Ruben Bauer Naveira: Surpreendidos pelo tsunami — a crise global de alimentos
Tempo de leitura: 23 min
Por Ruben Bauer Naveira*
O presente texto tem por objetivo alertar quanto à provável ocorrência de uma crise global de alimentos em futuro próximo, por conta da quebra das cadeias de suprimentos para o sistema agroalimentar decorrente da guerra contra o Irã e do consequente bloqueio do estreito de Ormuz, perspectiva esta que vem passando despercebida à grande maioria dos agentes políticos e econômicos.
O fato de acabar de ter sido assinado de um memorando de entendimento para uma retomada de negociações entre os Estados Unidos e o Irã não afasta a perspectiva dessa crise; virá, contudo, agravar ainda mais esse estado de desatenção.
Crises de oferta se resolvem pela Lei da Oferta e da Procura. Com menos oferta os preços sobem, e aí quem consegue pagar reclama mas paga e quem não consegue substitui por algum correlato mais em conta. Ou passa sem.
Mas aqui estamos falando de alimento, indispensável à vida.
Àqueles que acreditam que “o mercado se autorregula” e que assim a crise de oferta será compensada por uma alta de preços (carestia) sem que chegue a haver falta de produtos (escassez), eu digo que existe uma fronteira entre uma redução na oferta que signifique apenas comida mais cara (e empobrecimento) e um grau de redução que signifique que não haverá comida para todo mundo – mesmo que todos tenham dinheiro para comprá-la.
Pode-se consultar por exemplo este artigo o qual explica bem essa circunstância: se a Lei da Oferta e da Procura é o mecanismo de homeostase (restauração de uma situação de equilíbrio frente a perturbações) por excelência da economia global, as cadeias de suprimentos são o seu calcanhar de Aquiles.
Quebras nas cadeias de suprimentos ou eventos climáticos extremos volta e meia assolam um país ou outro, e são compensadas pelo comércio global.
Mas nunca antes houve uma situação como a de agora, em que agricultores por todos os cantos do mundo estão simultaneamente tendo que lidar com redução na oferta e aumento no custo dos seus insumos (fertilizantes, defensivos, diesel, lubrificantes, transporte).
E pode-se ter certeza que, em qualquer lugar do mundo, um agricultor é alguém mais bem-informado e mais interessado em saber sobre o “Super El Niño” do que a média da população.
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A agricultura é desde sempre uma atividade de margens apertadas e incerteza constante, em que os desincentivos têm peso. A decisão de cada produtor rural, grande ou pequeno, quanto a deixar de plantar nesta safra, ou quanto a plantar menos, é individual.
Agricultura é uma atividade pulverizada, sob muito pouca coordenação. Simplesmente não há como saber quantos produtores estão deixando de plantar. Mas, desde o dia 28 de fevereiro, são milhões, pelo mundo todo.
Mesmo com as negociações de paz sendo retomadas a partir de agora, serão ainda muitos milhões mais, por muito tempo – até que a oferta e os preços dos insumos agrícolas voltem a se estabilizar em níveis que não temos como saber quais serão, o que pode demorar ainda meses ou anos.
Um alimento que seja plantado no dia de hoje levará vários meses até que venha a ser colhido, beneficiado, eventualmente processado, transportado e distribuído, para que possa ser finalmente consumido.
Os alimentos que estamos consumindo no dia de hoje foram plantados há meses atrás, talvez há mais de ano (inclusive os de origem animal, pois animais são alimentados com ração de origem vegetal para engordar). Isso significa que o mundo está contratando uma crise que não irromperá amanhã, mas sim somente daqui a meses, possivelmente no ano que vem.
Ademais, governos contabilizam safras, ou seja, alimentos após terem sido colhidos, mas não contabilizam plantios – nem tampouco aquilo que deixou de ser plantado. Somente após as colheitas (menores) é que se darão conta da real dimensão do problema.
Já teria o mundo ultrapassado a fronteira entre carestia (somente) e escassez (com carestia também)?
Não há como saber. Cada dia a mais que se passou até aqui com Ormuz fechado agravou essa situação.
E, mesmo depois que Ormuz seja reaberto, levará ainda muitos meses até que o fluxo marítimo volte a se estabilizar – em algum ponto que ainda ficará abaixo do volume histórico. Ou seja, o problema (a crise futura) continua a se agravar, apenas a um ritmo mais lento.
Fome massiva significará conturbação social. O que se está incubando pelos desdobramentos da guerra contra o Irã avança silenciosamente para desembocar naquela que poderá vir a ser a maior crise econômica e social de todos os tempos.
