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31 de agosto de 2010 às 12:24

O modelo chinês: melhor que o do Ocidente?

A revista britânica Economist propôs, no início do mês, um debate que acabou repercutindo bastante, sobre o modelo econômico chinês. Foi dentro de um forum virtual. A proposta do debate tinha o título: “Modelo chinês — Esta casa acredita que a China oferece um modelo de desenvolvimento melhor que o Ocidente”. Será uma nova onda do “perigo amarelo”? Segue a tradução dos argumentos em favor da ideia (traduziremos em seguida o texto contra):
por Stefan Halper

A Economist coloca moção desafiadora, mas de forma errada: o “modelo” chinês não é melhor ou pior, é diferente. Além disso, não é um “modelo” em si. Em meu livro, “O Consenso de Beijing”, eu o descrevo como um jogo complexo de desenvolvimentos e reformas nos últimos 30 anos que devem seu sucesso às qualidades únicas da cultura, demografia, geografia e filosofia de governo da China. Neste sentido, não existe “modelo” que pode ser replicado ou exportado para lugares como a América Latina ou a África subsaariana.

Isso não significa dizer que países em desenvolvimento — e outros — em todo o mundo não acompanharam de perto o exemplo da China e não tentaram replicar programas específicos. Nações do Irã a Myanmar à Venezuela recorreram a inovações chinesas para resolver problemas; parte dos protocolos de monitoramento da internet na China são encontrados, por exemplo, no Irã.

É além dos detalhes dessa transformação colossal de 30 anos, no entanto, que encontramos o verdadeiro desafio da China. Ela exporta algo mais simples, de maior apelo para muitos e mais corrosivo para a proeminência ocidental. É a ideia básica do autoritarismo de mercado. Além de qualquer outro aspecto do exemplo chinês e mais do que qualquer outra coisa que a China venda ao mundo, o país funciona como o maior outdoor do mundo para propagar como “se tornar capitalista mas continuar autocrata”.

Seu significado tem menos a ver com “modelos de desenvolvimento” e mais a ver com ganhar a “batalha das ideias” sobre a melhor forma de relacionamento entre governantes e governados. Como detalhei em “O Consenso de Beijing”, a China promove valores e normas que desafiam as fundações da governança ocidental e que são grandes atrativos para as elites governantes no “mundo além do Ocidente”. Promete a líderes de regimes autoridade sem parlamentos agitados ou a mídia desafiadora e promete ao povo emprego, casa e um futuro melhor. Demonstra que melhorar o meio ambiente, as condições de trabalho e os serviços sociais pode ficar de lado — por um tempo — para acomodar “crescimento vertiginoso”. Crucialmente, não promete praças livres ou os direitos às liberdades de expressão, crença e associação. O público é convidado a respeitar as autoridades e ficar fora da política.

Ainda assim, as conquistas da China são significativas. É uma nação “do terceiro mundo” que ascendeu ao pináculo do poder mundial e, sem surpresa, causa inveja em outros que querem fazer o mesmo.

Um rápida olhada nos números:

A China tem crescido à média de 11% nos últimos 30 anos. Sua reservas em dinheiro são as maiores do mundo, agora de aproximadamente 2 trilhões de dólares. Enquanto o Ocidente tem lutado por crescimento durante a recessão de 2007-2009, a China cresceu mais de 8%. Desde 1980 centenas de milhões de pessoas deixaram a pobreza: de acordo com estatísticas do governo chinês, a taxa de pobreza (definida como domicílios que ganham até 7 mil dólares por ano) caiu 50.5% entre 1981 e 2005. A mortalidade infantil caiu cerca de 40% entre 1990 e 2005; acesso ao telefone no período subiu mais de 94 vezes, para 57.1%. Renda disponível e taxas de consumo cresceram cerca de 18% por ano, comparadas com apenas 2% nos Estados Unidos. Além disso, houve um grande avanço na posse de imóveis na China. Em 2007, 80% das casas urbanas na China eram de propriedade de indivíduos.

São conquistas marcantes — ainda assim governar a China não é um passeio no parque. Embora tenha havido melhorias em algumas áreas, corrupção endêmica, degradação ambiental, disputas trabalhistas, desigualdade dramática entre as províncias da costa e do interior, uma crise de identidade com o declínio do maoísmo, aumento nas diferenças de classe e nacionalismo quixotesco fazem todos parte do dia-a-dia.

O Partido Comunista continua a única fonte de poder aceitável e as noções de “equilíbrio entre poderes”, “um judiciário independente”, “oposição leal” e “transparência” são ausentes. Comércio para muitas companhias estrangeiras é um pesadelo. As práticas de negócio chinesas e ocidentais são muito diferentes, com violação da privacidade, furto de propriedade intelectual — um negócio de 200 bilhões de dólares por ano — e o furto de segredos corporativos apoiado pelo estado ainda muito comuns.

Ainda assim, se tudo isso deixa claro os problemas e dificuldades da sociedade chinesa, o sistema de autoritarismo de mercado da China é aceito pela vasta maioria dos 1,4 bilhão de chineses. Além disso, emprego, habitação, estabilidade e a sensação de uma qualidade de vida em melhoria são igualmente aceitáveis para a maioria d0s 5 bilhões de habitantes do mundo que tem muito pouco disso.

Com o governo expandindo sua relações comerciais, as relações políticas seguiram e a China é agora o maior investidor na África e em muitas partes da Ásia Central e da América Latina. Um efeito local desse abraço é que o exemplo do autoritarismo de mercado marginaliza os princípios de governança que foram a base do progresso ocidental por mais de 200 anos. Em termos de população, isso significa que aqueles governados por governos que admiram e, mesmo de maneira marginal, buscam replicar o exemplo de autoritarismo de mercado da China, a perspectiva de experimentar uma sociedade civil democrática é remota, talvez não existente.

Assim o ponto não é que “a China oferece um modelo de desenvolvimento melhor que o do Ocidente”. Conversa sobre modelos não vai ao ponto. Em vez disso, a China está remodelando o cenário do desenvolvimento internacional, da economia e das comunidades — e, por extensão, da política — de maneira a progressivamente limitar a projeção da influência e dos  valores ocidentais para além do bloco da OTAN. É, de fato,a catalisadora-em-chefe de um processo profundo e preocupante: a China está encolhendo a “ideia” do Ocidente.

 

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