Ângela Carrato: A entrevista de Lula aos amarra-cachorros da família Marinho

Tempo de leitura: 5 min
Reprodução de imagem das redes sociais

Por Ângela Carrato*

O presidente Luiz Inácio da Silva não foi entrevistado pelo JN.

Foi interrogado por uma espécie de tribunal de inquisição, cuja parte visível eram os amarra-cachorros da família Marinho, César Tralli e Renata Vasconcellos.

Os desrespeitos e tentativas de diminuí-lo e intimidá-lo foram permanentes.

Os dois jornalistas não o trataram com o respeito devido a um presidente da República.

A boa regra jornalística recomenda que a referência deveria ter sido como presidente, candidato à reeleição ou a um novo mandato. Tratá-lo apenas como “candidato” foi uma maneira para desconsiderar seu status de presidente.

Na apresentação de sua trajetória política esta tentativa já ficava clara, ao desconhecerem seu papel fundamental na cena global, como um dos líderes mais ouvidos e prestigiados.

Outro truque para tentar diminuí-lo foi a cadeira que lhe destinaram no estúdio onde aconteceu a entrevista. Era a mesma ocupada pelos candidatos que o precederem porém com um detalhe: o espaldar estava mais baixo do que o dos jornalistas-inquisidores.

O truque ficou visível para quem observou o enorme salto do sapato da Renata, que é baixa. Sem ele, seus pés não tocariam o chão e sua imagem ficaria achatada, como ficou a do Lula.

Considerações estéticas à parte, é absolutamente inconcebível que numa entrevista com duração de 40 minutos, os 17 iniciais tenham sido dedicados a perguntas sobre “corrupção no governo”.

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Os amarra-cachorros da família Marinho inquiriram Lula sobre acusações de corrupção do filho Fábio Luiz, do ex-chefe de gabinete, Marcola, do senador Jacques Wagner e do ex-ministro Carlos Luppi.

Nos quatro casos faltam provas e sobram convicções. Mesmo assim os inquisidores trataram denúncias baseadas em vazamentos seletivos como se fossem processos já julgados e concluídos.

Lula custou a acreditar que trechos de vazamentos de processos, sem qualquer contextualização, pudessem estar sendo citados como “provas”.

A sua resposta para os quatro casos foi a mesma: tudo deve ser apurado e todos têm o direito a se defender.

Especificamente sobre Fábio Luiz, lembrou o que disse para o próprio filho: “você tem obrigação de provar que é inocente”, acrescentando que o Palácio do Planalto não moverá uma palha para auxiliá-lo, diferentemente de outros presidentes que trocaram delegados a fim de proteger familiares.

Os dois inquisidores não se deram por satisfeitos. Questionaram o fato de Lula ter aparecido em solenidade pública pedindo votos para Jacques Wagner, candidato a um novo mandato como senador.

Lula foi categórico: “somos amigos há 45 anos e eu respeito a presunção de inocência. Não sou daqueles que fingem não ver um amigo na rua, porque ele está sendo acusado”.

Era previsível que o tema da corrupção seria explorado pelo JN, mas não da forma torpe em que foi.

Outros assuntos que compõem o kit neoliberal da extrema-direita e dos Marinhos também não faltaram: privatização dos Correios, rombo das estatais e aumento da dívida pública.

Lula descartou privatizar os Correios e desmascarou a mentira do tal rombo nas estatais. Ao recordar os absurdos cometidos pela Operação Lava Jato, ele disse que ainda aguarda um pedido de desculpas da mída, pelos injustos 580 dias em que esteve preso.

A inquisidora Renata ainda tentou rebatê-lo citando “a política editorial da empresa”, que lhe deve ter sido soprada pelo ponto no ouvido, mas percebeu que o melhor era não levar o assunto adiante.

A desfaçatez dos inquisidores era tamanha, que ainda tentaram jogar casos explícitos de corrupção descobertos e combatidos na atual administração, como o do banco Master e dos descontos de aposentados do INSS no colo de Lula.

