Alexandra Mello: Já percebeu que nossas vidas estão virando mercadoria no Facebook?
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Precisamos falar sobre Facebook
por Alexandra Mello, especial para o Viomundo
Que Mark Zuckerberg, um dos fundadores do Facebook é um gênio, ninguém duvida.
Com amigos da Universidade, o cara criou um universo inteiro que, rapidamente, tornaria dependentes, seus usuários. Acho até que o cigarro, que dizem ser a droga mais difícil de largar, é mais fácil do que o face. Nesse universo sem limites, a palavra amigo tornou-se uma qualquer. Não podiam ao menos ter usado “colega”?
É um mundo fascinante. Ali, a gente conhece, cutuca, pesquisa, exibe, compartilha, critica, milita, xinga, elogia, dá presentinhos, faz carinhas, vende produtos, compra, dá receitas (de comida e de como viver), vigia, controla, conversa, desabafa, desenterra, lava roupa suja, reencontra pessoas de mil novecentos e bolinha, inveja, sente ciúmes, deseja, finge, insinua, provoca, agride, “ama”…e por aí vai.
As possibilidades são infinitas. Até aí, nada diferente do que acontece nas nossas vidas reais. A diferença é que, antes, pra sabermos alguma coisa do vizinho ao lado, ele tinha que contar ou falar mais alto para escutarmos do lado de cá do muro.
Ou então, o da frente contava. E de ouvido em ouvido, a notícia corria mais lentamente. Outra diferença é que a gente se sente mais corajoso quando está por trás de uma máquina. Sem o olhar do outro.
Já desconfiei até (afinal, algumas drogas nos deixam paranoicos), que minhas conversas privadas pudessem ser usadas pelo site, que me abasteceria depois de informações a respeito dos conteúdos. Por que vejam só: conversei bastante, no privado, com uma amiga (esta, amiga real) sobre algumas questões de filhos. Não é que nos dias seguintes, curiosamente (e espero, coincidentemente), apareceram textos na minha página, alguns até bem interessantes, exatamente sobre aquelas questões?
Outro dia, escutei algo assim: que as pessoas ficam vendo as fotos e os textos e acreditam naquela empulhação. E que acabam comparando as próprias vidas com as expostas naquela vitrine.
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Resultado? Começam a achar que as suas estão sem graça, sem glamour. Esquecem que por trás do virtual existe um mundo real com todos os problemas de qualquer outro. Que por trás daquelas pessoas descoladas e cheias de frases de efeito, estão as de carne e osso, com todas as dores e delícias. Vida vira mercadoria. E mercadoria precisa de propaganda. De marketing.
Antes, a gente escrevia uma carta que levava alguns dias para chegar até ele ou ela. Hoje, a gente digita, publica e na mesma hora está lá, na frente do ser amadx. E da metade da torcida do Flamengo.
O que estamos fazendo com a nossa vida privada? Por que razão estamos maltratando tanto a nossa intimidade? Por que precisamos tanto mostrar quem somos, o que comemos, com quem andamos, pra onde vamos, o que sentimos?
Mas de tudo o que mais tem me causado espanto (pra não dizer enjoo) é ver a distância entre discursos tão bem elaborados e atitudes tão imaturas. Nunca antes, adultos estiveram mais infantis que seus filhos.
É gente gritando pela democracia e menosprezando o “amigo” que tem posição diferente. É gente delatando com um só clique coxinhas ou petralhas e mantendo apenas os iguais.
Que democracia é essa só com iguais? Tem graça uma mesa de bar sem diversidade? É gente militando contra todas as opressões, olhando só para fora e não para dentro, que é onde deveria começar uma revolução.
É pai e mãe proibindo o filho de matar em jogos de vídeo game, como se fossem eles os responsáveis pela violência e não o ódio que destilam nas redes sociais, por exemplo. É pai e mãe dizendo para o filho que precisa respeitar o amiguinho e postando no face, o que bem entendem, doa a quem doer.
É gente falando de empatia, sem ter a menor ideia do que isso quer dizer.
Estamos dependentes desta que, como todas as outras drogas, nos traz prazeres imediatos, efêmeros e deliciosos.
Mas que, aos pouquinhos, imperceptivelmente, vai nos arrancando de nós mesmos. Vai arrastando nossas vidas para um lugar público. Mas não é o face o sujeito de tudo isso não. Ele é só uma ferramenta. Que podemos usar de um ou outro jeito.
Na ânsia de mostrarmos e vendermos o nosso melhor, muitas vezes, o que estamos fazendo é justamente o contrário. Pensando bem, será mesmo que é de facebook que precisamos falar?
Alexandra Mello é psicóloga/psicopedagoga
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