A ruptura das cadeias de suprimentos
Devo de início deixar muito claro que estamos tratando não somente de uma crise global de alimentos, mas de uma crise em praticamente todas as cadeias globais de suprimentos, uma vez que os produtos derivados de petróleo estão presentes em praticamente todas elas:
– A carestia e a escassez de nafta petroquímica impactarão cadeias como a dos plásticos e inúmeras outras, como tintas, o que acabará por impactar cadeias como a automobilística;
– A carestia e escassez de querosene de aviação impactarão o turismo, o que por sua vez impactará segmentos como os de hotelaria e restaurantes;
– A carestia e escassez de combustível para navios (chamado “bunker”) impactarão o comércio marítimo no mundo todo, com reflexos imensuráveis;
– A carestia e a escassez de lubrificantes e graxas impactarão a indústria, uma vez que toda ela utiliza maquinário;
– A carestia e a escassez de enxofre, um subproduto do refino de petróleo, impactarão a produção de ácido sulfúrico, o produto químico mais utilizado no mundo, presente em uma infinidade de cadeias produtivas como por exemplo na mineração, a ser bastante afetada. Especificamente as perdas na mineração do cobre e do níquel impactarão as cadeias de tudo o que faz uso de eletricidade, como baterias, o que por sua vez virá impactar a transição energética para energias limpas pelo mundo; o ácido sulfúrico está presente ainda nos processos de tratamento de água e esgoto no saneamento urbano, no refino de petróleo e na produção de aço, têxteis, celulose, borracha, couro, químicos, farmacêuticos e cosméticos;
– A carestia e a escassez de gás hélio, um subproduto da liquefação de gás natural, impactarão a produção de microchips, o que impactará todas as cadeias de eletrônicos, bem como até mesmo a realização na medicina de exames de ressonância magnética (uma vez que os aparelhos de ressonância consomem gás hélio);
– Os países do Golfo Pérsico respondem (ou respondiam) ainda por uma parcela expressiva das exportações mundiais de alumínio;
– Tudo isso junto acabará por impactar o sistema financeiro mundial.
Essas repercussões são de tamanha monta, e tamanho alcance, que não têm como ser completamente percebidas até que se irradiem levando a efeitos como esses, e aos efeitos desses efeitos.
Já ao início da guerra contra o Irã (no dia 04 de março, apenas cinco dias após o início dos combates), Craig Tindale delineou um esquema geral para essas repercussões, mapeando uma sequência em cascata de doze transformações ao longo de um período de mais de cinco anos, a culminar em um rearranjo civilizacional geral do mundo.
Os EUA e o Irã acabam de assinar um memorando de entendimento que estipula a reabertura do estreito de Ormuz.
Ainda que a partir de agora tudo corra bem e o seguimento das negociações chegue a bom termo (o que é incerto), tais repercussões ainda assim se farão sentir (veja por exemplo este vídeo), ao contrário do que preferiria o wishful thinking predominante no assim chamado “mercado” em sua ânsia por um “retorno à normalidade”.
Para além do necessário intervalo de tempo (vários meses) entre uma recuperação gradual do fluxo marítimo e a normalização que seja possível das cadeias globais de suprimentos (porque já foi tornado impossível qualquer retorno a níveis pré-guerra; veja este vídeo do minuto 55’ ao minuto 59’45”), há diversos outros fatores:
– O que foi ajustado não foi um acordo de paz, foi tão somente um memorando de entendimento (cujos termos, muito mais favoráveis ao Irã que aos Estados Unidos, atestam o quanto os EUA passaram a temer a débâcle econômica global – veja este vídeo e também aqui), o qual estabelece as premissas de cada lado para aceitar entrar novamente em negociações. Os termos do memorando não são vinculantes, ou seja, trata-se de declarações de intenção ao invés de compromissos. As negociações propriamente ditas se iniciam a partir de agora, com uma profusão de divergências por resolver de conciliação extremamente difícil, e com qualquer novo impasse podendo levar ao rompimento das negociações e à retomada das hostilidades a qualquer momento;
– Uma reabertura de Ormuz seria ainda por um bom tempo apenas parcial, até uma conclusão completa das negociações: o Irã somente liberaria o trânsito de cargas de/para os países do chamado “Ocidente coletivo” após uma liberação de seus ativos e fundos retidos nesses países, bem como após o levantamento por esses países de todas as sanções contra o Irã; do mesmo modo, o Irã somente liberaria o trânsito de cargas de/para os países do Golfo Pérsico após uma retirada das bases militares dos Estados Unidos naqueles países;
– Houve alguma destruição física pelos bombardeios de instalações petrolíferas, pelo que uma parte da oferta estará perdida ainda por anos;
– A retomada da produção de petróleo após o fechamento forçado de poços devido ao esgotamento da capacidade de estocagem (o que afeta muito mais os países do Golfo do que o Irã, já acostumado a isso por décadas de sanções à sua exportação de petróleo) será tanto lenta quanto incompleta;
– Os empresários do ramo do comércio marítimo (armadores, seguradoras) lidam com custos elevados (valor do navio; valor da carga; tripulação por longos períodos; combustível do navio; taxas portuárias e alfandegárias e inúmeros outros custos associados), e precisarão se sentir psicologicamente seguros quanto a levar seus navios a atravessarem novamente o estreito. Como uma ilustração, já há mais de um ano haviam cessado os ataques dos Houthis à navegação comercial no estreito de Bab-el-Mandeb no Mar Vermelho, porém até hoje o volume de tráfego retornou somente a 75% dos níveis anteriores (assista a este vídeo a partir do minuto 6’15”). Por que isso? Apenas porque os Houthis continuam lá (tanto é que acabaram de fechar novamente o Bab-el-Mandeb) – assim como os iranianos também continuarão ao largo de Ormuz. Do mesmo modo, especialistas supõem (mas não têm como prever) que uma reabertura de Ormuz, hoje, levaria ao final deste ano a uma retomada de apenas cerca de 40% do tráfego anterior à guerra (veja este vídeo ao minuto 1’20” e também aqui, aqui, aqui e aqui);
– Para uma síntese de tudo isso, assista a este vídeo a partir do minuto 27’15”.
