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Patrick Mariano: Sobre Lula, Elis e Cássia Eller

13 de fevereiro de 2016 às 11h24

eliscassia

Sobre Lula, Elis e Cássia Eller

por Patrick Mariano, especial para o Viomundo

Em 27 de janeiro de 1982, a revista Veja estampava na capa a morte de Elis Regina. Como título, em letras quase do mesmo tamanho da sua própria foto, o seguinte texto “A tragédia da cocaína”. E nada mais.

Vinte anos depois, a mesma revista ilustrava a morte da cantora Cássia Eller.

Da mesma forma com que tratou Elis Regina, a revista disse em letras garrafais “Drogas mais uma vítima – A polícia suspeita que um coquetel de drogas, álcool e remédio matou a cantora que havia dois anos lutava para se livrar da dependência de cocaína”

Era somente isso que a revista tinha a dizer sobre essas duas monumentais artistas? Pior, irresponsavelmente, cravava, sem qualquer amparo fático ou laudo médico, a causa da morte dias após sua ocorrência.

Ainda que fosse a causa, o que depois não se comprovou – Cássia teve um infarto do miocárdio em decorrência de estresse e sobre Elis vale ler o texto de Cynara Menezes, mencionado nas notas – a forma como a revista as tratou revela o tamanho da sua cretinice.

Revela, porém, um pouco mais. Uma tentativa clara da revista em tentar destruir ídolos nacionais, seja por atuar como abutre sobre a tragédia para vender o sórdido, seja por que ideologicamente interessa que o País não tenha ídolos ou que estes sejam aqueles mais adequados ao seu pensamento político.

É o que se passa agora com o ex-presidente Lula. Incontáveis capas da revista pedem sua prisão de forma desvelada. Inclusive se valendo de montagens com roupa de presidiário ou algemas sem o mínimo respeito à ética profissional.

Tentam destruir a imagem de uma referência nacional com ilações, conjecturas e mentiras, assim como açodadamente fizeram com Elis e Cássia.

Aliás, a mesma revista mantém “colunistas” que se esmeram em tentar destruir a obra de Chico Buarque. Há uma evidente negação ou deliberada ação de atingir símbolos da arte e da política que não guardam afinidade com o seu pensamento ideológico.

Uma revista que a única coisa que tem a dizer sobre Elis Regina no dia da sua morte é “drogas mais uma vítima”, tem a deletéria função de espalhar mentiras, viver de boatos e tentar apagar a história que não lhe interessa, como se fosse um integrante do estado islâmico dinamitando monumentos históricos.

Quanto a Lula, por óbvio, deve ter ficado claro os limites da sua política de conciliação de classes e o erro de não ter pautado o debate sobre a regulação da mídia, mas isso é outra questão.

Vivemos sob o império da mentira. Basta, portanto, que ela integre uma delação premiada. Nada é conferido, não há o benefício da dúvida, inexiste apuração jornalística minimamente séria. Basta que alguém mencione algo e isso vai para a capa.

O instituto da delação premiada se tornou para o direito processual penal, na prática, a institucionalização do jornalismo da VEJA nos autos. Esse tipo de jornalismo preguiçoso, maledicente e irresponsável agora rege os atos processuais de juízes celebridades.

E o direito constitucional à defesa e ao contraditório é relegado e sufocado com capas e mais capas de revistas que nunca tiveram, nem nunca terão, qualquer apreço pela ética profissional.

De Lula já se disse tudo. Que era comunista, tinha um aparelho de som 3 em 1 em casa, que era um bêbado e analfabeto. O filho do dono de um grande jornal chegou a lhe perguntar como queria ser presidente do Brasil se não sabia falar inglês.

São esses preconceitos e ódios que estão no cerne do ataque ao ex-presidente que agora paga um preço pela ingenuidade política de acreditar ser possível romper abissais fossos estruturais da sociedade brasileira agradando a todos. Mas, até onde se saiba, ingenuidade não é crime algum.

O que a revista Veja não consegue entender é que Lula não é um produto artificial. Foi construído sobre caminhões, comícios improvisados e caravanas pelo sertão do Brasil. Representa o que o brasileiro tem de mais autêntico. A capacidade de improvisar, a sensibilidade de chorar em público e o carisma quase messiânico de quem sabe o que é passar fome. É um ícone para muitas gerações e continuará sendo, independente de suas malfadadas capas.

Com erros e acertos, Lula foi capaz de reduzir a distância entre o brasileiro mais simples e a liturgia do poder, por isso incomoda tanto.

Destruir símbolos e monumentos da história política e cultural de um país tem um preço muito alto que é o de dinamitar referenciais e o próprio sentido de um povo. É como deixar um país sem luz ou norte, ambiente propício para o ressurgimento de fantasmas autoritários adormecidos.

