Por Fernando Nogueira da Costa*
Quando anunciaram o divórcio, ninguém se surpreendeu.
Havia anos aquele casamento era assunto de todas as rodas da Economia Política. Viviam brigando. Ela dizia que sustentava a credibilidade da família. Ele afirmava que sustentava a própria família.
Na audiência de separação, a Selic entrou primeiro, vestida de sobriedade técnica e acompanhada de seu advogado, o Banco Central.
— Fui vítima durante todo esse relacionamento! — declarou, enxugando uma lágrima imaginária. — Meu ex-marido vive aumentando as despesas daquele comparsa dele, o Governo Populista. Quanto maior ele fica, mais aposentados recebem em sua folha de pagamento, mais benefícios sobem e mais o governo gasta além das próprias posses. Como posso viver em paz?
O Salário Mínimo pediu a palavra.
— Excelência, essa história está pela metade.
— Pela metade?! — interrompeu a Selic. — Você remunera a maioria dos aposentados!
— Sim, porque a maioria é pobre. Isso não é crime; é estatística.
A plateia silenciou.
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— Além disso — prosseguiu ele —, vivem me tratando como se eu fosse um privilegiado. Ora, eu sou apenas a referência de um salário mediano muito baixo. Hoje valho R$ 1.621. O salário médio habitual dos trabalhadores chega a R$ 3.652, mais que o dobro de mim. Ele é puxado pelos trabalhadores com ensino superior, cuja renda média alcança R$ 7.776. Mas o salário médio do Economista, para fazer modelinhos justificativos do seu comportamento desregrado, Selic, é R$ 17.394! O seu médio de R$ 34.805 é merecidíssimo, Meritíssimo Juiz! Quem sou eu para o contrariar… Se alguém está inflando essa média, certamente não sou eu.
A Selic sorriu com ironia.
— Justamente por isso tenho de agir! É minha missão compensar esses pobres-coitados…
Fez uma pausa teatral.
— …especialmente os esforçados clientes do segmento Private Banking. Eles não podem sofrer com tamanha desigualdade patrimonial. Felizmente existe o meu fiel companheiro: o Juro Pós-Fixado.
Nesse instante, abriu-se a porta do tribunal.
Entrou o Juro Pós-Fixado, elegante, sorridente e perfeitamente indexado.
O Salário Mínimo bateu na mesa.
— Ahá! Então aí está o verdadeiro motivo do divórcio! Você me acusa de manter um caso com o Governo Populista, mas quem vive de mãos dadas com esse sujeito é você! Esse aí não é seu assessor. É seu amante!
O Juro Pós-Fixado apenas ajeitou a gravata e respondeu:
— Eu apenas acompanho a Selic para onde ela vai.
O Salário Mínimo virou-se para a ex-esposa.
— E pare de posar como se fosse uma santa inocente! Você fala como fosse resultado de um mecanismo automático do crescimento do gasto público acima do crescimento da economia. Não é. Você é decidida por um pequeno grupo de pessoas reunidas numa sala. É arbitrária, discricionária e profundamente política, embora adore vestir fantasia de algoritmo.
A Selic ficou indignada.
— Isso é uma ofensa à técnica econômica ortodoxa do mainstream!
— Não. É uma descrição institucional.
Ela respirou fundo e tentou recuperar a pose.
— Faço tudo isso para combater a inflação.
— Curioso — respondeu o Salário Mínimo. — Sempre quando alguém sugere aumentar meu valor, você entra em pânico. Mas quando sua remuneração sobe vários pontos percentuais, isso recebe o elegante nome de “ajuste técnico pelas expectativas desancoradas”…
Fez outra pausa.
— E digo mais: você ainda me discrimina. Julga-me inflacionário por natureza, como se minha simples existência ameaçasse a civilização financeira. Enquanto isso, trata os grandes patrimônios como fossem cidadãos exemplares, merecedores de toda proteção. Isso tem nome.
A Selic cruzou os braços.
— E qual seria?
— Racismo econômico. Você separa os brasileiros entre os que vivem do trabalho e os que vivem dos rendimentos financeiros, atribuindo virtudes poupadoras aos segundos e defeitos de consumistas aos primeiros.
O silêncio tomou conta do tribunal.
Ao final da audiência, o juiz suspirou.
— Este casamento realmente acabou. Mas, pelo visto, o verdadeiro problema nunca foi a convivência entre vocês.
— Então qual foi? — perguntaram ambos.
O juiz respondeu:
— O fato de cada um acreditar representar sozinho o interesse nacional.
Moral da estória: quando indicadores econômicos passam a agir como personagens morais, esquecem que são apenas instrumentos de escolhas humanas — e toda escolha envolve interesses, conflitos e distribuição de poder.
*Fernando Nogueira da Costa é professor titular do Instituto de Economia da Unicamp. Autor, entre outros livros, de Brasil dos bancos (EDUSP). [https://amzn.to/4dvKtBb]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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