A crise global de alimentos
As cadeias de suprimentos para os alimentos (fertilizantes, defensivos, máquinas agrícolas, transporte etc.) serão impactadas tanto quanto as demais cadeias.
Os alimentos são, contudo, o nosso foco pelo seu caráter indispensável à sobrevivência humana. Quando os sacos de lixo desaparecerem das prateleiras dos supermercados (porque são feitos de plástico, feito de polímeros, feitos de nafta feita de petróleo) as pessoas passarão a ter que lavar as suas latas e latões de lixo, porém para a falta de alimento não há alternativa. Qualquer ruptura nas cadeias de produção de alimentos é uma receita certa para a conturbação social.
Previamente a este artigo, vieram a ser publicadas as traduções para o português de dez textos e reportagens sobre esta ruptura nas cadeias de produção de alimentos, assim para um adequado entendimento desta problemática recomendo como imprescindível uma leitura dessas matérias: primeira (fertilizantes; aqui no original), segunda (ácido sulfúrico; o original era um tweet que acabou removido), terceira (El Niño; no original), quarta (policrise; no original), quinta (enxofre; no original), sexta (pequenos produtores; no original), sétima (cotações; no original), oitava (crash global; no original), nona (mudança climática; no original) e décima (cui bono; no original).
De todo modo, como um resumo:
– Os países do Golfo Pérsico respondiam (antes da guerra) por cerca de 35% da produção mundial de ureia, cerca de 40% da de enxofre e cerca de 20% da de gás natural liquefeito (GNL).
A ureia é o principal insumo para os fertilizantes nitrogenados, do enxofre se faz o ácido sulfúrico que é o principal insumo para os fertilizantes fosfatados e a partir do GNL também se produz ureia; há por exemplo fábricas de ureia em Bangladesh, mas que utilizavam o GNL que vinha do Qatar e assim se encontram paralisadas. O bloqueio das exportações do Golfo Pérsico é uma quebra nas cadeias globais de fertilizantes, com impacto direto nas cadeias globais de alimentos;
– Grandes exportadores de fertilizantes, como a Rússia e a China, suspenderam suas exportações para privilegiar a sua segurança alimentar doméstica (a Índia solicitou emergencialmente o fornecimento de fertilizantes à China, porém esta negou alegando priorizar suas necessidades próprias);
– O preço dos fertilizantes no mundo já disparou;
– A China, o maior produtor e exportador mundial de ácido sulfúrico (mais de 40% da produção mundial), suspendeu as exportações, comprometendo assim por exemplo a mineração de cobre no Chile e na República Democrática do Congo, de níquel na Indonésia e de urânio no Cazaquistão. Cerca de metade do consumo de ácido sulfúrico no mundo destina-se à produção de fertilizantes fosfatados;
– Em qualquer lugar do mundo, as culturas cultivadas possuem janelas de plantio bastante estreitas, em função das estações do ano. Plantios realizados imediatamente antes da guerra não sofrerão efeitos, mas as respectivas colheitas ainda levarão meses para acontecer, o que mascarará ainda por um bom tempo os efeitos da crise (o mundo está consumindo hoje alimentos que foram plantados ou mesmo colhidos há meses atrás).
Plantios que eram para ter sido realizados depois que a guerra estourou possivelmente ocorreram também sem problemas, porém desde que os respectivos fertilizantes já tivessem sido estocados. Do contrário, aqueles agricultores necessitados de fertilizantes que transitariam pelo Canal de Suez os receberam/receberão com um retardo de cerca de vinte dias, tempo a mais necessário para que os navios contornem o Cabo da Boa Esperança.
Desta forma, mesmo que esses fertilizantes tenham sido adquiridos a um preço premium, tal atraso na entrega implicará em uma aplicação do produto fora do período ideal, reduzindo significativamente a produtividade da colheita. O pior caso é o do aumento de preços que leva ao abandono do plantio, como já está acontecendo em lugares tão distantes como os Estados Unidos (caso da soja, malgrado a China ter aberto novamente o seu mercado para a soja americana – assista a este vídeo do minuto 12’ ao minuto 15’), ou a Tailândia (caso do arroz – leia esta reportagem);
– Se, a despeito das tratativas de paz, o estreito de Ormuz ainda vier a estar bloqueado até por volta de setembro/outubro, a escassez global de enxofre esgotará os estoques nos países desprovidos de produção própria, levando a uma paralisação das suas fábricas de fertilizantes fosfatados;
– Reduzir a quantidade de fertilizantes (para uma mesma área plantada) não é uma opção. Após plantios por anos a fio, os solos já se encontram exauridos; sem a adição de NPK (nitrogênio, fósforo e potássio) eles simplesmente não rendem. Qualquer resposta a uma redução na quantidade de fertilizante será não-linear; assim, 10% a menos de fertilizante podem vir a representar 30% a menos de colheita (claro que isso varia de cultura para cultura; por exemplo, o milho é mais exigente em fertilizante do que a soja). Para os grandes produtores não há alternativa aos fertilizantes agora tanto caros quanto escassos; os pequenos buscam sofregamente encontrar alguma (ver aqui e aqui).
