Marcelo Zero: O desesperado e imprevisível “Sr. Veto”

Tempo de leitura: 4 min

Por Marcelo Zero*

Antes mesmo de levar uma surra histórica, acachapante, nas midterms, antes mesmo de ser engolfado pelo “tsunami azul”, até mesmo em estados historicamente conservadores, como o Texas e a Geórgia, Trump já andava circulando com um boné no qual estava escrito “Veto”.

Parecia adivinhar que a grande vitória progressista de Lula prenunciava a sua derrota humilhante, a qual enfraquece, em definitivo, a hegemonia da extrema direita no continente.

No último domingo, ele afirmou ao The New York Post, que achava que se tornaria o “Sr. Veto” por uns dois meses, para então fazer um “acordo” com os Democratas.

O poder de veto, nas mãos de Trump, não pode ser desprezado. É algo difícil de ser derrubado.

De fato, a Constituição dos EUA, exige uma votação de dois terços da Câmara dos Representantes, do Senado ou de ambas em cinco situações.

São elas: (1) derrubada de vetos presidenciais, Artigo I, Seção 7, cláusula 2; (2) destituição de funcionários federais por meio de processo de impeachment com condenação, por votação de dois terços do Senado, Artigo I, Seção 3, cláusula 6; (3) ratificação de tratados, por votação de dois terços do Senado, Artigo II, Seção 2, cláusula 2; (4) expulsão de membros da Câmara dos Representantes ou do Senado, Artigo I, Seção 5, cláusula 2; e (5) proposição de emendas constitucionais, Artigo V.

No caso de um presidente “normal”, após uma derrota humilhante dessas e com a popularidade em baixa extrema, buscaria logo fazer um acordo, se alcançar um modus vivendi conciliador, para que o país pudesse ser governado sem uma crise institucional.

Entretanto, Trump não é um presidente “normal”, comprometido com a democracia.

Assim como o Bolsonaro fujão, ele tem uma única preocupação: a sua sobrevivência política e a da sua família, fortemente ameaçada pela enxurrada de investigações que os Democratas pretendem iniciar o mais rapidamente possível.

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O que o preocupa mais é a corrupção massiva da família Trump.

Segundo a ABA (American Bar Association), associação que reúne os profissionais do Direito dos EUA:

“Desde que retornou à Casa Branca em janeiro de 2025, o presidente Donald Trump deixou bem claro que seu governo oferece uma ampla gama de benefícios àqueles com recursos suficientes para pagar o preço. Mais do que qualquer presidente na história recente, Trump atende aos mais ricos e poderosos — bilionários, CEOs de grandes corporações, pessoas extremamente abastadas e influentes — contanto que estejam dispostas a pagar por esse privilégio. A menos que reformas essenciais sejam aprovadas, essa cultura política corrupta provavelmente terá um custo insidioso e de longo prazo: a perda da fé dos americanos em sua democracia.

Embora presidentes anteriores ocasionalmente tenham promovido pessoas sem qualificação, oferecido tratamento preferencial a aliados políticos e amigos pessoais e recompensado apoiadores ricos por sua generosidade, Trump levou a prática de “pagar para jogar” a um nível completamente novo. Conforme documentado pelo Campaign Legal Center (CLC) em ” Transações Corruptas de Trump: Como o 47º Presidente Trocou Descaradamente Benefícios Oficiais por Ganhos Pessoais e Políticos “, o governo Trump permitiu, em mais de três dezenas de ocasiões, que doações políticas ou acordos financeiros — vários dos quais enriqueceram pessoalmente a família Trump — influenciassem importantes decisões de pessoal e políticas. Ao fazer isso, o governo atropelou restrições legais, normas profundamente estabelecidas de conduta presidencial e importantes diretrizes éticas.”

Apenas em seu primeiro ano de governo (2025), Trump amealhou entre US$ 2,2 e 2,3 bilhões em receitas pessoais, praticamente monetizando todos os aspectos da Presidência dos EUA.

Embora o segundo mandato de Trump esteja menos da metade concluído, ele já se configura como a administração mais abertamente corrupta da história dos EUA.

Isso é um grande problema. Trump não deverá assistir passivamente a essas investigações. Sabe perfeitamente que, com os antecedentes que têm, elas poderão resultar até mesmo em prisão, em prazo mais longo, para ele e membros de suas famílias.

Ademais, tais investigações, somadas à derrota humilhante, poderão fazer com que ele perca o domínio absoluto que ele ainda possui, hoje, sobre o Partido Republicano, cuja insatisfação interna cresce exponencialmente. Até mesmo seu domínio sobre o MAGA pode estar em risco, em última instância.

Nessas circunstâncias, Trump não deverá ser um “pato-manco” passivo, conciliador e comportado.

Provavelmente, vai para o ataque.

Usará seu poder de veto e outros poderes que ainda tem, como o de emitir Executive Orders ou de apelar para leis excepcionais e emergenciais, para tentar obrigar os Democratas a desistirem de suas investigações mais sensíveis. Esse é o “acordo” que ele pretende alcançar.

Acuado, Trump pode se tornar, na realidade, mais imprevisível e perigoso. Poderá tentar medidas ainda mais extremas, em seus novos limites, para tentar se recuperar e se contrapor aos Democratas no Congresso.

O problema maior, para essa possível estratégia de sobrevivência de Trump, é que sua popularidade não para de cair. Seu governo é um grande fracasso. Externo e, sobretudo, interno.

Não tem verdadeiros aliados externos; só vassalos de ocasião. E não tem mais povo.

O problema maior não é não ter mais Congresso; é não ter mais povo.

Porque, sem povo, não há estratégia política que se sustente.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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