Francisco Júnior: Mendonça conseguiu seu primeiro intento. Conseguirá o principal?

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Em 2 de dezembro de 2021, Bolsonaro recebe Mendonça e festeja aprovação do novo ministro do STF no Planalto Foto: Alan Santos/Presidência da República

Por Francisco Batista Júnior*

Nomeado por quem foi – o ex-presidente golpista presidiário – e pelas “qualidades” por ele alardeadas – terrivelmente evangélico – para o órgão máximo do judiciário brasileiro, é natural que tenha assumido o cargo sob uma desconfiança razoável de que seria mais um a colocar em xeque a credibilidade do, como ele gosta de dizer, sistema de justiça.

É lícito admitir que seus primeiros movimentos foram dotados de uma certa discrição, o que levou alguns a acharem que talvez tivessem exagerado nas dúvidas inicialmente levantadas a seu respeito.

Então a disputa eleitoral para presidente começou a ganhar corpo. Enfrentando naturalmente o desgaste de ser governo num país estruturalmente assolado pela violência, pela corrupção institucionalizada, pelos baixos salários dos trabalhadores endividados e pelo escândalo do roubo no INSS, desonestamente utilizado pela direita como obra também do governo, o filho do presidiário escalou rápido as pesquisas e empatou com Lula nas intenções de voto.

Foi quando o The Intercept Brasil divulgou áudios e mensagens do candidato da direita expondo as vísceras do escândalo oficialmente ligado à película que enaltece o golpista presidiário, preparada para ser apresentada ao país antes da eleição, em tempo hábil de favorecer sua candidatura.

Um total aproximado de R$ 134 milhões, dos quais mais de R$ 70 milhões foram efetivamente entregues pelo gangster travestido de banqueiro, uma soma sem paralelo com as grandes obras cinematográficas mundiais.

A ascensão nas pesquisas estagnou e ele começou a cair, mas não ao ponto que se esperava em função da gravidade do que se conheceu. Em qualquer país minimamente sério do mundo, tal candidatura estaria solenemente sepultada, mas não no Brasil assaltado pelo ódio, pela divisão irracional e exploração da boa-fé de parcela considerável do seu povo. O eleitorado fidelíssimo permaneceu irredutível garantindo, pelo menos no que concerne às pesquisas, competitividade ao rebento ungido pelo “grande líder” como seu preposto.

É óbvio que existem pesquisas e pesquisas, mas também não podemos amadoristicamente deixar de perceber os sinais que se manifestam das mais variadas formas.

Então aquilo que se imaginou inicialmente quando da indicação, nomeação e posse do terrivelmente evangélico começou a se confirmar. De início blindou toda a investigação que se referia ao seu candidato a presidente, impedindo dessa forma que o processo de desidratação pudesse avançar.

Depois começou a vazar para a imprensa “amiga” – o consórcio da grande mídia que historicamente tem atuado para manter o status quo político e impedir qualquer alteração por menor que seja, na correlação de forças – “denúncias” tentando relacionar de alguma forma o filho de Lula – Fábio Luís, conveniente, esperta e taticamente tratado por “Lulinha” – com o escândalo do INSS num primeiro momento e, a seguir, com movimentos de lobby junto ao governo.

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Nenhum fato, nada, absolutamente nada corroborou com as manchetes sistemáticas, diárias, bombásticas e escandalosas que de forma deliberada tentavam, e conseguiram, atingir a candidatura de Lula.

Os objetivos começaram a ser alcançados. Lula parou de crescer nas pesquisas, começando em seguida a cair lentamente, enquanto do outro lado, seu contendor principal começava a respirar e avançar.

As denúncias vazias contra o filho do presidente se esgotaram, começaram a cair no descrédito e era necessário outro ataque, e ele veio na forma de um verdadeiro míssil que além de colocar na berlinda a República, põe em risco todo o processo eleitoral.