Leia também:

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12 Comentários escrever comentário »

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Sérgio

15/02/2016 - 02h03

Lula não irá para a prisão. Não são tão imbecis para consolidarem um mito e criarem um mártir. Vai ser cozinhado a fogo lento.
Mas essa é uma eterna história que não se cansa de se repetir: A esquerda sempre ingênua e romântica demais. Adolescente que nunca amadurece.

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FrancoAtirador

14/02/2016 - 12h07

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Mensagem de Bilac
à Cúpula Petista:
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Penetrália
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Falei tanto de amor!… de galanteio,
Vaidade e brinco, passatempo e graça,
Ou desejo fugaz, que brilha e passa
No relâmpago breve com que veio…
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O verdadeiro amor, honra e desgraça,
Gozo ou suplício, no íntimo fechei-o:
Nunca o entreguei ao público recreio,
Nunca o expus indiscreto ao sol da praça.
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Não proclamei os nomes, que baixinho,
Rezava… E ainda hoje, tímido, mergulho
Em funda sombra o meu melhor carinho.
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Quando amo, amo e deliro sem barulho;
E quando sofro, calo-me, e definho
Na ventura infeliz do meu orgulho.
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(http://www.jornaldepoesia.jor.br/bilac2.html#pene)
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beto

14/02/2016 - 10h03

Pois é, daí vem a promoção ao estrelato de duplas sertanejas e de bandas de pagode de baixo nível cultural e musical. Muitos deles correm todo o circuito do carnaval de Salavador cantando musiquinhas com no máximo três acordes

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lulipe

14/02/2016 - 02h27

Como diria o Tim, ” eu não fumo, não bebo, nem cheiro, e minto pra car%$#¨….”

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Nelson

14/02/2016 - 00h40

“como se fosse um integrante do estado islâmico dinamitando monumentos históricos”

É preciso que lembremos, e repitamos sempre, que o EI é cria dos países, ditos, mais democráticos, mais civilizados, mais modernos e mais respeitadores dos direitos humanos, os Estados Unidos, o Reino Unido e outros da Europa, com o apoio incondicional daquela que é, possivelmente, a mais cruel ditadura da face da Terra, a Arábia Saudita.

Arábia Saudita que decapitou dezenas de pessoas em um só dia e não gerou escândalo algum nos órgãos da mídia hegemônica e em seus (de)formadores de opinião. Enquanto isso, a Venezuela de Maduro e o Iran dos aiatolás são chamados de ditaduras a todo momento por essa gente hipócrita e cínica.

Podridão moral que só faz aumentar.

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FrancoAtirador

13/02/2016 - 16h14

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O PSDB e a Mídia Jabáculê dos Mercados Financeiros
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só subsistem atualmente com o Pré-Julgamento Moral
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de Homens Públicos, Artistas e Intelectuais de Esquerda.
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Responder

    FrancoAtirador

    13/02/2016 - 17h05

    .
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    Em Nível MultiNacional, o Objetivo da Propaganda Neoliberal
    .
    é a Destruição Total do Ideal Humanista e do Estado Secular.
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Bacellar

13/02/2016 - 16h09

Agentes da aculturação global. Odeiam tudo que é genuinamente brasileiro ou latino-americano. Atualmente a Veja é mais um poster que uma revista…

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mineiro

13/02/2016 - 15h14

pois é , com tudo isso que nos estamos vendo e nao foi por falta de aviso , de que a direita nunca iria pactualizar-se com o pt bundao , o trabalhador e o povo em geral. é triste de ver uma coisa dessas, mas ,sempre tem o mas, é de que isso nao é de agora. gente , a direita , o pig e o judiciario vem promendo golpes a serviço de si propria e dos eua desde que qualquer governo trabalhista mesmo que seja no nome , entra no governo. entao , o lula ja deveria ter sabido disso desde que ele era criancianha e seu partido covarde , amordaçado e quase exterminado tambem. o lula quis pactualizar com eles , precisa de mais alguma coisa? e ele e seu partido ta recebendo o troco de tentar pactualizar-se com a direita e o pig , e abrir mao da luta de classes e tentar pelo menos diminuir o poder dessa corja asquerosa. mas nao ele nao quis a luta e o pior de tudo isso , ajudou a eleger esse poste, fantoche desgraçado de pres. que nao serve para nada a nao ser a elite. entao se nao lutar , e lutar para valer , nao vai sair dessa situaçao. e outra coisa pior ainda, essa desgraçado maldita que hoje desgoverna o brasil , ela vai ajudar a acabar com o lula e o pt , e se os movimentos sociais nao sair de cima do muro , eles vao ser o proximo. ta todo mundo achando que a coisa no brasil ta de brincadeira , ta seria mesmo.

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Zé Ruela

13/02/2016 - 14h21

“Sobre Lula, Elis e Cássia Eller”
1987 alguns colegas do trabalho se cotizaram para faz assinatura dessa revista, foi quando ouvi de um dos colegas que não lia esse lixo desde a capa e a reportagem sobre a morte de Elis Regina.

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