– Um efeito disso será a troca de culturas (por exemplo, plantadores de milho passando a plantadores de soja); isso acarretará a necessidade de mudanças nos hábitos alimentares dos consumidores;
– Para além dos fertilizantes, haverá quebra também nas cadeias de suprimentos dos defensivos agrícolas (agrotóxicos), cuja produção depende de nafta petroquímica; é da nafta pesada que se extrai reformado rico em tolueno e xileno, e é do craqueamento a vapor da nafta leve que se produz gasolina de pirólise rica em benzeno. Benzeno, tolueno e xileno (conhecidos pela sigla BTX) estão na base das fórmulas de praticamente todos os pesticidas (herbicidas, fungicidas e inseticidas) comerciais. Ademais, para uma aplicação efetiva, os princípios ativos dos defensivos necessitam ainda ser dissolvidos em solventes (chamados aromáticos pesados), os quais são também derivados do BTX. A atual produção agrícola somente pode existir sob condições de intensa defesa química porque, sem os defensivos, as plantações da agricultura moderna não possuem por si sós a necessária resistência às pragas;
– No mundo todo a agricultura é um negócio de margens estreitas e custos fixos; além da carestia e da escassez de fertilizantes e defensivos os agricultores se deparam com aumentos de custo do diesel e dos lubrificantes para seus tratores e colheitadeiras, e ainda com maiores custos de transporte e frete. Será comum (e já está sendo) que agricultores simplesmente desistam de plantar nesta safra, aguardando por dias melhores (o que pode demorar anos, até que a situação normalize), ou mesmo abandonando de vez a atividade, muito antes que os governos compreendam a dimensão do problema e se proponham a intervir: uma vez que as safras plantadas (ou não) agora somente serão(iam) colhidas daqui a vários meses, os efeitos da crise somente serão sentidos de forma mais aguda em 2027;
– Obviamente, pequenos agricultores com pouco capital padecerão mais, alimentando o surgimento de mercados negros e paralelos para fertilizantes e defensivos desviados ou falsificados;
– A criação animal sofrerá tanto quanto as plantações, uma vez que o milho e a soja são também a base alimentar da pecuária, de modo a que a perda de grãos levará a uma liquidação forçada de rebanhos de aves e suínos;
– Pelo mundo todo, os países buscarão importar alimentos, o que fará os preços explodirem – inclusive em seus mercados domésticos. Qualquer país que detenha estoques de grãos, potássio, fosfatos ou defensivos irá tratá-los como ativos estratégicos em vez de bens comercializáveis (tal como a China já fez com o ácido sulfúrico). Haverá uma tendência mundial aos controles de exportação, ao racionamento de emergência, ao açambarcamento em lugar do comércio habitual ou mesmo ao confisco puro e simples. Os brasileiros devem se recordar de um episódio havido no início da pandemia de Covid-19 em que uma compra proveniente da China de 600 respiradores para intubação de pacientes em hospitais foi confiscada nos EUA em uma escala do voo em Miami; ao final, a culpa foi atribuída à empresa chinesa vendedora, porque, é claro, uma vez que os respiradores não seguiriam mesmo para o Brasil, a alternativa dela a romper o contrato para vendê-los nos EUA seria a de perder tudo (esse episódio pode ser revisitado aqui, aqui e aqui). O que virá agora será pior: frente a necessidades críticas de segurança alimentar das populações, pode-se esperar toda espécie de açambarcamento e de confisco de insumos para a produção de fertilizantes e defensivos, de fertilizantes e defensivos acabados, e de alimentos em geral;
– Como se isso tudo não bastasse, eventos extremos decorrentes da mudança climática incidirão de forma dramática a partir do segundo semestre de 2026 e adentrando 2027, justamente quando a crise global de alimentos se fará sentir, no que pode ser chamada uma tempestade perfeita que tende a devastar colheitas e a espalhar fome por todo o mundo. Meteorologistas preveem a provável ocorrência de um “Super El Niño”, a provocar secas, enchentes e ondas de calor extremo por todo o planeta, em magnitude igual ou superior à da “grande fome” em 1877 de um século e meio atrás (também causada pelo El Niño) que matou mais de 50 milhões de pessoas pelo mundo todo. À medida que o tempo passa, as probabilidades de este vir a constituir um evento climático catastrófico vêm em um crescendo: eram essas as perspectivas em 29 de abril, em 12 de maio, em 14 de maio, em 17 de maio, em 05 de junho, em 08 de junho, em 09 de junho, em 11 de junho, em 14 de junho e em 17 de junho;
– Ambos os extremos, secas e inundações, comprometem criticamente a eficácia dos fertilizantes. Nas regiões atingidas pela seca, a água atua como diluente. Sem umidade suficiente no solo, os fertilizantes aplicados não chegam a se dissolver para serem absorvidos pelas plantas. Já nas regiões atingidas por inundações o excesso de chuvas acaba por remover o nitrogênio e o fosfato altamente solúveis do solo antes que a absorção pelas plantas venha a ocorrer;
– O El Niño, uma anomalia oceânica no Pacífico equatorial, altera fundamentalmente a ressurgência de águas profundas o que compromete os cardumes de anchoveta peruana, a espécie fundamental para a produção global de farinha e de óleo de peixe, acarretando um déficit de proteína nos mercados de ração para pecuária e aquicultura. Os subprodutos da farinha de peixe são também muito procurados como fertilizantes orgânicos premium e como condicionadores de solo. A perda simultânea dos fertilizantes sintéticos (derivados do ácido sulfúrico e da ureia) e dos substitutos orgânicos (devido ao colapso da pesca causado pelo El Niño juntamente com o aumento do preço do combustível para os barcos) representa outra tempestade perfeita desabando sobre os produtores agropecuários.
