Lelê Teles: Dona Maricota sabe das coisas

Tempo de leitura: 3 min

“poderá alguém carregar fogo no peito sem queimar as suas vestes”, provérbios: 6:27

Por Lelê Teles*

logo pela manhã, recebi o convite de dona maricota para colher, com ela, as primeiras acerolas frescas da estação.

no quintal da vizinha, as árvores estavam carregadas, coloridas e exalando o doce odor cítrico dos frutos maduros.

eu achava que a senhorinha ia desandar a falar sobre os benefícios desse pequeno fruto tropical à nossa imunidade, devido à combinação de ácido málico com ácido ascórbico.

qual nada, maricota tava mais azeda que um limão galego. mas não era rabugem, era revolta.

“no futuro”, ela me disse, depois de cuspir um caroço, “o vade mecum – aquela bíblia do direito que os advogados carregam pra cima e pra baixo -, terá que incluir um verbete dedicado a sergio moro e andré mendonça.”

“ié, dona maricota?”, fiz uma pergunta genérica, como quem demonstra interesse, dando corda para a vizinha concluir o raciocínio.

“o verbete, meu filho, fará uma distinção entre o árbitro e o arbitrário.”

sentei-me à sombra do arbusto e agucei os ouvidos.

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“o árbitro, dirá o hermeneuta, é aquele que observa o fato de forma imparcial e julga conforme a lei; já o arbitrário é o sujeito que aplica a sua própria lei, distorcendo os fatos.”

segundo a senhorinha, mendonça usa dois pesos e duas medidas quando trata do filho do lula e do filho do bolsonaro.

olhando para um casal de araras azuis que acabara de pousar sobre o mamoeiro, ela mandou essa: “ou botam a venda na justiça, ou botam a justiça à venda”.

confesso que por mais que eu conheça a minha vizinha, eu não esperava por esse aforismo jurídico.
e a danada não parou por aí.

“hum”, ela começou com um resmungo, “esse mendonça tá tentando concluir o trabalho que os arruaceiros de bolsonaro fizeram no dia oito de janeiro, quando invadiram o palacete da suprema corte, quebraram cadeiras, vidraças, roubaram uma constituição e cagaram na copiadora de xerox.”

um tucano de asas negras e bico alaranjado pousou em outro pé de mamão e começou a abrir a fruta madura a bicadas.

maricota examinou uma acerola, colocou a fruta contra o sol e concluiu que não tava bichada.

passou um casal de marimbondos zunindo.

a velha continuou cuspindo marimbondos: “mendonça tá ali para cumprir uma missão, meu filho. não se esqueça das palavras que dona michelle firmo deixou no ar, entre pulinhos e saracoteios, no dia em que confirmaram o nome do irmão em cristo pra suprema corte”.

“e o que diabos ela disse, dona maricota?”

“decanta manassaia labaxúria…”, respondeu-me a vizinha, como se fosse versada em glossolalia.
“tá, dona maricota, mas isso quer dizer o quê?”

maricota meteu duas acerolas na boca: ”quer dizer, agora é contigo, irmão”.

as araras voaram de barriga cheia: ”ah”, gritou uma, agradecendo, “ah, ah”, disse a outra.

maricota deu tchau, como se se despedisse de duas amigas. e voltou-se para mim:

“meu filho, mendonça já chutou o balde faz tempo, lembra que ele disse que o salário de ministro não dava pra pagar dois ternos bem cortados?”

agora veja essa imagem que a velhota construiu:

“mendonça emula sansão. num ato de desespero — porque a família que ele defende está em apuros —, ele estende os braços sobre os dois pilares que sustentam o palacete e ameaça botar a casa abaixo.

matando todos.

inclusive ele”.

o tucano voou.

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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