Algo tão grotesco como acusar de corrupto alguém que denuncia a presença de ladrões em sua casa. Um absurdo total para uma emissora de TV que diz praticar jornalismo profissional e ter compromisso com os fatos.

Lula citou novamente os esquemas da TV Globo com o ex-juiz Sergio Moro, Deltan Dallagnol e com os crimes da Operação Lava Jato, para desespero da Renata e do Tralli.

Outra estocada excelente na Globo foi a respeito dos juros altos. Defensora histórica da autonomia do Banco Central, Lula lembrou este aspecto e o fato de que ele é que sempre se bateu pela redução da taxa de juros e que herdou de Jair Bolsonaro um país quebrado, com um rombo de R$ 94 bilhões, nunca mencionados pela Globo e pelos demais veículos da mídia corporativa.

Outra baixaria foi a tentativa da Globo de criar atrito entre Lula e seu atual ministro da Economia, Dario Durigan, na qual o calejado Lula obviamente não caiu.

Quanto à situação da dívida pública, que a mídia alinhada aos interesses do “andar de cima” considera catastrófica, Lula foi cirúrgico: a dívida brasileira é de 82% em relação ao PIB, enquanto a dos Estados Unidos ultrapassa 120%, sem que haja qualquer alarme na mídia de lá e na de cá.

Foi óbvia a ênfase em temas mais complexos e distantes do domínio público, para ocupar o tempo restante e evitar que Lula pudesse falar das enormes conquistas e avanços de seu terceiro governo na saúde, educação, geração de empregos e assistência social, que têm interesse direto para a população.

Lula novamente foi certeiro. Seus governos anteriores pagaram a dívida externa e puseram fim aos tormentos com o FMI, além do superávit que possibilita a estabilidade de que desfruta o Brasil no cenário internacional.

Chamou atenção, igualmente, os dois inquisidores terem fugido de abordar os enormes avanços do governo Lula no plano internacional, uma vez que ele é reconhecido como um dos maiores estadista contemporâneos.

Chamou atenção, igualmente, as pressões de Donald Trump contra o Brasil não terem sido sequer mencionadas. O nome disso é manipulação e conivência com o imperialismo estadunidense e os interesses da “casa grande” brasileira.

Para encerrar o interrogatório, não poderia ter ficado de fora o tema da segurança pública, apresentado pelos amarra-cachorros dos Marinho como responsabilidade exclusiva do governo federal.

Lula, outra vez, teve que recolocar o assunto no seu devido lugar, ao citar a PEC da Segurança Nacional Pública, que deve ser aprovada nos próximos dias, e a criação do ministério da Segurança Pública, que aguarda apenas a aprovação desta PEC.

Se a dupla de inquisidores achava que ia lacrar contra o presidente, deixando para o final a questão da fila de espera no INSS, Lula concluiu convidando a dupla para a solenidade, na próxima semana em Brasília, quando vai anunciar que seu governo zerou esta fila.

Indescritível a cara de perplexidade dos dois empregados da família Marinho, que ainda tiveram que dormir com as frases finais de Lula: aos 80 anos vivo o melhor momento da minha vida e depois de termos tirado o Brasil duas vezes do Mapa da Fome, agora é a vez de investir em ciência, tecnologia, inteligência artificial e na qualificação dos nossos jovens.

Pelas estocadas de Lula na Globo e na mídia golpista, os Marinho também devem ter ido dormir certos de que, mesmo não tendo dito, a regulação da mídia corporativa e das big techs entrarão em pauta no quarto governo Lula, que eles vem fazendo de tudo para que não ocorra.

Nenhuma inquisição é capaz de deter quem tem compromisso com o povo.

Lula entrou grande e saiu gigante, enquanto a Globo apenas reforçou o seu golpismo e condição de porta-voz da “Casa Grande” e dos interesses imperialistas.

*Ângela Carrato é jornalista, professora do Departamento de Comunicação Social da UFMG.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo

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