Lia Giraldo: O lado oculto da Saúde Única/Uma Só Saúde, outra ameaça ao SUS

Tempo de leitura: 4 min
À esquerda, Lia Giraldo da Silva Augusto, médica e pesquisadora titular da Fiocruz aposentada. À direita, o folder ''One World, One Health''. É a convocatória de Seminário Internacional realizado em 2007, no Brasil. O documento mostra os atores que representam os principais interesses nessa abordagem, mediante Parceria Público Privada (PPP)

“Cavalo de Troia” da Saúde Única (One Health) e o perigos para o SUS

A partir da exposição de Lia Giraldo em evento do Cesteh/Ensp/Fiocruz, o debate lança luz sobre os interesses, antagonismos e vulnerações que atravessam a institucionalização da Saúde Única no Brasil.

Por Fernanda Regina da Cunha, no site do Cebes

Saúde Única, ou One Health, no Brasil também chamada de Uma Só Saúde, foi o tema do Encontro  Integrativo do Cesteh (Centro de Estudos da Saúde do Trabalhador e Ecologia Humana –Ensp/Fiocruz), realizado em 30 de março. 

Com o título Saúde Única: desafios e contradições, o evento foi coordenado pelo pesquisador do Cesteh, Hermano Castro, e contou com exposições de:

Rodrigo Caldas, coordenador adjunto da pós-graduação stricto sensu do INI (Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas);

Lia Giraldo, pesquisadora da Fiocruz, epidemiologista e médica sanitarista e do trabalho;

Heleno Corrêa Filho, médico sanitarista e professor da Universidade de Brasília (UnB). 

Alexandre Pessoa, pesquisador e professor da EPSJV/Fiocruz, participou como debatedor.

Na apresentação de Lia Giraldo, o debate foi organizado em duas partes.

A primeira questionou o modelo conceitual que sustenta a One Health. A crítica é que esta se resume à tríade agente-hospedeiro-ambiente, ligada à tradição biomédica, do começo do século XX, que não alcança a complexidade da determinação socioambiental da saúde – modelo que foi suplantado no Brasil pela Saúde Coletiva.

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Esta foi construída como parte de uma compreensão ampla da determinação social da saúde, que relaciona adoecimento e morte às condições de vida, trabalho, ambiente, processos de produção e consumo, desigualdades sociais, de raça, de gênero entre outras iniquidades, além de agente infecciosos e outras nocividades. Processos que incidem sobre o biológico, não separando natureza e sociedade.

Como sintetizou Lia, “no contexto brasileiro, organismos internacionais articulados com organismos empresariais vêm agindo historicamente em desfavor da saúde, do ambiente e das políticas públicas de seguridade e proteção dos mais pobres e vulneráveis. Buscam sempre hegemonizar seus interesses e interferir nas políticas brasileiras. Vimos isto acontecer no desenvolvimento científico, na agricultura, e nos serviços universais, como da educação e da saúde”.

Para Lia, a Saúde Única vem sendo promovida como inovação – adjetivo que a pesquisadora desconstruiu, mostrando a verdadeira história internacional da One Health e as tentativas de sua introdução no Brasil, há pelo menos 18 anos. Esta demonstração documental está na segunda parte de sua apresentação.

Lia chama a atenção para os atores e interesses envolvidos na difusão dessa abordagem e de sua agenda.

A pesquisadora destaca os discursos totalizantes de “um só mundo, uma só saúde” e as articulações entre organismos internacionais multilaterais como o Banco Mundial e das Nações Unidas: da Saúde, Alimentação e Agricultura, Desenvolvimento e Ambiente; Organização Internacional de Sanidade Animal; instituições filantrópico-capitalistas, como a Fundação Rockfeller; agências de Estado estadunidenses, como a USAID; corporações empresariais, como a Cargill, Nestlé, Pfizer; organizações conservacionistas, com duvidosa atuação nos países pobres, entre outras, todas buscando parcerias público-privadas, especialmente no campo da vigilância da saúde e da regulação.

À esquerda, o Cavalo de Troia: representação gráfica metafórica dos interesses ocultos na abordagem da One Health, que ameaçam a soberania brasileira. À direita, carta convite (edital) para seleção, em 2008, de pesquisas a serem financiadas pela Cargill no Brasil. Muito anterior, portanto, à oficialização da One Health no Brasil, em 2024, com o nome Uma Só Saúde. Imagens: ilustração de Lia Giraldo da Silva Augusto e print da primeira página do edital da Cargill

Nessa explanação, Lia descreve os interesses embutidos na One Health com a metáfora do “cavalo de Tróia”. É uma importante chave de leitura, que faz questão de assinar.

Ou seja, uma proposta que chega revestida de novidade integradora, mas que, segundo a crítica apresentada, tenta promover um deslocamento conceitual e político no que dá sustentação à construção dos capítulos da seguridade social e do ambiente na sua Constituição Federal brasileira de 1988.

Ao desconsiderar o acúmulo histórico da Saúde Coletiva, o conceito e o modo de operar da One Health abrem atalhos de interesses que bloqueiam o enfrentamento dos processos e problemas estruturais que são as verdadeiras causas das crises sanitárias, ecológicas e climáticas.

Como pergunta Lia, “como os que são responsáveis por essas nocividades e danos, e que deveriam ser regulados, podem estar assumindo protagonismo na regulação, como fica claro na proposta de parceria público privada da One Health?” E assevera: “é o que vimos recentemente acontecer com a aprovação do PL do veneno em 2023 e do PL da devastação em 2026, aplaudida pelos apoiadores da One Health.”

Ao retomar a tradição crítica da Medicina Social e da Saúde Coletiva latino-americana, Lia também denuncia a tentativa por parte dos promotores da One Health de se apropriarem das palavras utilizadas no marco conceitual e prático da Saúde Coletiva, chamando isso de mais um “embuste”.

A pesquisadora adverte que “não adianta enfeitar uma modelagem reduzida”, que continua centrada na doença, na clínica, na causa imediata e não nos processos de sua determinação, nas desigualdades observadas na população que tem diferenças nos contextos de vida, de trabalho, de exposição e efeito. “Não há uma só saúde, se o modo de adoecer e morrer é distinto segundo as condições sociais, ambientais, econômicas, de raça, entre outras.”

Em resumo: atrás da linguagem totalizante da One Health, persiste a matriz reducionista que subordina a complexidade do processo saúde-doença a uma leitura biomédica de causa–efeito que limita a prevenção.

A exposição também questiona o modo como a Saúde Única vem sendo institucionalizada no país.

Entre os pontos levantados estão a ausência de amplo debate público, a exclusão de instâncias na tradição participativa social na construção da política nacional de saúde e pela aproximação com agentes privatizadores e negacionistas da ciência. “O modo como vem sendo introduzido Uma Só Saúde, em vez de fortalecer o conceito ampliado de saúde que sustenta o SUS, faz retornar a enfoques vencidos nas décadas de 1970 e 1980”.

Nesse sentido, o debate promovido no Cesteh reforça a necessidade de examinar criticamente não apenas os enunciados e fundamentos da Saúde Única, mas também suas alianças nefastas com efeitos negativos sobre as políticas públicas de saúde no Brasil.

O registro gravado do encontro está aqui.

O PDF com a pesquisa completa, abaixo.

Leia também

 Saúde Única em disputa: a captura por interesses contrários ao SUS, artigo do médico sanitarista e professor da Universidade de Brasília (UnB), Heleno Corrêa Filho.

Os riscos do modelo One Health à soberania do SUS

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