Felipe Costa: O que o time da CBF tem a oferecer, além de muambas, cambalhotas e mi-mi-mis?
Tempo de leitura: 3 min
Por Felipe A. P. L. Costa*
1.
Nunca tive qualquer simpatia pelo time da CBF. Nem jamais concordei com a premissa de que o time da CBF é sinônimo de seleção brasileira; a rigor, sempre achei essa ideia falsa, para não dizer absurda.
2.
Joguei muito futebol na minha infância, em Brasília (1967-1973), tanto em ruas asfaltadas como em campos de terra. Quando me mudei com a minha família para Juiz de Fora, no fim de 1973, eu ainda tinha comigo o sonho de me tornar um jogador de futebol profissional – ao estilo de Dirceu Lopes, por exemplo.
Em 1975, cheguei a treinar no time juvenil do Tupi. Uma luxação no tornozelo, porém, brecou os meus planos. Em 1976, mudei de esporte e de clube: passei a treinar atletismo (corridas de longa distância) no Sport.
3.
Minha carreira de corredor foi um pouco mais duradoura. Em 1977, porém, eu ingressei na universidade. E o mundo das ideias me conquistou de vez. A universidade em si pouco contribuiu para isso: o ensino era ruim e o curso de graduação foi quase que uma sucessão de nulidades – o nível era bem baixo, pouco superior ao nível das atuais arapucas de ensino (veja o que se passa, por exemplo, nos vexatórios cursos à distância oferecidos por instituições particulares).
4.
Mas havia muita inquietação entre os estudantes, sobretudo entre os que participavam do movimento estudantil. E essa efervescência compensava o baixo nível das aulas.
No meu caso, especificamente, certas leituras paralelas foram de fundamental importância. Lembro como se fosse hoje de um episódio ocorrido no meu primeiro ano na universidade (1977).
Foi como se alguém me sacudisse pelos ombros e gritasse: “Acabamos de descobrir que tudo aquilo que aprendemos sobre física na semana passada estava errado!”. Passei a buscar minhas próprias epifanias.
Não demorei a perceber o quanto o mundo da ciência poderia ser prazeroso, ainda que as recompensas oferecidas fossem todas ou quase todas meramente simbólicas.
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5.
O futebol para mim é hoje um fenômeno quase que meramente social ou cultural, com pouco envolvimento emocional.
Mas não sou neutro: continuo a torcer contra o time da CBF (ex-CBD), uma tradição iniciada ainda em Brasília. Não comemorei 1970; não lamentei 1982; e tive vergonha de 1994 e 2002, sobretudo diante do tipo de recepção que foi dado às delegações – no primeiro caso, por exemplo, o oba-oba da mídia com a chegada do avião das muambas e, no segundo, o louvor à cambalhota embriagada na rampa do Palácio do Planalto.
6.
Eis que agora, às vésperas de mais um Mundial e em meio às habituais armações do jornalismo esportivo, espero sinceramente que o Rei do mi-mi-mi termine sendo convocado.
Sei que o técnico atual não é nenhum pateta nem um banana, mas torço para que essa aberrante convocação ocorra por um motivo bem simples: com o Rei do mi-mi-mi dando as cartas, dentro e fora de campo, crescem as chances de que venhamos a testemunhar um feito inédito – a desclassificação do time da CBF ainda na primeira fase da Copa.
Seria um feito e tanto, superior até mesmo ao feito que a CBF ofereceu aos torcedores brasileiros em 2014.
*Felipe A. P. L. Costa é biólogo e escritor; autor, entre outros, de O que é darwinismo (2019). Para conhecer outros artigos ou obter amostras de livros do autor, ver aqui). Para mais informações, faça contato pelo endereço [email protected]
Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.
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Comentários
Gaspar da Silva Alencar
Ainda não evoluímos a esse nível de revolta contra os vendilhões do tempo, da seleção e do templo. Como disse Krenak, na entrevista com Bob Fernandes! Na realidade existe uma conspiração global para a seleção brasileira ser hexa. E porque? Por causas das terras raras. Fica mais fácil, a nação na sua totalidade embriagada com o feito. Assim com temos entregado quase tudo. O espírito de subserviência é uma lastima. Que saudades do futebol arte dos Campos de várzea.