As flagrantes ilegalidades cometidas pelo “ilustre ministro” dessa feita contra Alexandre de Moraes, Paulo Gonet e Andrei Rodrigues da Polícia Federal, foram o lance mais audacioso jamais praticado por algum ator jurídico/político na história do país, superando até mesmo a máfia colocada em prática e executada pela camarilha de Curitiba liderada por Moro e Dallagnol no caso da Lava Jato.

A coisa ficou tão escrachada e direcionada que em nenhum momento fez qualquer referência a colegas ministros com ele alinhados e que também foram citados em momentos recentes do “caso Master/Vorcaro”.

Abramos um parêntese para afirmar em alto e bom som que as denúncias envolvendo os citados atores vazados pelos agentes bolsonaristas são da mais alta gravidade, devem ser apuradas da forma mais aprofundada e, se comprovadas, punidos com todo o rigor.

O País não pode conviver com essa mistura desavergonhada e naturalizada entre o público e o privado. Esse tipo de rotina estabelecida no judiciário e no Estado brasileiro –relações promíscuas de juízes e políticos com empresários corruptos — tem que ser extirpada.

O seu segundo movimento está sendo feito nas últimas horas, “agradecendo” aos evangélicos as diversas manifestações de apoio e convocando-os para a “luta”. Esse importante segmento que estava um tanto quanto desconfiado com aquele que se apresenta como seu candidato natural, começa a fazer alguns movimentos que não sabemos bem a dimensão que tomará.

Mendonça entrou num caminho sem volta e cônscio de que não há mais como recuar, partiu para a ofensiva liberando para o plenário o julgamento do relatório que contém as mensagens de Vorcaro atribuídas a possíveis diálogos com Moraes.

Com isso vivemos um momento no mínimo insólito onde um político/candidato com gravíssimas denúncias de corrupção, inclusive no maior caso de toda a história do Brasil, o Master/Vorcaro, em que até hoje não explicou a utilização de um único centavo dos mais de R$ 70 milhões recebidos, se julga com autoridade para cobrar em praça pública com fins exclusivamente eleitoreiros, o impeachment de um ministro do STF.

A hora da vingança dos golpistas do 8 de janeiro chegou. Em um só movimento, almejam alcançar dois objetivos, liquidar o que consideram seu algoz, Alexandre de Moraes e, associando-o com Lula, derrotá-lo (a Lula) nas eleições de outubro. Para isso contam com a ajuda prestimosa da grande mídia que repete o mesmíssimo modus operandi da Lava Jato, dessa vez de forma mais elaborada.

Mendonça foi longe demais no exercício parcial e ilegal das suas atribuições e perdeu todas as condições de continuar ocupando o posto que ocupa, enquanto de forma indubitável usou seu cargo para intervir deliberadamente no processo eleitoral a favor de um dos envolvidos, o seu preferido.

Não há dúvida de que o Brasil corre seríssimo risco de ser submetido a um retrocesso maior e até pior do que o que aconteceu entre 2016 e 2022. Os progressistas devem se unificar em torno da candidatura de Lula que, mesmo distante, muito longe do ideal, ainda representa as perspectivas concretas de garantias mínimas de avanço da democracia no país.

Para isso Lula deve assumir IMEDIATAMENTE a bandeira e os compromissos com a desprivatização do Estado e as reformas política, tributária e do judiciário. Os ministros do STF precisam ser escolhidos democraticamente sem a participação de atores políticos estranhos ao processo, respeitar teto salarial, terem um só mês de férias e mandatos com tempo determinado.

O Brasil não suporta mais ser submetido, explorado e assaltados pelos que fazem da política profissão, meio de vida e de enriquecimento material para si e seus familiares; pelas corruptas emendas parlamentares; pelos super salários, super aposentadorias, super pensões e privilégios das castas.

Os brasileiros não suportam mais uma carga tributária que penaliza os mais pobres e beneficia ricos e especuladores.

Chega de democracia pela metade! Queremos e merecemos democracia plena!

*Francisco Batista Júnior é farmacêutico hospitalar do SUS no Rio Grande do Norte e ex-presidente do Conselho Nacional de Saúde (2006-2011).

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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