VIOMUNDO

Diário da Resistência

Sobre


Evaldo Stanislau e Arthur Chioro: Testar, testar, testar, mas do jeito certo e na hora certa
Blog da Saúde VIOMUNDO na Pandemia

Evaldo Stanislau e Arthur Chioro: Testar, testar, testar, mas do jeito certo e na hora certa


25/03/2021 - 11h54

Contágio 

Por Evaldo Stanislau Affonso de Araújo e Arthur Chioro*

O título deste artigo remete à fantasia do contágio cinematográfico (quem não se lembra da cena do cinema lotado em que o personagem do ator Patrick Dempsey, no filme “Epidemia”, dirigido por Wolfgang Petersen, em 1985, distribui perdigotos infectantes, que são ingeridos com pipoca pelos que estão ao seu redor?) ou do sentimento de vulnerabilidade mais cotidiano e banal que estamos experimentando com a pandemia de Covid-19.

Em comum, a sensação de que ao entrar em contato com o agente infeccioso, pronto, estaremos condenados à doença.

Na vida real, as coisas são menos empolgantes, mas não menos dramáticas.

Para que o contágio na covid-19 ocorra, devemos ter uma tríade composta pelo agente (o SARS-CoV-2), pelo vetor (a pessoa infectada) e por um hospedeiro suscetível (qualquer ser humano).

Ao agente cabe ter poder de infecção. Para tanto, a quantidade do inóculo viral é crítica e a capacidade de transpor as primeiras barreiras de nosso sistema de defesa também.

Exatamente habilidades que uma das variantes brasileiras, denominada P1, possui permitindo que, além de subverter a imunidade previamente existente, possa causar reinfecções. Não à toa, aumentou a expansão da doença.

Mas, se no cinema o personagem que serviu como vetor tossia, ardia em febre, estava pálido e visivelmente doente, na vida real mais da metade dos vetores são assintomáticos. E alguns deles são super-disseminadores, ou seja, ao invés de contaminar uma ou duas pessoas, infectam logo 15, ou mais. Não sem razão o diretor-geral da OMS, Tedros Adhanom, usou uma expressão que deveria ser um mantra: teste, teste e teste!

Existem três maneiras principais de deter a doença. Em todas o Brasil tem dado passos errantes.

A vacina é recente e ainda engatinha!

As medidas não-medicamentosas (máscara, distanciamento e higiene) enfrentam resistências de toda sorte: culturais, ideológicas e econômicas.

A terceira é a detecção dos infectantes aliada ao isolamento de seus contactantes. Essa é a medida a qual Tedros Adhanom referiu-se. E no Brasil, país em que milhões de testes apodrecem em galpões, não testamos o suficiente.

Uma consulta ao sítio worldometers, disponível em https://www.worldometers.info/coronavirus/, acesso em 08/03/21, mostra que o Brasil é um dos países que menos testa por milhões de habitantes.

Não há mapeamento dos contatos de infectados, não há detecção de assintomáticos, não há planejamento e, sobretudo, não há contenção da taxa de transmissão da pandemia.

Incomoda muito saber que temos capacidade de testagem – desde métodos mais sofisticados, como a biologia molecular, o RT-PCR e suas variantes, até os mais simples e baratos, mas não menos eficientes, chamados “point of care”, hoje absolutamente fora do cerne de nossas estratégias de contenção, como é o caso dos testes para detecção de antígenos.

Na pandemia, a OMS recomenda testagem em massa.

No Reino Unido, na Europa, nos Estados Unidos e em grandes corporações, ambientes de convívio coletivo, como escolas e universidades, e até no futebol, a testagem já é feita em casa, em centros de testagem ou nas instituições.

Com a nossa capilaridade que permite, por meio das equipes de Saúde da Família, chegar a grande parte de nossa população, prescindir desse recurso, testagem em massa (e recorrente) beira a irresponsabilidade.

Uma vez diagnosticado um caso (in loco, point of care), as equipes de Saúde da Família poderiam testar os contatos interrompendo a cadeia de transmissão.

Ou, testagens recorrentes nas áreas de cobertura das equipes detectariam infecções, potenciais transmissores e reforçariam as medidas de proteção novamente.

Isso é essencial, pois quando temos acesso aos testes moleculares a resposta é lenta e impede uma pronta contenção.

Sete a dez dias depois, tempo habitual de um resultado oriundo de um laboratório público, ou poucos dias, quando de um privado, é tempo demais.

Pacientes, seus contatos (às vezes até médicos) e patrões, quando existem, não acreditam na infecção, sobretudo quando pouco sintomática, enquanto não veem o resultado do exame.

Dessa forma, a adesão ao isolamento torna-se pífia, em que pesem diretrizes dos gestores do SUS desde março de 2020 já recomendar o isolamento a partir da suspeita clínica.

Das moradias subnormais e aglomerados urbanos às regiões mais bem resolvidas de nossas cidades, o inimigo a se detectar é o vírus SARS-CoV-2 e seus carreadores.

Todos os países que contiveram com mais sucesso e rapidez a pandemia têm em comum a testagem robusta.

No Brasil temos as farmácias ocupando um vazio e realizando milhares de testes ao dia. Mas é pouco.