O Brasil na crise: Dez perguntas
O problema-chave será o de antever se haverá fome no Brasil. Venho aqui empregando bastante duas palavras, “carestia” e “escassez”. Com relação aos alimentos, o que ocorrerá (tanto no mundo como no Brasil) será uma combinação dessas duas coisas. Em que proporção, e em que escala, não há como prever (nada de previsibilidade), porém uma adequada aplicação de pensamento sistêmico (compreensão – veremos em sequência) poderá permitir antecipar a ocorrência de um padrão geral, balizando assim as necessárias decisões a serem tomadas.
Carestia somente significará fome para a parcela da população abaixo da linha da miséria, ou próxima a ela. Para estes o governo já dispõe de instrumentos, como o Bolsa Família, mas fica a pergunta: 1) Frente a uma forte elevação no preço dos alimentos, disporia o governo de meios para mapear as novas famílias necessitadas (para além das atuais), e efetuar rapidamente uma incorporação delas (potencialmente, milhões de pessoas) no programa?
Para os demais, carestia significará redirecionar porções maiores da renda para o custeio da alimentação com redução no restante dos gastos, desde lazer, poupança ou supérfluos, até saúde, educação ou transporte, o que poderá provocar efeitos cumulativos (por exemplo, inadimplência de aluguéis, ou elevação dos níveis de endividamento e de inadimplência bancária). Ou seja, significará empobrecimento, que significará insatisfação.
Pergunta: 2) Que medidas poderia o governo adotar? (Apenas a título de exemplo, poderia o governo vir a considerar uma proibição das apostas on-line, as chamadas “bets”?);
Quanto à escassez, certamente haverá em alguma medida, embora uma escassez moderada seja bem mais provável que uma escassez severa – ainda que não se possa, muito menos se deva, descartar esta possibilidade, afinal nada garante ainda se, nem quando, as negociações chegarão a bom termo, o estreito de Ormuz realmente reabrirá (e não será novamente fechado), e o tráfego marítimo voltará a se estabilizar em um novo patamar.
Uma escassez moderada (falta de alguns produtos) significará mudança compulsória de hábitos alimentares. A insatisfação decorrente não deve ser subestimada, pois de modo geral as pessoas são altamente resistentes à mudança em seus hábitos alimentares. Campanhas de esclarecimento e conscientização (com relação tanto à escassez quanto à carestia) terão mais e melhor efeito se puderem ser deslanchadas antes da chegada da crise.
Pergunta: 3) Dado ser este (2026) um ano eleitoral, e dado que os efeitos agudos da crise somente se farão sentir somente em 2027, adotaria o governo ainda este ano uma comunicação franca e transparente para com a população?
A eventualidade de uma escassez severa, essa sim, significará fome generalizada (não haver alimentos suficientes para todos), porque de nada adiantará dispor de renda se não há o que comprar, e aí será seguramente o caso para medidas de exceção como o estado de defesa ou o estado de sítio.
Pergunta: 4) Caso a crise atinja esse ponto, estaria o governo disposto e preparado para impor medidas drásticas, como um racionamento nas compras de alimentos ou uma proibição das exportações de alimentos pelo agronegócio?
Seguem-se mais algumas perguntas, dentre outras que igualmente poderiam ser aventadas:
O Brasil é autossuficiente em petróleo, porém não em derivados. Assim como essa condição trouxe uma falsa sensação de segurança aos Estados Unidos (falaremos sobre isso), o mesmo pode acontecer com o Brasil. Os aumentos do diesel (que o Brasil importa) foram compensados com subsídios governamentais. Carestia e escassez de outros derivados (como combustível para aviões, chamado “querosene de aviação”) podem em tese ser resolvidas pelo mercado (com as companhias aéreas reduzindo o seu número de voos, o que já está acontecendo). Uma tal atitude “acomodatícia”, ainda mais frente a uma retomada das negociações de paz, poderá vir a cobrar altos preços mais adiante.
