Fernando Nogueira da Costa*
Na Capital, onde se situa o centro financeiro do país, viviam dois personagens famosos.
O primeiro chamava-se Valor Trabalho, mas todos o conheciam por Ganha-Pão. Em todos os dias da semana, exceto em um (escala 6X1), acordava cedo, pegava condução, enfrentava fila, relógio de ponto, reunião, chefe, cliente, prazo e, quando tinha sorte, recebia salário no fim do mês.
Seu lema era simples:
— Trabalho para ganhar o pão nosso de cada dia.
E fazia questão de explicar:
— Pão, aqui, não é metáfora. É comida, aluguel, luz, água, remédio, transporte. Primeiro, sobreviver. Depois, guardar a sobra, caso tenha.
O segundo chamava-se Valor Financeiro, mas era conhecido por Cifrão.
Cifrão não tinha relógio de ponto. Seu dinheiro trabalhava na escala 5X2, porque “ninguém é de ferro”.
— Juros compostos não tiram férias — gabava-se.
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Usava relógio com calendário e carregava uma calculadora financeira no bolso. Alimentava sempre ela com juro (i), n (tempo), PMT (depósitos mensais) para estimar o FV (valor futuro). Sua amante era a Poupança, moça prudente, tipo capital-paciente e muito apreciadora do futuro.
Ganha-Pão tinha atração por ela. Durante meses, economizou no café, levou marmita de casa e até desistiu de trocar o celular. Finalmente, criou coragem para convidá-la para um encontro.
Cifrão percebeu a aproximação e o advertiu:
— Cuidado, meu caro trabalhador. Onde se ganha o pão, não se come a carne…
Ganha-Pão franziu a testa e o questionou.
— E desde quando você virou conselheiro sentimental?
— Desde quando percebi você estar confundindo sua função de geração de renda com a minha de acumulação patrimonial.
Poupança piscou e comentou.
— Vocês dois conseguem transformar até sedução em teoria econômica…
Ganha-Pão desistiu da conquista. Daí em diante, passou a resmungar no Café Capital:
— Eu só posso comer o pão que o diabo amassou.
— Não reclame — respondia Cifrão. — Você ganha renda. Eu acumulo patrimônio.
— Fácil de falar! — protestava Ganha-Pão. — Sem mim, você nem existiria. Quem produz os bens e serviços? Quem gera o valor adicionado? Quem recebe salário? Quem cria o lucro para pagar dividendos?
— Concordo. Você trabalha no fluxo. Eu trabalho no estoque.
— Explique isso sem economês.
— Você recebe renda durante um período. Eu acumulo riqueza ao longo do tempo.
Cifrão escreveu na tela: Ganha-Pão: trabalho → renda → consumo.
Depois escreveu: Cifrão: patrimônio → rendimentos → reinvestimento → patrimônio maior.
Ganha-Pão ficou indignado.
— Então, você ganha dinheiro sem trabalhar?!
— Eu não disse isso. Disse: meu patrimônio gera renda passiva sem exigir novo trabalho direto meu.
— Ah! Rentista!
— Você não me ofende com isso. Juros, dividendos e aluguéis são rendimentos patrimoniais e ganhos de capital são obtidos quando se compra barato e se vende caro.
Ganha-Pão apontou o dedo:
— Estão vendo?! Por fora, bela viola; por dentro, pão bolorento!
Cifrão ironizou.
— A inveja é péssima conselheira financeira.
No Café Capital, muita gente comentava:
— Esse Cifrão é um pão! É muito atraente…
Ganha-Pão não suportava sofrer com tanto ciúme.
— Bonito porque ninguém vê os passivos dele!
Cifrão sentiu o golpe.
— Agora, você tocou em um ponto sensível.
Teclou novamente na tela: Patrimônio Líquido = Ativos – Passivos.
— Não basta parecer rico — explicou. — Posso ter mansões, ações de empresas, imóveis e automóveis de luxo. Se estiver “endividado até o pescoço”, minha riqueza líquida se torna pequena.
