Viomundo – O que você não vê na mídia
 
Você escreve
15 de janeiro de 2011 às 13:35

Boff: O preço de não escutar a natureza

por Leonardo Boff

O cataclisma ambiental, social e humano que se abateu sobre as três cidades serranas do Estado do Rio de Janeiro, Petrópolis, Teresópolis e Nova Friburgo, na segunda semana de janeiro, com centenas de mortos, destruição de regiões inteiras e um incomensurável sofrimento dos que perderam familiares, casas e todos os haveres tem como causa mais imediata as chuvas torrenciais, próprias do verão, a configuração geofísica das montanhas, com pouca capa de solo sobre o qual cresce exuberante floresta subtropical, assentada sobre  imensas rochas lisas que por causa da infiltração das águas e o peso da vegetação provocam  frequentemente deslizamentos fatais.

Culpam-se pessoas que ocuparam áreas de risco, incriminam-se políticos corruptos que destribuíram terrenos perigosos a pobres, critica-se o poder público que se mostrou leniente e não fez obras de prevenção, por não serem visíveis e não angariarem votos. Nisso tudo há muita verdade. Mas nisso não reside a causa principal desta tragédia avassaladora.

A causa principal deriva do modo como costumamos tratar  a natureza. Ela é generosa para conosco pois nos oferece tudo o que precisamos para viver. Mas nós, em contrapartida, a consideramos como um objeto qualquer, entregue ao nosso bel-prazer, sem nenhum sentido de responsabilidade pela sua preservação nem lhe damos alguma retribuição. Ao contrário, tratamo-la com violência, depredamo-la, arrancando tudo o que podemos dela para nosso benefício. E ainda a transformamos numa imensa lixeira de nossos dejetos.

Pior ainda: nós não conhecemos sua natureza e sua história. Somos analfabetos e ignorantes da história que se realizou nos nossos lugares no percurso de milhares e milhares de anos. Não nos preocupamos em conhecer a flora e a fauna, as montanhas, os rios, as paisagens, as pessoas significativas que ai viveram, artistas, poetas, governantes, sábios e construtores.

Somos, em grande parte, ainda devedores do espírito científico moderno que identifica a realidade com seus aspectos  meramente materiais e mecanicistas sem incluir nela, a vida, a consciência e a comunhão íntima com as coisas que os poetas, músicos e artistas nos evocam em suas magníficas obras. O universo e a natureza possuem história. Ela está sendo contada pelas estrelas, pela Terra, pelo afloramento e elevação das montanhas, pelos animais, pelas florestas e pelos rios. Nossa tarefa é saber escutar e interpretar as mensagens que eles nos mandam.

Os povos originários sabiam captar cada movimento das nuvens, o sentido dos ventos e sabiam quando vinham ou não trombas d’água.  Chico Mendes com quem participei de longas penetrações na floresta amazônica do Acre sabia interpretar cada ruído da selva, ler sinais da passagem de onças nas folhas do chão e, com o ouvido colado ao chão, sabia a direção em que ia a manada de perigosos porcos selvagens. Nós desaprendemos tudo isso. Com o recurso das ciências lemos a história inscrita nas camadas de cada ser. Mas esse conhecimento não entrou nos currículos escolares nem  se transformou em cultura geral. Antes, virou técnica para dominar a natureza e acumular.

No caso das cidades serranas: é natural que haja chuvas torrenciais no verão. Sempre podem ocorrer desmoronamentos de encostas.  Sabemos que já se instalou o aquecimento global que torna os eventos extremos mais freqüentes e mais densos. Conhecemos os vales profundos e os riachos que correm neles. Mas não escutamos a mensagem que eles nos enviam que é: não construir casas nas encostas; não morar perto do rio e preservar zelosamente a mata ciliar. O rio possui dois leitos: um normal, menor, pelo qual fluem as águas correntes e outro maior que dá vazão às grandes águas das chuvas torrenciais. Nesta parte não se pode construir e  morar.