De volta ao diesel: reza um ditado do setor que “gasolina move carros, diesel move economias”. Carestia e escassez de gasolina farão as pessoas usarem menos os seus carros e mais o transporte coletivo, mas carestia e escassez de diesel impactarão fazendas, indústrias, portos, transporte rodoviário (não só o de alimentos, mas para todo o comércio varejista) e ferroviário (não no Brasil, porém mundo afora locomotivas são movidas a diesel); veja este vídeo ao minuto 14’55”.
Pergunta: 5) Em uma crise prolongada o diesel passará a ser considerado vital por todo o mundo, com imposição de restrições às exportações; como fará o Brasil se não puder mais conseguir importar diesel nas quantidades necessárias?
Os fertilizantes e defensivos já estão, no mundo todo, bem mais caros, além de escassos. No Brasil essa situação é ainda mais grave, pois o país importa quase 90% dos fertilizantes que utiliza; com os defensivos o quadro é o mesmo. No momento em que este texto está sendo escrito, ou que estiver sendo lido, o agronegócio já está tomando decisões como deixar de plantar e aguardar por uma normalização, ou reduzir as áreas de plantio, ou alternar os seus cultivos – quaisquer que sejam as decisões, serão tomadas por uma ótica que privilegie o retorno (lucro) e não a segurança alimentar da população – ainda mais em um país em que o agronegócio é preponderantemente exportador. O pequeno agricultor, além de todas essas decisões, considera ainda uma outra: perseverar no negócio ou abandoná-lo.
Assim, dentro de mais alguns meses, haverá menos alimentos no mundo do que sempre houve.
Distinguindo, de um lado, as commodities de exportação e, de outro, os alimentos consumidos pela população, a divisão não resulta linear (o agronegócio com as commodities e a agricultura familiar com os itens para a segurança alimentar da população). Ambos têm participação expressiva (embora o agronegócio responda pela maior parte) em alguns alimentos que são tanto commodities quanto consumidos no país, como frango, suínos, bovinos, milho, trigo e arroz, o milho constituindo um caso particular pois há variedades cultivadas para consumo animal (ração), praticamente todas a cargo do agronegócio, e outras para consumo humano, estas mais por conta da agricultura familiar. Já para algumas commodities de exportação como o café e o cacau, a agricultura familiar responde por cerca de metade da produção total.
Carne bovina é também um caso à parte, uma vez que mais da metade do rebanho nacional é criada pastando solta, em vez de confinada à base de ração (a qual é dependente da produção de milho e soja). Há ainda uma parcela mista (suplementação, ou semiconfinamento). É claro que pastagens são também plantadas segundo os seus ciclos próprios, recebem também fertilizantes e estarão sujeitas também aos efeitos do El Niño, mas, na medida em que a carne bovina brasileira venha a ser menos impactada pela crise e com os mercados externos ávidos por ela (e dispostos a pagar mais), acabaria toda ela exportada ou serviria para garantir alguma segurança alimentar aos brasileiros?
O Brasil importa alimentos, em alguns casos para praticamente todo o consumo interno (como o trigo e azeite de oliva) e em outros de forma complementar, seja ao longo do ano todo (como pescados) seja em função da sazonalidade da produção doméstica (como arroz e alho), além de pontualmente importar, em função das necessidades de momento, itens como frutas, cebola, batata, tomate e uma infinidade de outros. Em um cenário de redução mundial na produção de alimentos, com priorização pelos países das necessidades das suas próprias populações, como agiria o Brasil para conseguir continuar importando?
De volta aos fertilizantes: cerca de metade do fornecimento total no país encontra-se a cargo de uma única empresa, a Mosaic, que é verticalizada (ela própria produz os fertilizantes que vende). Assim, se por um lado metade do consumo de fertilizantes no país estaria em tese resguardada (bem como de defensivos e ração animal, que a Mosaic também produz) por meio dos contratos de fornecimento existentes, por outro lado tal situação remete ao velho ditado sobre “guardar todos os ovos numa mesma cesta” – fato é que a Mosaic passará a deter um poder descomunal.
A Mosaic certamente será uma das grandes vencedoras desta crise ao fazer uso do seu poder de monopólio, mas, continuarão os governos dos países em que ela produz os seus insumos a permitir que ela os exporte para o Brasil? E ela, uma empresa monopolista e verticalizada, não aproveitará as imensas oportunidades abertas pela crise para se reposicionar no mercado global segundo a sua óptica de mercado própria, privilegiando alguns clientes (países) em detrimento de outros?
As cadeias de suprimento da agricultura precisarão ser nacionalizadas ao máximo possível, ou ainda ser objeto de substituições parciais. O governo deverá ser capaz de estabelecer algum grau de controle sobre os mercados negro e paralelo de defensivos, fertilizantes e ração animal.
Todo esse complexo panorama suscitaria aqui uma extensa série de perguntas, as quais podem contudo ser subsumidas em uma única.
Pergunta 6) Estaria o governo brasileiro disposto a transitar de uma posição promotora do livre mercado para um intervencionismo aberto na atividade econômica, incidente em especial sobre um segmento (o agropecuário e agroindustrial) historicamente hostil ao governo, e com grande penetração no Congresso Nacional?
