‘Saibam já os conservadores do Congresso que não sairemos das ruas e das redes’, afirma Souto Maior em carta a Lula
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Carta ao Lula (2026)
Por Jorge Luiz Souto Maior*
Bom, primeiro, é necessário te agradecer pela dignidade de se manter na luta, com essa energia contagiante e que não se abala com nada.
A sua vitalidade, a sua determinação e a sua trajetória precisam ser reverenciadas, até porque constituíram o exemplo para que tantas pessoas, até há bem pouco tempo, desligadas do processo político e não inteiradas dos problemas sociais do país, vislumbrassem a importância do momento e compreendessem de que lado da história deveriam ficar.
Hoje, estamos comemorando a mais importante vitória política dos muitos anos da história desse país, como você costuma dizer, e que, inclusive, situa o Brasil como o país de maior referência de poder popular do mundo.
Mas não só isso. O que foi possível ver nas ruas é que a mudança que havia sido gestada em 2013 e que, por diversas razões, se viu interrompida, novamente irrompeu.
Lula, essa virada histórica veio, por certo, como sempre, dos Estados do nordeste do país, mas é importante também registrar que o mapa da eleição registra viradas em mais de 200 cidades espalhadas por todo o país e um aumento expressivo de seus eleitores em todos os Estados da Federação e, de quase o dobro, em diversos outros países; viradas conduzidas, principalmente, pela força da juventude e das periferias (de uma população majoritariamente negra, pobre, explorada e, em muitos aspectos, ainda excluída e esquecida). Foram 10 milhões de votos a mais no segundo turno e 4 milhões de votos de distância para o candidato derrotado.
Uma vitória incontestável da rejeição ao atraso, mas, igualmente, da esperança de um país melhor.
O que se tem, de forma mais concreta, conforme explicitamente manifestado nas ruas e nas redes, é uma vitória da defesa explícita da preservação e ampliação:
- dos serviços públicos, em geral;
- da educação pública de qualidade;
- da saúde pública (do SUS);
- da Previdência Social;
- das políticas públicas de distribuição de renda (Bolsa Família etc);
- do reconhecimento dos movimentos sociais;
- da rejeição ao imperialismo e ao neoliberalismo;
- do combate a todas as formas de violências racistas, misóginas, homofóbicas e transfóbicas;
- e, centralmente, da melhoria das condições de trabalho: com eliminação da escala 6×1, mas, também,
vale lembrar, pela revogação da “reforma” trabalhista; pelo afastamento do fantasma da “pejotização”; pela garantia da aplicação dos direitos trabalhistas, na integralidade, aos(às) trabalhadores(as) por aplicativos; e pela recomposição e reforço da organização sindical pelas bases.
Em 2022, também se tinha muito dessa pauta e muitas expectativas foram frustradas. Mas não se tinha a força popular, classista e jovem que hoje se tem. Essa é, de fato, uma grande mudança!
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Serão, por certo, muitas as dificuldades no Congresso, mas o que parecia impossível já está sendo vencido, como a própria eleição demonstra. E se o número de congressistas eleitos ligados a essas reivindicações é um pouco menor, seu engajamento com elas é, por certo, maior do que havia.
Além disso, como insistiu retoricamente o bravo Janones, você tem um “exército”!
Se os conservadores têm o conchavo e a sempre requentada (antiquada, mas com ares de novidade) chantagem econômica, você tem as ruas, que, ademais, não foram induzidas por ninguém em específico, tendo se constituído por uma força coletiva nascida de movimentos espontâneos e conscientes da relevância dos direitos sociais e concretamente democráticos no atual estágio do processo histórico; e tem, também, certamente, a comprovação, tantas vezes verificada, do quanto o rebaixamento da rede de proteção social favorece a alguns poucos, em detrimento de milhões.
Mas já fiquem sabendo que das ruas e das redes não sairemos, para que tais pautas avancem efetivamente.
Afinal, a juventude que ora ascende e a classe trabalhadora não podem ficar a reboque da política burocratizada e não têm tempo a perder.
Brasil, 26/10/26.
*Jorge Luiz Souto Maior é professor da Faculdade de Direito da USP




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