Tânia Mandarino: Viva o seo Albari, um trabalhador que sabe quem é!
Tempo de leitura: 2 minPor Tânia Mandarino
Por Tânia Mandarino*
Em férias, logo no comecinho da manhã toca o interfone antecipando a entrega de um móvel cuja previsão era somente para fevereiro.
Peço para o porteiro autorizar o entregador a subir pelo elevador social, porque a área de serviço está abarrotada, e obtenho permissão “se ele subir sem o carrinho, com o ‘pacote’ nas mãos”.
Recebo um senhor simpático de meia idade, parecido com o marinheiro Popeye, carregando nas costas, num pacote só, uma estante pesada.
Dou bom dia e não me contenho em observar — nossa, como o senhor é forte! — indicando com presteza o quarto para ele deixar o móvel o mais rápido possível e se desvencilhar do fardo.
Já em rota de saída, enquanto me dá o papel para assinar, datar e colocar o número do meu documento, ele se detém no meio da sala, circundando o olhar pela montoeira de caixas próximas à mesa de jantar (fruto de mudanças e resoluções de ano novo, rs).
Ele fixa-se na parede, logo em frente, ao lado do meu computador, onde tenho pendurados, para ter à mão, os banners mais usados nas manifestações atuais.
Ele fixa-se no que está no topo desta página.
“EU fora da Venezuela?”, pergunta o homem enquanto eu assino o documento sobre a mesa de trabalho.
Eu só lhe digo “leia bem”.
Apoie o VIOMUNDO
“Ahhh, EUA fora da Venezuela!” exclama o homem, parecendo mais satisfeito.
Enquanto preencho as coisas no papel, digo ao homem que eu já fui à Venezuela várias vezes, então “EU dentro da Venezuela” e “o que não pode acontecer é entrarem em um país e sequestrarem seu presidente, como os EUA fizeram na Venezuela”.
Ele concorda com a cabeça e, com seu olhar vivo, volta a ler o banner em voz alta, pontuando: “Democracia e soberania. Dois pontos. EUA FORA DA VENEZUELA”, com uma expressão de “aí, sim”, em seu semblante.
O homem vai se encaminhando para a porta, olhando para aquela bagunça toda enquanto diz: “Ahhh, entendi então a senhora é a tal”, num tom bastante elogioso para quem está de camisola, despenteada e com a casa parecendo que passou um redemoinho pela sala.
Sorrio e respondo que eu não, mas ele sim é o tal, lhe entregando o papel enquanto o acompanho até o elevador e pergunto seu nome.
“ALBARI”, ele me responde, já no corredor.
Imediatamente lhe digo que ele tem um nome muito bonito, pois ALBA, além de ser o início do nome de uma país da Europa que teve uma revolução incrível de trabalhadores (Albânia), também é o nome de uma entidade que luta pela soberania da América Latina: a Aliança Bolivariana para os Povos da Nossa América.
Enquanto o elevador não chegava ele me questionou, pensante, se seu nome era bonito pela sonoridade ou pelo significado, ao que eu lhe respondo que, antes de mais nada, pelo significado, sem sombra de dúvida.
E, já entrando no elevador, todo contentinho, ele me diz: “a Albânia já esteve junto com os países da União Soviética, né?”.
Sorrio e me despeço com um alegre “o senhor sabe das coisas, seo Albari!”.
Sim, as conversas triviais estão mais politizadas no Brasil. A vida presta.
Viva o seo Albari, um trabalhador que sabe quem é!
*Tânia Mandarino é advogada. Integra o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD).
Tânia Mandarino
Advogada; integra o Coletivo Advogadas e Advogados pela Democracia (CAAD).




Comentários
Nenhum comentário ainda, seja o primeiro!