito policial para investigar eventual conduta criminosa do ministro da Saúde, Eduardo Pazuello, em relação ao colapso da saúde pública em Manaus (AM), que registrou falta de oxigênio hospitalar no sistema de saúde.
O Inquérito (INQ) 4862, do qual Lewandowski é Relator, foi aberto em atendimento a requerimento do procurador-geral da República (PGR).

http://portal.stf.jus.br/noticias/verNoticiaDetalhe.asp?idConteudo=459207&ori=1

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Alex

25 de janeiro de 2021 às 10h56

Prezados, o que foi publicado acima é MENTIRA !! O ex-ministro da saúde, Nelson Teich, pediu DEMISSÃO justamente por NÃO concordar com o uso da Cloroquina e Hidroxicloroquina como protocolo para tratamento precoce !!! E AGORA mesmo, o CRM PROIBIU o uso desse medicamento para combate ao COVID:
https://esportes.yahoo.com/noticias/cloroquina-contra-covid-19-vai-083044185.html

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Zé Maria

23 de janeiro de 2021 às 14h03

Estudo Elaborado Sem Rigor Científico
sobre Uso da Ivermectina na COVID-19
Não é Confiável

“É tão mal feito que não dá para tirar qualquer conclusão,
o que os próprios autores reconhecem no fim do artigo”,
diz especialista.

| Reportagem: Giulia Granchi | VivaBem, em São Paulo |

Um estudo publicado na plataforma Research Square indica que
a ivermectina, remédio geralmente usado no combate de piolhos,
pode reduzir risco de morte em até 75% para pacientes infectados
pelo novo coronavírus (Sars-CoV-2).

A pesquisa, no entanto, tem problemas.

“É tão mal feito que não dá para tirar qualquer conclusão, o que os próprios autores reconhecem no fim do artigo”, aponta Marcio Sommer Bittencourt,
cardiologista no Hospital Universitário da USP e editor do periódico científico
Circulation: Cardiovascular Imaging.

Um Estudo [científico, correto] é uma meta-análise, o que significa
que primeiro é feita a coleta de forma sistemática de todos os dados
disponíveis – sem quaisquer filtros específicos.
Depois, a equipe avalia a qualidade deles para checar se é suficientemente
boa (seguindo os critérios científicos) e com dados homogêneos.

Se a resposta for positiva, junta-se todas as pesquisas e os cientistas
realizam uma análise para ver se os diferentes estudos – muitas vezes
feitos em países variados e com pessoas de perfis distintos – são
compatíveis (em questão de método de pesquisa) e se as conclusões
de cada um concordam entre si.
Se é o caso, a conclusão pode ser considerada robusta e indicar
um caminho a seguir.

“Esse novo estudo [sobre ivermectina], no entanto, não seguiu todas essas etapas, e as que foram seguidas não foram feitas de forma correta”, aponta Bittencourt.

“Em uma explicação leiga, imagine que o estudo quer saber quantas frutas as pessoas comem por dia. Só que um analisa cerejas e indica que as pessoas comem 50 unidades, e outro analisa melancias, que diz que as pessoas comem um terço. Não são dados compatíveis e por isso as pesquisas não devem ser analisadas juntas”, explica.

Outro problema é que a maioria dos artigos escolhidos para a meta-análise
não foram publicados e revisados por pares, o que garantiria a checagem
da qualidade.

“São dados que só os criadores desse estudo têm, então falta a avaliação de
outros pesquisadores que não participaram da investigação, o que faz parte do
protocolo de regras a serem seguidas”, esclarece o médico.

O que determina se um Estudo é bom?

Para que a eficácia de um medicamento seja testada, o ideal,
explica o pesquisador, é que o estudo feito seja do tipo duplo-cego
randomizado. Isso significa que os pacientes são sorteados para
grupos que vão tomar a droga ou um placebo (como um
comprimido de farinha, que não causa nada), e nem o voluntário
nem o pesquisador sabem para qual cada um foi designado,
para evitar enviesamento.

“A maioria dos estudos escolhidos não é duplo-cego nem possui grupo placebo,
então, o médico sabendo, ele pode resolver tirar alguns participantes do estudo,
caso avalie o quadro de determinada pessoa como grave”, diz Bittencourt.

Segundo o médico, já foram divulgadas antes meta-análises que em um primeiro
momento pareciam positivas, mas que não eram.
“Já foram divulgadas pesquisas com outras medicações, como hidroxicloroquina
e azitromicina. Aí, passavam por testes duplo-cego randomizado, tentando
realmente ver a eficácia na prática, e viram que os benefícios não superavam
os malefícios.”

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Dan

20 de janeiro de 2021 às 18h27

Conselho Federal de Charlatanismo. Vergonha.

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marcio gaúcho

20 de janeiro de 2021 às 13h46

´Praticamente toda a classe médica do país é bolsonarista. Faziam propaganda política aos seus clientes nos consultórios e hospitais. Foram na conversa mole do Bozo sobre a cloroquina e seus coadjuvantes. Optaram pela não ciência, pelo terraplanismo e pelo pragmatismo. Deveriam todos terem seus diplomas cassados. Médicos desse naipe não precisamos. A automedicação, hoje, é muito mais segura do que se submeter a um desses mercadores da saúde (ou seria da doença?) que se auto intitulam médicos. De cabo a rabo, de rabo a cabo, estamos todos encalacrados com as ações anti-vida dessa gente!

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Bíblia do 17

20 de janeiro de 2021 às 12h02

o ministro não é médico, portanto, nunca assinou receita prescrevendo nada. Depois, o presidente falou nesse tema como enviado de deus, portanto, disse o que lhe foi enviado e querer contestar isso é coisa de anticristão

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cezar

19 de janeiro de 2021 às 22h27

CFM virou CFC -Conselho Federal de Curandeirismo do boçalnarismo.
Pura patifaria ideológica e politiqueiro.

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João Ferreira Bastos

19 de janeiro de 2021 às 21h40

Não existe vacina para todos os profissionais da saúde no Brasil.

Todos os integrantes do CFM e correlatos que apóiam o uso de tratamento precoce devem obrigatoriamente abrir mão da vacina.
Sejam patriotas. Brasil acima de tudo e Deus acima de todos.

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Schell

19 de janeiro de 2021 às 20h54

Todos os criminosos, no presente caso, estão devidamente identificados: nome, sobrenome, endereços profissionais e o escambau.
Só basta os esmerdalhados promotores-procuradores: acharem o caminho da ética e do bom senso pra acabar com essa mortandade desenfreada e encaminharem ao judiciário, devidamente comprovado (público e notório), o pedido de punição desses estropícios contra a humanidade.

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