Estamos pagando alto preço pelo nosso descaso e pela dizimação da mata atlântica que equilibrava o regime das chuvas. O que se impõe agora é escutar a natureza e fazer obras preventivas que respeitem o modo de ser  de cada encosta, de cada vale e de cada rio.

Só controlamos a natureza na medida em que lhe obedecemos e soubermos escutar suas mensagens e ler seus sinais. Caso contrário  teremos que contar com tragédias fatais evitáveis.

Leonardo Boff é filósofo/teólogo

 

Gostou? Compartilhe.

 

This website uses IntenseDebate comments, but they are not currently loaded because either your browser doesn't support JavaScript, or they didn't load fast enough.



leia também

Aborto: Crime ou Direito?

Painel, dia 20 de março, em Porto Alegre

Motorista repete estupidez do atropelador de ciclistas em Porto Alegre

No litoral do RS, atropelamento coletivo

Fátima Oliveira: Não há o que pague o bem que me faz o fuzuê!

Carnaval de Sabará

Paul Krugman: Dor sem ganho

Economias europeias encolhendo, apesar da austeridade econômica

Sueli Gutierrez: O alto custo de manter o automóvel

O descaso com o transporte público

Dr. Rosinha defende o banimento do amianto no Brasil

Condenação na Itália de dois ex-diretores da Eternit

Urariano Mota: O frevo novo, jovem e renovado

Raiva, alegria e libertação ao som de Vassourinhas

SBPT repudia ordem judicial contra médico que pesquisa malefícios do amianto

Indústria do amianto quer silenciar pesquisador Hermano Albuquerque de Castro, da Fiocruz

Adriano Diogo critica Folha por criminalizar PSTU e elogiar empresa

Pinheirinho

Fátima Oliveira: Para a ministra Eleonora, a luta continua!

O espaço de escuta que faltava ao feminismo

Luana Tolentino: Martinho da Vila, o PT e eu

Temendo o tsunami Kassab

Barões do amianto condenados a 16 anos de prisão na Itália

Ex-donos da Eternit terão também de indenizar a população local pela morte de 2.500 trabalhadores

Izabel Noronha: Dois mais dois é igual a cinco!

Nas contas da Secretaria da Educação de SP

Urariano Mota: Alípio Freire, um poeta da resistência

A propósito do livro “Poemas – De Ordem Política e Social”

Sindicalista compara concessão de aeroportos ao sistema elétrico: “Tá cheirando mal”

Um convite para visitar a Argentina

Articulação de Mulheres Negras Brasileiras quer Luiza Bairros à frente da SEPPIR

Carta à presidenta Dilma

Eleonora Menicucci: As relações de gênero entre mães e filhas/os na solidão

Reflexões sobre a experiência de ter sido presa pela ditadura junto com a filha de 1 ano e 10 meses

Emiliano José acusa grevistas de tocar terror nos baianos

“Isto é bandidagem”

Ana Maria Costa: “A ministra Léo é testada na luta”

Sobre Eleonora Menecucci, nova ministra das Mulheres, e Alexandre Padilha, da Saúde

Maria Izabel Noronha: A luta não terminou, secretário Herman

Aplicação do lei do piso salarial dos professores

Gerson Carneiro: Bahia não é a terra da felicidade

“Até o carnaval não é mais feito para os baianos”

Telia Negrão, Carmen Hein e Beatriz Galli participarão da Cedaw, em Genebra

Cedaw é a Convenção Sobre Eliminação de Todas as Formas de Discriminação contra a Mulher

Marcha Contra o Racismo, a Higienização Sócio-Racial e a Criminalização da Pobreza

Dia 11, sábado, 14h, Praça do Metrô Santa Cecília

Fernanda Giannasi: “O dinheiro não falou mais alto”

Prefeitura italiana rejeita proposta de ex-donos da Eternit para se retirar do processo do século

Cremesp rechaça o voluntarismo terapêutico e higienista

Sobre a intervenção na Cracolândia



Vi o mundo Reprodução de conteúdo autorizada com menção da fonte. As opiniões expressas no site são de responsabilidade dos autores.