Bernardo Mello Franco: A noite de chuva em que os estudantes começaram a virar a eleição

Tempo de leitura: 2 min
Palco da primeira manifestação pró-Lula no 2º turno, UFF tem ato de vitória em Niterói Foto: Alexandre Cassiano

Alunos de Direito da UFF iniciaram mobilização de rua que tomou o país e ajudou a barrar a volta do bolsonarismo

Por Bernardo Mello Franco, em O GLobo

Quando os historiadores do futuro forem narrar a virada eleitoral de 2026, um capítulo terá que ser dedicado ao levante dos estudantes. Eles começaram a sair da toca em Niterói, na noite chuvosa de segunda-feira que se seguiu ao primeiro turno.

Alarmados com a votação do candidato da extrema direita, alunos da Universidade Federal Fluminense convocaram um ato público diante da Faculdade de Direito. O espaço ficou pequeno, e a turma resolveu sair em passeata rumo à Praia de Icaraí.

“Estávamos todos chocados com o resultado”, conta Valentina Cruz, diretora do Centro Acadêmico Evaristo da Veiga. “Terminamos a apuração em estado de desespero, mas não podíamos deixar esse sentimento nos paralisar”, justifica.

A chuva engrossou, mas o cortejo ganhou a adesão de estudantes de outros cursos e de moradores que desciam dos prédios para se juntar aos jovens.

“Uma das cenas mais bonitas que vi foi a de uma senhora de bengala. Ela disse, chorando, que a minha geração precisava defender a democracia”, lembra Valentina, que tem 19 anos e não é filiada a nenhum partido.

Como nem tudo são flores, bolsonaristas arremessaram ovos e papel higiênico molhado contra a garotada. Ninguém se machucou, e a marcha se estendeu até o fim da noite.

Os jovens ainda estavam na luta quando as imagens da passeata começaram a correr as redes sociais. “Quando abri o celular, o ato já tinha viralizado. Recebi uma enxurrada de mensagens e de vídeos filmados das ruas e das janelas. Até meus amigos da Bahia estavam repostando, sem saber que eu estava lá”, diz a diretora do centro acadêmico, que nasceu em Porto Seguro e se matriculou na UFF pelo Sistema de Seleção Unificada (Sisu).

No dia seguinte, novas mobilizações contra o bolsonarismo pipocaram em todo o país. Na quarta-feira, universitários e secundaristas se concentraram na Candelária, fecharam a Avenida Presidente Vargas e desceram a Rio Branco, cenário das grandes manifestações estudantis de 1968.

Apoie o VIOMUNDO

O ato não foi convocado pela campanha, mas atraiu ambulantes munidos de broches, bonés e camisetas com o nome de Lula. Era um sinal de que o Rio, antes dominado pelo bolsonarismo, ensaiava uma guinada à esquerda no segundo turno.

Nos últimos dias, o noticiário destacou a atuação do deputado André Janones, que se impôs à burocracia petista e comandou a reação nas redes. O esforço digital foi importante, mas não resolveria a parada sem a garra dos jovens que tomaram as ruas e estimularam eleitores de todas as idades a votarem contra a volta do bolsonarismo.

No ato que deu início ao movimento, os estudantes de Niterói desfraldaram uma bandeira laranja e preta com a inscrição “Direito UFF — Antifascista”.

O estandarte ficou famoso em 2018, quando chegou a ser recolhido por ordem de uma juíza eleitoral. Embora não citasse nomes, foi considerado “propaganda negativa” contra o candidato que defendia a ditadura.

A ministra Cármen Lúcia derrubou a censura, em decisão referendada por unanimidade no Supremo. “Impedir ou dificultar a manifestação plural de pensamento é trancar a universidade, silenciar estudantes e amordaçar professores”, sentenciou. Era o sonho dos derrotados em 2026.

Leia também

Laura Feuerwerker: Relato de um levante popular

Jamil Chade: Mossad, EUA e jato suspeito — Flávio Bolsonaro era fantoche de interesses estrangeiros

Fernando Nogueira da Costa: Apólogo IV — O Nativo Digital e a Democracia sob Ataque

Apoie o VIOMUNDO


Siga-nos no


Comentários

Clique aqui para ler e comentar

Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *


Leia também