Carlos Fidelis: O Brasil precisa da Fiocruz. E a Fiocruz precisa do Brasil
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Por Carlos Fidelis Ponte*, no site do Cebes
Defender a Fiocruz é defender a ciência pública, o SUS, a democracia e a soberania nacional. É defender o direito universal à saúde e a condições dignas de vida.
Há uma lembrança da pandemia que não me abandona. Estive presente na CPI que investigou aquela tragédia e ouvi um pai que havia perdido o filho afirmar que sua dor não era “mimimi”. Naquelas palavras estavam o sofrimento de uma perda irreparável e a indignação diante do desprezo pela vida. Em janeiro de 2021, faltou oxigênio nos hospitais de Manaus, enquanto famílias desesperadas tentavam salvar seus parentes. O Brasil perderia mais de 700 mil vidas para a Covid-19. O negacionismo, o despreparo e a descoordenação governamental agravaram uma tragédia que jamais poderá ser apagada da memória nacional. Aquela dor nos lembra o preço que uma sociedade paga quando a ciência é desprezada e o Estado abandona suas responsabilidades.
Naquela emergência, a Fundação Oswaldo Cruz, a nossa Fiocruz, demonstrou a importância de uma instituição pública comprometida com a vida. Seus trabalhadores produziram conhecimentos, desenvolveram diagnósticos, acompanharam a evolução da doença e contribuíram decisivamente para a produção de vacinas. Nada disso poderia ter sido improvisado durante a crise. Foi resultado de décadas de investimentos públicos, formação de equipes e desenvolvimento científico e tecnológico. O que teria acontecido sem essa capacidade? E o que poderá acontecer se permitirmos que seja enfraquecida?
Escrevo como pesquisador e sanitarista, vinculado à história da Fiocruz, da Reforma Sanitária Brasileira e do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes), entidade que atualmente presido. As posições aqui expressas são pessoais, embora estejam em sintonia com os compromissos históricos do Cebes com a democracia, o SUS e a ciência pública. Parto da convicção de que a saúde não pode ser tratada como mercadoria, nem o conhecimento científico subordinado aos interesses do mercado. Diante de projetos políticos que ameaçam direitos sociais, instituições públicas e a soberania nacional, assumo uma posição crítica, comprometida com o rigor intelectual, a pluralidade democrática e conquistas que custaram décadas de luta.
Desde Oswaldo Cruz, a Fiocruz participa dos grandes desafios nacionais. Suas expedições científicas revelaram um Brasil marcado por doenças, pobreza e abandono, demonstrando que a saúde não pode ser separada das condições de vida. Durante a ditadura militar, o Massacre de Manguinhos afastou pesquisadores e comprometeu projetos científicos, evidenciando como a repressão política pode destruir capacidades científicas e interromper trajetórias intelectuais. A história da instituição também se entrelaça à resistência democrática e à construção de um pensamento crítico que recusou reduzir a saúde à assistência médica ou ao combate às doenças. A Fiocruz e o Cebes, fundado em 1976, contribuíram, com papéis distintos, para a Reforma Sanitária Brasileira, que associou a luta pela democracia à transformação das condições de vida e à conquista da saúde como direito universal. Sérgio Arouca, ligado à construção do Cebes e posteriormente presidente da Fiocruz, foi uma das grandes expressões desse movimento, decisivo para a criação do SUS. A saúde como direito de todos e dever do Estado não nasceu da generosidade dos governantes, mas da mobilização de uma sociedade que compreendeu sua relação inseparável com democracia, trabalho, renda, educação, alimentação, moradia e saneamento.
Também em 1976, a criação de Bio-Manguinhos e Farmanguinhos fortaleceu outra dimensão dessa trajetória: a construção de capacidades nacionais de pesquisa, desenvolvimento tecnológico e produção em saúde. Vacinas, diagnósticos, medicamentos e biofármacos integram hoje um patrimônio estratégico para o SUS. A pandemia demonstrou sua importância e expôs a vulnerabilidade dos países dependentes de fornecedores estrangeiros. Diante de novas emergências sanitárias e climáticas, soberania sanitária significa dispor de conhecimentos, tecnologias e capacidade produtiva para proteger a população, sem ficar inteiramente à mercê de negociações internacionais. Esse patrimônio não se improvisa: depende de investimentos continuados, instituições sólidas e profissionais qualificados.
