Lelê Teles: O papudim na Papudinha e o projeto de família

Tempo de leitura: 3 min
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Por Lelê Teles

Gustave Doré, o minotauro no inferno

Por Lelê Teles*

“se você olhar profundamente para o abismo, o abismo olha de volta pra você”, nietzsche

acabou.

finalmente, o papudim foi recolhido à papudinha.

nesse momento, encontra-se, solitário, encolhido no canto da cela, liso como uma lesma: as mãos trêmulas, as canelas finas, o olhar acabrunhado, distante, perdido, exalando o sombrio desespero daqueles que têm a má sorte de enxergar o grande olho abismal lhe encarando.

o infeliz está no fundo do poço, buraco que ele cavou com as próprias unhas.

enquanto estava vivo, foi um homem mal: zombou dos que morriam e infernizou a vida dos viventes.

caçoou das leis, ameaçou magistrados, exaltou torturadores, desprezou e empobreceu os miseráveis, amou e armou os mais ricos…

encarnou o espírito do leviatã.

malvadão, soltou brasa pelas ventas e cuspiu fogo como uma besta-fera.

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outrora, vestia uma capa de super-homem. hoje, derrotado, traja os andrajos listrados do sub-homem enterrado em pé.

despede-se dessa vida como o prefeito de serra verde, montado no lombo de um burrinho bufante: só de cuecas, vestindo uma máscara horrenda, o corpo peludo como o de um lobisomem, sendo tragado pela caatinga, a pele rasgada pelos gravetos secos e espinhudos de facheiros, favelas, xique-xiques e mandacarus.

o alto falante gritando: vatimbora, carniça, “pai da mentira, angu-de-caroço… causou muita dor e sofrimento aqui para nossa comunidade. nesse dia, a gente de bacurau dá adeus a esse demônio, que ele não retorne nunca mais para essa terra aqui.”

o trompetista toca a marcha fúnebre e o diabo entra na gruta escura, recolhendo o rabo de seta em brasas.

o mito morre aqui.

e aqui mesmo nasce o mártir.

a desmitificação do papudim é um projeto da família.

imprestável, condenado a mais de vinte e sete anos de xilindró, o sujeito vale mais morto do que vivo.

por isso, fazem dele um morto-vivo.

creem que o cheiro de enxofre do cadáver insepulto atrairá votos.

michelle, dissimulada, no papel de viúva de um homem vivo, passou a chamá-lo de meu amor.

veja você.

carluxo, o biguerréde, fala a todo tempo que o pai pode morrer a qualquer momento, disse, inclusive, que o velho está em iminente risco de morte súbita.

veja onde chegamos!

flávio, ungido antes da extrema unção do pai, se apresenta como o filho pródigo, aquele que foi escolhido pelo patriarca para levar adiante o seu legado.

eduardo, cínico e cênico, chora o exílio voluntário e alega que os netos correm o risco de não poderem ir ao enterro do avô.

percebem?

tudo isso tem um único propósito: a comoção social, o convulsivo chororô dos xororós.

o apelo rasteiro à piedade cristã.

é por essa razão que estão a montar um presépio macabro em torno do papudim.

sim, estão a armar o velório de um homem vivo e usarão carpideiras como cabos eleitorais.

ontem à noite, o papudim teve um pesadelo, sonhou com uma grande conspiração palaciana.

um corvo urubusservava, o vento farfalhava as cortinas diáfanas, uma névoa seca e insípida bailava nos aposentos que era invadido por homens vestidos em togas negras, mascarados, empunhando adagas afiadas e archotes acesos.

aproximavam-se da cama do papudim e o apunhalavam impiedosamente, uma, duas, sete vezes…

na penumbra, o moribundo, já quase sem ar, reconhece entre os mascarados os olhos macabros de um dos filhos: o cutelo erguido, em movimento descendente para o golpe final.

ao que papudim, aterrorizado, balbucia, juliocesicamente: “até tu, brutos, meu filho?”

e tudo escurece.

na manhã seguinte, manchetes manchadas de sangue, gritam em letras garrafais: “morre um homem, nasce um mártir.”

esse é o plano.

quem tem olhos pra ver que veja.

e nunca é demais lembrar, a morte de um messias pode fazer nascer uma religião.

mesmo que o morto esteja vivo!

palavra da salvação.

*Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS)

Este artigo não representa obrigatoriamente a opinião do Viomundo.

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Lelê Teles

Lelê Teles é jornalista, roteirista e mestre em Cinema e Narrativas Sociais pela Universidade Federal de Sergipe (UFS).


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