Heleno Corrêa Filho: Mídia condena a “polarização”, mas defende o abuso da força

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Clara Zetkin (1857-1930), membro do Partido Comunista Alemão e militante operária das causas das trabalhadoras. Na foto, em cima de uma mesa, ela conclama mulheres de uma fábrica para mobilização. Vladmir Lênin (1870-1924), líder da Revolução de Outubro de 1917, quando os bolcheviques tomaram o poder na Rússia. Fotos: Reprodução

Saúde, política e o direito ao dissenso

Por Heleno Corrêa Filho, no site do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes) 

A mídia dominante diz que o Brasil está politicamente mal porque existe “polarização”.

Essa é uma proposta filosófica que precisa ser verificada. Todas as ideias exigem exame lógico, escrutínio moral, avaliação de compatibilidade com o que já é conhecido e verificação da realidade.

Para isso, é necessário pensar nas condições que sustentam e nas que negam as afirmativas de um pressuposto, bem como em suas consequências.

O método conhecido como perguntas sequenciais diante de possibilidades opostas (maiêutica) exige polaridades de pensamento e de atitude.

Portanto, não há como julgar ideias e assumir posições sem confrontar formações discursivas que contestam, se opõem e, por consequência, constituem polos opostos que se distanciam em perspectivas e referências. O problema é que, sem polarização — ou sem polaridades —, a vida é morta, burra, estéril.

O problema não é a polarização. O problema é o uso da força para calar o pensamento e o debate.

Uma democracia efetiva exige polarização e combate ao abuso de poder. A mídia combate a “polarização”, mas defende o abuso da força. A mensagem que fica é a de conformar-se e ficar quieto: sem pensar, sem propor, sem reclamar. E a culpa pelo mal-estar gerado por isso recai sobre os que estariam “polarizando”.

Há quem proponha reprimir manifestações polares. Geralmente, essa atitude parte de quem está no poder.

Não há crime em politizar opiniões. O crime seria esconder a política para justificar opiniões cuja posição parte da supremacia de um grupo sobre outro já dominado.

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A política é o que permite a equidade — palavra esquecida —, que move a ética de todas as profissões da saúde. No dia em que for crime trazer argumentos políticos para discutir a saúde, as profissões de saúde serão transformadas em instrumentos de dominação e controle.

O pensamento de esquerda não se cansa de apontar que não há conflito de interesse em discutir política — seja a política das pessoas, das profissões, dos países ou dos partidos.

O que se exige sempre é a honestidade dos argumentos, a clareza das fontes e, no nosso caso, na profissão médica, o respeito às fontes de informação confiáveis e científicas. Política não é crime nem desrespeito.

Os autores de crimes e de desrespeitos criminalizam, em um primeiro momento, a política.

Os fascistas se aproveitam da liberdade de palavras e de atos políticos para esmagar a democracia e a liberdade de expressão que contesta suas ações violentas, que suprimem a política plural. A esquerda não faz isso quando é legítima, democrática e conta com a confiança e a participação livre das pessoas.

A equidade é o princípio filosófico e moral que sustenta o SUS.

Encontrar um ponto de equilíbrio ou uma síntese em um sistema de saúde iníquo, baseado na exploração do trabalho — inclusive das(os) médicas(os) —, impulsiona e pode contradizer um sistema baseado no “cale-se ou será eliminado”. Por isso, um pensamento “polar” pode ser necessário.

*Heleno Corrêa Filho é médico sanitarista, membro do Conselho Consultivo do Centro Brasileiro de Estudos de Saúde (Cebes)

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