É por conhecer essa história que vejo com preocupação os riscos de cortes orçamentários, do retorno do negacionismo e de propostas que possam fragmentar a Fiocruz ou transferir capacidades públicas para interesses privados. Essas ameaças encontram terreno favorável na lógica neoliberal, que transforma direitos em custos, instituições públicas em oportunidades de negócio e apresenta o enfraquecimento do Estado como solução para problemas nacionais. A experiência argentina sob Javier Milei mostra os riscos dessa orientação: o ajuste radical atingiu universidades, instituições científicas e políticas sociais, enquanto a pobreza aumentou fortemente em sua fase inicial. Os cortes evidenciam como políticas de austeridade podem comprometer o patrimônio público e atingir duramente os mais vulneráveis.
No Brasil, esses riscos se agravam quando propostas de austeridade se combinam com o negacionismo, o autoritarismo e os ataques à ciência promovidos por setores da direita e da extrema direita. Preservar a integridade, a autonomia e a missão pública da Fiocruz é indispensável para enfrentar essas ameaças. Isso não significa rejeitar parcerias nacionais ou internacionais, desde que assegurem domínio tecnológico, transparência e benefícios concretos para o SUS. Cooperar não é entregar: a cooperação deve fortalecer o patrimônio público, jamais subordiná-lo aos interesses privados.
As consequências dessas escolhas chegam diretamente à população. A ciência pública está presente na vacina do posto de saúde, no diagnóstico que identifica uma doença, no medicamento necessário ao tratamento e no conhecimento que permite prevenir epidemias. Os cortes, entretanto, podem provocar danos que ultrapassam a redução imediata dos serviços: pesquisadores deixam suas instituições, equipes se desfazem, projetos são interrompidos e competências científicas e produtivas talvez nunca sejam recuperadas. Uma pesquisa abandonada pode significar uma vacina, um medicamento ou um diagnóstico que demora mais a chegar a quem precisa. Sacrificar investimentos essenciais enquanto se preservam privilégios e mecanismos de concentração de riqueza não é uma imposição técnica inevitável, mas uma escolha política sobre quem deve pagar a conta. Não há responsabilidade fiscal consistente quando se ignoram os custos humanos, científicos e econômicos dessas decisões.
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Defender a Fiocruz também significa fortalecer sua autonomia, sua liberdade de pensamento e seu protagonismo no debate nacional. Seu conhecimento precisa alcançar escolas, comunidades, movimentos sociais e espaços de decisão política, contribuindo para enfrentar a desinformação e orientar escolhas sobre o futuro do SUS. Essa atuação exige independência para criticar políticas e governantes, inclusive aqueles com os quais existam afinidades. Mas a responsabilidade de proteger a instituição não pertence apenas a seus dirigentes, pesquisadores e trabalhadores. Universidades, sindicatos, associações de moradores, movimentos sociais e outras organizações igualmente ameaçadas precisam unir forças e levar essa luta às ruas, aos locais de trabalho e aos espaços de participação democrática. Exigir financiamento estável, valorização dos trabalhadores e preservação do patrimônio científico e tecnológico nacional é uma responsabilidade coletiva que não pode ser adiada até que os danos se tornem irreversíveis.
Oswaldo Cruz nos deixou um lema que atravessa gerações: “Não esmorecer para não desmerecer”. Ao recordar aquele pai na CPI da Pandemia, afirmando que sua dor não era “mimimi”, penso nas vidas que poderiam ter sido preservadas e nas que ainda dependerão da ciência pública. A Fiocruz atravessou perseguições políticas, crises sanitárias e inúmeras adversidades sem abandonar sua missão de servir à população brasileira. Honrar essa história exige transformar a indignação diante das vidas perdidas em compromisso com as vidas que podemos proteger. A Fiocruz, o SUS, o Instituto Butantan e tantas outras conquistas e instituições públicas constituem patrimônios do povo brasileiro, cuja defesa precisa se transformar em uma causa nacional. O Brasil precisa de uma Fiocruz forte, pública, democrática e comprometida com a vida. E a Fiocruz precisa de um Brasil que se levante para defendê-la.
*Carlos Fidelis Ponte é presidente do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) e membro do Conselho Nacional de Saúde e pesquisador da Fiocruz.
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.




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