Maria Inês Nassif: Serra em novo papel na campanha, a vítima | Viomundo - O que você não vê na mídia
Viomundo – O que você não vê na mídia
 
Você escreve
2 de setembro de 2010 às 9:41

Maria Inês Nassif: Serra em novo papel na campanha, a vítima

Oposição a Lula virou amizade, quase amor

Maria Inês Nassif, no Valor Econômico
02/09/2010

Sem bater em Lula, o marketing de Serra tenta transformá-lo em vítima de Dilma

Em 1989, Fernando Collor de Mello, ex-governador do Estado mais pobre da Federação, Alagoas, assumiu um discurso ofensivo – no sentido também de ofender -, selecionou uma série de desaforos destinados a abalar um governo caindo de impopularidade e partidos em crise, e definiu bordões para causar pânico em torno do candidato de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, seu principal concorrente. Collor venceu atirando para todos os lados. Levou junto um partido que inventou antes das eleições, o PRN, que morreu junto com o seu curto reinado.

A eleição de Collor foi a consagração do marketing político como arma eleitoral. Os alvos do candidato eram escolhidos em pesquisas qualitativas, que definiam os inimigos a combater para alcançar popularidade e as fragilidades do principal concorrente. Pegou um país saído do massacre ideológico do discurso anticomunista da ditadura e que vivia uma hiperinflação. Atacou o governo José Sarney pela incompetência administrativa e Lula pelo temor da classe média. Além do horário eleitoral gratuito, tinha o apoio de uma mídia que estava sem candidatos, sofria com a hiperinflação e preferia que o PT ficasse longe do poder.

Foi o início e o auge da influência do marketing político. E o marketing foi tão eficiente porque não brigou com os fatos: o governo era impopular mesmo e seu candidato não subia nas pesquisas; a classe média e as elites tinham medo real de Lula, eram maleáveis a um discurso moralista e de direita e faziam a cabeça dos de baixo. O PMDB, o grande partido do momento, vivia a crise do governo José Sarney e a compartimentação dos interesses de seus líderes regionais e abandonou aos lobos o seu candidato a presidente, Ulysses Guimarães.

Os marqueteiros de Collor trabalharam em terreno fértil – e sua agressividade foi guindada à condição de ira divina. Um impeachment e quatro eleições depois, todavia, a eficiência desse modelo é questionável. Simplesmente porque vai contra a realidade.

Em 2006, nas eleições pós-mensalão, a oposição tentou reeditar o discurso de Collor. Os alvos eram um governo que os partidos adversários consideravam acabado e um partido, o PT, que tinha por decadente. Na cabeça dos partidos oposicionistas, Lula era um Collor pré-impeachment ou um José Sarney em final de mandato: estava condenado a deixar o poder. O modelo do discurso agressivo, beirando as bravatas machistas do Collor presidente, foi o escolhido para derrubar Lula – ou pelo impeachment, em 2005, ou pelo voto, em 2006. Um senador, no plenário, chegou a ameaçar bater em Lula.

O erro de avaliação foi fatal para a oposição. A popularidade de Lula nas pesquisas subiu rapidamente após a ofensiva dos partidos oposicionistas no Congresso. Em 2006, o candidato tucano, Geraldo Alckmin, chegou a ter mais votos no primeiro do que no segundo turno. A avaliação da oposição, sobre a qual o discurso político foi construído, não levou em conta mudanças que estavam se produzindo no país. Os programas de transferência de renda, em especial o Bolsa Família, despiram as classes média e alta do papel de mediadores de voto das classes menos favorecidas. Lula tinha um patrimônio eleitoral próprio. A agressividade do discurso da oposição, em vez de desgastar o presidente que disputava a reeleição, vitimizou-o. Produziu solidariedade, em vez de provocar aversão.

Da vitória de Lula em 2006 para cá, o modelo Collor de marketing político teria que ter passado por grandes mudanças. Elas foram apenas cosméticas. O marketing de Serra, nos primeiros dias de propaganda eleitoral gratuita, optou por não comprar briga com Lula e não negar a sua popularidade. O problema é que o discurso soou falso. Desde 2005, a oposição aparece na mídia em confronto radical com o presidente que agora é tratado com condescendência, quase amor. No último round eleitoral, Serra tem se apegado às quebras de sigilo fiscal de pessoas próximas a ele. As acusações recaem sobre a candidata do PT, Dilma Rousseff, e sobre o seu partido, e não sobre o chefe de um governo cuja Receita Federal deixou vazar sigilos.

