Túlio Muniz: Comissão da Verdade em campo minado

publicado em 20 de outubro de 2011 às 0:25

por Túlio Muniz

Em Maio de 2010, publiquei  no Observatório da Imprensa o artigo “Os cúmplices do silêncio”, dando conta da repercussão negativa, em jornais portugueses e espanhóis, da postura do STF de não permitir revisões à Lei da Anistia.

Agora, a entrevista do Cabo Anselmo ao Roda Vida, de 17 de Outubro, dá dimensão exata ao problema histórico a ser enfrentado pela Comissão da Verdade: a naturalização da repressão da ditadura militar pelo que Saulo Leblon denomina, apropriadamente, de “espetacularização que empresta normalidade a qualquer coisa. Mesmo as mais abjetas”.

De fato, Anselmo esteve mais que a vontade durante o programa, posto que a maioria das arguições eram mais de caráter moral que político e humanitário. No campo da moral, tudo se justifica, tudo se relativiza, mesmo as injustiças. Entretanto, Anselmo, livre,  pesado e solto, personifica a conivência generalizada das instituições públicas e da mídia privada com a ditadura e com a tortura.

Não raro, permanece em todo o país homenagens aos generais ditadores, sejam em avenidas, praças, logradouros públicos, quando não em monumentos gigantescos, como é o caso do mausoléu de Castello Branco, aqui em Fortaleza.  Ainda mais grave é a omissão e inoperância de gestores públicos (políticos e acadêmicos), convivendo mansamente com a celebração daqueles que foram seus algozes ou de seus companheiros e companheiras (em Fortaleza, as homenagens ao cearense Castello Branco não se restringem ao mausoléu).

A permanência da toponímia pela negligência dos gestores é um paradoxo, posto que, quando ocorrem alterações, não há reação popular que reivindique a memória do déspota, como são os casos recentes de dois equipamentos públicos  em Fortaleza, que serão reformulados e deixarão de aludir a Médici e à data do golpe, 31 de Março.

São  bizarros os salamaleques que se rendem a governadores e interventores  biônicos que, absolvidos pela inoperância política e judiciária, não tiveram sequer a dignidade de se colocarem ao julgamento das urnas após 1985, mas permanecem na superfície do poder. Esses antigos próceres da ditadura frequentam as colunas sociais  e são hoje nababescos  empresários e banqueiros, e, como tais, anunciantes e potencial da mídia privada. Para eles, não raro, gestores públicos (alguns nascidos em berços ditatoriais) mantêm  estendidos os tapetes vermelhos dos palácios.

E há aquele tipo de gestor de esquerda resignado que, outrora perseguido, hoje branda suas penas digitais, reivindicando mais polícia contra os movimentos sindicais e sociais, não defendendo a eliminação do porrete, e sim o redimensionamento  do seu comprimento.

Portanto, não é de se estranhar  que tantos governantes se deixem seduzir pelo poder (sadomasoquista?) que têm de declarar carga policial contra as massas.

Entretanto, a mídia, seja nacional ou regional, é igualmente “cúmplice do silêncio” (título de um belo filme argentino), quando, sob pretexto de ser “democrática”, contemporiza abrindo espaço editorial para os tantos  “Anselmos” que insistem em reificar e defender os argumentos da exceção e da barbárie. Aliás, é daí que advém os eufemismos como “ditabranda”, cunhados por veículos (sem trocadilhos com “carros de reportagem”) de quem endossou o regime.

Urge uma postura crítica permanente, inclusive boicotando eventos em lugares em que predomina a memória dos opressores. Críticas como esta provocam muxoxos nos mais ressentidos direitistas, igualmente na esquerda ambidestra.

Contudo, a História demonstra que a complacência política (e acadêmica) é o que pode fazer ressurgir e sustentar o autoritarismo, no que Weimar e Vichy foram os casos mais evidentes.

É nesse território, pantanoso e putrefato, que se encontra encravada a Comissão da Verdade.

Túlio Muniz é jornalista, historiador, doutor pela Universidade de Coimbra (Portugal)e professor (temporário) da Universidade Federal do Ceará.

Leia também:

Fátima Oliveira: A lista de Lélia Abramo

Luiza Erundina: Por que é indispensável a revisão da Lei da Anistia

 

17 Comentários para “Túlio Muniz: Comissão da Verdade em campo minado”

  1. Lucas disse:

    "Contudo, a História demonstra que a complacência política (e acadêmica) é o que pode fazer ressurgir e sustentar o autoritarismo, no que Weimar e Vichy foram os casos mais evidentes."