Ganha-Pão ironizou.
— Finalmente, você disse uma coisa sensata.
— Esse é justamente um dos nossos contrastes. Você mede seu sucesso principalmente pelo fluxo de renda. Eu preciso olhar o balanço patrimonial completo: o saldo dos ativos e o estoque de passivos.
— No meu balanço de lucros & perdas, eu me pergunto “quanto eu ganho?”, enquanto você se pergunta “quanto terei depois de descontar quanto devo?”
— Exatamente.
Poupança, acompanhando a conversa, resolveu intervir:
— E eu fico no meio dos dois, entre vocês, sou “a terceira incluída”.
— Como assim? — perguntaram juntos.
— Sem renda, não há capacidade de poupar. Mas poupança sem aquisição de ativos implica na renda não se transformar em patrimônio.
Cifrão assentiu.
— Muito bem. Você é a ponte entre nós!
Ganha-Pão fez cara de quem ainda não estava convencido.
— Então, você depende de mim.
— Tenho autonomia relativa, não independência absoluta.
— Lá vem você com palavras difíceis.
— Quer dizer o seguinte: durante muitos anos, meu patrimônio pode crescer mais rapidamente diante da sua renda. Uma ação de empresa aberta pode dobrar de preço sem a produção e o lucro decorrente dela dobrarem. Juros compostos, isto é, juros sobre juros, fazem o patrimônio aplicado em renda fixa crescer mesmo com o PIB avançando devagar.
— Isso parece ficção. Marx denunciou o capital fictício!
— Não é. É capitalização, precificação e expectativa sobre fluxos futuros.
— E se todo mundo quiser transformar essa fortuna em dinheiro ao mesmo tempo?
Cifrão foi consultar Minsky.
Poupança sorriu.
— Agora ele acertou seu ponto fraco.
Cifrão admitiu:
— Nem todo patrimônio marcado-a-mercado pode ser realizado simultaneamente pelo mesmo preço.
— Traduzindo?
— Se todos correrem para vender, em pânico para pagar a dívida, o preço cai.
Ganha-Pão arregalou os olhos.
— Então, sua riqueza pode desaparecer?
— Pelo menos parte dela, sim.
— Gostei dessa teoria da instabilidade financeira.
— Não comemore. Se cair demais, você também pode perder o emprego.
Ganha-Pão parou de rir.
Cifrão colocou na tela outro circuito, o da euforia: crédito → compra de ativos → valorização → mais garantias → mais crédito → mais valorização.
— Isso é a alavancagem financeira da rentabilidade patrimonial se os rendimentos operacionais cobrirem as despesas financeiras com os empréstimos tomados.
Depois acrescentou o circuito do pânico: queda dos preços → redução das garantias → venda de ativos → menos crédito → quedas de renda e emprego.
— Isso é a desalavancagem.
— E no fim?
— Pode haver um crash.
Ganha-Pão coçou a cabeça.
— Então você não é tão tranquilo quanto parece.
— Nunca disse ser.
— E eu achando só trabalhador ter sofrimento…
— Eu também como “o pão que o diabo amassou” de vez em quando. Porém, no meu caso, costuma vir acompanhado de chamada-de-margem.
Poupança explicou: o investidor deve depositar mais dinheiro ou oferecer mais garantias, na sua conta, quando uma operação alavancada, para movimentar valores superiores aos possuídos na conta (como contratos futuros ou opções), gera prejuízos e o saldo da garantia fica abaixo do mínimo necessário.
Ganha-Pão resolveu provocar:
— Você vive de expectativas incertas. Eu pelo menos sei quanto ganharei no fim do mês.
— Nem sempre — respondeu Cifrão. — Há desemprego…
Golpe baixo. Ganha-Pão ficou em silêncio temeroso.
Cifrão continuou:
— Meu valor depende do futuro. Uma ação vale hoje porque os acionistas esperam lucros amanhã. Um título vale porque alguém espera receber juros sobre juros até o vencimento. Um imóvel vale porque alguém espera aluguel ou valorização.