Em um país em que não temos vacinação efetiva, as medidas não farmacológicas têm baixa adesão e a maioria da população não pode arcar com os custos do diagnóstico, passou da hora de testar, testar e testar. Mas do jeito certo e na hora certa.

Somente assim poderemos compreender melhor nossa pandemia e, quem sabe, moldá-la a um formato que possa ser contida, evitando todo e qualquer contágio possível.

Evaldo Stanislau Affonso de Araújo – Assistente-Doutor da Divisão de Moléstias Infecciosas e Parasitárias do HC-FMUSP, Diretor da Sociedade Paulista de Infectologia e Professor Universitário. Coordenador Médico do Comitê COVID do Grupo Ânima de Educação. Ex-consultor da OMS para Hepatites Virais.

Arthur Chioro – Médico sanitarista. Professor da Escola Paulista de Medicina (Unifesp) e membro do Laboratório de Saúde Coletiva – Lascol (Unifesp). Foi Ministro da Saúde (2014-2015)

Fotos: Cosems-SP e Prefeitura de Santos

TIPOS DE TESTE PARA A COVID-19

Por Conceição Lemes

Atualmente, há vários tipos de testes disponíveis para a covid-19. Alguns já são feitos em farmácias.

Dividem-se em dois grandes grupos, explica o infectologista Evaldo Stanislau Affonso de Araújo:

1) Os que detectam partículas do novo coronavírus, o SARS-CoV-2, causador da covid-19. Permitem saber se a pessoa tem o vírus e está transmitindo no momento em que o teste é feito.

2) Os que detectam anticorpos produzidos pelo organismo contra o vírus.

PARA SABER SE VOCÊ TEM E ESTÁ TRANSMITINDO COVID

RT-PCR – Trata-se de teste molecular que pesquisa a presença de material genético do vírus SARS-CoV-2. É considerado o padrão-ouro.

Detecta o novo coronavírus, em média, por até 17 dias após a infecção.

Eventualmente o teste pode dar resultado positivo por períodos prolongados de até 83 dias após a infecção, o que faz com que a pessoa às vezes ache que ainda está na fase de contágio.

Só que não está. Normalmente, o período de contágio é até 9 dias após o início dos sintomas.

A especificidade é de 100% e a sensibilidade maior que 90%.

Dependendo do lugar onde é feito, o seu resultado demora de horas a dias para ficar pronto.

A coleta é feita de material da nasofaringe.

Lamp – Também é um teste molecular. É uma simplificação do RT-PCR. Feito em saliva, pode dar o resultado rapidamente.

Teste de antígeno – Também detecta partículas do vírus causador da covid-19. O uso ideal é na primeira semana de sintomas.

A coleta de material é feita no nariz ou nasofaringe.

Em pessoas sintomáticas, tem sensibilidade maior que 90% e especificidade 100%.

Em pessoas assintomáticas, o uso deve ser feito com regularidade em programas de rastreio e monitoramento. O ideal é repeti-lo cada 3 dias.

Fornece resultado imediato.

PARA SABER SE JÁ TEVE COVID

Para isso, recorre-se aos testes sorológicos, que são feitos no sangue

Não se destinam a detectar o novo coronavírus propriamente dito, mas os anticorpos específicos produzidos pelo nosso organismo contra ele.

Atualmente, têm aplicabilidade restrita.

Servem para confirmar exposição de pacientes que perderam o momento adequado da coleta do RT-PCR ou do teste do antígeno ou para estudos de prevalência de anticorpos contra o covid-19 em populações.

Devem ser feitos, pelo menos, após 7 dias do início dos sintomas; idealmente, 14 dias.

Os métodos plasmáticos são os mais indicados: imunoensaio enzimático (teste Elisa) e imunoensaio quimioluminescente (teste Eclia).

Com exceção do teste RT-PCR, os demais já são realizados em farmácias.





1 comentário

Os comentários aqui postados são de responsabilidade exclusiva de seus autores e não representam a opinião do VIOMUNDO. Todos as mensagens são moderadas. Não serão aceitos comentários com ofensas, com links externos ao site, e em letras maiúsculas. Em casos de ofensas pessoais, preconceituosas, ou que incitem o ódio e a violência, denuncie. Leia o nosso termo de uso.

Zé Maria

25 de março de 2021 às 18h50

Países populosos, como China, Rússia e Índia, obtiveram e continuam obtendo sucesso na Testagem em Massa da População, com número
de mortes proporcionalmente baixo.

No caso do Brasil, o Ministério da Doença,
de forma deliberada, negligenciou a Testagem
no início da Epidemia, para ocultar o número
expressivo de Casos, no ano passado.

A esta altura, com mais de 12,227 Milhões de
Casos, entre os quais 1 Milhão e 236 Mil Ativos e quase 10 Mil em estado crítico (à beira da morte) e 301 Mil Mortos no total, a uma taxa
média de 2 Mil Óbitos Diários de – conforme dados compilados no site (https://www.worldometers.info/coronavirus/country/brazil) – testagem no Brasil é Remendo,
embora efetivamente ainda necessária.

Porém, neste momento catastrófico, o País
precisa urgentemente de Lockdown (isolamento social, mesmo, isto é, imposto
pelo Poder Público).

Responder

Deixe uma resposta

Apoie o VIOMUNDO - Crowdfunding
Blogs & Colunas
Mais conteúdo especial para leitura