Em um momento em que a segurança alimentar da população passará a estar sob risco, o governo precisará se dar conta que não deve nem pode se omitir de atuar.
Ao longo da história da humanidade períodos de crise impulsionaram a evolução tecnológica, e desta vez não será diferente. Tecnologias agrícolas até aqui experimentais, como mapeamento espacial por satélite ou diagnósticos de saúde do solo baseados em IA terão a sua introdução comercial fortemente antecipada. O mesmo se dá com processos de economia circular, como a reciclagem do ácido sulfúrico empregado no refino de petróleo, e a captura do dióxido de enxofre dos gases residuais da fundição metalúrgica.
Pergunta: 7) Virá o governo a atuar de forma proativa na indução dessas e outras tecnologias, buscando acelerar a sua adoção comercial?
Do desencadear da crise até o seu ponto de inflexão não haverá quase nenhum espaço para qualquer coisa que não seja remendo ou remédio. Porém, ao longo da sua “curva descendente”, ganharão impulso os questionamentos a nível macro, referentes à mudança de modelos. O atual modelo da agricultura em escala industrial para a produção de alimentos já apresenta de antemão inúmeras desvantagens e externalidades, tais como: a dependência do transporte por longas distâncias, terrestre, marítimo e aéreo (distância entre produtor e consumidor); a produção de alimentos de baixo valor nutricional, se comparados àqueles cultivados por métodos tradicionais; os riscos à saúde pública pela exposição de agricultores e consumidores a agentes químicos; o esgotamento dos solos; o esgotamento dos aquíferos e lençóis freáticos pelo uso intensivo de irrigação; a poluição química de todos estes, solos e águas; a severa emissão de gases de efeito estufa; e a dependência de financiamento e subsídios públicos – veja por exemplo esta análise sistêmica do conjunto dessas vulnerabilidades. Tem-se até aqui contemporizado com tais problemas em nome da necessidade de se produzir alimentos para toda a população do planeta (como se mesmo assim fome já não houvesse…). Mas, diante da mudança climática se tornando catástrofe (o evento do Super El Niño não permitirá mais ignorar isso), o questionamento quanto à persistência desse modelo se instalará na ordem do dia.
E ficará evidente a necessidade de adoção do modelo alternativo – a agroecologia, que não possui nem de perto a produtividade do modelo vigente, mas que até nisso é vantajosa: por ser intensiva em mão-de-obra, a agroecologia permitirá oferecer ocupação associada à subsistência a milhões de famílias em situação de insegurança alimentar crônica.
E a maior de todas as vantagens: a agroecologia se baseia na biodiversidade, em lugar das monoculturas onipresentes. Uma universalização do modelo agroecológico permitirá um reflorestamento em larga escala do planeta, possivelmente a única saída para uma atenuação da mudança climática.
Sobre as possibilidades de uma transição no Brasil do modelo atual para a agroecologia, Jean-Marc von der Weid produziu em 2023 um abrangente estudo, publicado em cinco partes: primeira, segunda, terceira, quarta e quinta. Segue a reprodução de um trecho da quarta parte:
“No futuro, muito mais próximo do que muitos (inclusive o nosso governo atual) imaginam, os preços dos transportes, dos insumos e da energia vão implodir ou explodir o SAA [sigla para ‘sistema agroalimentar’] e o conjunto das suas grandes empresas. O mundo vai ter que se reciclar de forma radical e a economia vai ter que priorizar a produção de gêneros essenciais para a sobrevivência da humanidade, onde os alimentos serão um fator chave. […] A localização desta produção vai ser um elemento central da sobrevivência da humanidade. A SAA vai ter que ser substituída por uma produção descentralizada ao máximo, para conter os custos de transporte. A produção agropecuária vai ter que cortar a mecanização em larga escala, assim como o uso de adubos químicos solúveis e agrotóxicos, pelas mesmas razões de custo. A agricultura do futuro vai ter que ser de carbono zero e até capaz de retirar carbono do ar. Vai ter que produzir de forma diversificada e intensiva, com alta produtividade do solo, mesmo sacrificando a produtividade do trabalho. Vai ter que abrir espaços para um movimento intensivo de reflorestamento, a única forma operacional em larga escala capaz de fazer recuar o processo de aquecimento global. E vai ter que enfrentar o desafio de produzir alimentos diversificados para uma dieta nutricionalmente adequada para a saúde humana. Tudo isto aponta para um fato básico: um novo SAA não pode ser regido pelas leis do capitalismo e orientar-se pela busca do lucro máximo.”
Pergunta 8) Dará conta o governo de se sintonizar com a discussão, no mundo, quanto ao esgotamento do modelo agroalimentar vigente, participando no movimento geral para definição e adoção de um novo modelo, mesmo ciente de que isso significaria uma reorientação da economia do país, hoje baseada na exportação de commodities?
Conta ainda o estado brasileiro com uma instituição de pesquisa no campo da agropecuária dentre as melhores do mundo, a EMBRAPA, historicamente orientada à agricultura em escala industrial prevalente.
