Marcelo Zero: A guerra perigosa e esquecida, e uma missão brancaleone

Tempo de leitura: 4 min

Por Marcelo Zero*

Os conflitos no Irã, Líbano e em Gaza fizeram o mundo esquecer do que seja, provavelmente, o conflito mais perigoso de todos: a guerra na Ucrânia.

Com efeito, iniciado há mais de 4 anos, esse conflito não dá mostras de arrefecer, graças, em grande parte, à insistência da Europa em bombardear quaisquer tentativas de paz e em insistir no apoio militar a uma Ucrânia que não tem, na realidade, condições de suportar, por mais tempo, a guerra de desgaste e atrito em que se meteu, por mais que consiga, com apoio de europeus e estadunidenses, realizar alguns ataques, com drones, dentro do território russo.

A ideia dos belicistas europeus é obrigar a Rússia a aceitar uma paz que preserve os interesses do governo de extrema direita de Zelensky e que imponha uma derrota clara ao governo Putin, obrigando-o a devolver os oblasts já conquistados e inserindo a Ucrânia na decadente Otan, fato que, em última instância, deflagrou a operação militar russa.

Obviamente, isso não vai acontecer.

A nossa mídia está muito mal-informada sobre a real capacidade de resistência da Ucrânia, mesmo recebendo bilhões de dólares de auxílio europeu.

Em primeiro lugar, há uma questão demográfica muito séria e incontornável.

Como se vê, no gráfico abaixo, logo após a dissolução da União Soviética, a Ucrânia tinha uma população estimada de 52 milhões de habitantes.

População total da Ucrânia (em milhões)

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Mas, a partir de meados da década de 1990, a população vem decaindo a uma razão de cerca de 300 mil pessoas por ano. Isso aconteceu devido a uma alta emigração e também a uma queda pronunciada da taxa de fertilidade das mulheres ucranianas, a qual hoje é uma das menores do mundo.

Isso se agravou com a guerra.

No início do conflito, a Ucrânia possuía cerca de 42 milhões de habitantes. Hoje, devido à maciça emigração, ao aumento das taxas de mortalidade e à perda de controle de boa porção de seu território (23%), a estimativa é a de que o governo de Zelensky controle apenas 28 milhões de habitantes. Praticamente a metade do que tinha quando se tornou independente.

Numa guerra de atrito, na qual a Ucrânia já perdeu mais de 600 mil homens, essa é uma base demográfica muito pequena para sustentar um desgaste de prazo mais longo. Como todo o mundo sabe, a Ucrânia está tendo enormes dificuldades para repor seus combatentes, recorrendo a mercenários e prendendo homens na rua para obrigá-los a servir.

Também há a questão econômica desastrosa da Ucrânia.

A economia da Ucrânia permanece cerca de 20% menor do que seu nível pré-guerra. Após contrações iniciais massivas, o PIB cresceu 1,8% em 2025, mas o PIB real encolheu 0,5% no primeiro trimestre de 2026 devido aos extensos ataques russos à infraestrutura energética.

As perdas econômicas totais desde a invasão de 2022 ultrapassam US$ 1,7 trilhão.

O Banco Nacional da Ucrânia revisou para baixo sua previsão de crescimento do PIB para 2026 para 1,3%, abaixo das estimativas anteriores, devido à contínua escassez de energia.

Apenas cerca de 60% da demanda por energia da Ucrânia é atendida, inclusive na capital, Kiev.

Evidentemente, um país, nessas condições, não tem condições de crescer economicamente e, muito menos, de sustentar uma guerra de atrito, mesmo recebendo auxílio de países europeus.

Desse modo, a continuidade da guerra só agrava a situação da Ucrânia e, aos poucos, esse país vai perdendo mais território e homens, tornando sua posição negociadora mais frágil.

O pior, contudo, é que a teimosia europeia em apoiar Zelensky, na perspectiva de impor uma grande derrota a Putin, tende a expandir geopoliticamente o conflito, um conflito que tem potencial para resvalar para uma guerra ampla e nuclearizada.

O Brasil, por seu lado, seguindo a tendência majoritária do Sul Global, insiste na necessidade de as partes encontrarem rapidamente uma paz aceitável, que restaure o equilíbrio geopolítico no centro da Eurásia e estabeleça a neutralidade da Ucrânia.

Por incrível que pareça, no meio desse perigoso e delicado conflito mundial ou potencialmente mundial, a Comissão de Relações Exteriores da Câmara dos Deputados aprovou a realização de uma Missão Oficial à Ucrânia com os objetivos de:

“1) realizar encontros institucionais com o Parlamento ucraniano (Verkhovna Rada), o Ministério de Energia da Ucrânia e a agência nacional de reconstrução;
2) identificar projetos prioritários nos segmentos de geração de energia limpa, redes de distribuição elétrica, biocombustíveis e armazenamento energético, nos quais empresas brasileiras possam atuar;
3) promover iniciativas de cooperação técnica e comercial entre os dois países; e
4) avaliar mecanismos de financiamento disponíveis junto ao BNDES e a instituições financeiras multilaterais para projetos de parceria Brasil-Ucrânia”.

Portanto, um dos objetivos seria utilizar o banco de desenvolvimento do Brasil (público) para realizar investimentos na Ucrânia, em plena guerra.

Ora, é necessário frisar, em primeiro lugar, que a guerra na Ucrânia não acabou, de modo que é cedo para se pensar na reconstrução do país. A Ucrânia, na realidade, está perdendo a guerra e quaisquer “reconstruções” poderão ser destruídas, no quadro de um conflito que não terminou.

Em segundo lugar, o Brasil, embora tenha condenado a intervenção russa, adotou uma cautelosa posição de neutralidade no conflito e vem evitando tomar medidas para favorecer quaisquer das partes que fazem parte do contencioso.

O Brasil, em sentido contrário a uma Europa que parece apostar irresponsavelmente numa Terceira Guerra Mundial, busca contribuir com a busca da paz e com o rápido fim de um contencioso que, como assinalamos, pode facilmente se transformar em um grande conflito mundial nuclearizado, o que implica a manutenção de uma rigorosa atitude de cautela e neutralidade.

Obviamente, essa missão, se persistir, rompe frontalmente com as racionais e cautelosas posições da diplomacia brasileira e busca alinhar claramente o País aos interesses de Zelensky e de uma Europa belicista, o que afetaria substancialmente as posições brasileiras no BRICS e no chamado Sul Global.

Chega-se ao cúmulo de se sugerir, como vimos, que dinheiro do contribuinte brasileiro, via investimentos do BNDES, seja aplicado vultuosamente em setores da economia ucraniana.

Enfim, a realização dessa missão oficial, nas atuais circunstâncias, seria um desastre para a comedida política externa brasileira.

Nossa direita, como de hábito, desconhece totalmente a realidade do mundo e se guia por ideologias e análises ultrapassadas.

*Marcelo Zero é sociólogo e especialista em Relações Internacionais.

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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