    O problema não é a complacência, quem dera as elites econômicas e políticas da república de Weimar fossem complacentes. Quem dera que as elites políticas e econômicas brasileiras fossem complacentes em 1964. Ao contrário, agitaram pelo fascismo, financiaram o fascismo, nomearam os fascistas para cargos importantes, e quando o inevitável golpe chegou, receberam o fascismo de braços abertos.

  2. FrancoAtirador disse:

    .
    .
    Cristina Fernández faz um chamado à integração sul-americana

    “Somos orgulhosamente sul-americanos.
    Somos gente da Unasul.
    Se conseguirmos uma integração inteligente,
    podemos ser protagonistas do século XXI”,
    disse a presidenta Cristina Fernández de Kirchner
    no ato de encerramento de sua campanha,
    quarta-feira à noite, em Buenos Aires.

    Ela é favorita para vencer a eleição presidencial no próximo domingo.

    A reportagem é de Francisco Luque, correspondente da Carta Maior em Buenos Aires

    http://www.cartamaior.com.br/templates/materiaMos

    • Elza disse:

      Pra vc ver Franco, eleições dom num país do nosso continente, parceiro do Brasil e a mídia Oligárquca caladinha, se fosse nos EEUU, já estaríamos saturados com noticiário tds os dias.

      • FrancoAtirador disse:

        .
        .
        Nem precisamos ir tão longe.

        Nas eleições no Chile e na Colômbia,

        onde a direita entrou como favorita,

        e mesmo no Peru, onde ela via chance,

        a cobertura midiática foi de espetáculo.
        .
        .

    • Mário SF Alves disse:

      Protagonistas do século XXI parece-me um pouco meio demais. Bom, pelo menos nesse cenário de guerra de rapina que está cada vez mais a se impor no mundo. Mas seja como for, enquanto isso o PIG, com mestrado e doutorado em cortina de fumaça, fica estimulando o confronto: Pelé versus Messi. Legal, né? Bom pra quem?

  3. FrancoAtirador disse:

    .
    .
    Com essa mídia oligárquica famigliar,

    a Verdade, sob todos os aspectos,

    está permanentemente em campo minado.
    .
    .

  4. Maria Libia disse:

    "ODEIO AS VÍTIMAS QUE RESPEITAM SEUS OPRESSORES" JEAN PAUL SARTRE.

    MARIA LIBIA ASSINA EM BAIXO.

  5. Geysa Guimarães disse:

    O autor precisa ser avisado de que o Autoritarismo já ressurgiu, e justamente pelas mãos do relator da Comissão da Verdade.
    Ele desconhece governo Aloysio Nunes?
    Estou às ordens, venha conhecer a democradura.

  6. Julio Silveira disse:

    Não demora o Brasil entra pelos fundos nas cortes internacionais.

  7. reinaldo carletti disse:

    eu não consigo entender: essa midia idiota, querendo incendiar o pais, a nossa presidenta, mantendo nos cargos, os inuteis paulo bernardo e zé cardozo, onde ela quer que o pais chegue?
    reinaldo carletti

  8. @Gil17 disse:

    Com a aprovação pelo CCJ do Senado, prossegue o rolo compressor para aprovar o projeto da Comissão da Verdade da forma como saiu da Câmara. Consenso na mediocridade, vejamos o que a Corte Interamericana, da qual o Brasil é signatário, pensa à respeito.
    Ver notícia da aprovação em: http://www.redebrasilatual.com.br/temas/cidadania

  9. beattrice disse:

    Excelente texto.
    em tempo, da Argentina, de onde vem o exemplo preciso de como tratar a mídia golpista – LEY DE MEDIOS – e de como tratar genocidas ditadores – PROCESSO + JULGAMENTO = PRISÃO, vem também o exemplo de como tratar a questão dos logradouros públicos indevidamente nomeados pelos carrascos da democracia.

  10. eunice disse:

    O problema com esses governos é: a situação do povo é tão grave, e há tanto povo, e há apenas um equilíbrio precário conseguido pela liberação do poder a Lula pelos carrascos, que qualquer desequilíbrio –
    e sem Lula – teremos uma população enorme, raivosa e pronta pra briga. E concentrada em cidades, e tendo nada a perder. Não é por menos que o crack se alastra. Quando esse contingente se avolumar suficiente a casa cai, infelizmente em cima de todos.

  11. laurro c l oliveira disse:

    A Comissão da Verdade deve esclarecer amiude a parteipação da nossa mídia no golpe e nos malfeitos dos anos de chumbo. Sua participação no motim, no acobertamento das torturas, na obtenção das vantagens econômicas e suas práticas difamatórias, que ainda persistem e parecem clamar por outros golpes no futuro.

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