Enquanto o marketing de Dilma a une a Lula, o de Serra tenta separá-los. Os índices de pesquisa acabam mostrando que a eficiência do marketing é tão maior quanto mais próxima da realidade. As estratégias de campanha de Dilma deslizam numa realidade em que o eleitor tende à continuidade, gosta do presidente e incorporou naturalmente o trabalho de identificação feito entre a candidata e o seu padrinho. As estratégias eleitorais de Serra nadam contra a corrente de um eleitorado majoritariamente governista e da identificação da ex-ministra com o governo que é amplamente aprovado pela população.

A saída de Serra é tentar ser, ele próprio, a vítima. A algoz tem que ser Dilma, porque Lula não tem colado nesse papel. Como a prancha de Serra está contra a onda, no entanto, o marketing teria que conseguir uma sintonia muito fina. É tênue a separação entre uma acusação – a de que Dilma é a responsável pela quebra de sigilo – e a infâmia, no ouvido do eleitor. Quando a onda está contra o candidato que faz a acusação, um erro é fatal. Essa sintonia não parece que está sendo conseguida. O aumento da rejeição do candidato tucano, desde o início da propaganda eleitoral, é alarmante.

 

Gostou? Compartilhe.

 

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.



leia também

Gerson Carneiro: Bahia não é a terra da felicidade

“Até o carnaval não é mais feito para os baianos”

Telia Negrão, Carmen Hein e Beatriz Galli participarão da Cedaw, em Genebra

Cedaw é a Convenção Sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher

Marcha Contra o Racismo, a Higienização Sócio-Racial e a Criminalização da Pobreza

Dia 11, sábado, 14h, Praça do Metrô Santa Cecília

Fernanda Giannasi: “O dinheiro não falou mais alto”

Prefeitura italiana rejeita proposta de ex-donos da Eternit para se retirar do processo do século

Cremesp rechaça o voluntarismo terapêutico e higienista

Sobre a intervenção na Cracolândia

Kenarik Boujikian: Coronelismo no Judiciário

STF romperá o conservadorismo? Sobre CNJ

Souto Maior: Uma das maiores agressões aos direitos humanos da história recente do Brasil

Caso Pinheirinho

Bajonas Brito Junior: O Brasil reinventa o totalitarismo

No Congresso em Foco

Tuítaço pela qualidade da internet hoje às 16h

Iniciativa: Idec e Campanha Banda Larga é um Direito Seu. Alvo: Oi

Fernanda Giannasi: Schmidheiny, o poderoso chefão do amianto?

Justiça mesmo que tardia

Quer vender aquela sua mesa de pebolim?

Sobre o bolsa banqueiro europeu

Slavoj Zizek: A privatização do conhecimento intelectual

O fim da burguesia e do trabalhador como o conhecemos

Ato contra a violência policial no Pinheirinho

Hoje, a partir das 17h, no vão do Masp

Gerson Carneiro: O avesso do avesso do avesso do avesso

Sobre o BBB e a MP 557

Morvan Bliasby: Lula e a integração da América Latina

Construção fundamental

PM de Pernambuco reprime estudantes

Contra o aumento da tarifa de onibus

Urariano Mota: A inteligência fora das ondas

Cartas camponesas

Luis Felipe Albuquerque: Syngenta concorre ao prêmio internacional de pior empresa

Do mundo, em 2011

Protesto contra a Globo no caso BBB

Em São Paulo, nesta sexta-feira às 12h

Manifesto exige imediata responsabilização da Globo no caso BBB

As principais entidades feministas do Brasil assinam

Exames médicos “extras”: Problema de comunicação

Concurso da Secretaria de Educação do Estado de São Paulo

Avon: Não somos patrocinadores do Big Brother

Nem nós

Privataria Tucana é lançado hoje no Rio de Janeiro

Com a presença de Amaury Ribeiro Jr., Emir Sader, José de Abreu, Fernando Brito e Luiz Fernando Emediato

Ana Flávia Ramos: A mídia que estupra

Ainda o BBB

Fátima Oliveira: “Há algo misterioso e perverso na história do escritor”

Sobre alguns mistérios da vida privada de Lewis Carroll



Vi o mundo Reprodução de conteúdo autorizada com menção da fonte. As opiniões expressas no site são de responsabilidade dos autores.