— Então, você vende futuro?
— Melhor: antecipo o futuro ao presente.
— E se o futuro não vier como esperado?
— Reprecificação.
— Palavra fina para prejuízo.
— Exatamente.
Poupança resolveu fazer um quadro comparativo para encerrar a discussão:
Ganha-Pão — Valor Trabalho
— Unidade principal: fluxo de renda.
— Origem: produção de bens e serviços.
— Referência temporal: trabalho realizado durante determinado período.
— Circuito: trabalho → produção → renda.
— Questão central: como gerar e distribuir valor adicionado?
— Risco básico: desemprego, queda salarial, falta de renda.
Cifrão — Valor Financeiro
— Unidade principal: estoque de patrimônio líquido.
— Origem da valorização: juros, dividendos, aluguéis, ganhos de capital, crédito para alavancagem e reavaliação de ativos.
— Referência temporal: capitalização e antecipação de fluxos futuros.
— Circuito: patrimônio → ativos → rendimentos → reinvestimento → patrimônio ampliado.
— Questão central: como acumular, preservar e utilizar riqueza ao longo do tempo?
— Riscos básicos: queda de preços, iliquidez, endividamento excessivo, desalavancagem e crash.
Ganha-Pão examinou o quadro.
— Então, somos rivais?
Poupança respondeu antes de Cifrão:
— Não. Vocês são interdependentes.
Cifrão completou:
— A produção gera renda. Parte da renda pode se transformar em patrimônio. O patrimônio garante crédito para endividamento de famílias, empresas e Estado. Esse financiamento ao antecipar o futuro pode estimular nova produção e nova renda.
Ganha-Pão pensou um pouco.
— Então, meu salário pode virar você?
— Se sobrar alguma coisa depois do “pão nosso de cada dia”.
— E você pode voltar para eu crescer?
— Quando financio mais investimento, inovação e emprego.
— Então, somos dois circuitos do mesmo sistema!
— Finalmente, você entendeu a retroalimentação.
Ganha-Pão sorriu.
— Mas ainda acho você, senão “um pão-duro”, pelo menos “um pão bolorento”.
— E eu continuo achando você muito apegado ao presente.
Poupança levantou-se.
— Já chega! O Ganha-Pão só pensa no pão nosso de cada dia de hoje. O Cifrão, só na aposentadoria de amanhã.
Os dois olharam para ela.
— E você? — perguntaram.
Poupança pegou a bolsa cheia de dinheiro.
— Eu vivo fazendo a ponte entre vocês.
Moral da estória: Sem Ganha-Pão, falta renda para sustentar a vida e formar patrimônio. Sem Cifrão, a renda poupada não se transforma em riqueza acumulada ao longo do tempo. O primeiro vive principalmente do fluxo presente; o segundo, do estoque capitalizado e suas expectativas sobre o futuro. No capitalismo contemporâneo, porém, Ganha-Pão e Cifrão pertencem à mesma padaria sistêmica: produção, distribuição e capitalização se retroalimentam — até haver exagero na receita e feedback negativo.
Obs.: no apólogo, o Cifrão não aparece como o contumaz “vilão rentista”: a diferença central é de objeto e temporalidade. A graça está justamente em ele parecer autônomo, mas descobrir no crash continuar dependente dos fluxos de renda do trabalho, capazes de validar os patrimônios. A ideia funciona porque permite transformar a oposição fluxo × estoque, trabalho × patrimônio e produção × capitalização em personagens com interesses diferentes, mas interdependentes.
A TVT é apresentada como teoria do fluxo de valor adicionado pela produção, enquanto a TVF toma como objeto o estoque de riqueza financeira líquida, isto é, o patrimônio líquido (ativos – passivos). O apólogo também contrapõe o circuito produtivo ao circuito patrimonial e destaca capitalização, alavancagem, precificação, liquidez e expectativas como motores da valorização financeira.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Baixe seus livros digitais em “Obras (Quase) Completas”: http://fernandonogueiracosta.wordpress.com/ E-mail: [email protected].
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo
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