Pergunta: 9) Virá a EMBRAPA a gerar alternativas e soluções inovadoras tanto para uma mitigação da crise nos parâmetros do modelo agroalimentar vigente quanto para a concepção de um novo modelo (como a agroecologia em grande escala)?
A crise em praticamente todas as cadeias globais de suprimentos (não apenas a da produção de alimentos) virá afetar também, e de forma grave, o sistema financeiro global. Tanto quanto o modelo agroalimentar pelo mundo afora, o modelo financeiro adotado desde a substituição do capitalismo industrial pelo capitalismo financeiro como principal motor da economia, em especial nos países do chamado “Ocidente coletivo”, acabará por dar sinais claros de esgotamento.
Um desses sinais já pode ser percebido na incapacidade dos governos mundo afora em enxergar o desastre que se aproxima (problema que só fará piorar, agora que as negociações de paz estão para serem retomadas). O sistema financeiro, se ainda estivesse minimamente atrelado à economia real ao invés de autorreferenciado e tornado um fim em si mesmo, deveria estar já há tempos emitindo alertas precoces quanto à enxurrada de problemas que virão desabar sobre os ombros de todos – mas, pelo contrário, vem ele operando como que para negar essa emergência (veja especialmente este vídeo de Steve Keen e também este artigo, em que é revelado que o JP Morgan modelou a tendência para os preços do petróleo com Ormuz permanecendo restrito, porém o resultado lhes foi tão inconveniente que eles decidiram não publicar o estudo).
O valor das big techs é proporcional ao valor dos bits (simbólicos) nos computadores, enquanto que o valor das empresas da economia real guarda proporcionalidade com o valor dos derivados de petróleo e gás presentes nas suas respectivas cadeias de suprimentos, ou seja, ao valor das moléculas (físicas) dos hidrocarbonetos. Não importa que o chamado “mercado” precifique um bit como valendo mil vez mais do que uma molécula com seus átomos; novos bits sempre poderão ser criados mas, diante de uma escassez de hidrocarbonetos, mil bits reunidos não adiantarão para constituir uma única molécula. O tal “mercado”, após décadas fazendo mais dinheiro a partir de dinheiro, descobrirá da pior forma possível que a única economia capaz de prover sustentação à vida das pessoas (que é, afinal, para o que uma economia deveria servir) é a economia real, física.
Nessa hora, qual será o comportamento no “piloto automático” de governos (especialmente no Ocidente)? Fazer aquilo que eles estão condicionados a fazer (e que foi o que fizeram na crise de 2008): buscar resgatar o sistema financeiro em vez da economia real.
Assim, diante da alta nos preços dos alimentos, os bancos centrais soarão o alarme: “inflação!”. E, como um cão de Pavlov, aumentarão os juros. Mas, diante da destruição da demanda decorrente do choque (de oferta e de preço) do petróleo, empresas da economia real estarão se fragilizando, começando a demitir e a fechar as portas – ou seja, prenunciando deflação ao invés de inflação. Nessa hora, qualquer aumento de juros será o medicamento que virá abreviar a vida do enfermo.
Será apenas questão de tempo que venha a estar também colocada a discussão sobre a adoção de algum outro modelo, como o da China, em que o sistema financeiro é meio (para o desenvolvimento do capitalismo industrial) e não um fim em si (existe sim sistema financeiro privado na China, porém subordinado e integrado ao sistema financeiro público).
Pergunta 10) Poderá o governo brasileiro se permitir também essa discussão? (a qual poderia vir a ressignificar e superar mazelas históricas, como a destinação da maior parte do orçamento federal para o pagamento dos juros da dívida pública).
O atual governo, desde seus primórdios em 2003, tem como marca maior a erradicação da fome no Brasil e, como característica, a conciliação com os interesses do grande capital, como os do mercado financeiro e os do agronegócio. Será uma ironia da História que, na possível transição para um quarto mandato, este governo se veja forçado a lidar com uma conjuntura em que esses dois sentidos colidam frontalmente.
Por fim, faço aqui uma aposta: a negação quanto à disfuncionalidade da economia (sistemas financeiro, agroalimentar e outros) é de tamanha monta que acabará atribuída ao El Niño a culpa pelo que tenha e que não tenha causado, afinal, ao passo que aquelas disfuncionalidades passam despercebidas às pessoas comuns, os eventos climáticos extremos estarão evidentes perante todos. Será bastante conveniente atribuir a totalidade das causas da débâcle às manifestações da natureza em vez de aos vícios das instituições vigentes.
Em prosseguimento
Este artigo tem como propósito alertar quanto à gravidade da crise vindoura e procurar mostrar os seus principais componentes. Já no intuito de oferecer uma proposta sobre como poderia vir o Brasil a lidar com essa crise foi escrito um outro artigo, ”Pensando fora da caixinha”
Ruben Bauer Naveira é concursado do poder executivo federal como Analista Técnico de Justiça e Defesa (aguardando chamamento). Autor também do estudo O Pós-Guerra Nuclear no Brasil: Ou juntos, ou nada.
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Amélia Cohn: Bolsa Família, SUS, civilidade e cidadania




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